A cozinha hermética do Samsara Blues Experiment

Cada som segue um caminho. Toda alquimia sonora é criada a partir de um estímulo, seja ele estético ou até mesmo filosófico. Sabe aquele conexão entre as sinapses que fez você criar um riff semana passada? Então, é interessante pensar na música como um corpo que nasce, cresce e se desenvolve para perpetuar novas influências de maneira relevante.

Esse fenômeno impacta as referências criativas e com o passar do tempo é um grande prazer observar o crescimento de grupos tão originais e espontâneos como o Samsara Blues Experiment, por exemplo. O quarto disco de estúdio da banda, ''One With The Universe", lançado no dia 10 de abril de 2017 prova como os alemães estão no auge, trabalhando de maneira inventiva, numa formação compacta, porém absolutamente livre e cirúrgica dentro do que se propõe a fazer. Assim como já diz o título, esse registro coloca o ouvinte em comunhão imediata com o universo.

Line Up:
Christian Peters (guitarra/vocal/teclados/sintetizadores)
Thomas Vedder (bateria)
Hans Eiselt (baixo)



Track List:
"Vipassana"
"Sad Guru Returns"
"Glorious Daze"
"One With The Universe"
"Eastern Sun & Western Moon"


A Música não é só um exercício puramente criativo. Criar é com certeza um dos pilares do groove, mas explorar talvez seja o outro lado desse pêndulo, o centro de gravidade que equilibra as influências de um compositor.

O Samsara é uma banda que possui esse DNA de pesquisa. Desde alterar a estrutura da banda, indo de quarteto para trio, a banda sempre presou por seguir experimentando. O vocalista e guitarrista Christian Peters, nutre diversos projetos paralelos que envolvem desde música eletrônica - o cara é fissurado em sintetizadores - até Krautrock, passando pela música indiana.


Foram 4 anos até a gravação desse full, mas a espera definitivamente valeu e pena. Se no disco de inéditas anterior ("Waiting For The Flood" - 2013) a banda chegou com um approach mais Jazzeado, nesse mais recente trabalho, pode deixar que o Christian já apresenta o sinth logo na faixa de abertura, com "Vipassana".

Temas longos, texturas lisérgicas que questionam a passagem do tempo e uma dinâmica que transforma qualquer frase ou tema num grande Raga. Esse é o rico vocabulário do Samsara Blues Experiment.


Os climas seguem surpreendentes, os timbres de guitarra e a sensibilidade da sessão rítmica é notável em temas como "Sad Guru Returns", por exemplo. É uma energia ritualística. Sons como "Glorious Daze" surgem cintilantes. Os detalhes do sitar... A voz ao fundo... O grupo promove uma imersão psicodélica com grande poder de cura.

São apenas 5 faixas, mas quase 45 minutos de transe. "One With The Universe" marcou os 10 anos de história do Samsara e toda sua rica paleta de cores está prensada nos sulcos desse Heavy-Psych. Não é só pelo groove ou pelos timbres e viagens progressivas, ouvir o som do Samsara Blues Experiment é se surpreender com os rumos da criação e da exploração musical.


Um grande exercício de autoconhecimento, apreciar as ideias dos caras é estar aberto ao novo. Desafiador não? Aproveitamos que o trio desembarcou no Brasil para sua segunda tour em solo nacional para bate um papo com o vocalista e guitarrista Christian Peters, só pra tentar entender um pouco mais sobre esse universo antes do show deles com o Eyehategod em São Paulo, dia 13 de outubro no Abraxas Fest.

1) Como vocês enxergam o underground brasileiro - num momento que até o selo de vocês (Electric Magic) lançou o vinil da Necro (Adiante) e o debutante do Psilocibina?


Eu acho que existem bandas muito interessantes e talentosas no seu país. Eu escolhi a Necro e a Psilocibina por que esses 2 grupos apresentam traços de latinidade no som que são elementos que gosto bastante. Atualmente muitas bandas possuem muito recurso técnico, são naturalmente talentosas, mas insistem em tentar soar como outra banda hype. Eu gosto de originalidade. E o disco da Necro ("Adiante") é algo muito próximo do que eu chamaria de um clássico de Heavy com características psicodélicos e da cultura popular brasileira.

2) Christian, pra você, qual é o elemento chave para seguir criando música, sempre pensando em manter as coisas frescas e orgânicas do começo ao fim da experiência sonora?


Se você for músico é tudo questão de tocar e não tem muito o que falar sobre isso, provavelmente. Se você está imerso nessa mundo pelas razões erradas (fama, mulheres, dinheiro ou seja lá o que for) você provavelmente também não vai durar muito nesse meio.

Com a minha experiência de 27 anos tocando guitarra, sendo 19 deles já fazendo parte de bandas, eu acho que você precisa ser apaixonado pelo o que faz.

3) Como o Jazz influencia a música da banda? O disco "Waiting For The Flood" apresentou diversas características comuns à linguagem do Jazz. Vocês pretendem seguir experimentando com esse gênero?


Eu realmente escuto Jazz, mas não estava ciente que era possível ouvir tantas referências desse estilo no nosso último disco! Eu acho que não dá pra dizer o que faremos no futuro, mas agora as novas composições tendem a ser mais curtas e mais orientadas à canção mesmo, apresentando influência do Grunge dos anos 90.

É um processo que está sempre em mutação, mas nós mantemos nosso estilo e estamos sempre abertos para novas possibilidades.

4) Christian, qual é a sua opinião sobre a gravação digital X analógica? Acho que hoje em dia, mais do que nunca, a tecnologia facilita muita coisa para que você possa atingir determinadas sonoridades, mas ao mesmo tempo é difícil inovar. Quais os conselhos que você daria para as novas bandas que estão tentando encontrar um som e um processo de gravação ideal?


Na SBE nós sempre gravamos digitalmente. Eu gravei de maneira analógica no começo da minha carreira e eu posso falar que não é tão divertido quanto parece. Especialmente quando você tem outras possibilidades de gravação, eu sinceramente não consigo entender algumas bandas que mesmo hoje, gravam tudo com recursos analógicos. É um fetiche engraçado.

Por outro lado eu sei que alguns grandes discos analógicos do passado tem aquele "som mágico", mas não é só por que eles gravaram em fita, caso contrário você poderia fazer diferença em grupos que fazem isso hoje em dia, o que em 99 de 100 casos não é possível. (o som analógico e o digital é praticamente o mesmo).

Algumas coisas como a saturação (isso talvez você consiga simular digitalmente) podem ajudar para melhorar o som de certos instrumentos, mas você sempre pode usar isso em combinações que envolvam os poderosos recursos do Pro Tools ou outro programa que temos agora. Eu mesmo estou aprendendo bastante sobre técnicas de gravação com o meu projeto solo "Surya Kris Peters", então não consigo dar um conselho, é tudo questão de estruturar um processo de aprendizado para que toda pessoa interessada nesse assunto consiga se desenvolver.

5) Segunda passagem pelo Brasil. O que vocês esperam dessa vez? Planos para o futuro? O Macrocefalia Musical agradece a atenção e deseja uma boa tour pelo nosso Brasa.


Eu espero que possamos nos divertir, como sempre. Provavelmente nós vamos tocar 1 ou 2 sons que ainda não gravamos então vamos ver como vocês vão reagir a eles. Muito obrigado pelo interesse na nossa música. Vejo vocês no show!

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