Arrochando no Déjà Vu psicodélico de Pedro Salvador

Já que o ato de apertar play é uma oportunidade de ouvir os ruídos da mente dos compositores, o debutante solo do Pedro Salvador (Necro e Messias Elétrico) lançado em maio de 2017, deixa claro que observar o mundo com seu feeling místico é um grande experimento para a expansão mental.

Foto: Priscila Reis

Criatividade e identidade sonora direto da bela Macéio, um dos maiores celeiros do Rock brasileiro que além de grupos seminais como o Mopho, ainda conta com uma cena bastante ativa e com selos como o Crooked Tree Records, responsável por esse lançamento.

Line Up:
Pedro Salvador (guitarra/baixo/bateria/teclados/vocais)


Capa: Julia Danesi

Track List:
"Desgraça na Praça"
"Suíte Microscópica (Part. I)''
"Canção da Lua''
''Nostálgica #1''
''Canção do Fim''
''Suíte Microscópica (Part. II)''
''Bananeiras em Flor''
''Quilombo de Cimento''
''Desova''
''Nostálgica''
''Gênese e Destruição''
''Suíte Microscópica (Part. III)''
''Orfeu Ascendente''
''Suíte Microscópica (Part. IV)''
''Te Explico na Estrada"


Produzido pelo próprio músico, esse auto intitulado é fruto da pura e inquieta criatividade de Pedro. E dentro de um contexto que resume toda a sua caminhada musical até então, esse disco cumpre a difícil missão de sintetizar toda a riqueza de seu fraseado, apresentando elementos que caminham com grande leveza no meio de passagens garageiras, progressivas, psicodélicas, Funkeadas, retalhos de Blues, feeling no Reggae e diversas amostras da brasilidade sonora nacional.

Foto: Anne godoneo
E dentro de um panorama onde o próprio Pedro foi responsável por tocar todos os instrumentos envolvidos na gravação do disco, esse registro contém um visão diferente, mesmo que seja do mesmo músico, para diversos referenciais, não só para esse conceito genuíno de Rock 'N Roll, mas também para o papel de um baixista, cantor, guitarrista, baterista e etc.

Ter 100% do domínio do processo foi bastante benéfico para o músico, algo que pode ser captado faixa a faixa, desde a abertura com o Fuzz de garagem anos 60 que ele construiu em "Desgraça na Praça''.   

Foto: Leandro Wissinievski 

É uma sonoridade rica e que faz questão de mudar as dinâmicas e ritmos sempre que possível. Temos mais amostras de seu gênio Progressivo com as quatro partes de suas suítes microscópicas, provas de sua destreza na hora de emular riffs, como acontece na açucarada "Canção da Lua'', além de momentos de grande sentimento em "Nostálgica #1'', e demonstrações de seu talento, também como solista, durante a futurista e mais longa onda do disco, com "Canção do Fim". 

Pedro é um músico com talento singular na guitarra, muita noção de tempo no baixo, além de grande noção de ritmo para manter a levada de sua mente sempre no groove. Pode ser um Reggae instrumental no pique de "Bananeiras em Flor" ou até mesmo um cantado, como acontece durante a ácida "Desova''... Aqui a versatilidade dá o tom e seus ouvidos se deleitam enquanto o cidadão apenas se diverte.

Música autoral com sotaque da terra do cavacasso e com referências dos anos 70 que encontram, dentro de um mesmo músico e suas diversas influências, um mesmo caminho recheado de novas direções e pulsantes novidades. Seja durante os devaneios de "Orfeu Ascendente" ou sob a poeira cósmica da percussão de "Gênese e Destruição", Pedro nos mostra que a questão estética da música é só um detalhe, o importante mesmo é apertar play e sacar a malandragem classuda de temas como "Te Vejo na Estada".

Que swing, minha jóia!  

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O Prog do Three Seasons e o estardalhaço sonoro de Grow

Essa semana me deparei com umas listas bem mal feitas, mas que me fizeram refletir sobre um ponto de vista que muitos de nós subestimamos. Quais seriam os 100 melhores discos dos anos 2000? Aposto que muitos dos senhores irão dar risada (à princípio) e pensarão: ''é fácil listar, acho até que nem chega a cem exemplares'', mas não é bem assim que a banda toca.


Achei a lista que li com meus próprios olhos uma absoluta demonstração de ignorância, mas como o post foi bem claro quando ressaltava de que tratava-se da opinião do resenhista, só pude lamentar, e comecei a pensar sobre os discos que estariam em uma possível lista de minha pessoa.

Só que pasmem senhores, nela tem até disco de 2014, e o representante deste ano é ''Grow'', o terceiro CD do (para variar Sueco) power trio, Three Seasons, lançado no dia 30 Maio de 2014. Aprecie o feeling da nata progressiva.

Line Up:
Sartez Faraj (guitarra/vocal)
Olle Risberg (baixo)
Christian Eriksson (bateria)



Track List:
''Which Way''
''Drowning''
''By The Book''
''Tablas Of Bahar''
''Food For The Day''
''No Shame''
''Home Is Waiting''
''Familiar Song''


Ouvi esse disco uma centena de vezes desde de seu lançamento,e logo depois já fui traçar o restante da discografia dos caras:

''Life's Road'' - 2011
''Understand The World'' - 2012


E a rara beleza das faixas, o clima analógico, as influências das mais diversas... Tudo isso me encheu os olhos, aliás, o fez com todos que já ouviram alguma coisa desse trio. O som dos caras agrega de tudo. Funk para fluir as melodias, um Folk nas partes ''A'' de determinadas faixas, Pysch nas jams, um toque de Jazz, e por último mas jamé menos relevante, o Blues, a fundação básica deste som.

Desde o primeiro disco, o já citado ''Life's Road'' (2011), noto que a sonoridade deles já veio pronta. Não notei essa pataquada de ''evolução e amadurecimento'', escutei uma discografia uniforme e que mantém um padrão de qualidade excepcional, um Hard-Prog com aquele toque de Jukebox-disco-pérola dos anos 70.


''Grow'' aparece com 8 faixas e resulta em mais de 50 minutos de viagem e uma viagem muito diferenciada. Gosto bastante do peso das faixas, sempre no tom do vocalista e nunca nada de ensurdecedor, inclusive, o dono da voz principal, quase me tirou o sono.

Ouvia os discos e lembrava de alguma voz famosa... Sartez Farai me lembrou o Paul do começo do Free, juro, não é exagero. E logo pelo abertura do disco com ''Which Way'', dá para fisgar isso. Riffs apoiando o órgão (''Drowning''), violas costurando os flancos vazios do instrumental (''By The Book'') e momentos de grande criatividade, como na passagem sublime de ''Tablas Of Bahar''.

Alto padrão musical, mas tudo dentro de uma atmosfera que aconchega todos os ouvidos, não só os virtuoses de plantão e ao som de temas como ''No Shame''  percebemos que mais do que o Prog, o Three Seasons nos faz passar por todas as sensações sonoras, até o feeling Soul que arrepia a vértebra L3!

Coisa linda de pretão com um furo no meio. Eis aqui um pedaço generoso de uma excelente alquimia melodiosa, vinda justamente de ouvidos que só pelo o que produzem, fica claro que manjam muito mais de música do que o resenhista. Todo mundo sola, todo mundo frita e a trip é grandiosa. Excelente.

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A nobreza do Renaissance no Prog de Grandine iI Vento

Para os mais conservadores, a música atual não presta e só tenta copiar tudo de bom que já foi feito. Creio que essa seja uma linha de pensamento ríspida demais, mas existem pontos que de fato são impossíveis de negar.

Aliás, acredito que a gama de qualidade entre o período áureo de criatividade sonora ('70), e a fase meio pluricelular dos Indie's e alternativos, não são capazes de sustentar um padrão consistente para negar essa tese ou pelo menos partir pra trocação de igual pra igual.


Por isso que para os mais conservadores a melhor coisa é quando uma banda dos anos setenta volta à ativa e ainda o faz com trabalhos excelentes. Não basta apenas voltar e ficar mantendo as atividades com tours de reunião, não, o que os fãs realmente querem é material novo e um bom material. E foi exatamente isso que o Renaissance fez, provando que os hiatos foram superados e que o futuro será próspero e belo, igual ao Rock Progressivo de ''Grandine iI Vento'', lançado em 2013.

Line Up:
Annie Haslam (vocal)
David J. Keyes (baixo)
Rave Tesar (teclado)
Frank Pagano (bateria/percussão)
Jason Hart (teclado)
Michael Dunford (guitarra)
Ian Anderson (flauta)
John Wetton (vocal)



Track List:
''Symphony Of Light''
''Waterfall''
''Grandine iI Vento''
''Porcelain''
''Cry To The World''
''Air Of Drama''
''Blood Silver Like Moonlight''
''The Mystic And The Muse''
''Carpet Sun'' (Live) - Japão


De 1969 até meados de 1987 tudo ia muito bem no front do Renaissance, depois rolou hiato até 1998. Quatro anos de trabalho seguidos, depois, um clássico "split up", como diriam os gringos. Mas de 2009 pra frente o Groove segue pulsando (renovadíssimo diga-se de passagem) e agora  sem data de validade, por que depois que a banda perdeu o guitarrista Michael Dunford (em virtude de uma hemorragia cerebral) e segue com as tours de maneira inabalável, fica difícil de projetar um fim, ainda mais depois desse CD.

Excelente e oportuno de cabo a rabo, ''Grandine iI Vento'' é um passeiio pra lá de sereno entre a bela ponte música Erudita-Rock Progressivo que a banda sempre destilou com maestria. Com temas longos como ''Symphony Of Light'', muito bem tocados e instrumentalmente exuberantes, ''Grandine Il Vento'' nos mostra como os detalhes são a alma do negócio.



Músicas sublimes como ''Waterfall'' invadem o ambiente e planam enquanto reverberam, tamanha a leveza da Jam. Talvez o mais absurdo disso tudo, além do óbvia complexidade deste enredo, é ver que Annie Haslam canta temas como a faixa título de maneira belíssima, sendo que a cidadã já passou da casa dos 60 anos! 

É realmente algo a ser estudado, mas enquanto você fecha os olhos para a voz da britânica, não se esqueça de aplaudir a participação do Jethro Tull ao som de ''Cry To The World''. A criatividade segue trilhando o caminho da banda com temas sinuosos como ''Air Of Drama'', ''Blood Silver Like Moonlight'' e ''The Mystic And The Muse''. Eis aqui um disco de fato surpreendente, e se você tiver contatos no Japão, ainda rola a trip aveludada de ''Carpet Sun'' como bônus. Coisa fina!

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