Dickey Betts e suas raízes cravadas no vinil de Highway Call

Quando você é um músico diferenciado e está em uma banda com os mesmo dotes acima da média que os seus, é bem comum que depois de um disco seminal você queira colocar seu talento à prova, mas não para os outros, e sim para si mesmo. É chegado o momento de criar algo que vai além da opinião da crítica, um trabalho que se for feito, será por sua única e exclusiva vontade de fazer música.

E para isso (até para eliminar o alarde inicial) mude sua alcunha, assim a crítica não vai associar esse disco com sua pessoa de imediato, uma opção que se torna interessante até para ficar mais tranquilo e deixar seu som um pouco mais exclusivo e definitivamente zerado no quesito de ''pressão da indústria''.


Coloque os pingos do ''i'' corretamente que o senhor vai chegar em Dickey Betts, grande guitarrista americano, um dos pilares do Allman Brothers, e sua estréia solo em 1974 com ''Highway Call'', o seu ultimato pessoal. A prova cabal de toda a capacidade desse primoroso, um cara que além de ser diferenciado no ramo, tanto na parte técnica quanto criativa do instrumento, conseguiu algo que só os maiores conseguem: o respeito de uma legião de iguais, seus amigos músicos.

Um presente nada mais que justo após o seminal LP de Country-Sulista de sua banda (''Brothers And Sisters'') lançado um ano antes. Aqui temos o aperfeiçoamento pessoal de uma cozinha que já tinha dado muito certo e um disco raro de se encontrar, afinal de contas aqui Dickey vira Richard Betts.

Line Up:
Dickey Betts (dobro/guitarra/violão/vocal)
Chuck Leavell (piano)
Vassar Clements (violino)
Tommy Talton (violão)
John Hughey (guitarra)
The Rambos (vocal)
Walter Poindexter (banjo/vocal)
Leon Poindexter (violão/vocal)
Frank Poindexter (dobro/vocal)
Stray Straton (baixo/vocal)
Jeff Hanna (violão)
Reese Wynans (gaita)
Johnny Sandlin (baixo/vocal)
David Walshaw (bateria/percussão)



Track List:
''Long Time Gone''
''Rain''
''Highway Call''
''Let Nature Sing''
''Hand Picked''
''Kissimmee Kid'' - Vassar Clements


Todo fã de Allman Brothers (mas fã mesmo!) conhece a discografia solo de seus respectivos membros, logo, a de Betts não pode faltar, sendo este meu registro favorito do guitarrista, provando mais uma vez que música boa vende sim, afinal de contas se não fosse o caso, duvido que esse LP teria escalado as paradas até a décima nona posição da Billboard no ano de seu lançamento.

Musicalmente falando esse disco é fantástico, a parte instrumental é repleta de detalhes, a banda era bem numerosa e cada nome creditado faz um ótimo trabalho. O meu destaque vai para o violino de Vassar Clements, que além de dar um toque clássico no Jam, ainda assina a última composição do disco.


A cozinha é absurdamente rica e todos os instrumentos tem seu pleno lugar, explorando arestas que além de adicionar um toque ainda mais eclético no Southern, criam espaço para que a guitarra de Betts tente linhas mais ousadas de forma plenamente livre, sentindo os ventos do sul desde a primeira faixa, a ótima ''Long Time Gone'' e a guitarra de timbre característico e cristalino do mestre.

O disco passa rápido demais, são apenas 35 minutos que cumprem sua função de mostrar o quão belo um som com ênfase no Country pode ser, e em meio a ótimos vocais como em ''Rain'' e o da faixa título, por exemplo,  fazem o ouvinte se perde nessa verdadeira relíquia sonora. Um trabalho para ser tocado até o LP virar pó, som de altíssima complexidade criado e tocado da forma mais banal do mundo, fundamentada na alimentação básica de Dickey: a improvisação.


Improvisação esta que atinge seu apogeu durante a maior faixa do registro, a épica ''Hand Picked'', tema que surge sereno logo após ''Let Nature Sing''. São 15 gloriosos minutos, um daqueles momentos que nos fazem pensar duas vezes antes de pegar uma guitarra, tamanha a eloquência das linhas do guitarrista e do trato clássico que Vassar Clements adiciona com mais veemência nessa track e na última (com sua própria composição), o fretless de ''Kissimmee Kid''. Simplesmente Fabuloso.


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