Se eu não tivesse batido a cabeça, jamais teria ouvido Blue Mitchell

Semana passada este que vos escreve caiu e bateu a cabeça. Até o momento não descobriram por que eu apaguei do nada e dei com a jaca no chão com mais força do que o Zidane chifrou o Materazzi durante a final da copa de 200 e seis.


Mas deixando todo o desgraçamento de lado, uma coisa é fato: se eu não tivesse testado a qualidade do paralelepípedo que aparou a minha cabeça no chão, posso garantir que jamais teria conhecido os encantos do Blue Mitchell, um trompetista da pesada.



Renomado mestre do metal de Miles Davis, Blue (para os parceiros) tocou com tudo e todos. Sua versatilidade ia do Jazz ao Funk com a mesma naturalidade que um aposentado vai buscar água na cozinha de madrugada. 

E mesmo que após a primeira audição do competente ''Graffiti Blues'', este que vos escreve ainda não tenha se ligado que já o conhecia, creio que mesmo assim valeu a pena tomar duas vacinas (já aproveitei pra deixar tudo em ordem), fazer uma tomografia e um encefalograma, por que sem esse test drive do meu cerebelo é bem provável que meus ouvidos teriam sido privados de tamanha pericia no groove, e isso não poderia ter acontecido.

Line Up:
Blue Mitchell (trompete)
Don Bailey (gaita)
Herman Railey (flauta/saxofone)
Freddy Robinson (guitarra)
Joe Sample (piano)
Darrell Clayborn (teclado)
Raymond Pounds (bateria)



Track List:
''Graffiti Blues''
''Yeah Ya Right''
''Express''
''Asso-Kam''
''Dorado''
''Alone Again (Naturally)'' - Bônus da versão remaster
''Where It's At'' - Bônus da versão remaster
''Funky Walk'' - Bônus da versão remaster
''Blue Funk'' - Bônus da versão remaster


Lançado em 1970 e três, esse disco não é muito bem cotado pela dita ''mídia especializada''. Segundo algumas resenhas que encontrei na rede mundial de computadores, ''Graffiti Blues'' aparentemente nao faz frente aos LP's que antecedem esse registro, algo que de maneira nenhuma desqualifica esse trabalho, muito pelo contrário.

Aliás é engraçado como as resenhas levam discos anteriores em consideração e, na maioria das vezes o fazem de forma pouco prática. É claro que é importante ter um referencial, mas por vezes é injusto fazer esse tipo de comparação com músicos inventivos como foi o caso de Blue Mitchell, pois a abordagem varia de uma gravação a outra, caso contrario malhar o judas nessa trampo faria o mesmo sentido quanto dizer que tudo que o Sonny Rollins gravou depois do ''Saxophone Colossus'' não presta, sendo que depois desse disco o mestre do sax tem no mínimo mais uns 5 trabalhos elementares.


É necessário um pouco de cautela nas palavras, o fato desse disco não ter o mesmo peso que outras bolachas de outrora não o tornam detestável, e uma prova disso é a forma como esses temas conseguiram atravessar 40 anos de espaço tempo sem perder a relevância.

E para mostrar toda a destreza de seu fraseado a faixa título já chega mostrando o que esse instrumental veio fazer. Prepare-se para correr até o hall do seu apartamento e chamar até aquela velha reclamona da síndica pra dançar no balanço do baixo e da gaita.

Aliás preste atenção como é possível ouvir todos os instrumentos com bastante clareza. A riqueza sonora não se perde e em temas como ''Yeah Ya Right'' e ''Express'', é possível acompanhar tudo, desde a vigorosa batera de Raymond Pounds, até a interessante e ácida guitarra do ligeiro Freddy Robinson.



Jam instrumental pra ninguém botar defeito. Eis aqui um belo conjunto de longos e sinuosos temas, toneladas de variação, estupendas passagens de metais e um trompete que esbanja luz própria. São vários climas, rola uma wah-wah apaixonante durante ''Asso-Kam'', belos slaps casando na gaita de ''Dorado'' e incontáveis melodias para serem assoviadas meses a fio se você comprou a versão remaster do disco e recebeu fervorosas improvisos como ''Funky Walk'' e ''Blue Funk'' como bônus. E pensar que eu ouvia esse cara tocando com o John Mayall no ''Jazz Blues Fusion'' e nem me ligava!

É meus amigos, foi um belo susto, mas são discos como esse que definitivamente mostram que vale a pena apagar, bater a cabeça em busca de petróleo e tomar 5 pontos na lajota. Ah, como é bom ouvir uma Jazzeira bem grooveada!


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