O magnetismo de Thundercat: uma noite intergaláctica no SESC Pompéia

As gravações de um artísta são, quando vistas em ordem cronológica, um relato puro e absoluto de todo o seu desenvolvimento. São pistas que mostram aos ouvintes, por meio das notas, o quanto a música desse dito cujo passou por transformações, assumiu novas identidades e foi se moldando até atingir um ponto de ruptura.

Quando escrevo "ponto de ruptura" quero dizer "sucesso". Mas por que as aspas?! Sucesso é um termo vazio dependendo da perspectiva ou do contexto em que é utilizado, porém, esquecendo agora todos os agentes do mainstream que influenciam para que uma gravação "dê certo", pense no sucesso como um estágio onde o músico atinge o seu primeiro ápice, criativamente falando é claro.

E ao observar a música como um objeto de estudo 100% orgânico, o primeiro ponto de ruptura na carreira de Stephen Bruner, AKA, Thundercat, foi o seu terceiro disco de estúdio, o inovador e desafiador "Drunk", CD duplo lançado no dia 24 de fevereiro de 2017.


Foi graças a "Drunk" que Thundercat comeceçou a ter a devida atenção que o seu talento assombroso nos vocais e no baixo merecem. Foi também graças a suas gravações junto de nomes como Kamasi Washington, Kendrick Lamar e Erykah Badu (isso só para citar alguns), que o músico ficou em evidência dentro de um cenário que hoje o enxerga como referência em termos de qualidade e, principalmente, criatividade.

Mas para o público brasileiro, a verdadeira oportunidade de entender o bem que caras desse nível fazem para a música aconteceu de uma vez só, e foi durante as duas noites em que Stephen foi um dos destaques da grande iniciativa Jazzística do SESC, o "Jazz na Fábrica".

Acompanhado pelo também espetacular (baterista) Justin Brown, e pelas passagens climáticas de Dennis Hamm nos teclados, Thundercat e banda fizeram 2 shows memoráveis, o primeiro deles na quinta-feira (17 de agosto) e o segundo na sexta-feira, vulgo dia 18.


Com um set list que intercalou músicas de seu mais recente registro, além de passagens dos 2 primeiros ("The Golden Age Of Apocalypse" - 2011 e "Apolypse" - 2013) e algumas fagulhas de seu EP ("The Beyond/Where The Giants Roam" - 2015), Thundercat mostrou um nível de musicalidade ridícula, muito feeling e deu uma aula de 2 horas sobre dinâmica musical enquanto foi brilhantemente acompanhado por Justin e Dennis Hamm.

Foi um absurdo em termos técnicos, um caldeirão de solos e um shot psicodélico de pura virtuose, magnetismo e novos horizontes musicais. Foi impressionante ver que, mesmo numa formação em trio, bastante compacta, todos os envolvidos conseguiram trazer a atmosfera de "Drunk" para o palco, algo notável, ainda mais dado o número de músicos presentes nessa gravação e a quantidade de complexos detalhes que permeiam essa grande obra.

Com uma cozinha centrada em Thundercat e Justin, onde o primeiro atravessa o tempo e vira suas próprias composições do avesso, solando, subindo e descendo as escalas de seu baixo de 6 cordas, Justin fica aparentemente vendido na história, não?! Mas o que é mais louco é que ele parece estar sempre um passo a frente de Stephen, pois ainda precisa fazer a cama para as teclas de Dennis Hamm, talvez o menos celebrado nome deste combo, porém um ponto focal primordial em termos de estrutura musical.


Uma experiência sensorial, psicodélica e completamente nova, assistir esse cara ao vivo é uma prova cabal para os limites da música e para a expansão do Jazz em termos de linguagem e novos capítulos. Esqueçam as comparações com mitos de outrora, não ousem traçar paralelos com o tipo de som do passado ou até mesmo com um futuro que nós ainda nem vivemos. 

Não sei o estilo de música que o senhor Stephen Bruner toca. Pra isso creio que precise conversar com ele, mas se existe algo que posso afirmar é que ele faz música no termo mais amplo da palavra. Seja tocando "Them Changes", "Lotus And The Jondy" ou "Trom Song" o baixo desse cidadão é um sopro de ar fresco e isso é tudo que você precisa entender para ouvir tudo que ele cria dentro de sua mente.

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