O Anderson .Paak faz um Funk cretino

O Funk é pura questão de se manter no ritmo. No one two and groove. No tempo do slap. Hoje a principal questão que envolve essa mística talvez nem mesmo seja como, mas sim em quais termos o condutor vai manter o lado sexy da lua andando pela passarela do Groove.

O swing é uma coqueluche num copo de elixir. As vezes a onda beira o magnetismo, basta apenas ser dançada. As influencias moldam o tempo, mas os seus ouvidos testam o Pedegree desse novo som só pra garantir que os quadris do mundo todo não vão rebolar para jams medíocres.


O swing pode ser doce, azedo, ácido. Aos sábados ele pega a gastrite daquele jeito, mas ai é só tomar um Omeprazol e duas vitaminas C pra dar uma sustância antes que algum R&B canalha adentre a sua session de improviso com seu parceiro no baixo, no marfim ou riffando as guitarras.

Em qualquer momento a sequencia surge e quando notamos a casa está no embalo. O Funk se apossou dos meliantes e agora já era: você vai ter que comprar uma cópia do ''Malibu'', o quarto e tinhoso disco do Anderson .Paak And The Free Nationals. Relaxa, aconteceu comigo também.

Line Up:
Anderson .Paak (vocal/bateria)
Sam Barsh (teclados)
Daniel Seeff (guitarra/baixo)
Vicky Farewell Nguyen (guitarra/vocal)
Jose Rios (guitarra)
Marlon Bills (vocal)
Julian Lee (arranjo de cordas)
Ron Jerome Avant (piano)
Cameron Brown (guitarra)
Ronald Timan (vocal)
Emile Martinez (trompete)
Pino Palladino (baixo)
Jason Johnson (vocal)
Isaiah Sharkey (guitarra)
Brasstracks (metais)
Milan Timan (vocal)
Brian Cockerham (baixo)
Robert Glasper (teclados)
Deja Timan (vocal)
Kelsey Gonzalez (baixo)
Paris Timan (vocal)



Track List:
''The Bird''
''Heart Don't Stand A Chance''
''The Waters''
''The Season / Carry Me''
''Put Me Thru''
''Am I Wrong''
''Without You''
''Parking Lot''
''Lite Weight''
''Room In Here''
''Water Fall (interluuube)''
''Your Prime''
''Come Down''
''Silicon Valley''
''Celebrate''
''The Dreamer''


Atualize o software do seu Funk, misture com um grande repertório de R&B e uma produção que mistura beats advindos do Hip-Hop e samples dos grandes mestres do Jazz, que você chegará no Anderson .Paak como resultado.

Dono de uma técnica bateirística acima da média, .Paak impressiona pela facilidade com que toca e domina os kits, sempre muito bem acompanhado pelo preciso combo que faz o seu background sonoro, o cirúrgico The Free Nationals.


Só que o que pouca gente conhece é a versatilidade de seu trabalho. Dono de um requinte que não fica restrito apenas ao groove, Paak, além de um grande músico, é também Rapper e produtor, algo que ajuda o ouvinte a entender o motivo de suas elementares samples, inclusive, para ver o lado mestre de cerimônias do cidadão recomendo uma orelhada em "Venice", terceiro disco do multi instrumentista que saiu em 2014.

Numa discografia formada por 5 discos de estúdio e 4 EP's, confesso que não foi fácil escolher o que resenhar, mas selecionei "Malibu" em função da importância que essa gravação teve na vida do artista, além, é claro de seu riquíssimo material.

Desde a abertura do CD com a "The Bird" nota-se uma produção bastante lapidada, o que será a tônica de todo o registro. Demonstrando muito feeling (sem dizer o talento nato para baladas) .Paak chega sereno com "The Bird", e vai aquecendo a cadência da bateria, tema após tema. Com "Heart Don't Stand a Chance" o groove já chega na bandidagem, enganando os desavisados com uma entrada mais lenta, e daí pra frente é um abraço.


Com "The Waters' o americano já está em casa. Com uma sessão rítmica azeitadíssima, belos arranjos, beats entrelaçados no balanço do Funk e um quê jazzístico sempre genuíno, ele vai emplacando os hits. Com "The Season/Carry Me" o negrão mostra feeling nas letras e segue quicando nos kits enquanto mantém a regência das baquetas com muita naturalidade.

O disco passa rápido. Com riffs ácidos gravados na Gibson de "Put Me Thru", nota-se a atenção aos detalhes. Backing vocals bem orquestrados abrilhantam passagens que exaltam ainda mais o swing do som, enquanto o cidadão trata de mostrar que um bom músico sempre está junto das melhores bandas.

"Am I Wrong" poderia liderar as paradas de qualquer país de primeiro mundo. Já em "Without You" o clima das baladas retorna, mas é notável como em nenhum momento os movimentos de .Paak e banda são previsíveis. Cantar e tocar já é algo muito difícil, agora tocar bateria e cantar é ainda mais complexo. Os tempos se alteram, é praticamente outra legislação (!) e temas como "Parking Lot" e "Lite Weight", são a prova de como as ideias desse cara merecem atenção.


Se for pra tocar na rádio, chame o .Paak e diga pra mandar "Room Is Here". Se quiser chegar nas festas da galera cult chame o cara novamente e dessa vez convoque sua banda, os "Free Nationals", para entoar "Water Fall (Interluude)", e se for pela zuera só fale para o DJ montar as bases que da (viciante) "Come Down" pra frente o público explode. Que linha de baixo é essa?!

Sentimento é um lance foda. Muitos não tem e outros tocam temas como "Silicon Valley". Preste atenção no baixo, na timbragem atual de todos os instrumentos... É aquele lance, criatividade é uma dádiva, e o Anderson ainda destila a dele e a de seus Free Nationals enquanto toca bateria e ajuda você a conquistar aquela senhora ao som "The Dreamer".

Coisa fina, meliante, finíssima: Y'all niggass got me hot!

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Life On Planet Groove - No passinho do Maceo Parker

O que seria do Funk sem a adição de metais? O que seria do Jazz sem o groove metálico... Até o Rock Progressivo já sentiu a embutida de um bom naipe no time, e o King Crimson está ai pra provar como essa mistura faz diferença nos caminhos da jam.

Metais causam boa impressão. Eletrificam todas as cozinhas e fazem com que as notas sejam mais interessantes. A dinâmica muda, a liberdade do sax, trompete, trompa, trombone e derivados é um convite a imersão criativa.


Do Hip-Hop ao Soul, passando pelo Ska até a MPB, pode crer que o sax faz diferença. O groove aumenta até a marra se ele manja que vai rolar um duelo de sopro. O por do sol é um solo de sax meu caro! Carrega aquele tempero agridoce que deixa os apaixonados por groove com vertigem quando não conseguem achar aquele som com a classe de uma orquestra.

É uma fixação necessária, algo que para ser entendido precisa ser sentido, escutado e grooveado até o caroço. Ouse ouvir uma gravação na pegada de um ''Life On Planet Groove", por exemplo. Se não tivesse o saxofone do Maceo Parker ali pode crer que o estrago seria muito menor... Aperte play nesse petardo e veja como o Lounge do elevador fica a milhas de distância quando rola uma cozinha abençoada pelo Fred Wesley.

Line Up:
Maceo Parker (saxofone/vocal)
Candy Dulfer (saxofone)
Larry Goldings (órgão)
Vincent Henry (baixo/saxofone)
Rodney Jones (guitarra)
Pee Wee Ellis (saxone/flauta/vocal)
Kym Mazelle (vocal)
Kennwood Dennard (bateria)
Fred Wesley (trombone/vocal)



Track List:
"Shake Everything You've Got"
''Pass The Peas"
''I Got You (I Feel Good)" - James Brown
''Got to Get U"
"Addictive Love"
"Children's World"
"Georgia On My Mind"
"Soul Power 92" - James Brown/Bootsy Collins/Maceo Parker


Se existem 2 nomes que nortearam grande parte da produção criativa quando o assunto é sax e trombone, esses dois meliantes são o Maceo Parker e o Fred Wesley. Dupla norte americana das mais ácidas e respeitadas mundialmente quando o assunto é aquele som que lhe faz girar os glúteos, Fred e Parker trabalharam com James Brown durante a década de 60 e arranjaram grande parte dos clássicos do xerife do Soul.

Mais pro fim dos anos 60 ambos ficaram cansados das ego trips de Brown e largaram o barco rumo ao Parliament-Funkadelic. Junto de George Clinton, ambos encontraram uma inédita liberdade, tanto tóxica quanto criativa, que com toda a certeza contribuiu para que eles criassem e arranjassem algumas das melhores composições de suas respectivas carreiras.


Depois das devassas aventuras nos anos 70, ambos acabaram se distanciando do núcleo de Clinton, Bootsy Collins e cia, rumando para o sucesso, também em carreira solo. E se você almeja entender por que tanto Brown quanto Clinton sofreram baixas criativas no fim dos '70 e começo de '80, basta ouvir esse disco pra sacar a perícia de um Funk que aqui vaza pelo ladrão, mas que na terra de seus ex-patrões ficou mais escasso que o saldo da minha conta.

Gravado ao vivo no clube de Jazz alemão Stadtgarten (localizado na cidade de Colônia), "Life On Planet Groove" é uma aula de dinamismo sonoro. Extrapolando a casa dos 74 minutos de som dentro de um combo de 8 faixas cretinamente swingadas, essa gravação é a prova dos efeitos de um bom time de metaleiros.


Ela inclusive já mostra como em termos musicais, Maceo Parker tornou-se um músico mais ousado que Fred, talvez em função de suas desventuras com Prince. Aliás, se ligue no vigor dos arranjos da suíte "Shake Everything You've Got", logo na abertura do disco, para entender como o swing dos caras é vertiginoso. Como se não bastasse tocar dessa forma, ambos, tanto Fred quanto Maceo, ainda cantam com uma facilidade irritante.

Contando com monstros como Pee Wee Ellis na flauta, sax e também na voz, esse disco é a prova cabal para compreender que sem groove nós não viramos nem a esquina. "Pass The Peas" chega invocando o espírito de Brown com a mesma sutileza de um elefante numa loja de cristais. Logo depois com "I've Got You (I Feel Good)" e o estouro do baile em "Got To Get U", fica fácil perceber que a concepção criativa desse disco é bastante clara: 98% de Funk com 2% de Jazz.

Mas veja que apesar de todo esse furor sexy do Funk, ainda sobram momentos mais comportados, apesar de todo o PH sonoro dessa acidez regada a perdição dos slaps. Com "Addicted To Love" e "Children's World'', Maceo & banda começam a dar uma segurada no caldo para rachar o assoalha em "Georgia On My mind" e explodir ao som de "Soul Power 92"... Duvido que esse show rolou num clube, dava pra encher um estádio fácil fácil com todo esse groove.

Cuidado pra não cair pra trás. Entendeu por que o mundo precisa de metais?!

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Nunca fiz uma playlist no Spotify #3 - Welcome to Jamaica

Se você é daqueles que olham para o Reggae com aquela cara de desdem, bom, acredito que seja melhor encontrar outra matéria para ler ou outra playlist para ouvir (tem uma aqui e outra aqui). Por que se tem uma coisa que não existe é essa histórinha de que "Reggae é tudo igual".


Reggae ruim é tudo igual. Reggae sem pegada, groove, variação e dinâmica... Esse sim deveria ser o inimigo número do establishment! E como a cozinha da Jamaica é talvez um dos segmentos sonoros com dreadloacks que mais pecam por conteúdo especializado, o Macrocefalia Musical surge novamente com uma playlist que tenta cumprir a difícil tarefa de mostrar as mais variadas estéticas de um Rasta man.

Compilando 30 faixas e quase 2 horas e vinte de muito culto ao mestre Haile Selassie, hoje é dia de descobrir as riquezas do Reggae desde as cozinhas obscuras do Dub, até o mais puro creme do Roots que nos faz balançar no ritmo de Trench Town.


Contando com nomes como Frank Zappa, Prince Far I, Edson Gomes, Third World, Eric Gale, Jacob Miller, Augustus Pablo e Bixiga 70, o set de Welcome To Jamaica é a prova de como o filho do Rock Steady é profundo e merece total atenção.

Prepare os ouvidos e venha dançar essa Ragga no Spotify.

Se liga nos outros sets:

1) Groove de alta patente
2) Abraxas

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Steven Tyler - O Barulho Na Minha Cabeça Te Incomoda?

Segundo consta, nós, fãs de música de forma geral, buscamos essas benditas autobiografias sonoro-musicais para sair do óbvio, mas de certa forma não sair dele também.

90% das memórias que temos nas prateleiras das livrarias trata sobre a vida de bêbados e ex viciados, logo, quando você pega um livro de um cara que não tem histórias desse nível, é relativamente normal achar as coisas meio monótonas.


Só que o mais engraçado é que quando alguém fala mal de seus devassos heróis você relata o mantra: ''Nem todos os rockstar são drogados'' Mas assuma meu amigo, se não fossem, o livro seria pior que jogar dominó com o atendente do jogo do bicho do seu avô.

E já que agito é o que todos buscamos quando vamos à caça de boas histórias, hoje recomendo o diário de bordo de Steven Tyler, o vocalista da beiça de Mick Jagger. Um ótimo livro para você que gosta de Aerosmith e que admira o frontman, além, é claro, de gostar de relatos fervorosos.


Em mais de 500 páginas a Benvirá narra tudo que Steven Tyler, era, foi e ainda deixa uma pista para o que ele será no futuro. Neste grande registro lançado em 2011, Tyler conta tudo, desde sua fase de baterista de Jazz sendo um Tallarico, até seus problemas na escola pela beiça negra, tudo sempre muito precoce, assim como sua entrada no mundo das drogas e da música

O Aerosmith narrado nesse livro me pareceu uma banda que entre membros é bem distante. O mais citado é Joe Perry, mas isso já era esperado até pelos milhares de problemas que os toxic twins tiveram, porém no geral, a banda parece muito fria e calculista em termos de relações internas.


E durante a fase setentista, onde o grupo começou a bombar, isso nem teve como ser discutido, afinal de contas foram 10 anos de Tours sem parar, enquanto todos os envolvidos surfavam em uma duna de cocaína, e chegavam (não todos é bem verdade) ao submundo do vício com mais um clássico da série: ''Não vi meus filhos crescerem''.

''Recaídas'' e muitas histórias épicas, desde salsichas voando em Woodstock até apagões on stage e uma combustão de Blues na companhia das melhores groupies do ramo. Tudo isso e muito mais junto com toda a sorte de ruídos que ainda ecoam na mente deste mito quase aposentado.

Recomendo fortemente.

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John Mayall em 5 discos - a cavalaria do Blues britânico

Peter Green, Eric Clapton, Mick Taylor e Haryey Mandel. Sozinhos todos esses nomes já possuem um magnetismo incomensurável, juntos porém eles se confundem dentro do rico acervo do Blues britânico em toda a sua classe e soberania.

Mas o que poucos sabem é que se não fosse por um outro Blues Man britânico, dessa vez muito menos celebrado do que os nomes citados anteriormente, acredito que não existiria um Deus chamado Eric Clapton, tampouco o boogie no tapping de Harvel Mandel. 


Não, jamé! Se não fosse pelo guardião das escrituras dos campos de algodão, o senhor John Mayall, o mundo teria sido privado da companhia de seus Bluesbreakers. Isso com certeza nos desfalcaria musicalmente, inclusive não deixaria que o próprio Blues, como conceito estético, se desenvolvesse tanto, graças também a quebra de padrões propostas pelo inventivo som do mestre de 83 anos.

E como a carreira dessa lenda é muito longa (para a alegria da nação), resolvi selecionar 5 discos primordiais dentro de uma seleta lista de 65 registros de estúdio e algumas dezenas de ótimos discos ao vivo. Conheça o universo de Mayall e depois faça a sua própria viagem para as raízes do Blues.

1) Blues From Laurel Canyon - 1968



Lançando em 1968, "Blues From Laurel Canyon" é um disco riquíssimo, justamente por seu minimalismo. Parece conversa de gente louca, porém, em detrimento de seu contexto histórico, a musicalidade dessa gravação merece bastante atenção, justamente por resgatar um Mayall mais aberto criativamente, logo após a primeira ruptura com os Bluesbreakers. O disco já abre com um solo (ao som de "Vacation") e conta com Mick Taylor nas guitarras!

2) The Turning Point - 1969



Uma das maiores gravações ao vivo que você vai ouvir na sua vida, "The Turning Point" registra um dos maiores picos criativos da história do Blues. Gravado no icônico Fillmore East no dia 12 de julho de 1969, esse disco é a gênesis da estética Jazz-Blues-Fusion criada por John. Com uma formação bastante compacta (apenas com 4 integrantes) o músico mostra como o Blues ganha classe e dinamismo quando encontra o Jazz nas linhas de saxofone e flauta de John Almond.


3) USA Union - 1970



Lançado em 1970 e registrando em estúdio uma das maiores formações que Mayall já coordenou, "USA Union" é um LP fabuloso devido ao caráter de sua dinâmica sonora. Demorei umas 3 audições para perceber que o disco não tem bateria, tamanho o seu primor!

Contando com Don "Sugarcane" Harris no violino e com o não menos brilhante Harvey Mandel nas guitarras esse trabalho segue a linha dos experimentos do live "The Turning Poin" (lançado um ano antes em 1969) com uma formação americana que é a responsável por eternizar, entre outros grandes momentos, o maior hit da carreira do mestre, a belíssima "Nature's Disappearing", tema que inaugura a bolacha. 


4) Bare Wires - 1968



Precursor de toda a onda Jazzística de Mayall, "Bare Wires", lançado em 1968 é um dos exemplos de toda a magia criada pelos Bluesbreakers. Contando com uma banda robusta (dessa vez com 9 peças), esse registro mostra o trato de John no órgão, além de contar com a participação de Peter Green em duas faixas do LP ("Picture On The Wall" e "Jenny"), e com o talento de Mick Taylor.

Com um conceito musical bastante pautado na liberdade criativa, seus ouvidos serão alagados por temas sinuosos e longos como a suíte que nomeia o LP e seus quase 23 minutos de viagem cósmica. 


5) Live At BBC - 2007



Lançado em 2007, essa gravação apresenta um compilado de algumas das melhores apresentações de Mayall nas famosas BBC Sessions. Com performances que compreendem o período de 1965 até 67, passando rapidamente por 1975, esse registro é uma pérola.

Com participações de nomes como Eric Clapton, Jack Bruce, Larry Taylor, Don "Sugarcane" Harris e tantos outros mestres, esse compilado é uma amostra da força de Mayall dentro de suas mais diversas reencarnações musicais, além de seu tato radiofônico para liderar as FM's. Viciante é a palavra-chave.

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O magnetismo de Thundercat: uma noite intergaláctica no SESC Pompéia

As gravações de um artísta são, quando vistas em ordem cronológica, um relato puro e absoluto de todo o seu desenvolvimento. São pistas que mostram aos ouvintes, por meio das notas, o quanto a música desse dito cujo passou por transformações, assumiu novas identidades e foi se moldando até atingir um ponto de ruptura.

Quando escrevo "ponto de ruptura" quero dizer "sucesso". Mas por que as aspas?! Sucesso é um termo vazio dependendo da perspectiva ou do contexto em que é utilizado, porém, esquecendo agora todos os agentes do mainstream que influenciam para que uma gravação "dê certo", pense no sucesso como um estágio onde o músico atinge o seu primeiro ápice, criativamente falando é claro.

E ao observar a música como um objeto de estudo 100% orgânico, o primeiro ponto de ruptura na carreira de Stephen Bruner, AKA, Thundercat, foi o seu terceiro disco de estúdio, o inovador e desafiador "Drunk", CD duplo lançado no dia 24 de fevereiro de 2017.


Foi graças a "Drunk" que Thundercat comeceçou a ter a devida atenção que o seu talento assombroso nos vocais e no baixo merecem. Foi também graças a suas gravações junto de nomes como Kamasi Washington, Kendrick Lamar e Erykah Badu (isso só para citar alguns), que o músico ficou em evidência dentro de um cenário que hoje o enxerga como referência em termos de qualidade e, principalmente, criatividade.

Mas para o público brasileiro, a verdadeira oportunidade de entender o bem que caras desse nível fazem para a música aconteceu de uma vez só, e foi durante as duas noites em que Stephen foi um dos destaques da grande iniciativa Jazzística do SESC, o "Jazz na Fábrica".

Acompanhado pelo também espetacular (baterista) Justin Brown, e pelas passagens climáticas de Dennis Hamm nos teclados, Thundercat e banda fizeram 2 shows memoráveis, o primeiro deles na quinta-feira (17 de agosto) e o segundo na sexta-feira, vulgo dia 18.


Com um set list que intercalou músicas de seu mais recente registro, além de passagens dos 2 primeiros ("The Golden Age Of Apocalypse" - 2011 e "Apolypse" - 2013) e algumas fagulhas de seu EP ("The Beyond/Where The Giants Roam" - 2015), Thundercat mostrou um nível de musicalidade ridícula, muito feeling e deu uma aula de 2 horas sobre dinâmica musical enquanto foi brilhantemente acompanhado por Justin e Dennis Hamm.

Foi um absurdo em termos técnicos, um caldeirão de solos e um shot psicodélico de pura virtuose, magnetismo e novos horizontes musicais. Foi impressionante ver que, mesmo numa formação em trio, bastante compacta, todos os envolvidos conseguiram trazer a atmosfera de "Drunk" para o palco, algo notável, ainda mais dado o número de músicos presentes nessa gravação e a quantidade de complexos detalhes que permeiam essa grande obra.

Com uma cozinha centrada em Thundercat e Justin, onde o primeiro atravessa o tempo e vira suas próprias composições do avesso, solando, subindo e descendo as escalas de seu baixo de 6 cordas, Justin fica aparentemente vendido na história, não?! Mas o que é mais louco é que ele parece estar sempre um passo a frente de Stephen, pois ainda precisa fazer a cama para as teclas de Dennis Hamm, talvez o menos celebrado nome deste combo, porém um ponto focal primordial em termos de estrutura musical.


Uma experiência sensorial, psicodélica e completamente nova, assistir esse cara ao vivo é uma prova cabal para os limites da música e para a expansão do Jazz em termos de linguagem e novos capítulos. Esqueçam as comparações com mitos de outrora, não ousem traçar paralelos com o tipo de som do passado ou até mesmo com um futuro que nós ainda nem vivemos. 

Não sei o estilo de música que o senhor Stephen Bruner toca. Pra isso creio que precise conversar com ele, mas se existe algo que posso afirmar é que ele faz música no termo mais amplo da palavra. Seja tocando "Them Changes", "Lotus And The Jondy" ou "Trom Song" o baixo desse cidadão é um sopro de ar fresco e isso é tudo que você precisa entender para ouvir tudo que ele cria dentro de sua mente.

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Nunca fiz uma playlist no Spotify #2 - Abraxas

Quem costuma frequentar shows poucas vezes pensa em quem está trabalhando por trás de todo o rolê. Por vezes, ninguém nem imagina qual é o tamanho da lombra de produção para deixar tudo pronto pra uma tour, desde fazer a travessia das bandas entre as cidades, até montar a tradicional banca com os discos e EP's de todos os meliantes que dividiram o palco.

Por isso, em nome de todo o corre colossal que alguns desse maníacos sonoros nutrem com tanta paixão, que a segunda playlist da séria "Nunca Fiz uma Playlist", patrocinada pelo núcleo psicodélico do Macrocefalia Musical (em troca de um litrão) presta uma homenagem aos irmãos Rodrigo e Felipe Toscano.


Duas das mais nebulosas mentes criativas por trás da produtora carioca Abraxas, ambos são responsáveis por descentralizar a cena Stoner-Sludge-Psych-Doom dos núcleos europeus, trazendo grupos como o alemão Kadavar e o combo americano Radio Moscow, 2 exemplos de bandas que, se não fosse por eles, nunca teriam pisado em terras brasucas.


Além disso, a importância da Abraxas para o underground nacional é homérica. Com a curadoria dos cariocas, cidades como Florianópolis, Londrina, Goiânia e Paraíba, por exemplo, estão em voga nos fones de ouvidos dos mais ligados, graças a sons como o da Cobalt Blue, Red Mess, Almirante Shiva e Augustine Azul.

Por isso, eis que surge a playlist "Abraxas", um compilado de 30 sons (entre gringos e brasileiros) que tenta cumprir a difícil tarefa de resumir os mais de 2 anos e incontáveis rolês endossados pela Abraxas, através de praticamente 3 horas de altas fritações.

Se liga no primeiro set:

1) Groove de alta patente

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Snarky Puppy e os absurdos instrumentais de We Like It Here

A vida é tão corrida que as vezes um mimo se faz necessário. Planejamos cada centímetro de nossa rotina. Sabemos que quando o despertador toca de manhã, não pode existir uma fagulha de atraso, afinal de contas precisamos nos arrumar, tomar café e ainda correr para o carro, ou para o ponto de ônibus, sabendo que chegar na hora nunca depende 100% de você. O fator trânsito é sempre uma incógnita, e o pior, não serve só para quem faz uso de nossa ótima malha de transportes coletivos.

Suponde que você chegou no seu trabalho na hora, saiba que a labuta apenas começou, chegar é sua obrigação, mas só nessa primeira etapa o porte físico do trabalhador já é bem testado. São horas de sofrimento até um almoço que parece nunca chegar e, que quando surge, passa lentamente tal qual uma Ferrari numa reta. 


Do momento que você levanta, até a hora que chega em casa (ou que chega na faculdade para os estagiários desafortunados), sua vida segue um cronograma digno de berçário infantil, mas quando tudo termina a liberdade se faz presente, e eu como muitas pessoas recorro à fuga sonora, o descanso da música. 

E para fazê-lo de uma forma que além de diversificar gêneros, visa também reafirmar para tudo e todos que aquele tempo é MEU, sempre escolho um novo groove. O segredo é conseguir achar um som que traduza a libertinagem, sempre regado a uma cozinha que demonstre pura liberdade, por isso, para elucidar este dia que passa perante vossos olhos, escolhi o Snarky Puppy e a energia incontestável de ''We Like It Here'', o oitavo disco de uma das maiores e melhores bandas de Jazz que nasceram na última década.  

Line Up:
Michael League (teclados/baixo)
Shaun Martin (teclados/talk box)
Bill Laurence (teclados)
Cory Henry (órgão)
Justin Stanton (piano)
Mark Lettieri (guitarra)
Bob Lanzetti (guitarra)
Chris McQuinn (guitarra)
Nate Werth (percussão)
Larnell Lewis (bateria)
Mike Maher (trompete)
Chris Bullock (saxofone)
Bob Reynolds (saxofone)
Jay Jennings (trompete)



Track List:
''Shofukan''
''What About Me''
''Sleeper''
''Jambone''
''Kite''
''Outelier''
''Tio Macao''
''Lingus''


O Snarky Puppy é uma numerosa trupe que produz um som impressionante. Essa verdadeira orquestra mistura o melhor do Jazz clássico com a força do Fusion, deixa o Funk em banho maria, tempera com uma percussão e ainda tira onda no Rock 'N' Roll e brinca com a música clássica. Parece meio confuso mas não é, o som dos caras possui influências diversas, mas é justamente a forma como eles destilam tudo junto e misturado que é o grande barato.

A riqueza sonora é impressionante e o sentimento se faz sempre presente. É tão bom que PRECISAVA ser instrumental. Existem coisas que não podem ser descritas, bastam na áurea da música sem vocais, e a desses caras é de altíssimo nível e está descabelando os críticos com uma cozinha inovadora e muita criatividade.


Escolhi esse trabalho por que ele é síntese do que essa banda representa e é capaz de fazer, fora que foi lançado no melhor momento da história dos caras. ''We Like It Here'' é um disco ao vivo que saiu no dia 25 de fevereiro de 2014 e que sacramenta  a forma grandiosa com que este projeto segue se desenrolando, sempre no tempo do slap, fazendo uma rotação de músicos enorme e atualizando o portfólio de grandes discos anualmente.

E nesta performance registrada no meio da Tour holandesa, o som atinge um apogeu de força e qualidade sonora que beira o impossível. Temos quase exatos e cronometrados 60 minutos de som e o que sai dos fones é de uma exatidão e prudência faraônica.


A percussão mostra sua notoriedade em ''Shofukan'', oxigenação jazzística em ''What About Me''... É a bendita liberdade criativa! Só tenha cuidado para não viajar demais na linha do bass do Michael League, tampouco nas teclas do Cory Henry.

Amanhã tu precisa acordar cedo, e se tudo der certo, de noite tem mais Snarky Puppy outra vez com Larnell Lewis e suas linhas que mal se acompanham com o dedo e todo o requinte com DNA de Stevie Wonder da talkbox do Shaun Martin .

Mal posso esperar pelo furacão eletrificado de ''Sleeper'', os traços made in Africa com ''Tio Macao'' ou pelo swing incontestável de ''What About Me''. 


Puta merda, já são 9:30. HAHAHA

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O Royal Blood virou moda praia-hipster 2017

Foi tudo muito rápido para os britânicos da Royal Blood. Tão logo Jimmy Page manifestou seu interesse no som da dupla, ressaltando a sonoridade distinta da banda - mesmo que imersos num conceito de garagem já bastante experimentado nos '60 & '70 - que o baterista Ben Thatcher e o baixista e vocalista Mike Kerr, estouraram no mainstream com um dos grades debutantes do anos de 2014.

Junto com ele, surgiram diversas aparições nos maiores festivais do mundo e a banda chegou até a passar pelo Brasil em 2015 durante o Rock In Rio. Só que é aquela história, depois de gravar um disco tão singular e exato dentro do que a gravação se propunha a fazer, os fãs e a crítica ficaram na bota dos caras durante praticamente 3 anos até que a sequência desse trabalho surgisse.


E foi no dia 16 de junho de 2017 com "How Did We Get So Dark'' que a banda lançou o segundo disco de estúdio. Com uma sonoridade esteticamente platinada e com uma produção que deixou o lado mais cru da banda completamente domesticado, "How Did We Get So Dard'', lançado pela Warner, tem tudo para ser um dos grandes discos do ano em termos de quantidade de cópias vendidas, porém, em termos musicais, considerar esse disco melhor que o primeiro é... Bom, é uma palhaçada.

Line Up:
Ben Thatcher (bateria/percussão)
Mike Kerr (teclados/baixo/vocal)



Track List:
''How Did We Get So Dark''
''Lights Out''
''I Only Lie When I Love You''
''She's Creeping''
''Look Like You Know''
''Where Are You Now''
''Don't Tell''
''Hook, Lines & Sinker"
''Hole In Your Heart''
''Sleep''


Talvez o maior ponto para ressaltar o marasmo sintético desse trabalho seja a falta de criatividade que ambos, tanto Ben Thatcher, quanto Mike Kerr, tiveram na hora de registrar as 10 faixas que formam esse trabalho. Apostando na mesma tática de "tiro curto" do primeiro disco, esse lançamento termina antes dos 35 minutos de quebradeira, mas dessa vez o tempo custa a passar.

Essa dinâmica de baixo-batera é muito interessante, mas ao mesmo tempo pode ser uma cilada. É muito fácil cair na rotina e ficar num lugar comum que (verdade seja dita) é muito perigoso na hora de gravar, já que as composições podem passar uma dinâmica muito repetitiva, algo que definitivamente acontece aqui, desde a abertura com a faixa título do trampo.


Apostando em timbragens mais lights e botando muita fé em climas bastante parecidos entre si, as faixas que formam "How We Get So Dark" caminham de maneira friamente calculada rumo ao topo das paradas, mas de forma barata, plagiando a si mesmo, faixa após faixa.

Nota-se desde os backing vocals meio anos 80 da primeira faixa que eles não buscaram manter a escrita do debutante, mas como essa é a identidade do som, ainda é possível escutar ecos do primeiro trabalho, como na segunda faixa do registro, a (pra variar) radiofônica "Lights Out".


Mais um dos 4 singles de "How Did We Get So Dark'', ''I Only Lie When I Love You'', mostra como a bateria repetitiva de Ben Thatcher deixou o híbrido de baixo-guitarra de Mike Kerr chover no molhado.

E em termos de dinâmica musical essa gravação é a pior rica da discografia dos britânicos até o momento. Durante temas como "She's Creeping", é possível cortar o entrosamento da dupla com uma faca, mas é visível como as mudanças de peso e densidade de timbragens não tiveram a mesma ousadia de outrora.

Tem som pra ficar no repeat durante semanas nas paradas Pop's, como é o caso de "Look Like You Know" e "Where Are You No'', dois grandes exemplos para se entender como um disco comum ganha status de clássico, apenas pela levada que faz apologia às FM's .


E mesmo quando a banda aposta num clima mais down com a introspecção de "Don't Tell'', ou até mesmo tenta inovar com um boogie de teclados (em "Hook, Lines & Sinker"), fica bem claro como esse disco tem pouco a oferecer, ainda mais se comparado ao debutante..

O Royal Blood é uma banda interessante. O primeiro disco dos caras é um belo trabalho, mas essa gravação só mostra o quanto o mundo precisava abaixar a bola na hora de exaltar bandas dessa maneira.

Existem muitos grupos tão competentes (ou até mais) do que esse aqui, mas a questão no final do dia parece muito mais relacionada com o encurtamento das distâncias entre as bandas e as paradas de sucesso, do que uma busca por novas perspectivas em relação aos objetivos criativos de 2 músicos claramente competentes e criativos, mas que pelo menos aqui resolveram jogar com o livro de regras debaixo do braço só por comodidade, justamente num momento onde eles (muito provavelmente) tiveram mais dinheiro, tempo e recursos para ousar ainda mais... Vai entender uma merda dessas...

Vamos esperar que eles voltem para as origens no próximo disco, por que esse aí ficou manso demais.

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No Mundo dos Sons: o baião hermético do Homem de Gelo

A música é uma massa disforme e sedutora. Ela quer que alguém venha e mostre novas perspectivas, novos sons, formatos e ideias. Na verdade não é só a música propriamente dita, mas sim os seus e os meus ouvidos.

Quem gosta das notas busca novos desafios, almeja novas experiências com os fones de ouvido e quer sempre explorar os meandros que são capazes de transformar um Xaxado num Jazz em menos de 30 segundos.

Só que o grande lance é que pra fazer isso o músico precisa querer. É necessário criar sem amarras, tocar com liberdade e buscar novas sensações, ruídos e aspirações... É importante explorar a essência da música dentro de todo o seu contexto universal.


Hoje em dia são raros os músicos que fazem isso. Numa indústria que prioriza modelos recauchutados (ainda mais no Brasil), parece que o cenário está cada vez mais estreito para receber bandas que façam algo original ou menos simplório apenas para suprir as demandas do mercado Pop.

Mas enquanto o mundo caminha para o lado do minimalismo-hipster-nonsense, para encurtar as distâncias mercadológicas de uma indústria confusa em termos de modelagem de negócio, coube a um certo alagoano de 81 anos a difícil tarefa de mostrar, não só para o Brasil, mas ao mundo, que enquanto o cosmos ainda pulsar, vale a pena mergulhar nas profundezas do som e tentar trazer algo inédito para a superfície.

Line Up:
Itiberê Zwarg (baixo)
Ajurinã Zwarg (bateria)
André Marques (piano)
Jota P. (saxofone)
Fabio Pascoal (percussão)
Hermeto Pascoal (qualquer instrumento que você quiser)



Track List CD1:
"Viva São Paulo"
''Vinicius Dorin em Búzios"
"Para Thad Jones"
"Para Miles Davis"
"Mazinho Tocando no Coreto"
"Viva Piazzolla!"
"Forró da Gota para Sivuca"
"Carlos Malta Tupizando"
"Som da Aura"


Track List CD2:
"Entrando pelos Canos"
''Para Tom Jobim"
"Ilza Nova"
"Salve, Pernambuco Percussão!"
"Viva Edu Lobo!"
''Para Ron Carter"
"De Fabio para Jovino Santos"
"Um abraço Chick Corea"
"Rafael Amor Eterno"


Lançado no dia 28 de julho de 2017 pelo Selo Sesc, em parceria com a Scubidu Records, "No Mundo dos Sons" é o primeiro disco do Hermeto Pascoal & Grupo em 12 anos. Com a praticamente inflamável criatividade que lhe é peculiar, tanto Hermeto quanto o seu senhor grupo destilam uma coqueluche de ritmos, estilos e improvisos que cobrem toda a estética, tanto brasileira quanto mundial da música, sempre com rara atenção em cada uma das notas que formam as 18 faixas desse registro duplo.


Nesse disco é notável como Hermeto está mais focado nos arranjos. Muito disso também em função do projeto no formato de Big Band que o autodidata realizou graças ao Edital da Natura Musical. Esse trabalho, assim como "No Mundo dos Sons'', também vai sair em 2017, mas ainda sem previsão de data para lançamento.

Voltando ao mundo da música universal, 2 nomes da banda do homem de gelo merecem destaque: Itiberê Zwarg, comparsa do bruxo desde 77 (que nesse disco toca uma barbaridade) e o saxofonista João Paulo, responsável por dezenas de passagens sublimes, dignas daquelas melodias que você assovia durante semanas, como a açucarada homenagem de Hermeto para o infelizmente já falecido,Vinicius Dorin, saxofonista do grupo de 1993 até 2015.


Ainda rolam alquimias que brincam de fazer Free-Jazz como na abertura do disco com "Viva São Paulo", dinâmicas de Big Band, como no Baião-Fusion que homenageia o brilhante trompetista Thad Jones (em "Para Thad Jones") e ritmos quebrados e praticamente bipolares que dessa vez prestam tributo ao grande Miles Davis.

Aliás, este foi outro gênio que também conheceu os encantos Herméticos durante o apogeu de sua fase Fusion. Vale lembrar que o Sr. Pascoal foi destaque de um dos maiores registros da carreira de Miles, falo sobre o retumbante LP ao vivo intitulado "Live-Evil", lançado em 1971.


Um disco cheio de detalhes, "No Mundo dos Sons" é cirúrgico em sua riqueza, justamente por proporcionar uma grande imersão ao ouvinte. A levada que o filho do mestre (Fabio Pascoal) sustenta no triângulo de "Mazinho Tocano no Coreto" pode até parecer fácil, mas pra manter esse ritmo são outros 500. Belíssimo trabalho de percussão!

O filho do Itiberê (Ajurinã) é outro que rouba a cena. Durante a homenagem de Hermeto ao amigo Astor Piazzolla, a versatilidade da pegada na bateria é louvável. A classe do Tango definitivamente passou pelos kits do talentoso músico, assim como a perícia das teclas de Andre Marques durante mais uma homenagem, dessa vez para Sivuca ("Forró da Gota para Sivuca").


Momentos dignos do mais puro e absoluto deleite. Itiberê bufando no cangote de todos os instrumentos, melodias grandiosas (como em "Carlos Malta Tupizando") e mais de 90 minutos de pura maestria sonora como resultado.

Um disco duplo diretamente da fonte. Direto de um dos caras que não deve nada pra ninguém (há décadas). Sem dúvida alguma um dos maiores gênios da música interplanetária, dono de uma criatividade ímpar e um senso de urgência em compor que não se aquieta nem com 81 anos de idade.

Pode ser "Entrando Pelo Cano", ligando para o Tom Jobim ("Para Tom Jobim"), homenageando o Ron Carter ("Para Ron Carter") ou enaltecendo a virtuose de Chick Corea ("Um Abraço Chick Corea"), Hermeto Pascoal & Grupo mostram que a música contém nuances e conceitos estéticos que na mão de virtuosos deste calibre transformam a arte de musicar a mente de Hermeto numa tarefa que apesar de parecer fácil, é tão difícil quanto saciar o apetite do mago.

81 anos de idade e ainda com fôlego para lançar um dos maiores discos nacionais de 2017. Senhoras e senhores: Hermeto Pascoal & Grupo.

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Prepare o seu salmo: dia 19 de agosto rola Stoned Jesus em São Paulo

Depois de sua estréia em terras brasileiras no ano de 2016, o rápido retorno do Stoned Jesus ai Brasil mostra o quanto o som do trio ucraniano foi aceito frente ao ainda bastante resistente público de São Paulo.

Agora, já com certa intimidade com nossa terrinha, a banda agendou 5 datas no Brasil para o mês de agosto e ainda vai tocar o maior clássico do grupo até o momento ("Seven Thunders Roar" - lançado em 2012) na íntegra.

Arte: Victória Santos

Sobre o rolê de sampa, vale lembrar que além do trio principal a Abraxas ainda colocou o Red Mess (Londrina) e o Cobalt Blue (Floripa) no esquema, só pra mostrar que a cena local segue rendendo frutos nos mais variados eixos que formam esse país.

Pelo lado do Red Mess podemos esperar um show focado no repertório do primeiro full deste jovem combo de meliantes, o elogiado "Into The Mass", lançado em agosto deste ano. 


Já os caras da "Cobalt Blue" vão arrepiar os falantes com as faixas de "Stop Momentum", primeiro disco da banda, também lançado em 2017, mas durante o mês de abril.


Chegue cedo na Clash Club pra pegar a abertura do Red Mess. Depois já pegue uma breja pra sacar o Cobalt Blue e prepare o pai nosso pra cantar junto com o Stoned Jesus. Mais detalhes sobre a trinca de shows logo abaixo. 


Stoned Jesus em São Paulo
Evento no FacebookData: 19 de agosto de 2017
Horário: a partir das 18 horas
Bandas: Red Mess (18h30) + Cobalt Blue (19h30) + Stoned Jesus (20h30)
Local: Clash Club
Endereço: rua Barra Funda, 969
Ingressos Online: Sympla


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Nunca fiz uma playlist no Spotify #1 - Groove de alta patente

Com a popularização dos serviços via streaming a música ganhou novos contornos de consumo. Hoje é muito mais fácil ver alguém na rua atrás de uma playlist pra dar um gás no trampo, do que encontrar um meliante sacando o encarte de um CD enquanto faz a transferência da CPTM.

O consumo mudou e olha rapaz, tudo aconteceu bem rápido. E o mais engraçado é que no meio desse tiroteio de playlists, o Macrocefalia Musical, mesmo com quase 5 anos de vida no rolê, jamais soltou ou criou uma playlistzinha sequer.


É importante salientar que nossa equipe de fritadores psicodélicos sempre escreveu resenhas, logo, seria bastante estranho resenhar um disco ouvindo uma playlist. Nós fomos todos criados ouvindo discos completos, então o sentido de ordem, mais do que isso... Talvez seja o lance de linearidade (nem sei se essa palavra existe) que "atrapalhe'' o entendimento de romper e reinstaurar novos climas, faixa após faixa, assim como acontece numa playlist.


É um lance muito loco, mas que acaba sendo um desafio também, até por que, assim como uma boa playlist, a boa música precisa de groove, e como essa talvez seja a palavra mais escrita nesse espaço, nada melhor do que inaugurar as nossas playlists já abordando esse tópico que gosta de ver quadris requebrantes.

Por isso, segurem o rojão aí e fiquem com a playlist "Groove de alta patente", que nada mais é do que um compilado de 30 takes misturados entre velharias (não estou ofendendo ninguém - favor não me processarem) e novidades nessa área da música que deixa os glúteos malhados. São quase 3 horas de slap, quero ver quem aguenta.

De Jacob Collier à Stevie Wonder. Chamando o Thundercat e descendo no ponto da Aretha Franklin. De Parliament à Donald Fagen... Meu rei, apenes sente e observe o tempo de groove com a classe que apenas os grandes mestres conseguem emoldurar no slap.

PLAY!


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