O Sampa Jazz Fest é um exemplo para a cena nacional

No Brasil, muito se fala sobre as atrações que formam os grandes festivais do nosso calendário de eventos. Nomes como o Lollapalooza e o Rock In Rio, por exemplo, "sofre" todo ano com piadas relacionadas ao perfil esquizofrênico das atrações escolhidas para integrar a programação.

Pensando em menor escala, isso também é algo recorrente, mesmo em festivais que prezam pela cultura independente. Mas o interessante é que ano após ano, várias bandas brasileiras seguem fazendo barulho, tocando fora do país, criando música autoral que vai do Baião ao Jazz, e mesmo assim continuam fora desses eventos. Ainda bem que pessoal do Sampa Jazz Fest pensa diferente.

E aí surge um questionamento: qual é o motivo pra isso acontecer? Depois de 3 dias com o melhor do Jazz com PIB 100% nacional (se você ignorar o fato de que o Richard Bona é camaronês), percebi que o problema não são os músicos, nem os patrocinadores, tampouco a organização, o grande "X" da questão é a mentalidade.

Foto: Sigma F Fotografia

O próprio Esdras Nogueira, a primeira atração do terceiro dia de eventos na Casa das Caldeiras, foi categórico quando disse que a organização do festival era maluco por ter produzido esse evento. É claro que ele estava sendo irônico e que obviamente tratava-se de um elogio ao excelente trabalho feito por toda a equipe, mas essa brincadeira tem um grande fundo de verdade.

Pegue o próprio Esdras como exemplo. Por anos ele foi integrante do Móveis Coloniais de Acajú. A banda terminou e ele deu prosseguimento aos seus projetos paralelos, se mantendo não só ativo na cena, mas também relevante. 

Numa formação ainda que enxuta, com sax, baixo, batera e guitarra, a banda fez miséria enquanto usava o Jazz como moeda de troca pra emular as nossas próprias raízes. De quebra, o quarteto ainda arrumou uma desculpa pra fazer uma versão de Hermeto Pascoal - numa homenagem a Hermetagem que teria início naquele mesmo palco.
Com um currículo e com o espetáculo que fizeram, o combo do Esdras tem groove pra tocar em qualquer festival, seja ele do que for. A música é orgânica e as linhas são claras, cristalinas e corroboram para criar climas sempre repletos de balanço.

Logo depois teve Hermeto Pascoal tocando no modelo de Big Band que caracterizou o projeto lançado em parceria com o selo Natura Musical. O espetáculo "Natureza Universal" foi tocado como num concerto, com destaque para a bateria do Cleber Almeida, as guitarras de Fabio Leal, a participação do amuleto Arismar do Espírito Santo no baixo e um naipe de orquestra conduzidos pelo pianista/regente André Marques. 

O show foi um espetáculo primoroso. Hermeto fez sábias intervenções ao piano e foi muito engraçado prestar atenção no próprio compositor de todo esse colosso sonoro que são os arranjos desse disco. Ver o Hermeto rir ou batucar os dedos para acompanhar aquelas ideias todas foi formidável.
Sempre com uma humildade que parece ser maior do que a sua musicalidade universal, Hermeto observava o seu grupo construir, nota por nota, toda aquele universo que ele criou com a mesma naturalidade de quem coloca água nas forminhas de gelo. Esse é o tipo de show que precisa ser visto e o trabalho de todos os músicos envolvidos beira a perfeição.  

Pra colocar a plateia pra dançar, o terceiro ato da noite só podia ser o Bixiga 70. O grupo de Cris Scabello, Daniel Nogueira & cia do Groove colocaram a casa no chão. Com um repertório já mais azeitado para incorporar ainda mais sons do último disco ("Quebra Cabeça"), o grupo foi administrando a panela de pressão com classe, sempre voltando pro banho maria quando a casa ameaçava desabar.

O roteiro dos caras é muito interessante. Não é um show que vai perdendo energia ao longo do tempo, muito pelo contrário e ao que parece, quando a banda está num festival, a química é ainda mais livre. É até chato ser um crítico musical no show do Bixiga 70. Percebo que na maioria das vezes, nós, escribas, chovemos no molhado, mas com tamanha qualidade, desculpem, mas tem que ser feito.

Foto: Macrocefalia Musical

E se o rolê todo tivesse sido encerrado ali mesmo, não tinha nem como reclamar. A essa altura do campeonato eram mais de uma hora da manhã quando o Richard Bona apareceu no palco e mostrou que além de fazer o que quiser com seu baixo, o cidadão ainda é afinadíssimo nos vocais. 

Apesar do set mais curto e de seguidas reclamações quanto a qualidade do som, a plateia teve a oportunidade de ver um dos maiores músicos do planeta, acompanhado por uma banda que é o retrato de toda essa fonte miscigenada de influências que caracterizaram a carreira do músico.
São 50 verões a serviço do Jazz-Funk e todo essa experiência tratou de desmotivar todos os baixistas que estavam observando a assombrosa técnica de suas 6 cordas. Com tempos dos mais intrincados, belos embates instrumentais e uma aula de dinâmica musical, o baixista encerrou o festival e me faz retomar a pergunta que iniciou esse texto. 

Por que todos esses projetos brasileiros não tem lugar nos grandes festivais da cena mesmo? 

Bom, motivo pra isso não existe, ainda mais visto que a Casa das Caldeiras estava apinhada de gente... Acho que nesse caso o problema é coragem, a mesma coragem que todos os músicos que subiram ao palco do festival tiveram para desafiar o cenário de música instrumental no Brasil.

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Sampa Jazz Festival: Meretrio & Carol Panesi

Quando se olha para o atual momento do Jazz no Brasil, poucas pessoas reconhecem o valor de alguns grupos que formam a cena. O motivo para alguns desses casos é que nomes como o Meretrio, por exemplo, saíram do país e agora já radicados na Áustria, rodam o circuito europeu de Jazz a torto e a direito há pouco mais de 5 anos.

A própria Dani Gurgel, já citada no texto que fala sobre o primeiro dia de Sampa Jazz Fest, também está rodando nesse eixo e até no Japão já tocou. Outras bandas do line up do festival também possuem grande experiência internacional, como é o caso do Bixiga 70 (que já chegou pra somar no groove até na Índia) e do Hermeto Pascoal, bom, do homem de gelo nem se fala.


E para comprovar os poderes da música universal e os efeitos da globalização, a curadoria do Sampa Jazz não só trouxe o Meretrio para um show especialíssimo, celebrando 14 anos de história da banda, como também abriu espaço para que os paulistas destilassem toda o dinamismo do rico fraseado do trio.

Formado pelo guitarrista e trombonista Emiliano Sampaio, Gustavo Boni (baixo) e Luís André Gigante (bateria), o grupo mostra um entrosamento singular, praticamente telepático em alguns momentos.

O Meretrio está fora do Brasil faz 5 anos, mas a sua grande paleta de cores mostra que depois do "Tico-Tico no Fubá", até a Áustria fica logo ali.

Esse novo formato do show do grupo, com o Emiliano fazendo as guitarras e o trombone em loop é muito interessante. Enquanto a banda mergulhava em vertiginosas linhas com toques Funkeados, passeando pelo Blues e até mesmo pelo Country, fica claro como o Jazz não é só um estilo, mas sim uma linguagem, um dialeto que desafia os poliglotas com a difícil tarefa de promover diálogos entre diferentes estilos e ainda sim não perder sua identidade.


Depois de um grande set o público ainda ficou com o show de Carol Panesi, uma das discípulas da Hermética arte da Música Universal. Vale lembrar que a musicista acompanhou Itiberê Zwarg durante 10 anos, período em que ela fez escola na Música Universal, trabalhando ao lado do braço direito de Hermeto.

Num show que celebra a nossas raízes musicais, a vocalista, violinista e trompetista foi muito bem acompanhada por seu trio e foi do samba ao choro com grande naturalidade e sentimento. Foram duas atrações muito diversas, mas ambas deixaram claro o poder da música instrumental.

A principal mensagem do Sampa Jazz Festival não são as atrações do encerramento do festival, o que motiva essa equipe, ano após ano, é ver que a nossa música sempre se renova. A produção que monta toda a estrutura do festival só dá um espaço pra galera tocar, até por que uma vez sob o palco, músicos desse calibre não deixam pedra sob pedra.

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Sampa Jazz Festival: Nelson Ayres Big Band & Dani Gurgel

Nunca assisti um show no cinema. Acho que o mais perto que já cheguei foi quando resolveram passar a mais recente versão do show do David Gilmour em Pompeii num cinema da Avenida Paulista. 

O interessante é que essa experiência, por mais que eu pensasse ser rara ou que jamais fosse se repetir, acabou sendo o gatilho para apreciar as duas primeiras noites do Sampa Jazz Festival com muita classe.

Foto: Sigma F Fotografia

Com todo o requinte que o espaço Itau de cinema pode oferecer, o Sampa Jazz chegou a sua terceira edição com grandes atrações e soube trabalhar, pouco a pouco, numa crescente sonora que culminou num apoteótico encerramento na Casa das Caldeiras.

Mas antes, a primeira perna do festival contou com 2 shows por noite, no espaço localizado na Rua Augusta e a experiência foi tão enriquecedora que o cinema e a música se confundiram com o requinte de sons que pareciam parar no tempo, brincando com o imaginário das pessoas com o mesmo olhar lúdico que os negativos da telona.
E a primeira atração da noite veio pra mostrar o poder dos grandes arranjos e a importância de se pensar a música com toda a profundidade e o caráter cerebral que o Jazz merece. Foi com o time de Nelson Ayres que a plateia entendeu toda a importância do músico para o cenário nacional, enquanto o seu repertório ia do Jazz a música brasileira com a mesma naturalidade que o compositor vai buscar um copo de água na madrugada.

Vale ressaltar que no começo dos anos 70 Nelson se tornou referência ao partir na contramão das orquestras de baile e promover um blend moderno entre Jazz e música brasileira onde o músico e seus solistas demonstram uma inebriante visão musical, tão cheia de possibilidades quanto um filme mudo, só esperando pelas notas do regente pra começar a colorir o scrip do Jazz.

Foto: Sigma F Fotografia
O último show desse primeiro dia ficou a cargo da Dani Gurgel. Um dos nomes mais interessantes da cena, Dani chegou ao palco do Sampa Jazz depois de muito fazer pelo grooove nosso de cada dia. Vale pontuar que a musicista passou 15 anos como saxofonista, tocando na Big Band de Roberto Sion, além de ter somado na cozinha da Zimbo Trio.

Mas depois de 15 anos vivendo sob a luz da música instrumental, a (hoje) vocalista começou a compor e já está em seu segundo disco solo, o excelente "Tuqti", liberado pela Tratore no dia 04 de julho de 2018.

E é exatamente assim, com a mesma naturalidade com a qual a cantora brinca com suas sofisticadas harmonias, que sua lírica viaja o mundo para mostrar a beleza de nossa própria cultura. Com uma banda tão plural quanto o vasto vocabulário de sua figura principal, a performance do grupo é leve, formada por vívidos arranjos e mostra como a música se expande quando os músicos trabalham sem amarras estéticas.

Foram 2 sets exuberantes. Tudo nosso, tudo brasileiro. Que coisa linda.

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Como a Electric Hendrix Ensemble ressignifica o Jazz a partir da música de Jimi Hendrix

Dentre os incontáveis mitos que caracterizaram a apoteótica passagem de Jimi Hendrix pelo cosmos terrestre, um deles está longe de ser uma pura invenção da mídia que tentou - ainda que em vão -classificar um dos maiores enigmas sonoros da história da música.

Poucos sabem disso, mas Hendrix foi um grande fã de Jazz. James apreciava, principalmente, o trabalho de músicos de sopro, algo que influenciou bastante sua lírica guitarrística. Grande admirador de nomes como Rahsaan Roland Kirk, o cherokee até registrou algumas sessões de estúdio no Electric Ladyland ao lado de Jazzístas como John McLaughlin e Larry Coryell, por exemplo.

Inclusive, a sessão gravada ao lado de McLaughlin foi vetada pelo próprio idealizador de 2 projetos fundamentais para a história do Jazz, mais especificamente o Fusion ou Jazz Rock. Foi ao lado do Mahavishnu Orchestra e do Shakti que John impressionou não só Hendrix, mas o mundo todo com essa nova linguagem. É uma pena que ele nunca liberou o material... Hendrix e John no estúdio? Sortudo foi o Eddie Kramer que viu tudo isso!

E é aí que reside a principal questão desse texto. A partir da música de Jimi Hendrix, a Big Band paulista Electric Hendrix Ensemble, mostra como o Jazz consegue expandir qualquer recurso para continuar aumentando o alcance não só do Hendrix, mas também do Jazz como um todo.

Line Up:
Eder "Hendrix" Martins (guitarra)
Rob Ashtoffen (baixo)
Wagner Vasconcelos (bateria)
Sintia Piccin (saxofone barítono)
Estefane Souza (trompete)
Richard Fermino (trompete/saxofone tenor)
Lua Bernardo (flauta/backing vocal)
Danilo Moura (percussão)


Foto: Julia Sprecher

Os objetivos se confundem, mas basta pegar a banda, ao vivo, durante as quarta-feitas no Jazz nos fundos, que o esquema fica tão claro quanto o swing do Wah-Wah do Eder Hendrix. Tocando num formato que muito favorece a improvisação, a banda conta com uma linha de sopros, percussão, bateria, baixo, guitarra, voz e ainda vem acompanhada por um músico convidado toda semana.

Teve uma semana que o baixista Rubem Farias (Mike Stern) chegou pra somar no Groove. Outro dia teve Fábio Leal, guitarrista que já tocou ao lado de nomes como Hermeto Pascoal (por exemplo) Conrado vieira (Prog Jazz do Absurdo) dentre outros fritadores da cena brasuca.

Foto: Julia Sprecher

Nenhum show dos caras é igual. Não é só o fato de chamar músicos diferentes toda semana, essa é uma questão intrínseca ao domínio de repertório. Improvisações que transformam o que seria um solo de batera do Mitch Mitchell numa levada torneada em grooves de altíssimo nível técnico e que ainda contam com o suporte de metais.

Arranjos grandiosos, química pura e um ideal futurista que sempre estica, dobra e vira a música, seja ela de quem for, do avesso. Não é só tocar Hendrix, mas sim promover um diálogo entre todo o frescor de sua música frente as novas possibilidade do Jazz e da improvisação livre.

De "Crosstown Traffic" até o Jazz de Miles Davis... Bom, é tudo logo logo ali em Pinheiros.

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