Pode acreditar: até o James Brown queria ser o Funkadelic

Nos anos 70 o James Brown ainda era o cara que mais trabalhava no show business, mas em virtude da quantidade imensa de grandes bandas no mesmo campo de atuação do Rei do Soul, alguns de seus discos mais tinhosos não venderam como no começo dos tempos.

É lógico que a maneira como o senhor Brown conduzia suas gravações as vezes não ajudava. Vale lembrar que nos anos 70 o negrão gravava até 3 discos por ano, mas como o salário da sua turma Black Power não acompanhava o groove da inflação e o Funkadelic estava esperando a autorização do porteiro pra subir, é normal ver o volume de vendas cair.


O problema é que se você é o James Brown nada na sua vida é normal, por isso que é bastante recomendado ter uma bela imersão dentro da longa carreira do mito, pois dentro de várias dezenas de registros, você sempre encontrará discos tão ultrajantes quanto o ''Sho Is Funky Down Here'', mais uma bolacha de transição (lançada em 71) que foi uma tentativa tinhosa de voltar ao topo de qualquer maneira.

Line Up:
David Matthews (compositor/arranjador/órgão/piano)
James Brow (compositor)
Michael Moore (baixo)
Kenny Poole (guitarra)
Jimmy Madison (bateria)



Track List:
''Sho Is Funky Down Here''
''Don't Mind''
 ''Bob Scoward''
''Just Enough Room For Storage''
''You Mother You''
''Can Mind''


O trigésimo disco de estúdio do James Brown é um marco em suas discografia por diversos fatores. Primeiro por que além de ser todo instrumental, esse LP explora um Funk seco e todo valvulado nos termos que o Funkadelic estabeleceu para seu Funk psicodélico.

Além disso, o que chama a atenção além de 6 temas insanos e essa roupagem completamente selvagem, é o fato de que esse disco saiu com o nome de Brown, mas é do David Matthews, o líder da banda de apoio do americano na época.


Acima repousa a capa do único disco da The Grodeck Whipperjenny, banda de Soul psicodélico que o já citado David Matthews chefiava na época. Esse LP é o único lançamento de estúdio da banda (datado de 1970) e, apesar de ser um trabalho fantástico, acabou ficando na berlinda na época.

Só que como o James não era pouco malandro e tinha David como principal arranjador, ele deve ter ouvido muito esse disco (sem falar nas toneladas de distorções que do George Clinton) pra bolar o conceito desse compilado instrumental.

O único problema nisso tudo é que pelo fato do disco só creditar o David e o Brown, uma performance realmente sem precedentes por parte da banda de apoio passa desapercebida. Em nenhum canto da internet é possível saber quem tocou o quê, mas como a banda chamada pra sessão era a mesma dessa época, presumo que os responsáveis sejam justamente o trio citado.


Acredite, depois de apertar play você entenderá o motivo pelo qual pesquisei tanto. A timbragem do baixo é pesadíssima, a guitarra parece um arame quente entrando no seu ouvido e a perícia arruaceira do próprio David nos órgãos só não sufoca a bateria por que o Jimmy Madison ralou demais!

É uma grooveria das mais irracionais. Uma pepita de ouro para se compreender o nascimento do Funk como um objeto sonoro puramente carnal, e mais um exemplo de como o James Brown, apesar de (quase sempre) brilhante, poderia ser um belíssimo filho da puta.

Quero ver você segurar o drama do timbre da guitarra do Kenny Poole. Durante os quase 30 minutos que o groove rola, o som é pura tiração. Haja Gospel pra tanta baixaria. Sinuoso, quente, ousado e maldoso, esse é o retrato que temas como ''Bob Scoward'' & ''Can Mind'' eternizarão em sua mente.  

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