Childish Gambino: Sexta-fera no Globo Repórter

Infelizmente o Childish Gambino não vai passar no Globo Repórter na sexta-feira, mas ele realmente merecia um espacinho no fim do programa do Sérgio Chapelin só pra finalizar mais um dia de maldade bem valvulado no balanço do Funk.

Childish Gambino é o nome artístico de Donald Glover. Pra ser bem sincero nunca tinha ouvido falar desse cara até meados de dezembro do ano passado. Coincidência ou não, o quarto disco de estúdio do americano, ''Awaken, My Love'' (se você contar a Mixtape ''Kauai" de 2014 como um disco) saiu bem no começo de dezembro, e caiu como uma bomba no cenário Pop mundial.


Tenho que agradecer ao todo poderoso George Clinton pela descoberta, pois sem sua menção ao talentoso músico durante uma entrevista que nem sei mais onde vi ou do que se tratava, nunca teria ouvido esse trampo. Se bem que do jeito que o cidadão anda inspirado, tenho certeza de que não seria possível passar do mês de janeiro sem ouvir falar deste que é o seu melhor e mais audacioso trabalho até o momento. 

Diretor, produtor, comediante, ator, roteirista, lavador de louça e engenheiro mecânico (essas duas últimas são mentira) o rapaz está com tudo. Vale lembrar que a sua série, "Atlanta", abocanhou 2 Globos de Ouro (melhor ator/melhor série) ou seja, o efeito Midas ainda está longe de chegar ao fim.


A única coisa que é bom ressaltar é que, caso você não goste de Rap, finja que os outros 3 discos desse senhor nem existem, pois se você espera a mesma classe desse registro quando for ouvir seu primeiro disco, ''Camp'' ou ''Because The Internet'', lançados em 2011 e 2013 respectivamente, o grave de seus beats com um quê gangster assustarão seus ouvidos.

Achei bastante interessante ouvir todos os seus trabalhos por que é de fato um choque ouvir seu trampo mais recente e depois sacar o que era feito antes. Confesso que apesar de não ser a minha praia, gostei de algumas coisas que ouvi em sua lírica Hip-Hop, algo que serviu apenas para impressionar meus ouvidos ainda mais... Acreditem, ''Awaken My Love'', produzido junto do sueco e seu principal comparsa, Ludwig Göransson, é uma imensa ruptura em sua discografia.

Line Up:
Donald Glover (vocal/bateria/percussão)
Ludwig Göransson (baixo/guitarra/vocal/sintetizadores/órgão/percussão/bateria)
Ray Suen (guitarra/piano/sintetizadores)
Lynette Williams (órgão/clavinet)
Zac Rae (sintetizadores/órgão)
Per Gunnar Juliusson (piano/rhodes)
Chris Hartz (bateria/baixo/percussão/rhodes)
Sam Sugarman (guitarra)
Gary Clark Jr. (guitarra)
Thomas Drayton (baixo)
Brent Jones And The Best Life Singers (vocal/coral)



Track List:
''Me And Your Mama''
''Have Some Love''
''Boogieman''
''Zombies''
''Riot''
''Redbone''
''California''
''Terrified''
''Baby Boys''
''The Night Me And Your Mama Met''
''Stand Tall''


O que mais me deixou encucado ao ouvir esse disco foi a estranha sensação de já ter ouvido algumas faixas dele, junto com o paradoxo de notar como essa cozinha é moderna, inédita mesmo. Pode parecer coisa de quem não tomou seus remédios, mas esse disco é um grande exemplo de como é possível criar novos sons com base em grandes referências.

Seria bom que você conhecesse bem a discografia do Prince, Funkadelic e da Erykah Badu antes de ouvir esse registro. É bom conhecer por que além de serem 3 grandes cantores/músicos/grupos, esses nomes ajudam a entender de onde certos elementos desse disco saíram.


Um dos meus maiores bloqueios com o Rap é o sample. Tem um cara que trabalha comigo que acha o Dr. Dre um gênio, enquanto eu apenas acho o criador dos fones Beats um cara normal. Foda mesmo é o George Clinton, o mestre que criou tudo que ele tem como referência na hora de fazer um beat.

Pra este que vos escreve, fazer um beat é algo bastante vazio se o criador do negócio todo chegar com um sample. Nesse disco mesmo tem um sample, o riff de ''Can You Get To That'' (do fantástico ''Maggot Brain'' - 1971) e o restante das faixas, apesar de não ter samples creditados é bastante fácil de saber de onde saiu se você manjar as fontes citadas acima.


É claro que o Donald tem (muitos) créditos por esse disco, e eu espero que ele fato siga por esse caminho para criar algo dele e que todos nós, após o play, fiquemos estupefatos por não saber de onde ele tirou essa ideia. Espero falar de um disco dele com a mesma profundidade que falei do último registro da Esperanza Spalding, por exemplo.

Pode parecer que estou falando mal do disco, mas é impressionante como boas gravações como essa ganham status de obra prima hoje em dia, tamanho o nível de falta de criatividade no cenário Pop. Esse trabalho é um respiro de novidade 65% autoral e, mesmo assim, já é um grande avanço hoje em dia, algo que mostra o nível da grande massa de músicos que gravam mundo afora.

Quando digo 65% não estou dizendo que o resto é plágio, mas apesar de belíssima, a abertura e um dos singles desse lançamento (''Me And Your Mama'') é inspiradora, mas a sua parede de sintetizadores já foi criada por Bernie Worrell nos anos 70.


''Boogieman'' é um clone do DNA da fase mais ácida do Parliament, enquanto ''Zombies'', um dos momentos mais originais do disco, vacila ao dar uma boa chupinhada nos intervalos lisérgicos de baixo do Bootsy Collins. A assinatura do criador está em ''Riot'' e em temas como ''California'', onde ele consegue achar um interessante equilíbrio entre essa nova faceta e sua antiga psique Rapper nos beats.

No fim das contas o que estou querendo dizer é que queremos mais faixas como ''Terrified'' ou ''Stand Tall'' e menos momentos onde o resenhista consiga achar um link com qualquer tipo de coisa que já foi feita, afinal de contas quem grava um disco desse nível com certeza pode ajudar a levar a música moderna, que nos é contemporânea, para um novo patamar. Bom compilado de slaps.

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