O aveluladado Bill Withers ao vivo no Carniege Hall

Quando penso em fazer um som fico temeroso logo de cara. Sempre que imagino meu próprio espectro emulando notas por meio de um instrumento, fico tenso pela plasticidade da coisa. Não é que esteja receoso por causa do figurino, para este que vos resenha, o ponto mais importante é possuir e dominar, com naturalidade, tudo que o compreende o ato de se fazer música.

Sentar numa banqueta, ficar completamente relaxado e apenas começar a tocar as cordas. Com sentimento claro, mas tentando demonstrar uma postura que funcione em prol da arte... Um lance meio anti rockstar, quase banal, pela música, apenas por ela. 


Um grande músico é capaz de dominar seu público. Os maiores ainda o fizeram com simplicidade e essa essência é o que paga o ingresso no fim do show. Se fosse um showman gostaria de dominar meu público, mesmo em grandes arenas, levando os presentes para um convívio próximo às minhas ideias.

Falando assim parece até fácil. Pra fazer isso o cidadão precisa estar bastante seguro de si, algo que para simplificar, seria como um show do Bill Withers no Carniege Hall.

Nunca vi alguém tão relaxado para uma apresentação deste porte, a persona do cidadão estava tão leve e suave que parecia um ensaio na varanda da sua casa.

''Live At Carniege Hall é uma pérola para se entender um dos maiores músicos de nosso tempo, compreender sua calma e seu sentimento no único live de sua vida. Ninguém nunca dominou o palco desta sala de espetáculos da mesma maneira que Bill o fez na sexta-feira do dia 06 de outubro de 1972. Teve de tudo, Groove, Funk, Soul e muita, mais muito paixão entre banda & platéia. 

Line Up:
Melvin Dunlap (baixo)
James Gadson (bateria)
Bobbye Hall (percussão)
Raymond Jackson (arranjo de metais/cordas/piano)
The L.T.D. Horns (metais)
Bill Withers (vocal/violão/arranjo de metais)



Track List:
''Use Me''
''Friend of Mine''
''Ain’t No Sunshine''
''Grandma’s Hands''
''World Keeps Going Around''
''Let Me In Your Life''
''Better Off Dead''
''For My Friend''
''I Can’t Write Left Handed''
''Lean on Me''
''Lonely Town, Lonely Street''
''Hope She’ll Be Happier''
''Let Us Love''
''Harlem/Cold Baloney''


Depois que você apertar play num dos maiores discos ao vivo de todos os tempos, você ouvirá em claro e ensurdecedor som, como é ser Bill Withers no auge: o "hômi" é ovacionado após ser anunciado pelo Bruce Buffer do Carniege Hall. E é depois do início de ''Use Me'', que Bill justifica tanto frenesi.

A platéia estava tão incrédula que o cara até se rende depois do fim do Boogie inicial. Ele sente a vibe e profetiza: "one more time?" E retorna para a parte A do clássico, enquanto os presentes fazem a percussão com as palmas.

O combo de Withers parece tocar na sua sala. O wah-wah de "Friend Of Mine" emula um ambiente intimista enquanto uma das maiores sessões rítmicas dos anos 70 - James Gadson (bateria) e Melvin Dunlap (baixo) - deixa o groove no banho maria.


Nesse show, Bill mostra todas as suas facetas. Ele é hitmaker quando toca a icônica "Ain't No Sunshine". Mostra todo o amor pela comida da vovó ao som de "Grandma's Hands'' e deixa claro que enquanto o mundo girar vai ter groove em "World Keeps Going Round".

Um poço de tranquilidade, em alguns momentos parece que Bill nem é a atração principal. A postura dele no palco é formidável. Invoca paixão em "Let Me In Your Life" e faz o ouvinte duvidar... Pra que ouvir outra voz? Ao som de temas como "Better Off Dead", parece que só o Bill já basta.

Uma das maiores autoridades quando o assunto é groove, Bill não era um músico muito técnico, mas sua voz era carregada de lirismo e com uma banda que ainda contava com Bobbie Hall (percussão) e Raymond Jackson nas teclas, fica claro como manter o balanço era a meta principal desse grupo. Se liga na acidez dos timbres em "For My Friend".


Durante mais de 90 minutos, Bill dispara contra tudo que o envolve negativamente. Fala do Vietnã com uma sensibilidade brilhante em "I Can't Write Left Handed", pede confiança com "Lean On Me" e finaliza o show com uma trinca que parece transportar os ouvintes ao Harlem, groovando no Apollo de James Brown.

Não é só pelo groove, pelo sentimento de sua fantástica banda ou por que rolou até "Lonely Town, Lonely Street", "Hope She'll Be Happier" e "Let Us Love", contando ainda com "Harlem/Cold Balony" pra fechar. Não, definitivamente não é só isso.

Esse disco aqui é pela música. Pela calma do Bill e por toda a serenidade que a sua voz, suas letras e esses magistrais arranjos transmitem ao ouvinte. Aqui o R&B e o Funk encontram o romantismo do mestre.

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