O ácido Tommy Bolin e a Strato funkeada de Teaser

No mundo da música existe uma seleta categoria de músicos que faz com que uma grande parte dos entusiastas do Groove fiquem malucos imaginando como seria seu possível futuro se os mesmos ainda estivessem entre nós. 

Algo diferente e vibrante se comparado à verdade das mortes repentinas e prematuras que envolveram a vida de grandes músicos, caso estes não tivessem morrido cedo pelo uso abusivo de drogas e consequentemente desperdiçado todo o talento e potencial que tinham. E se tem um cara que entraria fácil numa lista dessa é o guitarrista Tommy Bolin, músico de raro talento vocal, repertório guitarrístico e feeling Funkeado, Jazzístico, Hardeiro, Blueseiro e o que mais você quiser.


Tommy foi um guitarrista americano nascido em Sioux City, Iowa. E apesar de ter fraseado uma carreira curta e ter deixado este plano cedo demais (com apenas 26 anos) devido a uma overdose de heroína, o dono de um sinuoso timbre Stratocasteriano deixou bastante coisa registrada.

Foram 2 discos solos (fora os póstumos descartáveis), uma bela trinca com sua banda de Hard Rock o Zephyr, um trampo primoroso ao lado de nada mais nada menos que Alphonse Mouzon, mais 2 excelentes bolachudos com os motoqueiros fantasmas do James Gang, uma coleção de inéditas com o Moxy (antes de vazar para o Purple), uma colaboração mítica em  ''Spectrum'', clássico do grande Billy Cobham e uma session funkeadíssima com o Deep Purple no injustiçado (mas hoje em dia bastante exaltado), ''Come And Tasta The Band'', é mole? Isso que ainda teve mais, esse foi só o pente fino!


Bolin tinha aquele som malandro, de levada aparentemente simples, fácil. Sua lírica tinha um quê irresistível e suas notas eram emolduradas com uma sagaz versatilidade. Tecnicamente falando sua expertise num exemplar de Fender aglutinava um vasto arsenal de estilos que fluía maravilhosamente bem, as vezes podendo ser mais visceral, alimentando belos solos e grandes passagens vocais.

Mas mesmo deixando tantos discos bons, é bem verdade que dentro de suas capacidades, essa curta narrativa de destaques discográficos mostra como seu som foi eternizado em discos que hoje são grandes teoremas glorificados de nosso tempo. Só que estas fabulosas gravações também comprovam como ele bem que poderia ter esticado sua estadia no plano dos vivos, por que seu talento vazava pelo ladrão.

Fora que seu som é bom demais para ser esquecido hoje em dia. Seu vocabulário musical era estupendo e continua sendo uma grande meca para músicos que buscam horizontes diferentes. Sua cozinha mostra como uma música sem amarras estéticas atinge um patamar fora da curva após experimentações que buscam apenas localizar um som genuíno, algo que o menino já fazia em 1975 com ''Teaser'', um excelente e clássico quarentão vinílico.

Line Up:
Tommy Bolin (guitarra/vocal)
Stanley Sheldon (baixo)
Paul Stallworth (baixo)
Dave Foster (piano/sintetizadores)
Jan Hammer (sintetizadores/bateria)
Ron Fransen (piano)
David Sanborn (saxofone)
Jeff Porcaro (bateria)
Prairie Prince (bateria)
Michael Walden (bateria)
Bobbie Berge (percussão)
Phil Collins (percussão)
Sammy Figueroa (percussão)
Rafael Cruz (percussão)
Dave Brown (vocal)
Lee Kiefer (vocal)



Track List:
''The Grind''
''Homeward Strut''
''Dreamer''
''Savannah Woman''
''Teaser''
''People, People''
''Marching Powder''
''Wild Dogs''
''Lotus''


Depois que o senhor apertar o play surge ''The Grind'' e aí a brincadeira começa, Tommy solto como sempre, já chega junto com os riffs enquanto administra a Jam com sua bela voz e o piano de Dave Foster para efeitos de sua cozinha funkeada.

Depois de um solo arrebatador surge a instrumental ''Homeward Strut'', uma faixa bem parecida com a sonoridade que Tommy desenvolveu com Billy Cobham quando juntos, gravaram ''Spectrum'', mas o mais bacana é que a faixa começa com essa pinta meio Jazz e do nada vira um Funk irresistível.

Mas o que nos mostra como o mundo perdeu quando seu corpo parou de pulsar neste plano é um dos pontos altos do disco, a maravilhosa brisa pianística de ''Dreamer''. A voz de Tommy é maravilhosa e o piano é mais uma vez digno de nota, mas o solo mostra que o americano sentia a música como poucos!


Depois de emocionar o ouvinte, Bolin decide surpreender e para tal aparece com a malandragem latina de ''Savannah Woman'', mergulhando no Groove e solando em rios de criatividade, seja no Jazz no Hard, Blues o que vier ele traça e a faixa título prova isso. Eis aqui um belo exemplo de algo mais mais seco, puro e com um baixo encorpado no slap, cortesia de Stanley Sheldon.

Continuando nossa viagem pelas várias facetas do americano, surge ''People, People'', faixa que exemplifica o estágio frágil do compositor em virtude do conteúdo da letra e mostra uma levada que beira o Reggae que um dia foi dominado pelo mestre Tosh.

''Brother, brother, hear me please
I'm as lonely as i can be''.

Tommy Bolin


Prestem atenção no sax... A voz é o termômetro e o cara não perde a pegada. A percussão de Sammy Figueroa mostra seu lugar ao sol etc e tal, mas Tommy já chega com a instrumental ''Marching Powder'' para mostrar quem chefia os caminhos do ritmo de uma das guitarras mais sexy's que já passaram por aqui. é possível cortar a energia deste som com uma faca!


Só que não levante para pegar a faquinha agora, antes, escute ''Wild Dogs''. Eis aqui um som que cumpre com a difícil tarefa de condensar tudo que o senhor já passou para chegar até aqui, enquanto a guitarra segue judiando de seus ouvidos.

Esse cara definitivamente merecia mais... Suas letras eram sinceras (talvez pelos vícios da época), só que mais do que isso, sua música mostrava um talento na guitarra que não era especifico em nada, por isso sua obra é tão importante, por que ele não gostava de Hard, Blues ou Jazz, o menino fazia música e sua vida foi desbravar os vários estilos para no fim criar algo que poucos tiveram: originalidade.

Enquanto você procura o tom de alguém, inspire-se nesse cara e procure o nada, busque o novo e crie uma base, para apenas encontrar sua própria temperatura no termostato da jam. Pode não ser tão quente como esse som no início, mas siga tocando, tocando não, sentindo, assim como Tommy fazia.

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Childish Gambino: Sexta-fera no Globo Repórter

Infelizmente o Childish Gambino não vai passar no Globo Repórter na sexta-feira, mas ele realmente merecia um espacinho no fim do programa do Sérgio Chapelin só pra finalizar mais um dia de maldade bem valvulado no balanço do Funk.

Childish Gambino é o nome artístico de Donald Glover. Pra ser bem sincero nunca tinha ouvido falar desse cara até meados de dezembro do ano passado. Coincidência ou não, o quarto disco de estúdio do americano, ''Awaken, My Love'' (se você contar a Mixtape ''Kauai" de 2014 como um disco) saiu bem no começo de dezembro, e caiu como uma bomba no cenário Pop mundial.


Tenho que agradecer ao todo poderoso George Clinton pela descoberta, pois sem sua menção ao talentoso músico durante uma entrevista que nem sei mais onde vi ou do que se tratava, nunca teria ouvido esse trampo. Se bem que do jeito que o cidadão anda inspirado, tenho certeza de que não seria possível passar do mês de janeiro sem ouvir falar deste que é o seu melhor e mais audacioso trabalho até o momento. 

Diretor, produtor, comediante, ator, roteirista, lavador de louça e engenheiro mecânico (essas duas últimas são mentira) o rapaz está com tudo. Vale lembrar que a sua série, "Atlanta", abocanhou 2 Globos de Ouro (melhor ator/melhor série) ou seja, o efeito Midas ainda está longe de chegar ao fim.


A única coisa que é bom ressaltar é que, caso você não goste de Rap, finja que os outros 3 discos desse senhor nem existem, pois se você espera a mesma classe desse registro quando for ouvir seu primeiro disco, ''Camp'' ou ''Because The Internet'', lançados em 2011 e 2013 respectivamente, o grave de seus beats com um quê gangster assustarão seus ouvidos.

Achei bastante interessante ouvir todos os seus trabalhos por que é de fato um choque ouvir seu trampo mais recente e depois sacar o que era feito antes. Confesso que apesar de não ser a minha praia, gostei de algumas coisas que ouvi em sua lírica Hip-Hop, algo que serviu apenas para impressionar meus ouvidos ainda mais... Acreditem, ''Awaken My Love'', produzido junto do sueco e seu principal comparsa, Ludwig Göransson, é uma imensa ruptura em sua discografia.

Line Up:
Donald Glover (vocal/bateria/percussão)
Ludwig Göransson (baixo/guitarra/vocal/sintetizadores/órgão/percussão/bateria)
Ray Suen (guitarra/piano/sintetizadores)
Lynette Williams (órgão/clavinet)
Zac Rae (sintetizadores/órgão)
Per Gunnar Juliusson (piano/rhodes)
Chris Hartz (bateria/baixo/percussão/rhodes)
Sam Sugarman (guitarra)
Gary Clark Jr. (guitarra)
Thomas Drayton (baixo)
Brent Jones And The Best Life Singers (vocal/coral)



Track List:
''Me And Your Mama''
''Have Some Love''
''Boogieman''
''Zombies''
''Riot''
''Redbone''
''California''
''Terrified''
''Baby Boys''
''The Night Me And Your Mama Met''
''Stand Tall''


O que mais me deixou encucado ao ouvir esse disco foi a estranha sensação de já ter ouvido algumas faixas dele, junto com o paradoxo de notar como essa cozinha é moderna, inédita mesmo. Pode parecer coisa de quem não tomou seus remédios, mas esse disco é um grande exemplo de como é possível criar novos sons com base em grandes referências.

Seria bom que você conhecesse bem a discografia do Prince, Funkadelic e da Erykah Badu antes de ouvir esse registro. É bom conhecer por que além de serem 3 grandes cantores/músicos/grupos, esses nomes ajudam a entender de onde certos elementos desse disco saíram.


Um dos meus maiores bloqueios com o Rap é o sample. Tem um cara que trabalha comigo que acha o Dr. Dre um gênio, enquanto eu apenas acho o criador dos fones Beats um cara normal. Foda mesmo é o George Clinton, o mestre que criou tudo que ele tem como referência na hora de fazer um beat.

Pra este que vos escreve, fazer um beat é algo bastante vazio se o criador do negócio todo chegar com um sample. Nesse disco mesmo tem um sample, o riff de ''Can You Get To That'' (do fantástico ''Maggot Brain'' - 1971) e o restante das faixas, apesar de não ter samples creditados é bastante fácil de saber de onde saiu se você manjar as fontes citadas acima.


É claro que o Donald tem (muitos) créditos por esse disco, e eu espero que ele fato siga por esse caminho para criar algo dele e que todos nós, após o play, fiquemos estupefatos por não saber de onde ele tirou essa ideia. Espero falar de um disco dele com a mesma profundidade que falei do último registro da Esperanza Spalding, por exemplo.

Pode parecer que estou falando mal do disco, mas é impressionante como boas gravações como essa ganham status de obra prima hoje em dia, tamanho o nível de falta de criatividade no cenário Pop. Esse trabalho é um respiro de novidade 65% autoral e, mesmo assim, já é um grande avanço hoje em dia, algo que mostra o nível da grande massa de músicos que gravam mundo afora.

Quando digo 65% não estou dizendo que o resto é plágio, mas apesar de belíssima, a abertura e um dos singles desse lançamento (''Me And Your Mama'') é inspiradora, mas a sua parede de sintetizadores já foi criada por Bernie Worrell nos anos 70.


''Boogieman'' é um clone do DNA da fase mais ácida do Parliament, enquanto ''Zombies'', um dos momentos mais originais do disco, vacila ao dar uma boa chupinhada nos intervalos lisérgicos de baixo do Bootsy Collins. A assinatura do criador está em ''Riot'' e em temas como ''California'', onde ele consegue achar um interessante equilíbrio entre essa nova faceta e sua antiga psique Rapper nos beats.

No fim das contas o que estou querendo dizer é que queremos mais faixas como ''Terrified'' ou ''Stand Tall'' e menos momentos onde o resenhista consiga achar um link com qualquer tipo de coisa que já foi feita, afinal de contas quem grava um disco desse nível com certeza pode ajudar a levar a música moderna, que nos é contemporânea, para um novo patamar. Bom compilado de slaps.

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Faça igual o Pat Metheny: seja uma banda de um homem só

Imagine se você soubesse tocar um instrumento e decidisse montar uma banda. Só de falar isso já me bate até uma preguiça! E quem teve (ou tem uma banda) concorda comigo, é bem complicado achar pessoas de fato comprometidas a tirar um som, o jeito é sempre tocar sozinho, mas sozinho não tem graça, não tem banda de apoio, certo?


Não. E se você duvida, hoje venho com um dos projetos mais sensacionais e trabalhosos que escutei nos último anos, trata-se do belíssimo ''Orchestrion'', lançado em 2012, a maneira que o brilhante Pat Metheny elaborou para tocar conseguir uma banda e ao mesmo tempo não depender de ninguém que não fosse ele mesmo.

Além de um projeto bastante elaborado, "Orchestrion" nos brinda com uma visão musical de um cara que, ao controlar todos os instrumentos envolvidos em cada uma das composições que foram para o disco, conhece e domina cada passagem das notas, mostrando um domínio de repertório inspirador sem precisar discutir com seu baixista para conseguir concordar com cada slap. Nesse caso bastou programar os instrumentos e seguir o ritmo, algo não tão simples quanto parece.


Track List:
''Orchestrion''
''Entry Point''
''Expansion''
''Soul Search''
''Spirit Of The Air''


A costumeira Line Up não apareceu aqui por que Pat fez tudo neste disco. O cidadão tocou guitarra e programou todos os instrumentos que aparecem na capa, algo que demorou muito tempo para ser arquitetado e plenamente registrado. Mas o resultado foi tão bom que além do disco ter vendido muito bem, ainda rendeu um registro em DVD sensacional, com o cabeludo arrebentando em sua Ibanez semi acústica, sem usar efeito algum, algo que ainda foi sincronizado com cada linha de seu complexo instrumental, que em pura sinergia, foi sincronizado com cada acorde que o mestre profetizava.

 

O conteúdo do disco é belíssimo, mas no DVD temos três horas de música e um documentário retratando todo o processo de criação que permeou este trabalho, além de um set mais longo. É bem bacana observar a produção que organizou os instrumentos para "adestrá-los" a funcionarem sozinhos e de maneira sincronizada, bem como ver tudo isso enquanto Pat ainda nos brinda com uma apresentação maravilhosa.

Trata-se de um daqueles trabalhos que faz qualquer aspirante a guitarrista encostar o instrumento e não tocá-lo nunca mais. Um disco ótimo para viajar com qualidade e que em DVD é ainda melhor. Inclusive é (praticamente necessário) ver o projeto com os seus próprios para se ter a real dimensão da grandeza e da complexidade do tear sonoro que esse cara teceu aqui.

A seleção de temas foi perfeita dentro do conceito que foi escolhido. São quatro temas bastante longos, todos sempre tocadas da forma mais líquida e pura possível, sempre levando tudo na mão e no feeling, duas das características mais marcantes deste gênio.


''Spirit Of The Air'' é o tema mais curto do disco, com quase oito minutos, já a faixa título (''Orchestrion'') passa dos quinze... Jazz em puro e em sua forma mais livre. Quem diria que aos 56 anos (hoje o guitarrista está com 62 verões na conta) um cara tão cultuado se reinventaria de tal forma?!

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O Jards Macalé é mais descolado que você

Mais do que um cosmos de hits, galáxias de notas e teoremas de composição, a música é a representação de artistas que de fato existem como mentes criativas. Seres que mais do que vertentes e improvisos criam para provar que a música não tem estado físico, métrica ou tempo.

A música é um corpo que estica, vira as melodias do avesso e resulta na essência de seu respectivo criador como num reflexo infinito de um espelho. Mas algumas vezes você precisa ver para crer, e olha que nem mesmo depois de seguir os passos da arisca viola de Jards Macalé, por duas noites, confesso que ainda assim sai do Teatro do Sesc Pompeia crente que o mais célebre dos habitantes de Gotham City brinca com as formas sonoras com uma astúcia que ainda estão longe da compreensão deste resenhista guerrilheiro.

Line Up:
Jards Macalé (violão/vocal)
Mauricio Calmon (bateria)
Vitor Gottardi (guitarra)
Alberto Contnentino (baixo)
Ricardo Rito (teclado)
Anderson Ferraz (trompete)
Thiago Queiroz (saxofone/flauta)


Foto: Cacá Diniz
Com um brilho e vivacidade que inspiram os mais românticos a apenas se deixarem levar pela classe e originalidade dos tons das notas acústicas e elétricas. o velho Maca segue emanando sua mistica com uma vitalidade pouco antes vista.

E mantendo a escrita de quem não entra na mesma jam duas vezes da mesma forma, nem mesmo o balanço do Reggae de Negra Melodia passou batido. No dia 14 (sábado) a cozinha da banda Let's Play That seguiu a cartilha da marcação jamaicana como manda o figurino, mas no domingo (15) não seria exagero dizer que eles emularam um Dub que, assim como todo o repertório das duas noites, agraciaram os pagantes com a classe de um eterno novo single.

Foto: Cacá Diniz
Munindo seu dialeto de nylon com um vigor surpreendente, foi um privilégio observar toda essa mística tomando forma enquanto o combo da Let's Play That ajudava a costurar um complexo e sinuoso plano de fundo com mais de 40 anos de história.

Sim, é vero, o comparsa do Torquato Neto e do Lanny Gordin ofereceu uma retrospectiva de sua carreira que, além de sublime, fez jus ao tamanho de seu legado e a noite de lançamento do Box intitulado "Anos 70"; uma indispensável caixa com 4 discos lançados pelo selo Discobertas que conta com duas reedições do carioca (o auto intitulado de 72 e o também excelente "Aprendendo a Nadar" de 74) tudo repleto de bônus e dois discos de Raridades nunca antes apreciadas.

Foto: Cacá Diniz
Mais prazeroso do que observar o movimento dos barcos, ver Jards tunando sua cozinha com arranjos cheios de notas inspiradas no sax, acrobacias de flautas e aéreos de trompete, esses 2 shows foram mais do que meras retrospectivas, ambos foram uma carta aberta de um dos maiores expoentes da liberdade sonora musical.

Até essas duas grandes noites, sempre quis habitar todos os cenários escritos acima. Confesso que sempre almejei compreender a sua expressão com maior profundidade, mas em meio a tantas incertezas e laudos ainda inconclusivos, acredito que posso deitar a minha cabeça romântica sob meu travesseiro de sonhos com tranquilidade, pois definitivamente, vale muito a pena ser poeta. 

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Admiral Sir Cloudesley Shovell - Don't Hear It... Fear It

Sons advindos da máquina do tempo estão em alta hoje em dia. Alguns dizem que ser vintage é cult, outros dizem que ser cult é o novo vintage, e juntos ambos trazem algum destaque ao cerne do ser humano, mas pra quem gosta de música isso é só idiotice catalogada. Se for pesado e bom, para nós, os fãs de Rock, já é o suficiente, o problema é quando é excelente, pesado e some.


O ano era 2012. Eu estava em casa vendo televisão e resolvi voltar ao computador por que... Bom, era um daqueles dias paradões, era isso ou voltar a dormir e se bem me lembro também já tinha feito isso... Bom, mudei a forma de procrastinar digamos assim. Entrei no Youtube pra colocar um som e um amigo me ligou exatamente na hora que a música começou a tocar, aliás aqui vão duas coisas que vocês não sabem sobre mim, mas deveriam:

1) EU ME NEGO A ATENDER LIGAÇÕES QUE INTERROMPAM MINHA MÚSICA.
2) ODEIO TELEFONES.


Logo, sempre quando narro essa história para alguém, faço questão de pontuar o acontecimento desta data como um milagre. O telefone tocou pela primeira chamada e eu olhei pra cima puto, pensando: ''O cara tem que me ligar depois que eu sentei?''

Depois tocou pela segunda vez, terceira... 10 minutos em silêncio e outra ligação... Mais 5 e mais uma... Na quarta eu atendi e esperava que fosse Deus, mas não, era um grande amigo meu me ligando de maneira desesperada, tudo para que eu ouvisse uma banda de nome excêntrico, o tal do The Admiral Sir Cloudesley Shovell, mais especificamente o primeiro disco do power trio britânico, inflamável  ''Don't Hear It... Fear It'', lançado em 2012.

Line Up:
Bill Darlington (bateria)
Louis Comfort-Wiggett (baixo)
Johnny Gorilla (guitarra/vocal)



Track List:
''Mark Of The Beast''
''Devil's Island''
''iDeath''
''Killer Kane (Reprise)''
''Red Admiral Black Sunrise''
''Scratchin' & Sniffin'''
''The Last Run''
''Killer Kane''
''Bean Stew''


O cara disse isso e desligou na minha cara, só que fiquei tão impressionado pela simplicidade e todo o acontecimento (em âmbito geral) que nem fiquei puto por isso. Fui atrás na hora, e cá estou eu, 4 anos depois.


Essa foto deixa claro tudo que eu precisaria dizer sobre o som do grupo, mas vou ser ainda mais explicativo. Veja que até as roupas dos caras remetem ao período áureo do Rock 'N' Roll. As estampas ridículas, os cortes de cabelo mal ajambrados, veja que os caras são bem ''trues'' nesse sentido e isso se reflete na música de uma forma muito mais contemporânea do que puramente reciclada.

A cozinha desses insanos é calcada na pura ignorância da timbragem do baixo, muito fuzz, Wah-Wah, gritaria e explorações instrumentais fantásticas no âmbito clássico de uma Jam. Mas não da forma comportada e "gentleman", mas sim com muito experimentação no ramo de distorções, efeitos, e na criação (consciente ou não, nunca se sabe) de camadas psicodélicas-e-arruaceiras.


No disco não está creditado, mas na faixa de abertura rola uma viola supersônica sensacional no começo da música. Claro que segundos depois o negócio todo vira um quebra-quebra fervoroso, aliás o baixista dos caras é excelente, foge do básico e mostra muita técnica. É um deleite prestar atenção nas linhas de Louis Comfort-Wiggett.

Mas não só ele, o cidadão da voz e guitarra também mostra uma garganta de talento, veja a levada chapada de seu vocal em ''Devil's Island'' e note a destreza de seus Riffs mastodônticos em ''iDeath''.. O trampo é formado por temas que passam dos sete minutos, outros que chegam aos 14 (!) e você aí, de fone de ouvido ficando cada vez mais surdo e impressionado.

Grandes solos, batera esmerilhando, efeitos, sujeira pura com estilhaços de uma cadeira que foi quebrada na cabeça de algum desavisado e aquele cheiro de mijo com Guinness... Parece disco de banda perdida dos anos setenta, não é brinquedo não.

''Bean Stew'' (cover do Buffalo) será sua Jam favorita da semana. O Fuzz faz até eco no disco e você não consegue chegar pra um amigo e explicar com o quê que isso tudo se parece. Na pior das hipóteses só fala que é The Admiral Sir Cloudesley Shovell  e ponto final, o fone de ouvido é auto explicativo: ou vai ou explode. Cozinhaça!

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O Wishbone Ash está sempre de rolê

Realidade, talvez a coisa mais difícil de ser encarada na vida de qualquer pessoa. Hoje tive uma epifania bem trabalhosa sobre ela e sua forte ligação com a vida. Recentemente comecei a fazer um curso para poder dominar a ferramenta Excel, mas não se apeguem a este fatídico detalhe, o mais importante é saber que ele (o curso) começa as nove da manhã, e se dá por encerrado as seis da tarde, com uma hora de almoço para que os alunos não se matem, creio eu.

Hoje repeti a cantilena para poder cumprir mais um dia no curso. Acordei as seis, cheguei depois de pegar um ônibus (para variar lotado), e fiquei até as seis, concluindo este dia estafante falando com os senhores, já as dez da noite, depois de chegar em casa há cerca de uma hora.

Ficar naquela sala foi a pior sensação da minha vida. O curso se dá dentro de um ambiente relativamente próximo ao corporativo, aliás, para se ter uma ideia, o desespero foi tanto que por alguns minutos imaginei como a vida era ''fácil'' vendo as aulas de química na época de colégio.


No intervalo para o almoço estava tão puto e cansado que jurei para mim mesmo que nunca levaria uma vida robótica, alienada e automática tal qual minha aula de Excel toma curso. E o motivo é simples, hoje me dei conta de que muitos fazem isso, mas não tive a real dimensão desse inferno até borbulhar meu cérebro em ideias, hoje, na hora do almoço.

A realidade de praticamente todos os trabalhadores do nosso país é essa, fazer o que não gosta, mas com vontade, pois caso contrário, vai pra rua. Todo mundo nasce e cresce nutrindo apreço por alguma profissão, mas hoje são poucos que conseguem delinear esse futuro e realmente fazer o plano funcionar sem que haja falsidade, expediente no piloto automático e essa vida (sem querer soar clichê mas já o fazendo), sem vida.

Sempre tentei me ver como o Wishbone Ash. Não pretendo ser rico, nem nada do tipo, quero apenas trabalhar com o que almejo daqui para frente, fazer um dinheiro razoável com isso e me manter por ai. Despreocupado de preferência, e apostando na longevidade como índice perpétuo de felicidade, tal qual a banda em sua mais pura e simples essência.

São mais de 40 anos de prestações de serviço sonoros, mas quem disse que acabou? O ano de 2014 apresentou um novo calendário, e como resposta surgiu ''Blue Horizon'', o vigésimo quinto disco de estúdio do grupo.

Line Up:
Andy Powell (vocal/guitarra)
Bob Skeat (baixo)
Muddy Manninen (guitarra)
Joe Crabtree (bateria)



Track List:
''Take It Back''
''Deep Blues''
''Strange How Things Come Back Around''
''Being One''
''Way Down South''
''Tally Ho!''
''Mary Jane''
''American Century''
''Blue Horizon''
''All There Is To Say''


Com uma carreira setentona fantástica e belos trabalhos de 80 para frente, o Ash é uma das várias bandas que foram grandes nos '70, mas que hoje perderam um pouco de terreno. Mas quem conhece a discografia dos caras de verdade sabe que o buraco é bem mais embaixo, é muito som! E quando nós pensávamos que uma das twin guitars mais seminais do Rock pudessem nos surpreender, eis que o Jazz desmonta todo o esquema com puro requinte.

Isso mostra muita coisa, além do simples fato de ser um grande disco, deixa claro que ainda existem campos para serem trabalhados e que a julgar pelo grande número de datas que foram confirmadas para a tour daquele ano, a banda ainda aprecia demais o que faz de melhor. Eis aqui uma grande lição de vida, e música, claro. ''Blue Horizon'' é um grande disco.


No recheio temos dez faixas com um ensinamento em plena convergência com cada um dos temas: a prudência musical. Repare que além do show da dupla de guitarristas Muddy Manninen e Andy Powell, ainda temos Bob Skeat arrebentando na profundidade do Groove em quatro cordas, e Joe Crabtree carregando a cozinha e sempre dando aquela carga de pulsação, tudo dentro de um clima bem cool jazz.


faixas longas, maravilhosamente bem trabalhadas, onde a banda soube administrar o tom dos instrumentais com a voz despreocupada e relax de Powell, que quando sola, meu deus do céu! São temas deliciosos, ''Take It Back'', ''Deep Blues''... Sempre com peso, mudando a velocidade, surgindo mais leve, parece até fácil! ''Way Down South'' e ''Tally Ho!'' são minhas preferidas do LP, mas a faixa título também é grandiosa.

E lembrem-se, além de ouvir boa música, preste atenção no que cada um de vocês querem para si, não sou nenhum Psicologo, mas não custa nada acentuar esse ponto, nem que seja para alimentar um Hobb. Não se pode ser infeliz dentro um mundo com tantas possibilidades, essa é a moral desse texto, eu tenho esse Blog para desabafar, e você?


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Eloy neles: Reincarnation On Stage

É bastante gratificante saber que bandas como Wishbone Ash, Renaissance e Uriah Heep por exemplo, ainda seguem gravando e carregando junto de seu som, décadas e mais décadas de muita história, e de forma quase que anônima em certos períodos de suas vidas. Sem todo o reconhecimento merecido, mas fazendo tudo pela música e por seus fãs, surpreendendo muitos de nós, sempre se reinventando e ressurgindo de tempos em tempos.

Vejam por exemplo o Renaissance, em 2013 o Rock Progressivo da banda teve mais um capítulo graças ao ótimo ''Grandine iI Vento'', trabalho que além de ter sido um dos melhores discos daquele ano, também foi um dos melhores do passado recente do grupo.


Parece que essa onda de criatividade acabou incitando todos esses velhos guerreiros a voltaram a gravar, nem que seja uma retrospectiva de suas grandiosas carreiras, tal qual fez o Eloy. Sim meus amigos, o ano de 2014 teve de tudo. ''Reincarnation On Stage'' é um presente, um agradecimento de Frank Bornemann para com sua legião de fãs que nunca largaram a viagem sinfônica de uma das maiores mentes criativas do Rock Progressivo.

Line Up:
Anke Renner (vocal)
Frank Bornemann (vocal/guitarra)
Michael Gerlach (teclado)
Alexandra Seubert (vocal)
Hannes Folberth (teclado)
Tina Lux (vocal)
Klaus-Peter Matziol (baixo)
Bodo Schopf (bateria/percussão)
Steve Mann (guitarra)



Track List CD 1:
''Namaste''
''Child Migration''
''Paralized Civilization''
''Mysterious Monolith''
''Age Of Insanity''
''The Apocalypse''
''Silhouette''
''Poseidon's Creation''
''Time To Turn''
''The Sun-Song''
''Horizons''
''IIIuminations''


Track List CD 2:
''Follow The Light''
''Awakening Of Consciousness''
''The Tides Return Forever''
''Ro Setau''
''Mystery''
''Decay Of Logos''
''Atlantis Agony At June 5th 8498, 13 p.m.Gregorian Earthtime''
''The Bells Of Notre Dame''
''Thoughts''


Esse disco pode ser a cereja do bolo na carreira do Eloy. Se ele parar de gravar depois disso, nós, fãs, sempre nos lembraremos desse disco com muito carinho. ''Reincarnation On Stage'' é um CD duplo que cumpre uma tarefa muito complicada: resumir uma das carreiras mais longévas e criativas do Rock Progressivo, com grande classe.

O resultado é excelente, aliás, é realmente surpreendente colocar esse retorno nos falantes, a fidalidade segue impecável. O conteúdo nos apresenta à mais de 20 suites, takes que funcionam como um chá de memória para que seus sonhos relembrem a força do Space-Prog-Sinfônico.


São clássicos que remetem até mesmo ao sotaque alemão nos cantos gregorianos em Inglês, passagens que apenas abrilhantam as peculiaridades desse grande grupo. O som ficou excepcional, o baixo merecia até um take só dele, ''Decay Of Logos'' é brincadeira, Klaus-Peter Matziol arrebenta!

O problema é que o label liberou poucas cópias, até pelo alcance limitado do mesmo (''Soul Food''), e com isso, as edições nacionais ficaram inviáveis. Gastei uma nota nesse aqui, mas valeu cada centavo, afinal de contas é um disco do Eloy. São mais de duas horas e vinte de muito som e muita história.

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