O Jards Macalé é mais descolado que você

Mais do que um cosmos de hits, galáxias de notas e teoremas de composição, a música é a representação de artistas que de fato existem como mentes criativas. Seres que mais do que vertentes e improvisos criam para provar que a música não tem estado físico, métrica ou tempo.

A música é um corpo que estica, vira as melodias do avesso e resulta na essência de seu respectivo criador como num reflexo infinito de um espelho. Mas algumas vezes você precisa ver para crer, e olha que nem mesmo depois de seguir os passos da arisca viola de Jards Macalé, por duas noites, confesso que ainda assim sai do Teatro do Sesc Pompeia crente que o mais célebre dos habitantes de Gotham City brinca com as formas sonoras com uma astúcia que ainda estão longe da compreensão deste resenhista guerrilheiro.

Line Up:
Jards Macalé (violão/vocal)
Mauricio Calmon (bateria)
Vitor Gottardi (guitarra)
Alberto Contnentino (baixo)
Ricardo Rito (teclado)
Anderson Ferraz (trompete)
Thiago Queiroz (saxofone/flauta)


Foto: Cacá Diniz
Com um brilho e vivacidade que inspiram os mais românticos a apenas se deixarem levar pela classe e originalidade dos tons das notas acústicas e elétricas. o velho Maca segue emanando sua mistica com uma vitalidade pouco antes vista.

E mantendo a escrita de quem não entra na mesma jam duas vezes da mesma forma, nem mesmo o balanço do Reggae de Negra Melodia passou batido. No dia 14 (sábado) a cozinha da banda Let's Play That seguiu a cartilha da marcação jamaicana como manda o figurino, mas no domingo (15) não seria exagero dizer que eles emularam um Dub que, assim como todo o repertório das duas noites, agraciaram os pagantes com a classe de um eterno novo single.

Foto: Cacá Diniz
Munindo seu dialeto de nylon com um vigor surpreendente, foi um privilégio observar toda essa mística tomando forma enquanto o combo da Let's Play That ajudava a costurar um complexo e sinuoso plano de fundo com mais de 40 anos de história.

Sim, é vero, o comparsa do Torquato Neto e do Lanny Gordin ofereceu uma retrospectiva de sua carreira que, além de sublime, fez jus ao tamanho de seu legado e a noite de lançamento do Box intitulado "Anos 70"; uma indispensável caixa com 4 discos lançados pelo selo Discobertas que conta com duas reedições do carioca (o auto intitulado de 72 e o também excelente "Aprendendo a Nadar" de 74) tudo repleto de bônus e dois discos de Raridades nunca antes apreciadas.

Foto: Cacá Diniz
Mais prazeroso do que observar o movimento dos barcos, ver Jards tunando sua cozinha com arranjos cheios de notas inspiradas no sax, acrobacias de flautas e aéreos de trompete, esses 2 shows foram mais do que meras retrospectivas, ambos foram uma carta aberta de um dos maiores expoentes da liberdade sonora musical.

Até essas duas grandes noites, sempre quis habitar todos os cenários escritos acima. Confesso que sempre almejei compreender a sua expressão com maior profundidade, mas em meio a tantas incertezas e laudos ainda inconclusivos, acredito que posso deitar a minha cabeça romântica sob meu travesseiro de sonhos com tranquilidade, pois definitivamente, vale muito a pena ser poeta. 

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