Carta aberta de um fã de Steely Dan

A música é facilmente uma das minhas maiores fontes de felicidade. Para quem realmente aprecia a arte das notas, ouvir um bom disco pode mudar uma vida, e foi isso que o Steely Dan fez com a minha depois que escutei o "Aja" (1977), sexto disco de estúdio de uma das bandas mais perfeitas que já passaram pela Terra.

Lembro até hoje de como tudo aconteceu. Estava ouvindo algum som com meu pai, quando ele, como num insight praticamente espiritual, abriu um de seus olhos (interrompendo seu cochilo) e me chamou: "Guilherme, você tem que ouvir Steely Dan".

Tão logo a frase tinha chegado ao fim, acredito que o cidadão já estava roncando novamente, mas eu fui, com a rapidez de um gato sob efeito de glicose, procurar os discos do Steely Dan, logo ali, na temida prateleira da letra "S".


Entre tantas opções, duas capas me chamaram a atenção, e confesso quase acordei meu pai outra vez pra perguntar qual delas escolher... É como diz o tio do homem-aranha: "Com grandes poderes surgem grandes responsabilidades", e depois que eu escolhi o "Aja", logo após ficar entre ele e o "Royal Scam" (quinto disco do grupo, lançado em 1976 e o meu preferido), confesso que eu nunca mais vi a música da mesma maneira.

Por isso que depois de ficar sabendo da morte do genial Walter Becker, parceiríssimo do Donald Fagen dentro desse colosso musical que é o Pop perfeito do Steely Dan.... Nossa, me faltam palavras para expressar o que gostaria.

A música da dupla viverá para sempre. Enquanto batuco essas teclas tenho certeza que alguém está ouvindo o Dan pela primeira vez e já está embasbacado, mas foi um baque descobrir isso e, mais do que qualquer coisa, perceber que nunca terei a oportunidade de ver 2 dos mais brilhantes e perfeccionistas músicos de todos os tempos tocando juntos novamente.


Com Walter aprendi como a música pode ser rica, minuciosa e beirar a perfeição. Aprendi a importância de ouvir uma gravação que me mostre os detalhes de todos os instrumentos, e confesso que infelizmente adquiri o hábito de ser chato pra cacete também. Nesse ponto a culpa não é minha, mas sim do alto padrão estabelecido por todas as gravação do mestre Becker. Ele me acostumou mal. 

Acho que nunca vou ouvir nada tão preciso e exato esteticamente outra vez. É triste perder um ídolo sem ao menos ter tido a oportunidade de vê-lo ao vivo, mas é uma dádiva saber que ele tocou tantas pessoas da mesma forma que tocou a mim.

Profissionalmente falando, Walter alcançou tudo que poderia. Não vou dizer que ele conseguiu tudo o que gostaria, por que com uma mente musical tão complexa como a dele a e de Donald, acredito que tenham limites sonoros que ele não conseguiu quebrar, mas espero que ele tenha transcendido com a mesma classe de sua guitarra, o mesmo brilho de seu timbre e a mesma precisão cirúrgica do solo de "Pretzel Logic" (74).

Muito obrigado Walt, você e o Sr. Fagen mudaram a minha vida.

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