Abraxas Produtora - 5 anos de distorção, underground e eventos psicodélicos

Trabalhar com música no Brasil é difícil. O público é resistente ao novo, muitas das vezes ignora o PIB nacional para acompanhar o hype gringo e ainda reclama do underground, afinal de contas bom mesmo é tomar chopp ao som de uma banda cover do Matanza.

É um cenário difícil e pouco animador para produtores com ideias diferentes. Não só quanto a curadoria, mas também com relação a logística de turnês envolvendo sempre o mesmo eixo batido de sempre (RJ-SP).

O circuito parece viciado, mas é possível vencê-lo. Não acredita? Conheça a história da Abraxas. Produtora carioca especializada em eventos psicodélicos, a empreitada capitaneada pelos irmãos Felipe e Rodrigo Toscano, comemorou 5 anos de história e o sucesso dos caras mostra como é possível obter relevância, não só valorizando a nossa cena, mas também descentralizando eixos para abrir novos mercados para a música.


Foi um privilégio ter observado esse crescimento, desde a primeira turnê  com a Mars Red Sky, lá atrás, em 2013. Esses caras realizaram o sonho de muita gente, até por que antes do surgimento desse projeto, nenhuma produtora de música pesada tentou trazer o Kadavar, Samsara Blues Experiment, Mars Red Sky, Stoned Jesus, Jeremy Irons & The Ratgang Malibus, The Vintage Caravan, The Shrine e tantas outras bandas que são referência no cenário psicodélico europeu/americano.

Eu mesmo sempre pensei que pra ver essa galera teria que viajar e acredito que os fãs também pensavam o mesmo, pois quem acompanha o cenário sabe que as produtoras brasileiras só estão interessadas nos medalhões.

Fora que tem outro detalhe primordial, muito mais importante até do que a presença de todos esses grandes nomes da cena internacional, o maior bem que a Abraxas fez foi valorizar o underground e dar oportunidade para que bandas como a Hammerhead Blues, Red Mess, Bombay Groovy, Muñoz, Anjo Gabriel, Augustine Azul, Necro, Psilocibina e Monstro Amigo, por exemplo, conseguissem mostrar o seu talento e, mais do que isso, rodar o Brasil e descentralizar os eixos de sempre para abrir novas possibilidades a uma cena que eles criaram, solidificaram e agora (que também se transformaram num selo) querem exportar.
A abertura do Abraxas Fest ficou sob responsabilidade da Noala, grupo de Sludge que já está no rolê desde meados de 2009. As atrações da grade nessa quinta edição do Abraxas Fest culminaram na edição mais pesada do evento até então. Além da Nola, vale lembrar que teve ITD (Into The Dust), Samsara Blues Experiment e EYEHATEGOD.

Cada qual com a sua filosofia, o Noala apresentou uma cozinha multifacetada em termos de abordagem ao Heavy Metal. Com texturas instrumentais inventivas e épicas, o combo mostrou que não há limites para o volume enquanto rompia células auditivas com um som capaz de colocar o Hendrix e o Neurosis na mesma página. Pra definir em poucas palavras: o set da Noala conseguiu transformar o caos num conceito harmônico.

Foto: Emanuel Coutinho

Mais uma banda do selo Abraxas, a ITD é um grupo de Brasília que aposta numa mescla bastante densa de Doom para seguir trilhando o caminho do som obscuro com uma dinâmica bastante azeitada e que contribui para a construção da identidade de um som que é no mínimo ardiloso e pesadíssimo.

No repertório tivemos algumas faixas do início da carreira do projeto, mas vale lembrar que o prato principal mesmo foram os temas do EP mais recente do trio, que foi liberado em junho desse ano, também via Abraxas. Com uma temática que fala muito bem sobre a nossa odiosa natureza humana, a banda fez um show sólido e segue caminhando a passos largos rumo ao apogeu do som arrastado e desacelerado.

Foto: Emanuel Coutinho
Depois foi a vez do Samsara Blues Experiment subir ao palco para o seu segundo show em São Paulo. Dessa vez com um repertório muito mais apoiado no último disco de inéditas dos alemães, o excelente "One With The Universe", lançado em 2017.

Estava bastante ansioso para saber se as partes de teclado do disco seriam recriadas ao vivo. Para o deleite da plateia que compareceu em peso na Vic Club, Christian Peters & cia do Karautrock não só trouxeram essa ambientação para o palco, como também a utilizaram para improvisar.

Com uma abordagem que em alguns momentos lembrou até o grupo alemão de Space-Kraut (também alemão) Eloy, a banda fez um show irretocável, com destaques para a calma budista do batera Thomas Vedder e para o guitarrista, vocalista (e nesse show tecladista), Christian Peters, que deu uma de Geddy Lee e não fez feio.

Foto: Emanuel Coutinho
Mais ainda faltava uma atração. O dia 13 de outubro de 2018 jamais será esquecidos pelo fãs de EHG. A data que caiu num sábado ficará marcada na alma dos fãs de Sludge-Doom.

Quem diria que uma banda que nasceu no berço do Jazz (New Orleans) iria se transformar num dos grupos mais pesados, influentes e pioneiros do Heavy Metal? Com 30 anos de experiência nas costas, o quarteto formado por Jimmy Bower (guitarra), Mike Williams (vocal), Gary Mader (baixo) e Aaron Hill (bateria) simplesmente varreu a plateia.

Com um show animalesco, o grupo viu sua primeira passagem por São Paulo ser coroada por uma recepção alucinante. Com dezenas de fãs incrédulos com a presença de uma das bandas mais cultuadas no cenário, o quarteto promoveu um passeio bipolar entre as mais diferentes fases que permeiam a história da banda.

Liderados pela voz atormentada de Mike Williams a banda mostrou um fôlego e uma pegada que muita banda do Underground não consegue equiparar, enquanto a plateia o espetáculo com uma sádica adoração.

Mais do uma edição anual, o Abraxas Fest é a prova de como é possível lotar uma casa de shows hoje em dia apostando, primeiro na nossa própria cultura, depois trazendo as referências internacionais do cenário para promover um intercâmbio fantástico e que tem rendido ótimos frutos para o nosso underground.

Vida longa aos meliantes.

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