Esperanza Spalding: o que você fez comigo?

Antes do show da Esperanza Spalding começar o Cine Jóia estava meio tenso. A casa estava completamente apinhada, mas o som que tradicionalmente fica fazendo sala pra galera esperar o evento principal foi abafado por dezenas de pessoas que não faziam outra coisa a não ser se questionar sobre o que estavam prestes a ver ao vivo e a cores fretless.

Será que ela vem com o Matthew Stevens na guitarra e o Karriem Riggins na batera? E quanto aos belíssimos backing vocals, será que os caras vieram também? Quem vai tocar piano em ''Earth To Heaven''? 

Essas foram apenas algumas das perguntas que consegui pescar durante a espera... E Engraçado que antes de chegar no pico, ainda falei pro meu brother: Nathan, hoje nós vamos fazer história. Na moral que eu sempre falo isso antes de um show grande, mas modéstia parte, não tinha como estar mais certo, por que tenho certeza que daqui 20 anos esse show ainda estará na minha lista de melhores momentos.

Foto: Fábio Linhares

Que coisa absurda. Essa noite foi excelente pra praticar o vocábulo de sinônimos. Poucas vezes vi pessoas tão incrédulas como vi durante o showzaço que a senhorita Emily e sua banda (sim, ela veio com o time completo) fizeram.

Tocando o excelente ''Emily D+Evolution'' na íntegra, uma faixa atrás da outra, cada um dos presentes ficava cada vez mais perplexo conforme o show ia se desenrolando. E se em disco ela já cria uma atmosfera única, ao vivo então sua voz angelical e toda a malemolência de seu groove promovem um Big Bang digno de um novo sistema solar.

E digo mais, o disco é de fato brilhante, mas o show é ainda mais grandioso. E mesmo que muita gente não tenha gostado (ou entendido) essa nova faceta da cantora, é necessário pelo menos respeitar o que a norte americana criou depois de 4 anos de intervalo desde a gravação do também notável ''Radio Music Society''.

Foto: Fábio Linhares

O Jazz é um estilo meio complicado, ainda mais dentro desse segmento do chamado Jazz moderno. Pode reparar... Sempre rola uma panelinha ingrata nesse meio e dentro dos poucos caras que conseguiram se sobressair nesse cenário (que não sejam o Kenny G ou Chris Botti) todos, sem exceção, acabam virando um estereótipo.

No caso do Kenny G e do Chris Botti, bom, eles que me desculpem, mas apesar de 2 grandes instrumentistas, é bastante óbvio que esteticamente ambos são tão ousados quanto a dieta da Palmirinha. 

E a Esperanza promoveu essa ruptura no momento perfeito, por que ela também tinha se tornado a queridinha do cenário, mas de uma maneira nova até então, mostrando uma cozinha inovadora de fato, com essência e etc, mas que já estava correndo o risco de se tornar repetitiva, tanto é que ela percebeu isso e largou tudo (até a gravadora) pra entrar de cabeça num som que é brilhante justamente pela liberdade criativa que consegue expressar. 
Esse conceito não tem, ele apenas é, e acredite, isso faz toda a diferença até pra tentar entender o que ela fez ao vivo. Sem se preocupar com modelos, esse registro é pleno, tão pleno como o show. No palco Esperanza surge cheia de livros. Ela está em outro mundo e quer saber o que está acontecendo. E faixa a faixa tudo o que temos é uma obra conceitual belíssima que consegue englobar tudo que a verdadeira arte consegue fazer: explicar o abstrato.

Ao entrar no palco com dezenas de livros cantando ''Good Lava'' e ''Unconditional Love'', Emily não está tentando mostrar uma verdade absoluta, não, jamais! Durante todo o espetáculo ela nos prende a um palco com uma estante e alguns livros, mostrando, faixa a faixa, uma evolução gritante que vai além dos arranjos estonteantes que permeiam o disco, da Fender Strato rasgando os riffs ou do baixo que ela toca com uma naturalidade espantosa.

Duranta 90 minutos quem estava presente viu um show perfeito. A concentração dos músicos era admirável, a execução dos temas foi sublime, mas não tem jeito, a Esperanza (ou a Emily, você escolhe) parece um ser de outro planeta.

Foto: Fábio Linhares

A evolução é o norte desse disco e isso é lindo. Acredito que quem gosta de música vive para ver a morte e o renascimento dos grandes músicos e definitivamente são discos e shows como esse que marcam presença na história.

Música com sentimento, improvisos demenciais, novos sons e muita experimentação, essa é a síntese desse novo momento. Com essa fórmula, a P.h.D em Português para estrangeiros abriu uma caixa de Pandora cheia de possibilidades e foi bastante gratificante observar o quanto ela está feliz em poder tocar tudo isso, mesmo que não seja Jazz, Funk, Prog ou seja lá qual for o rótulo.

O jeito como ela mexe com o tempo das faixas deveria ser estudado. O resto da banda segue um script e é até engraçado ver os caras suando enquanto ela canta e toca ao mesmo tempo e ainda vai adicionando maneirismos que surgem na hora, mudando o tempo como se na verdade ele nem existisse.

Infelizmente não teve Black Gold e outros hits de outrora, mas teve ''One'', ''Funk The Fear'', ''Ebony and Ivy'' e versões estonteantes para cada um dos temas que a cidadã se prestou a tocar. Mas vou te contar um negócio, o bis que ela fez só batendo palma a capella merecia ter sido gravado.

Pelas minhas contas tem mais de 10 parágrafos aqui e eu nem sei se deixei claro o que ela fez... Acho que no fim das contas essa é a prova do quão especial foi essa noite e essa nova música que nos fez pulsar perante uma das maiores musicistas que surgiram nos últimos anos. Creio piamente que esse disco é um grito de guerra pra quem quer seguir evoluindo, um alento para quem ainda sente em tempos de cólera.

Muito obrigado Emily Spalding

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