Medusalodoom - Qual é a fita desse Rock fumado brasileiro? Renan Casarin Explica

Meu nome é Guilherme Espir. Sou de São Paulo e escrevo sobre música tem quase 6 anos. Esse espaço, o Macrocefalia Musical, tem sido meu laboratório desde o final de 2012, pra falar, não só sobre Rock, mas também Blues, Soul, muito Funk, Jazz, Fusion, MPB, Zappa e etc, isso desde que eu curta e tenha uma ideia pra abordar em texto.

Desde que comecei a escrever, sempre priorizei esse canal, mas também fiz ponte no La Parola, do Flaubi Farias, no Southern Rock Brasil (Filipi Junio), New Yeah Música, Whiplash, CDM (Joyce Guillarducci), O Inimigo (MTV), Oganpazan e Obvious Lounge, sempre percebendo como a cena, agora com foco no bandido "Rock nacional", está mudando.

Hoje existem dezenas de bandas aqui em sampa. No Rio tem mais uma penca, Nordeste está quentíssimo nesse aspecto, em Londrina tem muita gente boa também e quando tu desce de carro indo em direção ao sul do país, o eixo Rio Grande do Sul-Floripa, espanta pela efervescência e pela volatilidade com a qual a cena está se desenrolando de 2010 pra cá.

Necro no Morfeus Club. Nesse dia ainda teve Hammerhead Blues e Saturndut

Tem gente em Minas Gerais (Deserto Elétrico), Goiânia, Brasilia... São dezenas de estados e muitas bandas interessantes. O movimento é bastante rico e conta com uma galera bem jovem e com uma maturidade que assusta em termos de quantidade de grupos, qualidade de gravação e maturidade sonora mesmo.

O problema disso tudo é que, agora falando só de São Paulo, a cena underground não é todo esse glamour utópico que a galera fala ou finge que dá apoio através do Facebook.

O público de São Paulo é resistente pra caralho. A grade de eventos da cidade é insana de movimentada e sempre, SEMPRE, vai ter alguma coisa pra fazer, seja um rolê pra encher a cara e fumar maconha ou até mesmo pegar um show da cena, patrocinado pelos produtores locais que sofrem demais pra conseguir 10 pagantes num show que, no evento do Facebook, tinha 200 confirmados.

Abraxas Fest com Bombay Groovy, Anjo Gabriel e The Flying Eyes

É foda tu encher uma casa. É bem difícil colocar um público bom num rolê de semana ou final de semana, isso além de ter que contar com a sorte de escolher uma data que já não tenha 7 shows coexistindo, fora que precisa torcer pra não chover.

Se choveu no dia do seu rolê cara, esquece, a galera daqui vai desistir de ir e digo mais, não fique puto caso eles ainda tenham a moral de ir num bar tomar chopp ouvindo banda cover. Esse negócio de banda cover está sumindo, é verdade, mas ainda assim faz parte da noite paulistana e ainda vai demorar pra descentralizar isso aí.

Por que estou chorando tantas pitangas assim? No dia 22 de janeiro saiu, com exclusividade pela Vice (Noisey), o documentário "Medusalodoom", um trampo com produção do Renan Casarin, talvez um dos caras mais criativos quando o assunto é clipe e live session da galera que forma a cena "Stoner", puro revisionismo, pelo menos em termos de nomenclatura pra definição de gênero.

Monstro Amigo numa noite de mais chapação - Foto: Macrocefalia Musical

É estranho isso também, como existe gente que precisa classificar o som, até por que se você parar pra pensar, é impossível colocar a Augustine Azul, da Paraíba, por exemplo, no mesmo patamar do Radio Moscow em termos de estilo. Hoje chamam ambos de Stoner, mas é claro que não é assim que funciona. 

É bom perceber isso por que fica fácil entender que a cena hoje caminha como um bloco, mas na prática o bagulho ainda é muito embrionário e foi isso que o documentário do Renan Casarim mostra. Apesar do fulminante crescimento, a cena do Brasil ainda é um bebê engatinhando perto dos caras da Europa e Estados Unidos.

Existe muito mato pra capinar. É claro que também não quer dizer que falte profissionalismo, mas ainda existe muito espaço pra crescimento, abertura de eixos, novos espaços pra esses rolês (até mesmo em São Paulo), e também seria interessante contar com mais produtoras por que uma Abraxas só não faz verão. Os irmãos Toscano precisam sofrer umas 420 meioses pra dar conta de tanta coisa que pinga na caixa de entrada deles.

Munoz no Superloft - Foto: Macrocefalia Musical

Não existe nada parecido com esse documentário na cena. Esse é apenas mais um indicador pra comprovar como ainda tem espaço pra crescimento, algo que é bom pra todo mundo. Aqui, as lentes derretidas do Renan conseguem captar a essência de todo o corre que é feito pra sustentar a correria do underground minimamente, seja em floripa ou em sampa com a Doomnation.

Com foco no festival Megalodoom, realizado em Brusque e no Medusa Stoner Fest, sediado em Florianópolis, o documentário  "Rock Chapado Brasileiro" serve pra você que já saca a cena e pra qualquer meliante que ainda esteja estudando o movimento. As próprias bandas que fazem a parada, falando sobre elas mesmas e desenrolando sobre os seus companheiros de van, trocando ideia sobre o eixo do Nordeste, lembrando da Necro, Black Witch, salientando a galera de Curitiba, lembrando dos caras da Pantanum...

Arte: Lucas Klepa

Discussão com quem entende e faz o bagulho acontecer, tudo aí, sem cuspe e sem massagem direto para os seus ouvidos e com a sensibilidade do cara que dirigiu tudo isso e fez o corre de edição durante o ano de 2017 inteiro. 

Com ajuda do Júlio Miotto (produção - Calamar Sounds), Renan nas filmagens, edição e direção, além do Lucas Klepa e do Felipe Maciel nas câmeras adicionais, "Rock Chapado Brasileiro" é o primeiro trampo brasuca que cumpre a difícil função de prover um plano de fundo para o underground nosso de cada dia.

Ainda consegui trocar uma ideia com o responsável por toda essa empreitada. Foi importante pra sacar a visão dele sobre tudo isso e projetar outras coisas, visando o crescimento de todo mundo, desde as bandas até a galera que fica atrás das câmeras.

1) Renan, como que é fazer um corre independente desse, mesmo numa cena que, como vimos no documentário, está crescendo bastante, mas que em termos concretos, ainda está num estágio embrionário?


Cara, é um corre trabalhoso, porém muito satisfatório porque tem paixão envolvida no trampo. É difícil de fazer acontecer o que rolou no doc, que foram  2 festivais em um dia, no outro dia gravar um monte de sessions e para finalizar captar mais um show pela noite.

Porra, foi uma sequência de eventos de música “chapada” em um final de semana, e isso não acontece sempre. Tudo isso aconteceu pela união da galera que produziu a porra toda, as bandas, os produtores, o público que saiu de um fest em uma cidade e foi para outra na mesma noite só para colar nos shows. E pô, isso não acontece sempre, por isso que documentamos esses rolês, foi algo além do normal. União é a palavra que resume tudo.

2) Como que você vê esse lance de bandas com diferentes estilos estarem no mesmo bloco do Stoner?


Acho isso lindo man, traz diversidade nos sons e em tudo que está relacionado a música, cada banda tem a sua releitura nas influências que cercam esse meio. Eu sempre falo que o Stoner é um movimento, e é como o Mauro da Muñoz disse no doc, tudo hoje em dia virou Stoner.

Se tu tens uma banda que tem um som “chapado”, um riff arrastado ou umas paradas psicodélicas no meio, já rotulam como Stoner. E eu não vejo mal nisso, tem gente que sim, mas é uma parada que tá rolando e tá massa demais, ainda mais pra quem curte esse tipo de som. Mas no final das contas é tudo Rock ’N' Roll.

3) Como você acha que é possível evoluir com a qualidade da produção local, sempre aliado a sua área, a produção audiovisual?


Cara, temos que produzir mais, muito mais! Falo isso em relação a música no geral e agregando o audiovisual junto. Eu comecei nessa de gravar bandas em 2013, e essa é a minha paixão desde então, é uma parada que eu sinto tesão em fazer, música e vídeo, os dois tem que andar juntos.

Uma coisa é só escutar a música, mas se tu adiciona uma produção audiovisual junto, porra, a brisa só aumenta. Seja em um clipe, uma live, um vídeo experimental, cobertura de rolê, documentário, tanto faz, só vai agregar.

Aí muita gente vem falar, “Ah, mais e a grana pra bancar a porra toda?” Galera, tudo se resolve na conversa, tem que ficar bom para os 2 lados. Aproveitando a deixa, bandas e produtores, banquem o transporte, o rango, aquele colchão na sala com um ventilador, e uma grana a mais (porque tenho que pagar contas também rsrs) e bora produzir porra, me chamem que eu vou com o maior prazer, tô falando sério.

4) Hoje em dia eu acho que o maior problema dos eventos menores é o pouco tempo de divulgação + pré evento fraco + pós evento pífio. Quais são os detalhes de produção que você acha que podem fazer diferença no resultado final, mas que aqui no Brasil ainda estão em fase experimental?


Eu falo que a publicidade é a alma do negócio, tem que ser marqueteiro, afinal estamos envolvidos no mundo da música e de certa maneira quem produz música e eventos tem que tratar isso como um empreendimento. Mas mesmo divulgando pra caralho tem muita gente que não cola, seja por falta de grana, transporte/distância, compromissos no mesmo dia do rolê, ou porque é pau no cú mesmo e não vai prestigiar as bandaças que nosso país tem, ou só paga pau pra banda gringa, enfim, são muitas variáveis.

E tem aquele velho lance do brasileiro de deixar tudo para a última hora, muita galera decidi ir nos rolês em cima do laço e acaba não indo. Eu mesmo só não vou em alguns rolês por causa do meu trampo “comum” e pelo translado.

Mas voltando a pergunta, temos que ampliar mais em termos de público, falo no sentido de fazer uma parada que atraia mais pessoas de fora, tipo esses festivais que agregam arte no geral, feiras de arte coletiva (tem muitos artistas fodas no nosso meio), rangos para todos os gostos, cerva barata e colocar bandas de outras vertentes do rock também. Acho que é por aí.

5) E sobre a mescla de bandas, você acredita que o negócio ideal é montar um line que traga o cara do Punk, mas também chame o meliante do Hardcore ou é melhor deixar as coisas cada uma na sua caixinha?


Quanto mais diversidade melhor, mais galera vai colar nos rolês né. Amo o som arrastado, psicodélico, mas não podemos nos fechar apenas nisso. Pô, um exemplo foi o Giramondo Underground Festival, que rolou em Brusque/SC. Tinha Punk, Blues, tinha Rock ’N' Roll, e Doom, E foi foda pra caralho! Foi um dos fests mais doidos que já fui e teve feira de arte coletiva, rangos e tudo mais, como comentei na resposta anterior. Na minha opinião tem que ter mais festivais como foi esse.

6) A cena nunca viu um trabalho parecido com esse. Você pretende fazer outros documentários com foco em outras regiões do país? Depois do sul acho que o sudeste e o nordeste são 2 dos principais pilares na cena hoje, como você vê a galera, pensando regionalmente?


Sim man, por favor! Hahaha Quando gravamos o Medusalodoom foi sem noção nenhuma, apenas peguei a câmera e saímos gravando tudo, sem planejar nada, mas ficou bom mesmo assim, mas os próximos vou planejar melhor, até faltou várias bandas para inserir aqui na região sul, como a Cattarse, Pantanum, Cassandra, Quarto Ácido, Rinoceronte que agora voltou a ativa.

Até daria para fazer outro doc só com essas bandas. Mas como tu falou, o Sudeste e Nordeste são uma ótima pedida! E porra, o Nordeste só tem banda foda cara, se rolar mesmo vou ficar mó feliz de conhecer essa região do nosso país e a galera que faz acontecer por lá, e já estou conversando com uma galera pra fazer esses próximos docs rolarem.

Mas tudo no seu devido tempo, porque não é tão fácil assim também. Cara, cada região tem suas características, seja na geografia, na cultura, no rolê. Em Sampa só fui em um rolê até hoje, que foi o Belzebong, e o mais próximo do Nordeste que cheguei foi em Brasilia, mas não foi pra rolê, então não sei bem como as coisas rolam por lá. Mas quero muito ir sim e mostrar tudo o que rola nesse cenário da música chapada, arrastada, psicodélica que tem no nosso Brasa.

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