É um fato: O groove do Bixiga 70 é um quebra cabeças sonoro

São 8 anos fazendo a galera bater o pezinho. Quatro discos de estúdio e uma compilação de versões jamaicanas na praça ("The Copan Connection: Bixiga 70 Meets Victor Rice"), incontáveis shows em território nacional e outra centena de rolês fora do Brasil, nos maiores festivais do mundo, como o Glastonburry e o North Sea Jazz Festival, por exemplo.

Faz 8 anos que a vida da Big Band paulista, Bixiga 70, está igual o próprio som que é fruto desse encontro: imparável. Com o mesmo vigor de sua quentíssima cozinha de metais, a banda continua fazendo jus ao seu mantra ("Segue o Baile") enquanto segue fazendo miséria com o groove, tanto no palco quanto no Estúdio Traquitana, o QG do combo.

A prova disso foi o lançamento do quarto trabalho de inéditas da banda. "Quebra Cabeça", liberado no dia 20 de julho de 2018, trata-se de uma carta aberta ao público que, citando o próprio Cris Scabello (guitarra): "é o responsável por nós estarmos aqui nesse palco".

Foto: Jose de Holanda

Esse disco comprova aos súditos desse groove que o Funk segue pulsando, cada vez melhor, com mais referências, um etílico balanço e com uma riqueza sonora que cria um quebra cabeça de 3000 peças na mente dos ouvintes.

O Bixiga 70 conseguiu algo grandioso com esse disco. Esse repertório dá mais um passo rumo ao inclassificável. Está pra nascer um jornalista que queira, por livre e espontânea vontade, se arriscar para definir o que esses senhores fazem.

Line Up:
Chris Scabello (guitarra)
Cuca Ferreira (saxofone/flauta)
Daniel Gralha (trompete)
Décio 7 (bateria)
Daniel Nogueira (saxofone)
Douglas Antunes (trombone)
Marcelo Dworecki (baixo)
Maurício Fleury (teclados/guitarra)
Rômulo Nardes (percussão)


Arte: MZK

Track List:
"Quebra Cabeça"
"Ilha Vizinha"
"Pedra de Raio"
"4 Cantos"
"Areia"
"Ladeira"
"Levante"
"Primeiramente"
"Torre"
"Camelo"
"Portal"


É Afrobeat? Será que rola um Dub? Esse é um terreno aparentemente sem dono, mas que na mão dos caras vira zona neutra. E em termos de momento, a banda viva um de seus melhores momentos, tocando a torto e a direito na europa, oceania e onde mais rolar espaço. Só que dessa vez essa vida nômade influenciou demais essa nova gravação e o resultado não poderia ter sido melhor.


O Bixiga 70 agora deu um novo passo, ele educa os ouvidos de sua audiência. Viajando o mundo todo durante 365 dias, a banda vive descobrindo o novo e quando aparece pelo Brasil, assisti-los ao vivo é um workshop gratuito de novas tendências, timbres e relíquias que eles descobrem nesse mundão cheio de groove sem porteira.

Desde o single que nomeia o disco, passando pelo clima de baile com "Ilha Vizinha", o Bixiga, pra variar, bota você no bolso. Aqui tem de tudo, desde as raízes africanas de "Pedra de Raio", passando pelos metais marcantes de "4 Cantos", até as doses vertiginosas de baião em "Ladeira" e aquela conexão (praticamente) espiritual ao som de "Levante".

Foto: Jose de Holanda

Dá macumba noise de "Primeiramente" (Fora Temer) até a guitarrada da dupla Chris-Maurício ao som de "Torre", passando por "Camelo" e "Portal", esse disco comprova como os experimentos seguem rolando no laboratório. Os sintetizadores e as guitarras de Maurício Fleury são um grande arsenal para esse registro.

Não existem extremos nem excessos nesse experimento, algo que merece ser bastante elogiado. É sempre um desafio criar algo novo, para qualquer artista, mas a diferença do Bixiga para o restante dos grupos da cena não é nem é o groove, mas é como eles assumem qualquer tipo de linguagem e conseguem agregar novos elementos a partir de cozinhas diversas, tudo sem perder o DNA do nosso Brasil.

A música brasileira anda muito bem, obrigado e a prova disso é a entrevista que nós fizemos com o Cuca Ferreira, flautista e saxofone do grupo, só pra entender até que ponto nós podemos seguir o baile sem freio.

1) Conheço o som de vocês desde 2011 quando vi o disco homônimo em diversas listas de melhores lançamentos daquele ano. De lá pra cá vieram mais 2 trabalhos de inéditas e um registro de versões jamaicanas toda trampado no Dub, sob tutela do Victor Rice.


Dentro desses 7 anos é difícil achar um ritmo que não tenha sido emulado por vocês. Como que a banda trabalha esse processo de expansão de repertório, referências e ideias que podem surgir no Bixiga, na Índia ou Austrália?

De forma bastante orgânica e natural. Cada um de nós tem sua própria pesquisa musical, desenvolvida também em diversos projetos paralelos. Além disso, temos viajado bastante nos últimos anos, trocando experiências com músicos do mundo todo. Na hora de criar, tanto as pesquisas individuais como as experiências coletivas vêm à tona, cada um coloca suas ideias, que são influenciadas por tudo isso.

2) Uma das coisas que mais impressiona é a capacidade que o Bixiga 70 tem de criar sons repletos de nuances, mesclando diversas cozinhas, mas ainda assim soar equilibrado. Nada passa do ponto. Como que vocês observam essa questão para que o resultado final não seja caracterizado por excessos?


Não temos essa preocupação de maneira consciente. Acho que por criarmos coletivamente, no final a soma das visões de cada um acaba chegando nesse suposto equilíbrio, mas sinceramente não sei se nosso som é muito equilibrado....Acho que incorremos em vários excessos, que definem bastante nosso som.

3) Até que ponto a improvisação livre influencia o som de vocês? Li uma definição muito massa dia desses com um professor explicando o conceito de Jam e Improvisação. A jam, na opinião do letrado, não tinha objetivo, mas a improvisação sim. Como vocês observam esse fenômeno?


Há integrantes da banda que pesquisam bastante esse tema, e participam de projetos paralelos muito caracterizados pela improvisação livre.

No caso do Bixiga, dentro do som há espaços para improvisação, nos solos, nos climas e dinâmicas, mas no geral as músicas são bastante arranjadas. Talvez onda haja mais espaço para improvisação livre seja no processo de criação. Improvisamos muito até chegar nas ideias que depois virarão música. Portanto, seguindo a definição do professor, de improvisar com objetivo, ainda que este não seja muito claro.

4) Quando saiu o disco de versões do Victor Rice muita gente ficou surpresa. O Cris Scabello e o Jimmy The Dancer são muito engajados nessa cena Dub de sampa, com o coletivo Dubversão e outros projetos. Tem como vocês darem um plano de fundo pra galera que não está tão engajada nessa cena especificamente, além de ressaltar a importância da música jamaicano na identidade sonora de vocês?


Nosso som é a soma das histórias musicais de cada um de nós. Há um eixo comum, que é a música afro-brasileira, que por sua vez tem uma conexão direta com toda música que se desenvolveu a partir da diáspora africana, seja na América do norte, central ou na latina.

A música jamaicana, portanto, é uma das mais presentes no nosso som, temos integrantes diretamente ligados a essa cena, que é bastante representativa na noite paulistana.

Victor Rice é um artista muito próximo do Bixiga 70, ele mixou os nossos 3 primeiros discos, e sempre fez versões dubs de nossas músicas. Decidimos celebrar isso com o disco Copan Connection, homenageando seu estúdio, que fica no edifício Copan, bem próximo do nosso, no Bixiga.

5) Além do Bixiga, outros grupos brasileiros de diferentes fronts, como o Boogarins e o Metá Metá, por exemplo, estão tocando fora do Brasil com certa regularidade. Como que vocês observam essa progressiva abertura que os músicos brasucas estão conseguindo pra levar a música para os principais centros na europa/ásia/oceania?


Somos muito fãs desses grupos que você citou. Há uma cena enorme de música autoral, que é baseada em São Paulo, mas composta por artistas de todo o Brasil. A produção é enorme, poucas cidades produzem tanta música tão inovadora e original como em São Paulo hoje. Os circuitos de música abertos para isso no mundo já perceberam, e por isso há cada vez mais espaço para bandas e artistas brasileiros.

6) Meus caros, muito obrigado pela oportunidade. Pra fechar, gostaria de entender como que o formato de Big Band influencia a dinâmica do som de vocês. Os shows tão azeitados que é até complicado entender até que ponto vocês seguem um script ou só deixam o bale correr solto mesmo rs


Nós trabalhamos bastante os roteiros dos shows. Somos uma banda que sempre ensaiou muito. Até hoje são muitas horas por semana. Os shows são bastante roteirizados, mas obviamente deixamos espaço para a dinâmica seguir a energia do público. Também acontece de mudarmos o set list dependendo da reação da plateia. Com o tempo de estrada, estamos aprendendo.

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