Eric Gale e o venenoso swing jamaicano de Negril

O Eric Gale foi um dos guitarristas mais primorosos que já pisou no planeta Terra. Dono de um feeling sideral e de uma classe absolutamente aristocrática, um dos músicos de sessão mais requisitados da historia do Jazz-Fusion, o famoso Jazz-Rock, Gale inspirou mestres como Jimi Hendrix e já eternizou belíssimas passagens em sua semi-acústica para nomes como Nina Simone, Quincy Jones, Herbie Hancock e Grover Washington Jr. 

Sua astúcia era conhecida e bastante apreciada dentro da cena Jazzística. Eric talvez seja um grande exemplo de músico respeitado dentro de seu círculo, um cara que nunca chegou ao boca-boca do grande público, mas que definitivamente recebeu o respeito de quem importava: os seus iguais, seus comparsas músicos.


Mas o que poucos sabem é que além do fraseado classudo e eloquente no Jazz, uma de suas maiores paixões foi... o Reggae! Sim, nem só de Miles Davis vive um homem senhoras e senhores, por isso, antes que você diga que sua admiração pelo estilo parou no balanco de ''Sara Smile'', tema eternizado no excelente disco ''Ginseng Woman'' lançado em 1970 e sete, fique o senhor sabendo que o americano dedicou um vinil completo para prestar tributo ao som de Jah.

Line Up:
Eric Gale (guitarra)
Val Douglas (baixo)
Peter Tosh (guitarra)
Aston Barrett (baixo)
Richard Tee (piano)
Leslie Butler (órgão/sintetizadores)
Cedric Brooks (saxofone/percussão)
Paul Douglas (bateria)
Joe Higgs (percussão)
Sparrow Martin (bateria)
Keith Sterling (piano)
Uziah Thompson (percussão)

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Track List:
''Lighthouse''
''East Side, West Side''
''Honey Coral Rock''
''Negril''
''Red Ground Funk''
''Rasta''
''Negril Sea Sunset''
''I Shot The Sheriff'' - Bob Marley


Lançado em 1975, ''Negril'' foi o segundo disco solo da carreira do guitarrista, sucedendo o debutante ''Forecast'', gravado 2 anos antes em 1973. Esse é um disco único em sua rica discografia, um trabalho que mantém o Jazz apenas na estrutura da guitarra, por que de resto todos os outros instrumentos tocam sob outra legislação, a dos dreadlocks. 

Contando com os maiores expoentes da cena de Bob Marley, Eric chamou só a nata dos músicos para garantir que todos os seus arranjos e composições fossem executados com todo o esmero que sempre lhe foi peculiar. Sim, Gale compôs praticamente todo o disco e tudo, desde o nome do registro, é uma homenagem a toda beleza Jamaicana, especialmente o vilarejo de Negril, um popular destino para os turistas.


Pena que esse disco não e tão popular quanto outras trabalhos que receberam o nome do músico nos créditos, mas o conteúdo é tão relevante como qualquer outro título ou sessão de estúdio que Eric já participou.

É um prato cheio para aqueles que dizem ''não gostar de Reggae'' por ser ''tudo igual''. Aqui não, sob a batuta de nomes como Val Douglas e Peter Tosh, os temas ganham toneladas de variação, dinamismo e classe para emular a tradicional pegada do filho do Rocksteady.

E pra mostrar que esse Reggae não é igual a nenhum que você já escutou, ''Lighthouse'' chega iluminando o ambiente com uma riqueza instrumental que chega apenas como aperitivo. Dai pra frente abre-se a porteira para um baixo com mais densidade em ''East Side, West Side'', uma guitarra mais chorosa e todo o requinte de uma boa e velha ambientação percussiva para o plano de fundo de ''Honey Coral Rock''.

Não é brincadeira não meu caro, tem muito jamaicano de CEP que morre sem gravar um Reggae desta magnitude e o que mais impressiona, além de toda a criatividade da faixa título e do ácido groove presente em ''Red Ground Funk'' é como o músico conseguiu aumentar os limites entre as fronteiras de todas as vertentes que acabam se misturando em certas passagens.

Quando ouvimos ''Rasta'', por exemplo, notamos como o orgao de Leslie Butler faz as vezes de uma jam Gospel no Harlem, enquanto ''Negril Sea Sunset'' chega com um timbre mais cristalino que a própria água dos mares jamaicanos. O cidadão toca tão fácil que chega a dar inveja, mas se você pensa que acabou, ah coitado! Espere ate ouvir o instrumental turbinado que o mestre elaborou para homenagear o Reggar que o Clapton mais gosta. A versao de ''I Shot The Sheriff'' é possivelmente a mais bela já composta e, pra garantir a excelência, conta com Peter Tosh nas guitarras.

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Jim Hall & a destreza de sua Jazz Guitar

Com a passagem do tempo penso nos grandes sábios. Após várias décadas vejo mudanças e percebo as coisas de outra forma, noto que a ideia flui de uma maneira própria e que surge como um mirante com vista infinita.

A perpectiva é belíssima, parece um cubismo ao ar livre e nos brinda com tudo ao mesmo tempo. Com a idade, adquirimos o controle para poder dosar tudo isso e é pulsante acordar todo dia e ver como os acontecimentos de nosso cotidiano mexem conosco.


Aquele frio na barriga antes da entrevista de emprego. O medo de chegar na menina da sua sala. As inseguranças sobre o futuro. As surpresas que surgirão no caminho. Todas as dificuldades e os problemas. Incontáveis pétalas de alegria.

A vida é uma explosão de momentos e rapaz, podem-se passar vinte, trinta, quarenta anos... A fagulha que causará todos esses acontecimento será sempre a mesma: a música. E foi ao som do mestre Jim Hall que cheguei a essa conclusão. 


Faz quase dois anos que o velhaco nos deixou, mas sua guitarra destilava algo que ia além de meras melodias. Seu feeling era único e além de arrebatar plateias em todos os pontos do globo, o americano o fez com a sabedoria de alguém que buscava apenas tocar, por isso que adaptei essa filosofia e agora busco apenas viver.

Line Up
Jim Hall (guitarra)
Red Mitchell (baixo)
Carl Perkins (piano)



 Track List:
''Stompin' At The Savoy''
''Things Ain't What They Used To Be''
''Thanks For The Memory''
''Tangerine''
''Stella By Starlight''
''9:20 Special''
''Deep In A Dream''
''Look For The Silver Lining''
''Seven Come Eleven''
''Too Close For Comfort''


Se teve um guitarrista que teve estilo esse cara foi o reverendo Jim Hall. Depois de velho o menino chegava no palco de bengala, sentava na cadeira e pegava a semi acústica com cuidado, demonstrando até fragilidade. Quem olhava até devia pensar: será que ele aguenta? Meu amigo! Se você um dia pensou isso, mal sabes o sacrilégio verbal que cometeste, o lance do senhor Hall era chegar, ele via o repertório na hora.

O improviso se confundia com sua música e com isso o Jazz ganhou um pertencimento absurdo e sua guitarra praticamente definiu o estilo para efeitos de pós modernidade. Pat Metheny, John Scofield, Frank Gambale... Pode pegar qualquer grande nome da guitarra Jazzística e prestar atenção, sem Jim eles não fariam tudo o que já ousaram gravar.


É claro que isso não tira toda a inovação que os citados trouxeram para o Jazz contemporâneo, mas o importante aqui é compreender que sem esse cara talvez nem o George Benson seria tão ousado e isso fica claro depois que o ''Jazz Guitar'' entra nos falantes.

Reconheço que o principal motivo de possuir esse espaço é justamente para enumerar as qualidades de dezenas de grooves que muito me apetecem, mas nesse caso isso é tudo o que tenho para lhes dizer. Estou me segurando para nao falar um pouco mais, mas creio que nesse caso o mais importante é que você aperte play e preencha cada uma dessas 10 faixas (sou de humanas) com todo o significado que elas merecem.

Vá na fé que o senhor verá o por quê decidi fazer isso. Esse trio do maestro Hall irá lhe acompanhar por muitos e muitos anos meu chapa!

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Elvin Jones & Richard Davis: a cozinhaça de Heavy Sounds

O Jazz é um estilo que por vezes pode ser mal interpretado. É interessante notar como apenas uma vertente possui tamanha diversidade, mas o problema mesmo é a disposição do ouvinte em relação à ''peneiração'' de novos sons. De maneira geral a maioria das pessoas enxerga esta nobre aresta da música como algo meio maçante e blasé, igual a música de fundo do elevador do prédio da sua avó.

O problema é que isso não existe. O Jazz é tão amplo que afirmar o seu desgosto de maneira contundente chega a ser um sacrilégio, tamanha a gama de saídas que esta jam possui. O Jazz é mais versátil que um camaleão desempregado meu caro, a jinga pode ir para o lado mais erudito da força, flertar com a música eletrônica, tirar uma onda com o Funk ou só chegar como quem não quer nada e mandar um som largadão só pra tirar o seu cérebro do eixo e mostrar que respeito é bom e o Jazz não só gosta como merece.


E um dos meus discos favoritos para mostrar o magnetismo do estilo que é um dos grandes pilares da música negra é o fantástico ''Heavy Sounds'', o LP colaborativo entre dois dos maiores mestres do Jazz: o baterista Elvin Jones e o bassman Richard Davis.


Essa união datada de 1967 consegue traduzir em pouco mais de 40 minutos toda a marra da cozinha de Miles Davis. O Jazz não precisa de um motivo, tampouco de um modelo, ele só chega na sua casa, abre a geladeira, reclama que a cerveja acabou e você ainda volta a recebê-lo.

E é exatamente disso que esse disco se trata: sobre a liberdade da improvisação, a genialidade que surge como resultado da união de grandes músicos e a minha necessidade de criar uma "desculpa'' só pra poder ouvir mais uma pérola da IMPULSE!

Line Up:
Richard David (baixo)
Elvin Jones (bateria/guitarra)
Frank Foster (saxofone)
Billy Greene (piano)



Track List:
''Raunchy Rita'' - Frank Foster
''Shiny Stockings'' - Frank Foster
''M.E'' - Billy Greene
''Summertime'' - George Gershwin/Ira Gershwin/DuBose Heyward
''Elvin's Guitar Blues''
''Here's That Rainy Day'' - Johnny Burke/Jimmy Van Heusen


Não vá pensando que só por que essa pérola máxima só tem duas faixas autorais, que o caldo desse groove é mais aguado. É claro que o grande lance é a química que rola no meio da fumaça que o Elvin e o Richard produziram, mas é importante salientar o grande trabalho do sax do Frank Foster e toda a destreza do piano de Billy Greene.

Todo mundo toca muito fácil. Logo na faixa de abertura "Raunchy Rita'' trata de emular uma melodia açucaradíssima. Pode botar fé que você vai assoviar esse saxofone por muitos anos e a classe no caminhar do piano e o som puro do baixo só deixam as coisas mais interessantes.


Deve ser duro chegar numa sessão de estúdio pra gravar um LP colaborativo com maestros desse porte, mas o Frank Foster não se intimidou, logo depois já apareceu mais uma composição do cidadão e dessa vez é a leveza dos tons de ''Shiny Stockings'' e o baixo de Davis que roubam a cena junto de mais uma primorosa melodia para ser cantarolada ate a sua aposentadoria.

Mas náo é só de Frank Foster que esse disco é feito. Para finalizar a ala das composições próprias o pianista Billy Greene também tratou de garantir uns royalties com a envolvente ''M.E'', o tema mais curto do disco, mas sem dúvida alguma o mais rico em criatividade pianista, isso sem falar que ele chega aquecendo as turbinas para o grande pico dessa gravação, o estonteante estrago do cover de ''Summertime'' e o seu acabamento de cordas que apenas engrandece um grande set de solos. 


Esse LP é contra indicado para ouvintes pouco experientes, mas é um prato cheio pra quem aprecia experimentos audaciosos e, apesar do grande lance ser a interação entre o Sr. Jones e o cumpra Davis, é válido pontuar a riqueza de repertório, climas e timbres desse trabalho, rola até um take com o Elvin na guitarra, durante o lamento de ''Elvin's Guitar Blues''.

Swingado, pesado, leve como um pluma ou ousado nos tempos e improvisos, ''Heavy Sounds'' é um disco raro, um trabalho que só poderia ter sido cunhado pelos melhores. Cuidado pra nao chorar ao som de ''Here`s That Rainy Day''... Essa prensagem pesa mais que o maço de Marlboro vermelho que a dupla fumou na hora de registrar a foto que virou a cara desse clássico. Primoroso é pouco.

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Se eu não tivesse batido a cabeça, jamais teria ouvido Blue Mitchell

Semana passada este que vos escreve caiu e bateu a cabeça. Até o momento não descobriram por que eu apaguei do nada e dei com a jaca no chão com mais força do que o Zidane chifrou o Materazzi durante a final da copa de 200 e seis.


Mas deixando todo o desgraçamento de lado, uma coisa é fato: se eu não tivesse testado a qualidade do paralelepípedo que aparou a minha cabeça no chão, posso garantir que jamais teria conhecido os encantos do Blue Mitchell, um trompetista da pesada.



Renomado mestre do metal de Miles Davis, Blue (para os parceiros) tocou com tudo e todos. Sua versatilidade ia do Jazz ao Funk com a mesma naturalidade que um aposentado vai buscar água na cozinha de madrugada. 

E mesmo que após a primeira audição do competente ''Graffiti Blues'', este que vos escreve ainda não tenha se ligado que já o conhecia, creio que mesmo assim valeu a pena tomar duas vacinas (já aproveitei pra deixar tudo em ordem), fazer uma tomografia e um encefalograma, por que sem esse test drive do meu cerebelo é bem provável que meus ouvidos teriam sido privados de tamanha pericia no groove, e isso não poderia ter acontecido.

Line Up:
Blue Mitchell (trompete)
Don Bailey (gaita)
Herman Railey (flauta/saxofone)
Freddy Robinson (guitarra)
Joe Sample (piano)
Darrell Clayborn (teclado)
Raymond Pounds (bateria)



Track List:
''Graffiti Blues''
''Yeah Ya Right''
''Express''
''Asso-Kam''
''Dorado''
''Alone Again (Naturally)'' - Bônus da versão remaster
''Where It's At'' - Bônus da versão remaster
''Funky Walk'' - Bônus da versão remaster
''Blue Funk'' - Bônus da versão remaster


Lançado em 1970 e três, esse disco não é muito bem cotado pela dita ''mídia especializada''. Segundo algumas resenhas que encontrei na rede mundial de computadores, ''Graffiti Blues'' aparentemente nao faz frente aos LP's que antecedem esse registro, algo que de maneira nenhuma desqualifica esse trabalho, muito pelo contrário.

Aliás é engraçado como as resenhas levam discos anteriores em consideração e, na maioria das vezes o fazem de forma pouco prática. É claro que é importante ter um referencial, mas por vezes é injusto fazer esse tipo de comparação com músicos inventivos como foi o caso de Blue Mitchell, pois a abordagem varia de uma gravação a outra, caso contrario malhar o judas nessa trampo faria o mesmo sentido quanto dizer que tudo que o Sonny Rollins gravou depois do ''Saxophone Colossus'' não presta, sendo que depois desse disco o mestre do sax tem no mínimo mais uns 5 trabalhos elementares.


É necessário um pouco de cautela nas palavras, o fato desse disco não ter o mesmo peso que outras bolachas de outrora não o tornam detestável, e uma prova disso é a forma como esses temas conseguiram atravessar 40 anos de espaço tempo sem perder a relevância.

E para mostrar toda a destreza de seu fraseado a faixa título já chega mostrando o que esse instrumental veio fazer. Prepare-se para correr até o hall do seu apartamento e chamar até aquela velha reclamona da síndica pra dançar no balanço do baixo e da gaita.

Aliás preste atenção como é possível ouvir todos os instrumentos com bastante clareza. A riqueza sonora não se perde e em temas como ''Yeah Ya Right'' e ''Express'', é possível acompanhar tudo, desde a vigorosa batera de Raymond Pounds, até a interessante e ácida guitarra do ligeiro Freddy Robinson.



Jam instrumental pra ninguém botar defeito. Eis aqui um belo conjunto de longos e sinuosos temas, toneladas de variação, estupendas passagens de metais e um trompete que esbanja luz própria. São vários climas, rola uma wah-wah apaixonante durante ''Asso-Kam'', belos slaps casando na gaita de ''Dorado'' e incontáveis melodias para serem assoviadas meses a fio se você comprou a versão remaster do disco e recebeu fervorosas improvisos como ''Funky Walk'' e ''Blue Funk'' como bônus. E pensar que eu ouvia esse cara tocando com o John Mayall no ''Jazz Blues Fusion'' e nem me ligava!

É meus amigos, foi um belo susto, mas são discos como esse que definitivamente mostram que vale a pena apagar, bater a cabeça em busca de petróleo e tomar 5 pontos na lajota. Ah, como é bom ouvir uma Jazzeira bem grooveada!


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