Pode acreditar: até o James Brown queria ser o Funkadelic

Nos anos 70 o James Brown ainda era o cara que mais trabalhava no show business, mas em virtude da quantidade imensa de grandes bandas no mesmo campo de atuação do Rei do Soul, alguns de seus discos mais tinhosos não venderam como no começo dos tempos.

É lógico que a maneira como o senhor Brown conduzia suas gravações as vezes não ajudava. Vale lembrar que nos anos 70 o negrão gravava até 3 discos por ano, mas como o salário da sua turma Black Power não acompanhava o groove da inflação e o Funkadelic estava esperando a autorização do porteiro pra subir, é normal ver o volume de vendas cair.


O problema é que se você é o James Brown nada na sua vida é normal, por isso que é bastante recomendado ter uma bela imersão dentro da longa carreira do mito, pois dentro de várias dezenas de registros, você sempre encontrará discos tão ultrajantes quanto o ''Sho Is Funky Down Here'', mais uma bolacha de transição (lançada em 71) que foi uma tentativa tinhosa de voltar ao topo de qualquer maneira.

Line Up:
David Matthews (compositor/arranjador/órgão/piano)
James Brow (compositor)
Michael Moore (baixo)
Kenny Poole (guitarra)
Jimmy Madison (bateria)



Track List:
''Sho Is Funky Down Here''
''Don't Mind''
 ''Bob Scoward''
''Just Enough Room For Storage''
''You Mother You''
''Can Mind''


O trigésimo disco de estúdio do James Brown é um marco em suas discografia por diversos fatores. Primeiro por que além de ser todo instrumental, esse LP explora um Funk seco e todo valvulado nos termos que o Funkadelic estabeleceu para seu Funk psicodélico.

Além disso, o que chama a atenção além de 6 temas insanos e essa roupagem completamente selvagem, é o fato de que esse disco saiu com o nome de Brown, mas é do David Matthews, o líder da banda de apoio do americano na época.


Acima repousa a capa do único disco da The Grodeck Whipperjenny, banda de Soul psicodélico que o já citado David Matthews chefiava na época. Esse LP é o único lançamento de estúdio da banda (datado de 1970) e, apesar de ser um trabalho fantástico, acabou ficando na berlinda na época.

Só que como o James não era pouco malandro e tinha David como principal arranjador, ele deve ter ouvido muito esse disco (sem falar nas toneladas de distorções que do George Clinton) pra bolar o conceito desse compilado instrumental.

O único problema nisso tudo é que pelo fato do disco só creditar o David e o Brown, uma performance realmente sem precedentes por parte da banda de apoio passa desapercebida. Em nenhum canto da internet é possível saber quem tocou o quê, mas como a banda chamada pra sessão era a mesma dessa época, presumo que os responsáveis sejam justamente o trio citado.


Acredite, depois de apertar play você entenderá o motivo pelo qual pesquisei tanto. A timbragem do baixo é pesadíssima, a guitarra parece um arame quente entrando no seu ouvido e a perícia arruaceira do próprio David nos órgãos só não sufoca a bateria por que o Jimmy Madison ralou demais!

É uma grooveria das mais irracionais. Uma pepita de ouro para se compreender o nascimento do Funk como um objeto sonoro puramente carnal, e mais um exemplo de como o James Brown, apesar de (quase sempre) brilhante, poderia ser um belíssimo filho da puta.

Quero ver você segurar o drama do timbre da guitarra do Kenny Poole. Durante os quase 30 minutos que o groove rola, o som é pura tiração. Haja Gospel pra tanta baixaria. Sinuoso, quente, ousado e maldoso, esse é o retrato que temas como ''Bob Scoward'' & ''Can Mind'' eternizarão em sua mente.  

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Esperanza Spalding: o que você fez comigo?

Antes do show da Esperanza Spalding começar o Cine Jóia estava meio tenso. A casa estava completamente apinhada, mas o som que tradicionalmente fica fazendo sala pra galera esperar o evento principal foi abafado por dezenas de pessoas que não faziam outra coisa a não ser se questionar sobre o que estavam prestes a ver ao vivo e a cores fretless.

Será que ela vem com o Matthew Stevens na guitarra e o Karriem Riggins na batera? E quanto aos belíssimos backing vocals, será que os caras vieram também? Quem vai tocar piano em ''Earth To Heaven''? 

Essas foram apenas algumas das perguntas que consegui pescar durante a espera... E Engraçado que antes de chegar no pico, ainda falei pro meu brother: Nathan, hoje nós vamos fazer história. Na moral que eu sempre falo isso antes de um show grande, mas modéstia parte, não tinha como estar mais certo, por que tenho certeza que daqui 20 anos esse show ainda estará na minha lista de melhores momentos.

Foto: Fábio Linhares

Que coisa absurda. Essa noite foi excelente pra praticar o vocábulo de sinônimos. Poucas vezes vi pessoas tão incrédulas como vi durante o showzaço que a senhorita Emily e sua banda (sim, ela veio com o time completo) fizeram.

Tocando o excelente ''Emily D+Evolution'' na íntegra, uma faixa atrás da outra, cada um dos presentes ficava cada vez mais perplexo conforme o show ia se desenrolando. E se em disco ela já cria uma atmosfera única, ao vivo então sua voz angelical e toda a malemolência de seu groove promovem um Big Bang digno de um novo sistema solar.

E digo mais, o disco é de fato brilhante, mas o show é ainda mais grandioso. E mesmo que muita gente não tenha gostado (ou entendido) essa nova faceta da cantora, é necessário pelo menos respeitar o que a norte americana criou depois de 4 anos de intervalo desde a gravação do também notável ''Radio Music Society''.

Foto: Fábio Linhares

O Jazz é um estilo meio complicado, ainda mais dentro desse segmento do chamado Jazz moderno. Pode reparar... Sempre rola uma panelinha ingrata nesse meio e dentro dos poucos caras que conseguiram se sobressair nesse cenário (que não sejam o Kenny G ou Chris Botti) todos, sem exceção, acabam virando um estereótipo.

No caso do Kenny G e do Chris Botti, bom, eles que me desculpem, mas apesar de 2 grandes instrumentistas, é bastante óbvio que esteticamente ambos são tão ousados quanto a dieta da Palmirinha. 

E a Esperanza promoveu essa ruptura no momento perfeito, por que ela também tinha se tornado a queridinha do cenário, mas de uma maneira nova até então, mostrando uma cozinha inovadora de fato, com essência e etc, mas que já estava correndo o risco de se tornar repetitiva, tanto é que ela percebeu isso e largou tudo (até a gravadora) pra entrar de cabeça num som que é brilhante justamente pela liberdade criativa que consegue expressar. 
Esse conceito não tem, ele apenas é, e acredite, isso faz toda a diferença até pra tentar entender o que ela fez ao vivo. Sem se preocupar com modelos, esse registro é pleno, tão pleno como o show. No palco Esperanza surge cheia de livros. Ela está em outro mundo e quer saber o que está acontecendo. E faixa a faixa tudo o que temos é uma obra conceitual belíssima que consegue englobar tudo que a verdadeira arte consegue fazer: explicar o abstrato.

Ao entrar no palco com dezenas de livros cantando ''Good Lava'' e ''Unconditional Love'', Emily não está tentando mostrar uma verdade absoluta, não, jamais! Durante todo o espetáculo ela nos prende a um palco com uma estante e alguns livros, mostrando, faixa a faixa, uma evolução gritante que vai além dos arranjos estonteantes que permeiam o disco, da Fender Strato rasgando os riffs ou do baixo que ela toca com uma naturalidade espantosa.

Duranta 90 minutos quem estava presente viu um show perfeito. A concentração dos músicos era admirável, a execução dos temas foi sublime, mas não tem jeito, a Esperanza (ou a Emily, você escolhe) parece um ser de outro planeta.

Foto: Fábio Linhares

A evolução é o norte desse disco e isso é lindo. Acredito que quem gosta de música vive para ver a morte e o renascimento dos grandes músicos e definitivamente são discos e shows como esse que marcam presença na história.

Música com sentimento, improvisos demenciais, novos sons e muita experimentação, essa é a síntese desse novo momento. Com essa fórmula, a P.h.D em Português para estrangeiros abriu uma caixa de Pandora cheia de possibilidades e foi bastante gratificante observar o quanto ela está feliz em poder tocar tudo isso, mesmo que não seja Jazz, Funk, Prog ou seja lá qual for o rótulo.

O jeito como ela mexe com o tempo das faixas deveria ser estudado. O resto da banda segue um script e é até engraçado ver os caras suando enquanto ela canta e toca ao mesmo tempo e ainda vai adicionando maneirismos que surgem na hora, mudando o tempo como se na verdade ele nem existisse.

Infelizmente não teve Black Gold e outros hits de outrora, mas teve ''One'', ''Funk The Fear'', ''Ebony and Ivy'' e versões estonteantes para cada um dos temas que a cidadã se prestou a tocar. Mas vou te contar um negócio, o bis que ela fez só batendo palma a capella merecia ter sido gravado.

Pelas minhas contas tem mais de 10 parágrafos aqui e eu nem sei se deixei claro o que ela fez... Acho que no fim das contas essa é a prova do quão especial foi essa noite e essa nova música que nos fez pulsar perante uma das maiores musicistas que surgiram nos últimos anos. Creio piamente que esse disco é um grito de guerra pra quem quer seguir evoluindo, um alento para quem ainda sente em tempos de cólera.

Muito obrigado Emily Spalding

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The Admiral Sir Cloudesley Shovell e o som arruaceiro de Check 'Em Before You Wreck 'Em

O Rock é sempre visto como aquela explosão de tudo que potencialmente pode ser exacerbado, mas quem tem o mínimo de noção sabe que não dá pra ser um louco desvairado 24 horas por dia. É necessário saber disfarçar, ter um pouco de auto controle, algo que é difícil pacas dependendo do que você esteja ouvindo no momento.

Uma cena que sempre imagino (e que invariavelmente me rende ótimas risadas) é achar alguém no ônibus, metrô ou até mesmo andando na rua, que esteja ouvindo música sem ''segurar a onda''. Gosto de ver aquele cara que está dando pala, que esteja fritando mesmo, curtindo o som e tratando de deixar isso bem claro para quem estiver perto. Respeito muitos os ouvintes fanáticos que estão literalmente cagando e andando para olhares estranhos de donas de casas e populares desconhecidos.


Alguns sons, quando combinados com a força de um bom par de fones podem produzir uma onda de euforia incontrolável... acredite, acontece com as melhores bandas e seus respectivos discos, aliás, andei ouvindo um petardo esse mês que muito provavelmente me fez passar papel de otário pelas ruas de São Paulo, mas no fim das contas quem é que liga? Aposto que o The Admiral Cloudesley Shovell não está nem aí, mas deveria, por que ''Check 'Em Before You Wreck 'Em'' (lançado em 2014) é um puta disco.

Line Up:
Bill Darlington (bateria)
Louis Comfort-Wiggett (baixo)
Johnny Gorilla (guitarra/vocal)



Track List:
''Do It Now''
''2 Tone Fuckboot''
''Captain Merryweather''
''Running From Home''
''Happines Begins''
''Shake Your Head''
''Don't Hear It... Fear It!''
''Bulletproof'''
''The Thicker The Better''
''Late Night Mornings''


Em comparação com o primeiro disco dos ingleses ("Don't Hear It... Fear It" lançado em 2012), ''Check 'Em Before You Wreck Em'' mostra uma cozinha mais ousada. A estética do som continua a mesma: um resumo caótico e sujo até a medula do que parece ser a narração de um porre no bar mais decadente de todos os tempos, só que tudo com uma técnica apuradíssima e grandes embates instrumentais.

Temos Hits em potencial na mesma proporção habitual, como na abertura do disco com ''Do It Now'', e na sequência com ''2 Tone Fuckboot'', mas notamos, por exemplo, um maior trato instrumental... Um lance mais meticulosamente calculado.

E s mais de 8 minutos de ''Captain Merryweather'' comprovam isso. Em certos momentos a banda chega a abdicar do peso costumeiro para temperar e levar a jam no feeling, sempre ao som de ideias frescas e de uma criatividade pulsante.

Não dá nem tempo de raciocinar, pois faixas como ''Running From Home'', ''Shake Your Head'', e ''Don't Hear It... Fear It!'' pregam um evangelho onde a insanidade é a única porta de saída. A banda consegue construit um cenário épico com aquela mesa de bar caída na fase de ouro do Garage Rock e aquele cheiro de mijo misturado com Whisky e trilhas de bituca de cigarro.


É só acender um fósforo que o lugar todo explode... Talvez essa seja a essência desse som: o momento vacilante entre uma tentativa de explosão (com ''Bulletproof''' e ''The Thicker The Better''), junto com o peso, a velocidade e toda a chapação que serve como um tênue meridiano que divide os bêbados de quem queimou a largada.

 ''Late Night Mornings'' é a faixa que resume o que a banda buscou com esse novo trabalho: manter a mesma fórmula, mas elevar o padrão e criar coisas diferentes. É possível até pra dar uma dispersada nessa viagem com clima de banho maria. Pra variar Bill Darlington, Louis Comfort-Wiggett e Johnny Gorilla cunharam mais um grande disco.

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O evangelho da Aretha Franklin mandando Spirit In The Dark

Dentro do que existe no Soul, a Aretha Franklin sempre pareceu estar um passo a frente das demais ladies que, assim como ela, guiavam essa tradição como se fosse o circuito da Tocha Olímpica. Acho que não era somente pelo climão Gospel, Aretha conquistou o mundo por que podia soar rústica e refinada como um toque de seda, tudo na mesma faixa.


São mais de 40 trabalhos de estúdio. Acredito piamente que uma discografia deste porte precisa de no mínimo meia vida para ser apreciada e realmente compreendida em toda sua magnitude, mas é claro que não precisamos de 20 anos para sacar que estamos ouvindo algo realmente único, que isso! Com 40 minutos à disposição já é possível se ligar que LP's como o ''Spirit In The Dark'' são verdadeiras dádivas da humanidade.

Line Up:
Aretha Franklin (vocal)
Eddie Hinton (guitarra)
Dave Crawford (órgão)
Howard ''Buzz'' Feiten (guitarra)
Ronald "Tubby" Ziegler (bateria)
Jimmy Johnson (guitarra)
Sammy Creason (bateria)
Jimmy O'Rourke (guitarra)
The Sweet Inspirations (vocal)
Roger Hawkins (bateria)
Wylene Ivy (vocal)
Margaret Bluch (vocal)
Tommy McClure (baixo)
Almeda Lattimore (vocal)
Harold ''Hog'' Cowart (baixo)
Pat Lewis (vocal)
Duane Allman (guitarra)
Jim Dickinson (teclados)
Cornell Dupree (guitarra)
Brenda Bryant (vocal)
Ray Lucas (bateria)
Barry Beckett (teclados)
Charlie Freeman (guitarra)
Evelyn Green (vocal)
David Hood (baixo)
Mike Utley (teclados)



Track List:
''Don't Play That Song (You Lied)'' - Ahmet Ertgun/Betty Nelson
''The Thrill Is Gone (From Yesterda's Kiss)'' - Rick Darnell/Roy Hawkins
''Pullin''' - Carolyn Franklin/Jimmy Radcliff
''You And Me''
''Honest I Do'' - Ewart Abner/Jimmy Reed
''Spirit In The Dark''
''When The Battle Is Over'' - Jessie Hill/Malcolm Rebennack
''One Way Ticket''
''Try Matty's''
''That's All I Want From You'' - Fritz Hotter
''Oh No Not My Baby'' - Gerry Goffin/Carole King
''Why I Sing The Blues'' - B.B. King/Dave Clark


A Aretha sim conhecia de música. Ouvir sua voz e seus discos é um convite irrecusável para se entender a profundidade dos Spirituals que tanta a influenciaram, do Blues e das mais primitivas gravações Jazzísticas. 

Esse disco, por exemplo, nos apresenta a 4 temas autorais da cantora, mas os outros 8 são versões de caras que variam de Carole King  à B.B. King. A riqueza instrumental e o climão de missa no Harlem se mantém durante todo o tempo que LP rodopia com órgãos uivantes ao fundo e passagens de guitarra de mestres como Duane Allman e Cornell Dupree.


É um fato, os melhores sempre tocam juntos e com um repertório desse não tinha como a Atlantic não bancar uma sessão decente. Escute a perfeição das cordas enquanto Aretha abre o disco com ''Don't Play That Song''. As vozes assoviando nos backing vocals, aquele piano que lhe joga na sarjeta com o Blues de ''The Thrill Is Gone'...

Como ela conseguia evocar as mais diversas reações nos seres humanos. Como ela ia do 8 para o 80 sem perder a passada do piano, atropelar o groove de ''Pullin''', tampouco titubear numa de suas melhores composições ("You And Me") para um dos maiores clássicos da história da música.

E tudo que ela fala entra nos ouvidos como a mais doce das verdades absolutas. Esse também é o grande lance com os melhores intérpretes, eles podiam cantar sobre qualquer coisa que é só dar play para começar a crer.


Talvez essa seja a maior lição de ''Spirit In The Dark'': crer no que você sente, mesmo que isso não seja palpável ou no fim das contas todas as 11 faixas foram uma mera desculpara para que a cantora pudesse encerrar o disco cantando Carole e B.B. King. Sei lá, vai saber, talvez ela esteja apenas nos usando, mas eu acho que vale a pena passar por esse perrengue.

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É um fato: o Snarky Puppy pode tocar qualquer coisa

Conheci o Snary Puppy quando a banda já estava ficando grande. Na época eles estavam concorrendo a um Grammy (que depois ganharam), as mídias especializadas sentiram firmeza no repertório da Big Band e começaram a dar aos caras toda a atenção que músicos deste calibre realmente merecem, mas, com tudo isso, ainda segui meio receoso quanto aos limites que eles poderiam quebrar, mas parei com essa baboseira depois que ouvi o trampo mais recente da banda.


''Culcha Vulcha'', o décimo primeiro disco dos apreciadores de Jazz Fusion (lançado no dia 29 de abril de 2016), chega com um quê instrumental único na discografia do coletivo até o momento. Antes a cozinha de Michael League & cia era calcada num som cheio de quebras abruptas, arranjos complexos e uma intensidade absurda, mas com ''Culcha Vulcha'' isso mudou bastante. 

Line Up:
Michael League (baixo/sintetizadores/teclados/viola/ukelele)
Bill Laurance (teclados)
Cory Henry (teclados)
Justin Stanton (teclados)
Bobby Sparks (teclados)
Shaun Martin (talk box/sintetizadores)
Bob Lanzetti (guitarra)
Mark Lettieri (guitarra)
Chris McQueen (guitarra)
Nate Werth (percussão)
Keita Ogawa (percussão)
Marcelo Woloski (percussão)
Robert ''Sput'' Searight (bateria)
Jay Jennings (trompete/trombone)
Mike ''Maz'' Mahler (trompete/trompa)
Chris Bullock (saxofone/flauta/clarinete/teclados)
Bob Reynolds (saxofone)
Zach Brock (violino)
Jason "J.T" Thomas (bateria)
Larnell Lewis (bateria)



Track List:
''Tarova''
''Semente''
''Gimini'' - Justin Stanton
''Grown Folks''
''Beep Box'' - Chris Bulllock
''GØ''
''The Simples Life'' - Bob Lanzetti
''Palermo'' - Marcelo Woloski
''Big Ugly''
''Jefe'' - Mark Lettieri


A complexidade ficou. O feeling que jamais deixou a banda na mão também, mas teve um convidado ilustre que chegou pra somar no groove: um Funk Chill Out que desconcerta qualquer um, até mesmo aqueles que ouviram o play umas vezes e começaram a reclamar que não era mais "o Snarky Puppy de antes''.

Balela, o som ficou finíssimo e acho que se tinha algo que eles precisavam provar, agora a banda definitivamente zerou o débito e pode solar tranquila, por que o que dava pra fazer dentro desse modelo moderno de Jazz, eles estão fazendo e muito bem.

Fora que nem assim eles perdem a naturalidade. Pra variar a música é tocada com uma aparente facilidade que chega a irritar os mais estudiosos e, pra quem gosta de swing, esse trampo é um prato cheio para evidenciar o tato Funkeado que a banda possui.


É claro que o Funk sempre esteve presente na cozinha, mas até aí, qual estilo que eles ainda não misturaram na panela de pressão? A única diferença agora é que dessa vez eles fazem a comida numa panelinha mais suave, com um groove intrincado, mas bastante volátil e tinhoso nos teclados.

O riff que abre o disco com ''Tarova'' já deixa isso claro. Daqui a pouco vai se necessário registrar firma por que na verdade o que temos aqui é um núcleo de alquimistas de todas as partes do globo que chegam com milhares de influências que sempre resultam num único DNA.

E o material genético sintetizado dessa vez é uma grooveria de lascar. Um som que começa quente já com os teclados que induzem ao riff de ''Tarova''. Aliás, se você gosta de umas teclas, esse disco vai descer redondíssimo, já que temos um time com 5 caras no front do marfim malhado.

Esqueça as gravações ao vivo da banda por um momento. Esse é de longe o disco mais produzido da história do Snarky Puppy, algo que não é ruim, muito pelo contrário. O som está bastante cristalino como sempre, mas a atmosfera do Funk, mesmo ainda que dentro de estúdio, deixa tudo bastante libertino.


Rola um insight raiz do carnaval de Olinda com ''Semente'', camadas embriagantes do mais puro creme de guitarra texturizada em ''Gemini'', e uma verdadeira baixaria com o que é possívelmente o riff de baixo mais bem grooveado que o Snarky criou este ano para o show de metais em ''Grown Folks''.

Bote fé que rola de tudo. Se você quiser um tema pra gratinar o cérebro, pode crer que tem: ''Beep Box'' chega emulando o que o Kool & The Gang fez em ''Tenor Madness''. "GØ", por sua vez, relembra os velhos tempos de caldeirão, mas com uma roupagem mais espacial bem trabalhada nas cordas e arranjos de metais. E se ''The Simples Life'' segue experimentando os timbres da modernidade, "Palermo'' mostra que o batuque da percussão não foi esquecido, além de "Big Ugly", tema que nos mostra o motivo pelo qual não podemos subestimar esses caras.

Música pra dançar, ficar de joelhos, desconcertado por tanto sentimento e até um bônus (''Jefe'') pra não falar que os caras não são gente fina. Como é bom ficar à mercê de um som instrumental tão completo, profundo e que está mudando as regras do jogo. Vida longa aos fritadores!

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Dickey Betts e suas raízes cravadas no vinil de Highway Call

Quando você é um músico diferenciado e está em uma banda com os mesmo dotes acima da média que os seus, é bem comum que depois de um disco seminal você queira colocar seu talento à prova, mas não para os outros, e sim para si mesmo. É chegado o momento de criar algo que vai além da opinião da crítica, um trabalho que se for feito, será por sua única e exclusiva vontade de fazer música.

E para isso (até para eliminar o alarde inicial) mude sua alcunha, assim a crítica não vai associar esse disco com sua pessoa de imediato, uma opção que se torna interessante até para ficar mais tranquilo e deixar seu som um pouco mais exclusivo e definitivamente zerado no quesito de ''pressão da indústria''.


Coloque os pingos do ''i'' corretamente que o senhor vai chegar em Dickey Betts, grande guitarrista americano, um dos pilares do Allman Brothers, e sua estréia solo em 1974 com ''Highway Call'', o seu ultimato pessoal. A prova cabal de toda a capacidade desse primoroso, um cara que além de ser diferenciado no ramo, tanto na parte técnica quanto criativa do instrumento, conseguiu algo que só os maiores conseguem: o respeito de uma legião de iguais, seus amigos músicos.

Um presente nada mais que justo após o seminal LP de Country-Sulista de sua banda (''Brothers And Sisters'') lançado um ano antes. Aqui temos o aperfeiçoamento pessoal de uma cozinha que já tinha dado muito certo e um disco raro de se encontrar, afinal de contas aqui Dickey vira Richard Betts.

Line Up:
Dickey Betts (dobro/guitarra/violão/vocal)
Chuck Leavell (piano)
Vassar Clements (violino)
Tommy Talton (violão)
John Hughey (guitarra)
The Rambos (vocal)
Walter Poindexter (banjo/vocal)
Leon Poindexter (violão/vocal)
Frank Poindexter (dobro/vocal)
Stray Straton (baixo/vocal)
Jeff Hanna (violão)
Reese Wynans (gaita)
Johnny Sandlin (baixo/vocal)
David Walshaw (bateria/percussão)



Track List:
''Long Time Gone''
''Rain''
''Highway Call''
''Let Nature Sing''
''Hand Picked''
''Kissimmee Kid'' - Vassar Clements


Todo fã de Allman Brothers (mas fã mesmo!) conhece a discografia solo de seus respectivos membros, logo, a de Betts não pode faltar, sendo este meu registro favorito do guitarrista, provando mais uma vez que música boa vende sim, afinal de contas se não fosse o caso, duvido que esse LP teria escalado as paradas até a décima nona posição da Billboard no ano de seu lançamento.

Musicalmente falando esse disco é fantástico, a parte instrumental é repleta de detalhes, a banda era bem numerosa e cada nome creditado faz um ótimo trabalho. O meu destaque vai para o violino de Vassar Clements, que além de dar um toque clássico no Jam, ainda assina a última composição do disco.


A cozinha é absurdamente rica e todos os instrumentos tem seu pleno lugar, explorando arestas que além de adicionar um toque ainda mais eclético no Southern, criam espaço para que a guitarra de Betts tente linhas mais ousadas de forma plenamente livre, sentindo os ventos do sul desde a primeira faixa, a ótima ''Long Time Gone'' e a guitarra de timbre característico e cristalino do mestre.

O disco passa rápido demais, são apenas 35 minutos que cumprem sua função de mostrar o quão belo um som com ênfase no Country pode ser, e em meio a ótimos vocais como em ''Rain'' e o da faixa título, por exemplo,  fazem o ouvinte se perde nessa verdadeira relíquia sonora. Um trabalho para ser tocado até o LP virar pó, som de altíssima complexidade criado e tocado da forma mais banal do mundo, fundamentada na alimentação básica de Dickey: a improvisação.


Improvisação esta que atinge seu apogeu durante a maior faixa do registro, a épica ''Hand Picked'', tema que surge sereno logo após ''Let Nature Sing''. São 15 gloriosos minutos, um daqueles momentos que nos fazem pensar duas vezes antes de pegar uma guitarra, tamanha a eloquência das linhas do guitarrista e do trato clássico que Vassar Clements adiciona com mais veemência nessa track e na última (com sua própria composição), o fretless de ''Kissimmee Kid''. Simplesmente Fabuloso.


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