No Mundo dos Sons: o baião hermético do Homem de Gelo

A música é uma massa disforme e sedutora. Ela quer que alguém venha e mostre novas perspectivas, novos sons, formatos e ideias. Na verdade não é só a música propriamente dita, mas sim os seus e os meus ouvidos.

Quem gosta das notas busca novos desafios, almeja novas experiências com os fones de ouvido e quer sempre explorar os meandros que são capazes de transformar um Xaxado num Jazz em menos de 30 segundos.

Só que o grande lance é que pra fazer isso o músico precisa querer. É necessário criar sem amarras, tocar com liberdade e buscar novas sensações, ruídos e aspirações... É importante explorar a essência da música dentro de todo o seu contexto universal.


Hoje em dia são raros os músicos que fazem isso. Numa indústria que prioriza modelos recauchutados (ainda mais no Brasil), parece que o cenário está cada vez mais estreito para receber bandas que façam algo original ou menos simplório apenas para suprir as demandas do mercado Pop.

Mas enquanto o mundo caminha para o lado do minimalismo-hipster-nonsense, para encurtar as distâncias mercadológicas de uma indústria confusa em termos de modelagem de negócio, coube a um certo alagoano de 81 anos a difícil tarefa de mostrar, não só para o Brasil, mas ao mundo, que enquanto o cosmos ainda pulsar, vale a pena mergulhar nas profundezas do som e tentar trazer algo inédito para a superfície.

Line Up:
Itiberê Zwarg (baixo)
Ajurinã Zwarg (bateria)
André Marques (piano)
Jota P. (saxofone)
Fabio Pascoal (percussão)
Hermeto Pascoal (qualquer instrumento que você quiser)



Track List CD1:
"Viva São Paulo"
''Vinicius Dorin em Búzios"
"Para Thad Jones"
"Para Miles Davis"
"Mazinho Tocando no Coreto"
"Viva Piazzolla!"
"Forró da Gota para Sivuca"
"Carlos Malta Tupizando"
"Som da Aura"


Track List CD2:
"Entrando pelos Canos"
''Para Tom Jobim"
"Ilza Nova"
"Salve, Pernambuco Percussão!"
"Viva Edu Lobo!"
''Para Ron Carter"
"De Fabio para Jovino Santos"
"Um abraço Chick Corea"
"Rafael Amor Eterno"


Lançado no dia 28 de julho de 2017 pelo Selo Sesc, em parceria com a Scubidu Records, "No Mundo dos Sons" é o primeiro disco do Hermeto Pascoal & Grupo em 12 anos. Com a praticamente inflamável criatividade que lhe é peculiar, tanto Hermeto quanto o seu senhor grupo destilam uma coqueluche de ritmos, estilos e improvisos que cobrem toda a estética, tanto brasileira quanto mundial da música, sempre com rara atenção em cada uma das notas que formam as 18 faixas desse registro duplo.


Nesse disco é notável como Hermeto está mais focado nos arranjos. Muito disso também em função do projeto no formato de Big Band que o autodidata realizou graças ao Edital da Natura Musical. Esse trabalho, assim como "No Mundo dos Sons'', também vai sair em 2017, mas ainda sem previsão de data para lançamento.

Voltando ao mundo da música universal, 2 nomes da banda do homem de gelo merecem destaque: Itiberê Zwarg, comparsa do bruxo desde 77 (que nesse disco toca uma barbaridade) e o saxofonista João Paulo, responsável por dezenas de passagens sublimes, dignas daquelas melodias que você assovia durante semanas, como a açucarada homenagem de Hermeto para o infelizmente já falecido,Vinicius Dorin, saxofonista do grupo de 1993 até 2015.


Ainda rolam alquimias que brincam de fazer Free-Jazz como na abertura do disco com "Viva São Paulo", dinâmicas de Big Band, como no Baião-Fusion que homenageia o brilhante trompetista Thad Jones (em "Para Thad Jones") e ritmos quebrados e praticamente bipolares que dessa vez prestam tributo ao grande Miles Davis.

Aliás, este foi outro gênio que também conheceu os encantos Herméticos durante o apogeu de sua fase Fusion. Vale lembrar que o Sr. Pascoal foi destaque de um dos maiores registros da carreira de Miles, falo sobre o retumbante LP ao vivo intitulado "Live-Evil", lançado em 1971.


Um disco cheio de detalhes, "No Mundo dos Sons" é cirúrgico em sua riqueza, justamente por proporcionar uma grande imersão ao ouvinte. A levada que o filho do mestre (Fabio Pascoal) sustenta no triângulo de "Mazinho Tocano no Coreto" pode até parecer fácil, mas pra manter esse ritmo são outros 500. Belíssimo trabalho de percussão!

O filho do Itiberê (Ajurinã) é outro que rouba a cena. Durante a homenagem de Hermeto ao amigo Astor Piazzolla, a versatilidade da pegada na bateria é louvável. A classe do Tango definitivamente passou pelos kits do talentoso músico, assim como a perícia das teclas de Andre Marques durante mais uma homenagem, dessa vez para Sivuca ("Forró da Gota para Sivuca").


Momentos dignos do mais puro e absoluto deleite. Itiberê bufando no cangote de todos os instrumentos, melodias grandiosas (como em "Carlos Malta Tupizando") e mais de 90 minutos de pura maestria sonora como resultado.

Um disco duplo diretamente da fonte. Direto de um dos caras que não deve nada pra ninguém (há décadas). Sem dúvida alguma um dos maiores gênios da música interplanetária, dono de uma criatividade ímpar e um senso de urgência em compor que não se aquieta nem com 81 anos de idade.

Pode ser "Entrando Pelo Cano", ligando para o Tom Jobim ("Para Tom Jobim"), homenageando o Ron Carter ("Para Ron Carter") ou enaltecendo a virtuose de Chick Corea ("Um Abraço Chick Corea"), Hermeto Pascoal & Grupo mostram que a música contém nuances e conceitos estéticos que na mão de virtuosos deste calibre transformam a arte de musicar a mente de Hermeto numa tarefa que apesar de parecer fácil, é tão difícil quanto saciar o apetite do mago.

81 anos de idade e ainda com fôlego para lançar um dos maiores discos nacionais de 2017. Senhoras e senhores: Hermeto Pascoal & Grupo.

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