The Shrine no Brasil: o vandalismo é uma arte

O The Shrine não é uma banda que vai mudar o rumo da humanidade. De fato, o trio de meliantes californianos não criou um som que inventou a roda, mas a fórmula dos caras é no mínimo contagiante pra caralho. 

Baixo, bateria e guitarra. Um som cru, seco, sem cuspe e sem massagem que emula a época onde as bandas do som que nos fazem chamar a policia, não eram formadas por bibelôs de cabelo espetado, tampouco alimentados à leite com pera.

Não estou dizendo que eles não são bons, muito pelo contrário. Ao vivo nota-se que além de 3 garageiros trombadinhas, os caras são belos músicos e, dentro do que a banda almeja propor, o patamar do vandalismo está muito bem estabelecido.

E durante os 2 dias em que a banda tocou em sampa, isso ficou claríssimo. É notável como o som deles desperta algo de primitivo nas pessoas. Após o primeiro riff fiquei confuso, de fato não sabia se tirava fotos ou se batia em alguém ou até mesmo se descia a Rua Augusta de peito. Durante a primeira noite do show por aqui, no carcumido Inferno Club, me senti um verdadeiro arruaceiro.


A quimica bateu muito. O emulador de Black Flag com Irish Car Bomb e Motorhead que Josh Landau, Courtland Murphy e Jeff Murray arrepiam com tanta classe, colocou a plateia num nível de euforia poucas vezes visto por minha pessoa. Uma hora deu um clarão e eu estava no palco. Foi uma brisa.

Foi tanta sequela que eu já fui falando do show deles direto, sem antes mencionar o grande ato Progressivo que o Monstro Amigo realizou. Santa mãe do Hard Prog, se existe uma banda nacional que você deveria ouvir, essa banda é o trio de psicodélicos made in São Paulo.

Hard, Jazz, passagens sinfônicas, viagens quase 100% instrumentais, insights poéticos no meio do improviso e cuecas na cabeça. Baixo, bateria e um tecladista autodidata. É realmente tão viajado quanto parece.


Com um set coeso, o primeiro trio da noite arrebentou, mostrou muita técnica, tesão por estar tocando e nos apresentou uma fórmula sonora no mínimo peculiar. Música torta, com feeling, criatividade e novas percepções, nós de fato precisamos disso e, basta olhar com atenção para a cena, que é possível descobrir que isso existe.

Foto: Fernando Yokota

Logo na sequência, o trio nem tinha demontado o equipamento direito, mas os caras da Bandanos estavam pouco se fodendo e, depois que o quarteto adentrou o recinto,  o pico de insanidade atingiu níveis no mínimo ridículos. Sim, a noite do dia 30 de julho teve até índices de criminalidade mais baixos, pois toda a nata da bandidagem estava neste rolê, muito provavelmente se batendo comigo e com você.


Bem ali, enquanto um dos atos mais cabulosos do Hard Core Underground tiravam leite de pedra e desafiavam as fronteiras do Trash. Meu ouvido ainda está zunindo. Bom, foda-se, eu achei do caralho. E olha que isso foi só a primeira noite.

No dia seguinte o cenário mudou completamente. Sou capaz de dizer que não teria como ser melhor, pois o segundo dia de festividades conseguiu reunir tudo que você precisa para sobreviver: uma pista de skate, um palco 30 centímetros depois e um bar.



Agora atualize a programação com o Hellhound Syndicate e o Lo-Fi Punkrock que você terá uma palinha do que rolou nesse escambo de riffs por flips. Primeiro a Hellhound chegou com uma cozinha completamente reformulada.

Com uma classe sulista, por vezes calcada no Blues e uma energia de show de Punk quase tão tangível quanto um soco no pé no queixo, foi massa ver o novo som que a banda tira nessa fase e constatar que, show após show, o delicado José Monaco segue no cockpit da batera, bem suave, fumando um paieiro e acompanhando a cozinha.


Foi uma cena. Mas ainda faltava alguma coisa. Colar numa pista e não ver um show de Punk Rock é a mesma coisa que roubar um carro e não ser perseguido pela polícia, Por isso que tivemos uma amostra do mais puro creme do caos quando a Lo-Fi Punkrock tocou as mais pedidas do disco ''Love Songs Vol. 2".


Sua avó iria ao delírio. A vontade que me deu foi de me jogar na pista. Pouca glicose no sangue foi bobagem e, enquanto a banda despejava sons alucinantes, eu via uma molecada tinhosa moendo a pista, ai o Shrine entrou, e tocou como se estivesse na sala da minha casa.

Aqui no Brasil nós não estamos acostumados com shows em pista de skates, mas para a banda isso se tornou rotineiro. Antes deles entrarem, o baterista (Jeff Murray) comentou justamente isso, essa cultura faz parte do som, tanto é que um pouco antes o Landau pegou um skate e deu uma volta pelo Pool.


Logo, é quase desnecessário dizer que se o show no Inferno foi etílico, o rolê da Cave Pool foi bombástico. Muito guitarrista metido a besta não faz o que o Sr. Landau faz na guitarra. A destreza no Rickenbacker do Courtland Murphy também precisa ser mecionada, além, é claro, do nome do senhor que acompanha tudo isso: o bigode Jeff Murray.

É muito bom dormir lombrado e saber que, no fim do dia, o que realmente reina no mundo da música é justamente o que eu pude presenciar durante esses 2 dias: vonta de fazer barulho, riffs, cerveja e um Beckenbauer. Dá lhe Abraxas Fest e Skate Jam.

2 comentários: