Shuggie Otis e a coqueluche chamada Inspiration Information

Quando o instrumento entra em ressonância, o corpo vibra. A mente se conecta entre as sinapses e os estilos entram em rota de colisão como flocos na forma de ideias. Quando as equalizações conseguem fluir com boa cadência e nutrem o lado criativo do cérebro... É exatemente neste canto surreal que moram os benefícios da música.


Um teorema em vibratos que se emitido em padrões psicodélicos, consegue marcar os pontos de encontro entre as sinapses, assim, assinalando as ideias com marcações multicoloridas. Aqueles famosos insights que surgem como epifanias em hiperlink  e que entram como glicose na veia do músico-ouvinte. 

Line Up:
Shuggie Otis (vocal/guitarra/baixo/bateria/órgão/piano/vibrafone/percussão/bateria eletrônica)
Barbara Porter (arranjo de cordas)
Jack Kelso (saxofone/flauta)
Brian Asher (arranjo de cordas)
Carol Robbins (harpa)
D. Jones (arranjo de cordas)
Jim Prindle (trombone)
J. Parker (arranjo de cordas)
Ron Robbins (trompete)
Louis Rosen (arranjo de cordas)
Jeff Martinez (trompa)
Marcia Zeavin (arranjo de cordas)
Doug Wintz (trombone)
N. Roth (arranjo de cordas)
Curt Sletten (trompete)
Steve Booner (arranjo de cordas)
T. Ziegler (arranjo de cordas)



Track List:
''Inspiration Information''
''Island Letter''
''Sparkle City''
''Aht Uh Mi Hed''
''Happy House''
''Rainy Day''
''XL-30''
''Pling!''
''Not Available''


''Inspiration Information'' é de 1974, mas até hoje o terceiro disco de estúdio de Shuggie Otis assusta pelo modo futurista e cirúrgico com que sua concepção sonora aborda retoques eletrônicos, complexos arranjos de cordas e sublimes camadas de guitarra chapantes no mais puro R&B.


O disco fracassou miseravelmente, mas seu legado é visionário e conseguiu misturar a psicodelia com a estonteante (e única), fusão de Soul que Shuggie criou com tanto esmero, feeling e talento. Quem ouvir esse esse disco hoje pensa que é lançamento.

E já faz mais de 40 anos que esse CD-LP está por aí. Não só este registro, mas os outros 3 trabalhos de Shuggie (todos lançados pela Epic) também, só que poucos ouvidos sabem disso. São registros de grande beleza e complexidade, apenas algumas características que fizeram com que o filho de Johnny Otis ganhasse reconhecimento antes mesmo dos 18 anos, acompanhando a banda de seu pai e dividindo os palcos com caras como Sly Stone e gravando até com Al Kooper no clássico ''Kooper Session'' de 1969.


Seu nome surgiu como um meteoro e sumiu como uma bolha de sabão, contrastes lamentáveis para uma carreira que poderia ter marcado ainda mais o mundo da música. Os dotes de Otis filho eram soberbos. O cidadão até gravou com o Zappa nas sessões do ''Hot Rats'' (!) mas infelizmente sumiu do mundo, se escondeu atrás das inseguranças de um jovem e (pasmem) nem gravou tantas guitarras para esse disco em virtude do frenesi que sua técnica estava causando, pois na época seu Black Power já era taxado como ''o novo Hendrix".

Só que depois de 3 anos gravando esse disco e de notar que tanto tempo de estúdio não rendeu impacto nenhum em sua arte, que o copo transbordou. O americano não aguentou mais, engavetou os projetos de gravação com Quincy Jones e voltou para casa pra trabalhar como músico de estúdio.


É tragicamente engraçado perceber que tudo chegou ao fim justamente quando Shuggie gravou sua obra prima. Até hoje ''Inspiration Information'' transpira novidade. É um LP que tira faíscas da agulha da vitrola, queima rádios dos mais diversos modelos automobilísticos e inspira as pessoas de uma forma grandiosa. O Prince que o diga.

Seus outros trabalhos carregam um pouco do que foi feito aqui, mas antes seu foco era mais abrangente, cobrindo meandros do Gospel, Jazz e Blues. O jovem abusava do feeling no Soul, do loop Funkeado e conseguia captar a essência de todas essas cozinhas. A versatilidade de sua lírica era indivisível e foi eternizada no ótimo ''Here Comes Shuggie Otis'' (1969) e no excelente ''Freedom Flight'' (1971).


Prestem atenção na capa. Saca só a finesse do cara, ali no banquinho como quem não quer nada... Mal sabe o senhor que tipo de som está por trás de tanta classe. A psicodelia é um detalhe sem excessos, fica explícita ali na malandragem dos tons no nome do disco, de resto, Shuggie Otis é quase um lord inglês.

Sua voz chega com o molejo descolado da faixa título. Ele harmoniza seu próprio vocal com outra camada uivante de backing's (também feitos por ele) ao fundo. Apresenta o órgão na sutiliza de ácidos e rápidos riffs, enquanto a batera pulsa e alimenta as mentes que respiram com auxílio de fones de ouvido.

É um sopro de ar fresco, o solo vai saindo no fade out e quando você percebe o fade in de ''Island Letter'' adentra o recinto e o Wah-Wah mostra grande perícia.


Os desfechos são suaves e as conexões aparentemente pouco ortodoxas parecem fluir como água... O som começa e termina e é sempre uma surpresa. A qualidade é inenarrável e o som sobe e desce como bolhas de ar numa chapa, acompanhando a valsa dançante aom som de ''Island Letter''.

É impressionante como ainda assim o cara mostra um estilo econômico. Nesta faixa em particular (''Island Letter'') Shuggie segue entrelaçando melodias alcalinos na guitarra, mas o grande segredo é o arranjo de metais que fica brincando com a ascendência das notas ao fundo.

O instrumental, as ideias e conceitos são absolutamente livres. Cada instrumento parece estar tocando linhas de outros sons e no fim o vocal sela tudo. A voz também merece atenção, o tom é aveludado, os backing vocal's bastante sutis e parece que entre uma frase e outra o americano até dá uma risada.


Ao fundo os beats surgem, acabam se misturando aos metais e nessa altura do campeonato não se sabe mais quem faz a base. Quando a obra prima ''Aht Uh Mi Hed'' entra nos falantes, tudo que foi dito se mistura com uma franqueza belíssima. Cada nota tem o lugar e seu respectivo impacto.

O groove no baixo de ''Happy House'' é brincadeira... É digno de se segurar na cadeira. Mas Shuggie é ainda mais cativante quando fala apenas por meio de seus instrumentos. ''Rainy Day'' é a maior prova deste fenômeno.



Imagine quantas vezes ele não ouviu esse conteúdo para chegar nisso. A sincronia é perfeita, a música em camadas e sua fusão com tudo que foi retratado anteriormente é sem limites. ''XL-30'' explora frases com um apoio de metais suaves, como se a guitarra fosse um sintetizador funkeado.

Infelizmente o ''Inspiration Information'' acabou ficando marcado (também) em função da falta de reconhecimento, mas sua história, importância e conteúdo são muito contemporâneos e a prova disso é que superaram 40 anos de intervalo e o maior adversário de qualquer LP: o  tempo. O único defeito desse disco é ser tão curto. Eis aqui o elo perdido entre Jimi Hendrix e Prince: ''Not Available''.

Fazer Música pra esse cara é fácil demais. É radiante saber que o velhaco resolveu voltar aos palcos! Em 2014 saiu até um live e em entrevistas recentes é louvável ver como o tempo ajudou sua persona. A redenção está próxima sugar! Em menos de 35 minutos estamos no paraíso.

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