BlacKkKlansman: esqueceram da trilha sonora do Terence Blanchard

O Spike Lee gosta muito de Jazz. Shelton Jackson Lee na verdade é filho de um jazzista. Seu pai, William James Edwards - ou Bill Lee para os íntimos - gravou linhas de baixo ao lado de nomes como Aretha Franklin, Duke Ellington e Simon & Garfunkel.

Sua mãe, Jacqueline Carroll, por sua vez, foi professora de artes e literatura negra. Juntos, esses 2 criaram um dos maiores diretores, produtores, escritores e atores de toda a história, não só do cinema americano, mas sim mundial. São mais de 35 filmes produzidos desde 1983 numa carreira que compreende pouco mais de 30 anos de muito trabalho.


No entanto, apesar de todo o reconhecimento de sua obra, o criador de clássicos como "Malcom-X" (1992) e "Do The Right Thing", nunca teve o seu trabalho de trilha sonora (ao lado de Terence Blanchard) mencionado. Bom, acredito que o lançamento de "BlacKkKlansman" isso seja revisto, pois, mais uma vez, o trabalho de Terence Blanchard é tão bom e audacioso quanto a película que retrata a ideia maluca do policial Ron Stallworth.


Track List:
"Gone With The Wind"
"Hatred At It's Best"
"Main Theme"
"Ron's Theme"
"Firing Range"
"No Cross Burning Tonight"
"Patrice Library"
"Ron Meets FBI Agent"
"Connie and the Bomb"
"Guarding David Duke"
"Tale Of Two Powers 1"
"Tale Of Two Powers 2"
"Tale Of Two Powers 3"
"Woodrow Wilson"
"Klan Cavalry"
"Ron's Search"
"Patrice Followed"
"Here Comes Ron"
"White Power Theme"
"Partner Funk Theme"
"Main Theme - Ron"
"Blut Und Boden (Blood and Soil)"
"Photo Opps"


Terence Blanchard trabalha ao lado do Spike há 3 décadas. O que começou como uma pequena colaboração em "Mo' Better Blues" em 1990, acabou virando coisa séria quando o diretor ligou para Terence 1 ano depois para trabalhar na trilha de "Jungle Fever". Daí pra frente a dupla não parou mais.

Vale lembrar que além de sua vasta experiência trabalhando com cinema, Terence Blanchard, trompetista natural de New Orleans, ainda conta com belos trabalhos lançados por selos como Blue Note e Columbia. Tocando em projetos como a Lionel Hampton Orchestra e o icônico Art Blakey and the Jazz Messengers, o músico conseguiu conquistar ouvintes nos seus 2 habitats naturais, os clubes e as salas de cinema, algo de fato formidável.


Idealizada a partir da mesma estética R&B que permeou a trilha de Malcom-X, Spike pensou num contexto bastante melódico para a trilha de "BlacKkKlansman". Dessa forma, Terence poderia engrandecer a luta negra e utilizar o Jazz como instrumento para mostrar a resistência do movimento Black Power.

Em teoria isso é muito bonito, mas colocar essa estética em prática não deve ter sido simples. São 23 composições que formam o disco e acompanham o filme com uma precisão cirúrgica. É impressionante como Terence conseguiu sintetizar a música negra dos anos 70 para compor um score que trouxesse um blend de tudo o que nomes como Sly & The Family Stone, James Brown e Nina Simone representaram, não só para a música negra, mas também para o movimento dos direitos civis.


Numa época tão facilmente inflamável, tanto politicamente quanto musicalmente, os Estados Unidos nos anos 70 (época da investigação que inspirou o filme) era um lugar no mínimo pitoresco. De um lado você tinha o Jimi Hendrix tocando o hino com sua guitarra, e do outro os pouco dotados de neurônios da Ku Klux Klan.

Num dos períodos mais ricos de todos os tempos para a música, grandes gênios - como o próprio Hendrix - precisavam subir ao palco toda noite para provar que, apesar da descendência cherokee, ele era americano de nascimento.


Toda essa dualidade serviu de munição para o trabalho de Blanchard e o resultado é um riquíssimo compilado de texturas que vão do Jazz ao Funk com muita classe, groove e uma acidez tão necessária quanto o trote que o Ron Stallworth passou para o David Duke no final do filme.

História real. Contexto histórico dos anos 70... Você é negro e mora no Colorado. Está liso, precisando de grana e em busca de uma profissão, por isso nada mais lógico que pleitear uma posição no departamento de polícia local, certo?


Ron Stallworth achou que sim e acabou se transformando no primeiro detetive negro da história do departamento de Polícia de Colorado Springs. Como se isso já não bastasse, o negrão ainda teve a brilhante ideia de se infiltrar na Kux Klux Klan.

O problema é que em virtude de seu autêntico Black Power, ele ainda teve que convencer seu colega (judeu) Flip Zimmerman, interpretado por Adam Driver, a ir em seu lugar enquanto ele mesmo gerenciava a comunicação por telefone.

O Spike Lee é foda e o Terence Blanchard também. Um dos grandes filmes do ano ao lado de um dos melhores discos que abrilhantaram o cenário do groove em 2018. Que dupla. Quem é Bebeto e Romário?
  

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O Jazz do Tenderlonious toca nos becos de Londres

Um dos motivos pelos quais a cena Jazzística do Reino Unido está dando tão certo - além de contar com grandes músicos, projetos e lançamentos - é a forma como o cenário trabalho em prol de seu próprio benefício.

Na Inglaterra selos como o 22a, Brownswood Recordings, Black Focus Records e Jazz Re:freshed conseguem trabalhar juntos. É claro que cada um deles conta com um cast de artistas e seus respectivos lançamentos, mas o ponto chave é perceber que eles não concorrem entre si diretamente, muito pelo contrário.

Em função da riqueza de uma cena que absorve influências que vão desde o Hip-Hop até o mais experimental e progressivo groove, que meliantes como o Ed "Tenderlonious" Cawthorne começaram a mostrar, que por incrível que parece, tem espaço pra todo mundo. A palavra chave para essa jam é "The Shakedown" e 22archestra. Pode acreditar. 

Line Up:
Ed "Tenderlonious" Cawthorne (flauta/sintetizadores)
Hamish Balfour (teclados)
Fergus Ireland (baixo)
Yussef Dayes (bateria)
Jeen Bassa (percussão)
Reegie Omas (percussão)
Konrad (percussão)



Track List:
"Expansions"
"Yussef's Groove"
''Togo"
"SV Interlude"
"The Shakedown"
"Maria"
"You Decide"
"SV Disco"
"Red Sky At Night"


O Ed "Tenderlonious" Cawthorne é um cidadão no mínimo peculiar. Filho de militares, o futuro músico viveu como um nômade até voltar para UK e se estabilizar como beatmaker. Em função dessa rotina pouco ortodoxa, Tenderlonious não teve uma educação musical comum, por assim dizer.

Músico autodidata, ele comprou um saxofone soprano por causa da capa de um disco do Yusef Lateef e deu um jeito de aprender o instrumento. Com tantas referências na cabeça, o sax de Coltrane acabou ficando pequeno e logo depois ele já estava tocando flauta.  


Vale lembrar que enquanto todo esse desenvolvimento acontecia, o músico ainda mantinha uma sólida carreira paralela como (requisitado) DJ em Londres. Sempre groovando com foco na escolástica do Hip-Hop, o também produtor começou a criar uma linguagem completamente nova... Essa talvez tenha sido a faculdade que ele não quis fazer.

O tempo passou e hoje o Tenderlonious é uma figura primordial no ativo funcionamento da cena. Além de ser o chefe nesse projeto que conta coma banda de apoio 22archestra, vale lembrar que o multi instrumentista também comanda outro projeto, a Ruby Rushton (a versão Jazz-Funk dessa cozinha) e ainda coordena as atividades do 22a, seu próprio selo.


2018 foi um ano bastante corrido na vida de Ed, mas nem por isso ele deixou de fazer a gestão de 20 lançamentos por meio do selo. No meio de tantas novas experimentações, até ele deve ter ficado curioso e o resultado foi "The Shakedown", seu primeiro disco solo, lançado 15 de junho de 2018. 

Gravado numa sessão de 8 horas de estúdio no Abbey Road, "The Shakedown" sintetiza as principais referências de Tenderlonious e entrega um Jazz sublime, suave, com toques de Afrobeat, uma veia latina e uma abordagem de improvisação bastante inspirada na dinâmica de beats e nos próprios modelos de improvisação livre no Jazz.

Uma mistura de Kamaal Williams com flauta, esse disco inclusive conta com Yussef Dayes na bateria e só esse detalhe já é algo a se destacar no disco. Com uma precisão absurda e a capacidade de tocar nos tempos mais quebrados, a participação de Yussef foi um dos elementos responsáveis pela excelência desse projeto. Se liga no groove que ele sustenta em "Yussef's Groove". O DNA percussivo do baterista caiu como uma luva.


Na abertura do disco, com "Expansions", já é possível imaginar o clima que permeará essa audição. O trabalho de sintetizadores e a percussão são 2 detalhes para se prestar atenção. A ambientação foi muito bem pensada e o resultado são temas da mesma riqueza lírica de "Togo", por exemplo, faixa ritualística inspirada no J Dilla e MF DOOM, duas referências primordiais na vida de Cawthorne.

Em SV "Interlude" ele continua no quintal de casa e agora homenageia o Slum Village, grupo que o já citado J Dilla fez parte, antes de sair em carreira solo. Se liga na variação dos timbres de baixo, a alternância entre o acústico e o elétrico pra dar espaço pra todos os instrumentos... O groove é latente.

Parece um DJ solando de flauta no beat. A caixa do Yussef é criminosa nesse tema, mas é na faixa título que a coisa pega. Em "The Shakedown", o trabalho de Tenderlonious nos sintetizadores é muito interessante, pois sua banda já conta com teclados, então promover esse contraponto com as texturas de Hamish Balfour (teclados) evidencia sua abordagem única para com a flauta e o seu respectivo papel no som.


Em temas como "Maria" o bom gosto é palpável. O som é descolado e conta com uma fluência excelente. "You Decide" parece brincar com toda essa liberdade criativa que o músico conseguiu externar com tanta naturalidade.

"The Shakedown" é a narração da criação de um novo contexto criativo. Com a visão que apenas um cara com tantas vivências consegue empregar nos timbres, Tenderlonious promove rupturas sonoras que nos fazem questionar os limites do Jazz.

Não é só homenagear o Slum Village com "SV Disco" e seu repeteco de J Dilla na boate. A questão vai muito além disso, tem relação não só com a forma, mas também com o o conteúdo. "Red Sky At Night" é uma faixa que deixa essa ideia bem explícita. As intervenções do Tenderlonious são muito coerentes e entre rápidos insights de improviso e licks, sua maior qualidade desempenhando esse papel de líder foi justamente saber quando se infiltrar no som para trazer esse frescor ao disco.

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O Joe Armon-Jones e sua versão jamaicana de Starting Today

Um dos registros maior luz própria que saíram em 2018 foi o primeiro disco solo do Jon Armon-Jones. Pianistas dos mais requisitados na cena Jazz de Londres, Jon é peça chave na formação de diversas bandas que hoje são destaque internacional nessa frente, como é o caso do grupo que apoia a saxofonista Nubya Garcia, além do projeto de Fusion do próprio tecladista, o Ezra Collective.


O interessante no entanto é que "Starting Today"- disco lançado no dia 04 de maio de 2018 - chega com uma abordagem inédita na carreira do também produtor. Cada um dos temas que formam o disco possuem a notável capacidade de criar um clima completamente diferente, do anterior, faixa após faixa.


Esse trabalho é a verdadeira prova de toda a capacidade e de todo o vocabulário do virtuoso musicista, natural da parte sul de Londres. E para provar que esse registro foi, não só um dos destaques do ano, mas também um exercício de criatividade que teve impacto imediato em sua carreira, que Joe revisitou sua obra mais recente e tirou mais caldo desse groove.


Track List:
"Starting Today Dub"
"Mollison Dub Vocal Version (feat. Ashberer)"


Lançado no dia 23 de novembro de 2018, "Starting Today In Dub" é um compacto com duas novas propostas jamaicanas para o groove de Joe. Liberado pela Brownswood Recordings, esse trampo é focado nas grandes influências de Reggae/Dub que o músico faz questão de mostrar por onde passa.


Ele já gravou Dub com seu grupo, o Ezra Collective, gravou mais um ("Mollison Dub") para a versão original do "Starting Today" e agora veio com mais duas estelares visões de Lee Scratch Perry para continuar trilhando seu caminho na cultura Sound System.


Com um approach mais espacial, bastante calcado na abordagem de grupos como o Creation Rebel, por exemplo, o pianista entrega uma visão psicodélica dos dreads. Contando com nova participação de Ashberer nos vocais, Joe segue expandindo, sempre com groove, Jazz, feeling e Dub.

A Jamaica é logo ali.

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O groove tupiniquim da Far Out Monster Disco Orchestra

Se uma gravadora que não é brasileira, mas que trabalha em prol do nosso groove como se fosse canarinho também, é a Far Out Recordings. Selo independente de Londres, os caras se especializaram no lançamento das maiores gemas da nossa música.

É graças ao trabalho da Far Out que nomes como Victor Assis Brasil, Joyce e mais recentemente, com o sagaz piano de Amaro Freitas, que os produtores David Brinkworth e Daniel "Venom" Maunick mostram que a nossa história na música é gigante.


E um dos discos lançados pelo selo que melhor exemplificam isso é o segundo trabalho da Far Out Monster Disco Orchestra. Depois de 4 anos de intervalo entre o debutante do supergrupo formado pelo trio original do Azymuth - com José Roberto Bertrami (teclados) Alex Malheiros (baixo) e Ivan Conti (bateria) - a banda Black Rio e o Arthur Verocai, os caras voltaram com um duplex recheado com 8 temas inéditos repletos de Funk, Soul e Disco. 

Não seria um exagero dizer o novo disco, "Black Sun", trata-se de um dos maiores lançamentos (envolvendo músicos brasileiros) em 2018.

Line Up:
José Roberto Bertrami (teclados/sintetizadores)
Ana de Oliveira (violino)
Fernando Moraes (teclado/sintetizadores)
Ubiratã Rodrigues (violino)
Alex Malheiros (baixo/guitarra)
Francisco Poe Passage (violino)
Arthur Verocai (arranjos)
Mauro Rufino (violino)
Marcos Lobo (percussão)
Daniel Maunick (percussão/teclados/sintetizadores)
Dhyan Toffolo (violino)
David Brinkworth (teclados)
André Meneghello (violino)
Deborah Cheyne (viola)
Karl Injex (voz)
Nayran Pessanha (viola)
Zé Carlos Bigorna (saxofone/flauta)
Fernando Pereira (violino)
Alex Patten (vocal)
Jadenir Lacorte (viola)
Cellos (viola)
David Chew (viola)
Mateus Ceccato (viola)
Altair Martins (trompete)
Gabriela Queiroz (violino)
Maurício Maestro (vocal)
Johnson de Almeida (trombone)
Mia Mendes (vocal)
Tino Júnior (saxofone)
Marcina Arnold (vocal)
Jessé Sadoc (trompete)
Heidi Vogel (vocal)
Ricardo Pontes (saxofone)
Paulo Renato Franco (saxofone)
Paulo Guimarães (flauta)



Track List:
"Step Into My Life"
"Black Sun"
"Flying High"
"Give It To Me"
"The Two Of Us"
"Step Into My Life (instrumental)"
"Black Sun (instrumental)"
"Flying High (instrumental)"
"Give It To Me (instrumental)"
"Where Do We Go From Here"


No dia 19 de maio de 2014 a Far Out Monster Disco Orchestra liberou o debutante homônimo desse projeto. O trabalho foi aclamado pela crítica (nacional e internacional), mas nem por isso ganhou uma sequência.


Passados 4 anos do lançamento, a Far Out Monster Disco Orchestra surpreendeu a cena e voltou com um novo trabalho de inéditas memorável. Com arranjos de cordas e metais riquíssimos, sendo que um deles foi feito pelo mestre Arthur Verocai ("Step Into My Life"), o disco se desenrola numa coqueluche que vai muito além da nostalgia.


A música que nomeia o registro conta com uma classe nos timbres e arranjos que é palpável. Boa demais pra ser apenas "mais um hit". "Flying High" é outro tema que chega com umas camadas espaciais de sintetizadores que são o puro creme do swing.

Prepare o seu QI rebolativo e sinta o Acid Jazz em temas como "The Two Of Us", por exemplo. O vocal de Bia Mendes e o baixo de Alex Malheiros nessa faixa são muito bem conduzidos. Um dos discos mais sólidos que o senhor irá groovar em 2018, o novo trampo da Far Out Monster Disco Orchestra cumpre a difícil tarefa de provar que o groove nunca sai de moda.

Soltar as faixas com versão instrumental após "The Two Of Us" foi uma bela sacada. Os arranjos merecem toda a atenção que seus ouvidos puderem captar. E eles ainda encerram a jam com a belíssima, porém sugestiva, "Where Do We Go From Here"... Será que tem mais?

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Criterion Of The senses: o Ed Motta continua descolado

Existe uma linha tênue entre um groove e um som quadrado. Um improviso que peca pelo excesso e uma linha de baixo que chega classuda, chamando você pra dançar. A música é uma experiência e em diferentes fases da carreira, os músicos encontram novos caminhos, estéticas e grooves.


É notável como o Ed Motta continua explorando a sua veia Funk/Soul numa estrada que já compreende 15 discos de estúdio e mais de 30 anos de baile. 


Sua discografia caminha por diversos estilos, mas é importante perceber como sua música mudou, sempre rumo ao caminho de tudo que ele pregou: goove, bom gosto e eloquência. Em poucas palavras: Criterion Of The Senses, o décimo quinto disco de inéditas do carioca, lançado dia 21 de setembro de 2018 (pela Must Have Records/Membran Entertainment Group). 

Arte: Edna Lopes

Track List:
"Lot Connection To Prague"
"Sweetest Berry"
"Novice Never Notice"
"The Required Dress Code"
"X1 in Test"
"The Tiki's Broken There"
"Your Satisfaction Is Mine"
"Shoulder Pads"


Gravado no Rio de Janeiro, esse trabalho fecha a trilogia que Ed começou em 2013 com o lançamento de "AOR" e sua sólida sequência, já em 2016, com "Perpetual Gateways". O conteúdo dessa gravação mantém a linha dos sofisticadíssimos arranjos de City Pop e Yatch Rock que o músico tanto admira, além de contar com elementos do Funk, R&B e aquele Groove West-Coast para criar uma roupagem genuína e elegante.

Em seu terceiro disco consecutivo cantando em inglês, o trabalho de Ed como compositor também se transformou num importante pilar para o sucesso de seus discos nessa fase. Se aproveitando dos maneirismos descolados da língua inglesa para deixar o seu som ainda mais atraente, o músico enriquece os ouvidos do ouvinte com um trabalho impecável na instrumentação.


São 8 temas e pouco menos de 35 minutos de som, mas acredite, o trabalho de produção foi muito bem feito. É perceptível como cada detalhe foi trabalhado e a cada faixa todo esse cuidado recompensa o ouvinte em diferentes momentos, como em "Lost Connection To Prague" e sua guitarra no melhor estilo Jeff "Skunk" Baxter, cortesia de Tiago Arruda.

"Sweetest Berry" oferece um romântico Soul, enquanto "Novice Never Notice" caminha num Jazz-Funk, esperando a classe de "The Required Dress Code". Tem elementos de Sci-Fi em "X1 in Test", um belíssimo dueto ao lado da vocalista Cidália Castro em "The Tiki's Broken There" e a radiofônica "Shoulder Pads".

Um disco muito além dos 35 minutos que o compreendem. Um disco que vai além do que o grande público brasileiro não só espera, mas consome. Um trabalho que justifica todo a relevância internacional do músico nos últimos anos.

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Groove na NASA - Escute Objetos no Céu, novo EP do Pedro Salvador

Um dos pontos mais interessantes na música é a oportunidade de acompanhar o trabalho da cena e sentir a evolução do som. Notar as nuances entre um registro e outro... É um exercício interessante pra se fazer, ainda mais se for garimpando o cenário nacional.

E se tem um músico que vale a pena ficar ligado, principalmente em termos de diversidade de influências e aspirações, esse meliante é o multi instrumentista alagoano, Pedro Salvador. Guitarrista do power trio de Rock Progressivo, Necro, o músico natural da própria Alagoas possui um grande repertório musical, capaz de cobrir arestas que vão desde Frank Zappa até o Alceu Valença imitando o Raul Gil.

Foto: Gabriel Passos

A vívida produção de Pedro mostra como um músico com vasto vocabulário se reinventa. Seja no Messias Elétrico - outra bandaça de Prog de Alagoas - ou em carreira solo, com o excelente debutante homônimo, "Pedro Salvador", liberado pela Crooked Tree Records, Pedrinho está em todas.

Arte: Julia Danesi

Além dessas bandas, ele também participa do Origens, combo de Rock Progressivo do Alessandro Aru, requisitado baixista de Rock - também da terrinha - que reuniu os maiores músicos da cena local para gravar uma trilogia em comemoração aos seus 25 anos de carreira (celebrados em 2017). O primeiro volume saiu em 2016 e o volume II chegou na praça em 2018 graças ao selo da Abraxas.


Além de um dos melhores projetos Progressivos nacionais lançados nos últimos anos, Origens é o plano de fundo ideal para se entender e conhecer mais sobre o underground local. Bandas como Água Mineral, Mopho, Canela Seca, Cores Astrais, Barba de Gato, Cachorro Urubu, Santo Samba e Lado B, justificam a riqueza sonora e o fino trato dessa celebração.


É tanta bonança criativa que o Pedro, pra variar, voltou com mais uma agradabilíssima surpresa. O maior defeito do EP "Objetos no Céu", lançado no dia 05 de maio de 2018 é não ser um full lengh, pois as experimentações psicodélicas de Pedrinho mereciam mais tempo para mostrar a versatilidade com a qual ele dialoga com o ouvinte, mesmo sem dizer uma palavra sequer durante as 4 faixas desse instrumental.

Arte: Pedro Salvador


Track List:
"Objetos no Céu"
"Flagelo Moderno"
"Jogo de Gato"
"Extrapolações"


Com mais um lançamento pela Abraxas, Pedro tratou de tocar todos os instrumentos, algo comum em suas gravações solo. Dessa vez ele tocou guitarra, baixo, bateria e teclado - além de fazer a capa - para criar uma identidade sonora muito coesa.

O EP já começa com a faixa titulo. O trabalho de teclas e da bateria é muito interessante nesse tema. Elas caminham lado a lado, unidas pela guitarra. É notável como tudo se encaixa graças a um solo de rara eloquência.

"Flagelo Moderno" mostra a grande capacidade melódica de Pedro. As guitarras entrelaçadas no dedilhado da viola deixaram o som com um gosto de cerrado que é o mais puro veneno. Com aquele DNA de Pepeu Gomes, Pedrinho mostra um belo trabalho de texturas.

Mas é em jogo de gato que o alagoano se consagra. Com o teclado fazendo as vezes de cítara, o músico emula um groove com pegada de Ragga e entrega um dos temas que melhor sintetizam a criatividade do compositor, antes mesmo do encerramento com a veia Hard-Prog de "Extrapolações"... Apenas um dos adjetivos utilizados para definir o grande repertório  de um dos maiores músicos em atividade do nosso país. 

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O Shabaka Hutchings é uma figura chave na cena Jazz de Londres

O ano de 2018 tem sido excelente para o cenário de Jazz, principalmente o londrino. Desde o evento que contou com a Nubya Garcia e o Yussef Dayes Quartet - como atrações da SIM SP na edição 2017 - que esse cenário está se tornando cada vez mais tangível, também no Brasil.

Em 2018, por exemplo, durante mais uma edição do Nublu Jazz Festival, realizado pelo SESC, outro nome importantíssimo da cena de UK que veio ao nosso país foi o Shabaka Hutchings. Ao lado de um de seus mais demenciais projetos paralelos, o aclamado Sons Of Kemet, o músico mostrou sua pioneira fusão de Dub, música caribenha, Poesia (Spoken Word) e Jazz.


O prato principal do show foi o repertório do terceiro disco do Sons Of Kemet, o elogiadíssimo "Your Queen Is a Reptile", liberado no dia 30 de março de 2018 pela IMPULSE, um dos selos mais tradicionais do estilo. Além de ser um dos lançamentos mais elogiados pela crítica internacional, esse trabalho representa tudo o que saxofonista/clarinetista fez para atingir esse som e essa inédita abordagem.

E é justamente isso que faz com que o Macrocefalia Musical preste uma atenção especial nessa cena, pois as regras do jogo estão mudando muito rápido e existem centenas de discos que definitivamente precisam ser abordados.

Esse ano, por exemplo, já teve o ótimo debutante do Mansur Brown, novo disco solo do Kamaal Williams (também via Black Focus Records), outra estreia, dessa vez com o pianista Joe Armon-Jones, isso sem contar um documentário ("We Out Here") que retrata exatamente esse novo momento de efervescência no underground local. Ainda deu tempo pra arquitetar uma compilação liberada pela Brownswood Recordings - onde o próprio Hutchings foi um dos responsáveis - com várias gravações de diferentes grupos situados em Londres.


Line Up:
Shabaka Hutchings (saxofone)
Tom Skinner (bateria)
Nubya Garcia (saxofone)
Theon Cross (tuba)
Seb Rochford (bateria)
Josh Idehen (vocal)
Eddie Hick (bateria)
Miles Body (bateria)
Congo Natty (toaster)
Joshua Idehen (poesia)



Track List:
"My Queen Is Ada Eastman"
"My Queen Is Mamie Phips Clark"
"My Queen Is Harriet Tubman"
"My Queen Is Anna Julia Cooper"
"My Queen Is Angela Davis"
"My Queen Is Nanny Of The Marrons"
"My Queen Is Yaa Asantewaa"
"My Queen Is Albertina Sisulu"
"My Queen Is Doreen Lawrence"


O Shabaka está na linha de frente de diversos projetos e a cena da Grã Bretanha se beneficiou bastante de todo o reconhecimento que o multi instrumentista conseguiu nos últimos anos, mesmo com apenas 34 anos de idade.

E esse disco cumpre com a difícil tarefa de retratar exatamente o que está acontecendo musicalmente em Londres. Para começar essa história, porém, é primordial abordar a questão da herança histórica do conteúdo que sustenta essa gravação, em função de suas diferentes raízes, até por que a miscigenação de raças no Reino Unido contribuiu diretamente para essa nova Renascença Jazzística. 


O Shabaka Hutchings nasceu em Londres e se mudou pra Birmingham com 2 anos de idade. Aos 6 anos, sua família resolveu voltar para a terra natal (Barbados) e o futuro músico lá permaneceu até completar 16 verões.

Alguns anos mais tarde, ele voltaria para Londres pra estudar clarinete (na prestigiada Guildhall School Of Music & Drama), mas aí Londres já não era mais a mesma. Sua geração conta com nomes como Nubya Garcia, Femi Koleoso, Ashley Henry, Ambrose Akinmusire... São vários músicos com heranças caribenhas/africanas, todos responsáveis por colocar o Jazz londrino no posto mais alto da música contemporânea, algo que não acontecia na terra do chá das 16h desde os anos 60 (!)


Todos esses músicos trouxeram uma bagagem histórica que é a síntese de tudo que esses nomes citados estão criando para, dia após dia, seguir revolucionando o estilo. Um dos pontos que mais impressionam durante o tempo que o "Your Queen Is a Reptile" está no play, é algo que você só vai entender se já foi pra Barbados ou tem primos lá.

A dinâmica instrumental é um reflexo dos anos de Shabaka morando com seus pais. Ele mesmo já deu explicações sobre isso, pois um dos detalhes que mais chama a atenção da sua banda é o fato de contar com 2 bateristas, 1 saxofone e 1 tuba.

É notável como dessa maneira ele descentraliza a "obrigação" da bateria prover apenas ritmo enquanto os metais contribuem pra isso. O sax de Shabaka preenche o vácuo do groove e a tuba (Theon Cross) funciona como um baixo. 


“Not being from the place that jazz is born from means that I don’t feel any ultimate reverence to it. It’s just about finding ways of reinterpreting how we’re thinking about the music.”


Essa frase foi dita pelo Shabaka Hutchings durante uma entrevista recente. Além de uma fala poderosa e corajosa, ela também traduz a maneira como os novos músicos de Londres estão enxergando o Jazz.

Na mente do Joe Armon-Jones, por exemplo, o Jazz é uma intervenção. Essa fala do Shabaka dialoga muito com a clássica resposta que o Miles Davis deu a uma jornalista antes de subir ao palco na Ilha de Wight (1970). Perguntado sobre o seu set list, o negrão respondeu: "call it anything". Chame do que quiser... É esse ímpeto de mudança que formou esse disco e essa cena.

O música de Londres já entendeu que ele é um instrumento. As convenções do Jazz já foram para o espaço na mão dessa galera e quem ganha com esse experimento são os ouvintes. Um disco ambicioso, "Your Queen Is a Reptile", cria climas sinfônicos na conserva de um etílico Afrobeat.


Disruptivo desde a capa, o título do disco e seu conteúdo desafiam as convenções do nacionalismo e da monarquia britânica. Hutchings oferece sua própria versão de uma família real, formada apenas pelas mais importantes e visionárias mulheres negras. Nomes como Yaa Asantewaa,  Angela Davis e a própria bisavó de Hutchings, Ada Eastman. 

Na faixa que abre o disco ("My Queen Is Ada Eastman"), o fala do Joshua Idehen é tão poderosa quanto o explosivo groove do quarteto. A fúria de sua voz promove um contraponto interessante para o som, remetendo-o ao Free Jazz.

Em "My Queen is Mamie Phipps Clark", Shakaba entrega um Dub liderado pela produção de Congo Natty. Sim, um Dub sem Soundsystem, sem baixo e com a voz de Joshua mais uma vez emulando a presença de um mestre de cerimônia.

Mamie Phipps Clark, foi uma psicóloga social que pesquisou os efeitos prejudiciais da segregação em crianças afro-americanas.


Aliás, aqui vale um parenteses importante, o próprio Hutchings sempre exalta a cultura Hip-Hop em seus trabalhos e principais influências, inclusive ele costumava tocar sax por cima dos discos do Tupac e Notorious B.I.G antes de começar a compor... Sentiu a vibe ganster?

"My Queen is Harriet Tubman" chega em forma de um Fusion muito bem torneado e repleto de quebras de tempo, uma constante nessa gravação. Seria essa a visão do músico para o Jazz Rock?

Harriet Tubman foi uma abolicionista e espiã do Exército dos EUA durante a guerra civil americana. Harriet nasceu numa época bastante pesada para a segregação. Mesmo em regime de escravidão (1822) ela conseguiu fugir e promover missões para resgatar escravos.



Anna J. Cooper, por sua vez, foi uma das maiores e mais importantes professoras negras dos Estados Unidos. Depois de receber seu PhD em História pela universidade de Paris, Anna Cooper se tornou a quarta americana a chegar ao doutorado.


Todo o seu esforço ganhou um dos arranjos de maior sensibilidade e leveza do disco. Uma peça que mostra como o som desse combo muda o tempo todo. Mostrando-se hora melódico, hora intenso, quebrado ou Funkeado, a tônica dessa gravação é o vigor dos metais e a flexibilidade que os músicos possuem dada a estrutura da banda.

Em temas como "My Queen Is Angela Davis", é inviável não ouvir o som e ficar pensando em como seria se o disco contasse com um guitarrista, por exemplo. É um belíssimo processo de desconstrução.

Angela Yvonne Davis é uma professora e filosofa americana. Na década de 70 seu nome rodou o mundo graças aos seus esforços para a conquista de direito pelos mulheres, além de lutar contra a discriminação social e racial no país.


Em "My Queen Is Nanny Of The Marrons", por exemplo, o arranjo invoca os clássicos Spirituals da IMPULSE! e presta contas à Nanny Of The Maroons, retomando as influências jamaicanas de "My Qeen Is Mamie Phipps Clark", dessa vez apenas com mais leveza e uma suave linha percussiva.

Nanny Of The Maroonsu foi uma das mais populares líderes quilombolas jamaicanas, que eram conhecidos como "Marroons" no período (século XVIII).


Faixa após faixa a banda joga uma nova referência nos seus ouvidos. Com a já citada "My Queen Is Yaa Asantewaa" - que conta com a participação de Nubya Garcia no sax - o grupo surpreende pela prudência nas melodias, enquanto em temas como "My Queen Is Albertina Sisulu", a banda mostra que não tem desculpa pra não groovar, mesmo sem baixo. Basta ter uma tuba e um Theon Cross.


Yaa Asantewaaa foi rainha-mãe ashanti que lutou contra o colonialismo britânico no início do século XX.


Outro elemento que vai pirar seus ouvidos são as 2 baterias. É interessante acompanhar como elas se conversam. Num dos temas mais Funkeados do disco - a sinuosa "My Queen Is Albertina Sisulu" - é notável como essa dinâmica beneficia todo o contexto do som.

Nontsikelelo Albertina Sisulu, foi uma ativista sul africana. Importantíssima na luta contra o Apartheid no país, Albertina era a esposa de Walter Sisulu, outro nome primordial para o movimento.

E pra fechar essa verdadeira odisseia das minorias, Shabaka entrega "My Queen Is Doreen Lawrence". Com uma das abordagens mais densas e pesadas do disco, essa faixa mostra como novas propostas de formação sonora impactam na experiência do ouvinte e parecem facilitar ideias tão frescas quanto a composição em questão.


Doreen Delceita Lawrence é uma militante britânica-jamaicana e mãe de Stephen Lawrence, um adolescente britânico negro que foi assassinado em um ataque racista no sudeste de Londres em 1993.


É assim que se faz música. Mais do que ressignificar suas próprias raízes, o Shabaka Hutchings promove seu DNA, exaltando não só o Jazz, mas a música negra, as minorias e as mulheres negras, sempre utilizando a música para canalizar uma revolução (quase 100% instrumental). Viu por que eu falo tanto da cena Jazz de UK? Bora compra uma tuba agora.

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Relançaram o disco que o Herbie Hancock gravou com a Kimiko Kasai

Nos anos 70 o Herbie Hancock gravou alguns de seus melhores trabalhos. Em 73 saiu o clássico Head Hunters, já no ano seguinte foi a vez do "Thrust" e em 75 ainda teve um ao vivo no Japão ("Flood") que hoje deve valer uma nota em vinil, principalmente nas edições da época.

Aliás, foi bem nos anos 70 que bandas como o Beck, Bogert & Appice, por exemplo, começaram a explorar o mercado asiático. O próprio ao vivo do supergrupo formado pelo Jeff Beck - "Live In Japan"  de 73 - virou um item raríssimo na coleção de qualquer fã, não dó do Jeff Beck, mas de Cactus e Vanilla Fudge também.


Com a afirmação do mercado japonês como um pilar importante para a indústria fonográfica, centenas de edições acabaram ficando restritas aos colecionadores do mundo todo. Em muitas das vezes esse problema geográfico só poderia ser resolvido com uma viagem em pessoa, afinal de contas o país é um dos que mais atraem os amantes de vinil, principalmente desses LP's obscuros que não saíram fora do Japão.

Line Up:
Kimiko Kasai (vocal)
Herbie Hancock (vocal/piano/teclados/sintetizadores)
Mari Kaneko (vocal)
Yuka Kamebuchi (vocal)
Webster Lewis (órgão/piano/teclados/sintetizadores)
Alphonse Mouzon (bateria)
Paul Jackson (baixo)
Ray Obiedo (guitarra)
Bill Summers (percussão)
Benny Maupin (saxofone)



Track List:
"I Thought  It Was You"
"Tell Me a Bedtime Story"
"Head In The Clouds"
"Maiden Voyage"
"Harvest Time"
"Sunlight"
"Butterfly"
"As"


Uma das maiores gravações da carreira de Herbie Hancock, "Butterfly" foi um LP de estúdio gravado em Tóquio e lançado em 1979, esse disco contou com uma das maiores bandas que Herbie já teve ao seu dispor.

Na bateria, um dos maiores nomes do Fusion e sem dúvida alguma um dos maiores mestres da baqueta, Alphonse Mouzon. No baixo, nada mais nada menos que o Paul Jackson, isso fora o Webster Lewis que dividiu o trabalho de teclas com o Herbie, Benny Maupin no sax e Bill Summers na percussão. Que time, né? Entendeu por que os colecionadores ficaram malucos quando as poucas cópias que saíram na época sumiram?


Disponível no Japão pela primeira vez desde seu lançamento, "Butterfly" agora pode ser adquirido via Be With Records, selo britânico responsável pela empreitada toda. A reedição saiu dia 20 de abril e veio com a icônica arte da capa original restaurada, com OBI e uma qualidade de som monumental.

Um disco que mostra o fino trato e a sofisticação do AOR, além de evidenciar o requinte do City Pop, japonês - que viveria seu auge nos anos 80 - essa gravação beira a perfeição. Os timbres, a clareza das linhas, a nitidez... A interpretação para o boogie-disco de "I Thought It Was You" é o puro reflexo da classe num arranjo de Jazz-Funk.

O groove de "Head In The Clouds" explora toda a ampla capacidade melódica de Kimiko Kasai. É importante inclusive salientar a performance da vocalista japonesa, pois ela está longe de ser coadjuvante nesse trabalho. O cover de Stevie Wonder com "As" é um esforço angelical.

Sabe aquele disco que você escuta e não acha nem uma pluma fora do lugar? Então, é esse disco aqui. Valeu a pena ter feito uma dívida no banco. O melhor de tudo é que ainda tem no Spotify. Alphonse Mouzon e Paul Jackson, uma das maiores sessões rítmicas que o senhor ouvirá na vida!

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Do boteco ao Kilimanjaro com a viola do Otavio Cintra

Morar em São Paulo é o maior corre. As relações humanas sofrem com a efervescência dos grandes centros, os moradores perdem a calma com a variação de temperatura que consegue compreender as 4 estações numa única tarde e, não importa o contexto, todo mundo parece estar sempre atrasado.

O cotidiano é caótico, mas como diria o Bixiga 70: "Deixa a Gira Girar". Morando aqui o peão tem duas opções: encarar o caos de frente ou tentar sair dele, mesmo ainda que cético quanto as reais possibilidades de fugir dessa engrenagem que não vai parar, nem mesmo que cortem a luz.

Parece um assunto batido, ideal pra mesa de boteco, mas existe um fundo de verdade nessa história toda. Existem 2 jeitos de manter a sua sanidade mental: a primeira opção é pular de cabeça nesse turbilhão de protestos e contas ou a pagar, já a segunda, promove uma vivência mais leve, sem o peso de um piano de cauda nas suas costas: repita o mantra do Otavio Cintra: "Tudo certo... Nada resolvido".

Foto: Aline Cortez

Trocadilhos infames a parte, o mantra citado acima é o que batizou o primeiro lançamento solo de um dos compositores mais interessantes e versáteis do underground de São Paulo. Vocalista e baixista da Hammerhead Blues, Otavio é conhecido da cena e figura em diversos projetos, sempre como protagonista, carregando o seu Jazz Bass por aí.

Só que existem 2 Otavios. Não é aquele loucura do "Clube da Luta", mas musicalmente acredito que até o compositor concorde que para se lançar em carreira solo algo teve que ser deixado de lado para que essa nova persona viesse a tona. 

Para esse projeto, esqueça o groove de William Paiva (bateria) e Luiz Felipe Cardim (guitarra) que fecham o trio da Hammerhead Blues com ele. "Tudo Certo... Nada resolvido", lançado de maneira independente no dia 24 de agosto de 2018, vê seu compositor num de seus picos criativos, acompanhado de uma nova banda e munido de muitos referências.

Line Up:
Otavio Cintra (vocal/guitarra/violão/baixo)
Gabriel Guedes (guitarra)
Jimmy Diniz Pappon (teclados)
Hugo Pessôa (bateria)


Arte: Bia Cintra

Track List:
"Avenidas"
"Tempestade"
"Eu Fiquei Calado"
"Vampiros"
"Kilimanjaro"


Para esse novo canvas, o músico montou um quarteto para criar o plano de fundo de suas ideias. Numa mista maluco beleza de groove com Southern Rock, Marcos Valle e algo que é do Otavio mesmo, inerente à rótulos, o trovador de Santo Amaro conseguiu captar uma essência leve e original, além de ter exposto ideias que buscam apenas seguir em frente, mesmo quando nada está resolvido, mas você tem que falar que está tudo certo.

São 5 faixas e pouco mais de 15 minutos de som. Com arranjos compactos, porém muito bem feitos, esse EP vai ganhar seus ouvidos nos detalhes. O sombrear no Nylon da viola delirante de "Avenidas", o piano fazendo a cama de teclas como num tilintar de fuligem... "Tempestade" é uma grande síntese de todo a afobação paulistana. As teclas de Jimmy Pappon (Bombay Groovy) adicionam doces detalhes ao EP.

Foto: Barbara Kosloff

Mas apesar dos assuntos sem cor, o clima do EP é como num carnaval psicodélico, sempre com um balanço esperto e um approach bastante aveludado, principalmente nos timbres do vocal principal e do trabalho de backing. "Eu Fiquei Calado", por exemplo, chega com uma levada irresistível, como numa isca para fugir dos "Vampiros" que rondam o centro de SP.

Um conto épico sobre a nossa própria incapacidade de viver na cidade grande. "Kilimanjaro" é a canção mais poderosa do disco. Uma narrativa impactante e com um andamento surpreendente, as letras de Otavio demonstram que nós estamos no caminho... Mas que vai ser difícil resolver alguma coisa, ô se vai!



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Laid Black é a prova: o Marcus Miller nunca grava um disco ruim

Depois que o Jazz passou pela revolução Fusion nos anos 70, muito se falou em termos de novas possibilidades para essa nova forma de linguagem que fundia elementos do Jazz & Rock.

Os mais puristas falavam que esse movimento não era parte do Jazz. Já a galera mais aberta a novos experimentos, continuou ouvindo os discos sem se importar com todo o "frufru" acadêmico que caras como o Wyton Marsalis, por exemplo, adoram ressaltar.


Por que estou falando disso? Por que desde que o Jazz se entende por gente, a cada novo levante, seja ele parte do movimento Cool Jazz ou do chamado Jazz moderno, tudo com o que as pessoas se preocupam não é nem com a música em si, mas sim com a nomenclatura. É  justamente por isso que esses caras nunca serão o Marcus Miller.

Vê se o Marcus Miller está preocupado em ficar falando que o fulano não faz Jazz e que ciclano, "ah esse sim honra o estilo". Ele quer mais é ver o circo pegar fogo mesmo. Numa época onde o Jazz vive um de seus melhores momentos, seja no EUA ou bombando com a nova cena de UK, é ótimo ver que um dos maiores músicos e produtores do estilo está interessado apenas em se manter relevante, algo que ele faz como poucos, dessa vez com o excelente "Laid Black", seu último esforço solo, liberado no dia primeiro de junho de 2018.

Line Up:
Marcus Miller (baixo/arranjos/bateria/guitarra/teclados/saxofone/vocal)
Adam Agati (guitarra)
Trombone Shorty (trombone)
Alex Bailey (bateria/percussão)
Cliff Barnes (piano)
Jonathan Butler (violão/vocal)
Louis Cato (bateria/vocal)
Brian Culbertson (trombone)
Russell Gunn (arranjos/trompete)
Alex Han (saxofone)
Charles Haynes (bateria)
Mitch Henry (teclados)
Marquis Hill (trompete)
Honey Larochelle (vocal)
Julian Miller (vocal)
Selah Sue (vocal)
Kirk Whalum (flauta/saxofone)
Brett Williams (teclados/órgão/piano/sintetizadores)


Foto: Andrew Dann

Track List:
"Trip Trap"
"Que Sera Sera"
"7-T's"
"Sublimity 'Bunny's Dream'"
"Untamed"
"No Limit"
"Someone To Love"
"Keep 'Em Runnin'''
"Preacher's Kid"


A carreira solo do Marcus Miller é uma das mais sólidas na história do Jazz. Só o currículo do americano como produtor já é algo notável, mas em todos os seus projetos, seja como sideman ou em seus discos solo, uma coisa é fato: poucos músicos com tanta experiência possuem discografias tão eloquentes e de fato relevantes como o ex produtor do Miles Davis.

Em 2017, por exemplo, o multi instrumentista que já estava há 2 anos sem gravar nenhum solo de inéditas (desde 2015 com o também muito bom "Afrodeezia"), gravou uma trilha para o filme "Marshall", lançada no dia 29 de setembro de 2017 que é um dos grandes trabalhos que o músico fez nessa década, isso sem considerar tudo que ele fez desde 2010.


A música do Marcus muda o ano todo, mas mesmo assim você escuta 5 segundos e sabe que é o dedão dele que está no slap. Se no "Afrodeezia" a ideia era justamente conectar suas raízes africanas através da música, com a trilha sonora o objetivo era criar climas para promover uma maior imersão na telona, mas e sobre o Laid Black? O que ele queria com esse disco?

Lançado pela Blue Note Records, "Laid Black" tem tudo pra ser indicado ao Grammy novamente. Abrindo com a faixa mais swingada do disco ("Trip Trap") - a única gravada ao vivo - o músico já mostra novas aspirações.


Incorporando elementos da cultura Hip-Hop, Trap e Funk, o músico mostra que para ser ouvido hoje em dia, principalmente por um público mais jovem, é necessário entender esse perfil. E ele precisou entender isso pra justamente conseguir amarrar o disco todo dentro de um conceito de Black Music que fosse atual.

Só isso já é uma aula para os músicos de Jazz com uma visão estreita quanto às novas possibilidades do mercado. O que dizer do cover de Selah Sue para a clássica "Que Sera Sera"? E a participação do Trombone Shorty em "7-T's"? Funk tinhoso, produção cristalina como a água e muito balanço.

Outra detalhe que deixa esse disco ainda mais interessante são as participações. Em "Sublimity 'Bunny's Dream", por exemplo, a participação de Jonathan Butler na voz é memorável. As teclas adicionam grande classe aos belíssimos arranjos, mas quando você vê o groove já voltou com as bases de Trap e Hip-Hop com as frases marcantes de "Untamed". Viu por que o Jazz é a mãe do Hip-Hop?


Audição fácil, deliciosa, riquíssima e que mostra a tranquilidade de um músico que sempre está em busca do novo, só que não pelo Hype, mas sim pelo groove. No seco, no molhado, mandando  Bebop ou Trip Hop, deixa só com o Marcus que ele resolve. Pode acreditar que enquanto você estiver nos timbres com pinta de Bernie Worrell no Parliament-Funkadelic - com "No Limit" - tem alguém, em algum lugar do mundo, reclamando que isso não é Jazz.

Bom, enquanto eles reclamam, você pode groovar (lê-se chorar) com a balada "Someone To Love" e dar risada do Wynton Marsalis com "Keep 'Em Runnin'", até por que no final do dia todo mundo sabe que quem desdenha quer comprar!

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Peppa Prog: O lado Prog Jazz da Peppa Pig

Uma das coisas que mais impressiona no Jazz é o tamanho das discografias de caras como John Coltrane, Sonny Rollins e Charlie Parker. 

O mais notável é que o Trane e o Bird nos deixaram relativamente cedo, mas nem por isso a discografia dos mestres do sax não conta com boas dezenas de registros.


Num contexto vívido e muito receptivo para experimentos dos mais diversos e complexos, o Jazz é aquele cara gente fina que abraça qualquer coisa sem nenhum tipo de preconceito ou estereótipo. 

Até o silêncio vira groove, como na clássica "4'33'', composição do pianista, compositor e maestro John Cage. Um dos momentos chave na história da música, esses quatro minutos e tinta e três segundos representaram um novo momento para os limites da arte, principalmente num contexto conceitual.


E é exatamente dessa água transgressora que grupos como o Prog Jazz do Absurdo bebem. Não ouse groovar do mesmo lado da rua que esses meliantes. O quarteto radicado nos becos mais cavernosos do Butantã não economiza quando o assunto é improvisação livre, e se depender de Rob Ashtoffen (baixo), Vitor Coimbra (bateria) e Conrado Vieira (teclados), até a música tema da Peppa Pig vira uma jam, ou melhor, disco.

Line Up:
Conrado Viera (teclados/sintetizadores)
Sintia Piccin Fermino (saxofone)
Richard Fermino (saxofone/trompete)
Mariana Fermino (flauta/voz)
Gabriel Fermino (saxofone)
Victor Coimbra (bateria)
Rob Ashtoffen (baixo)


Arte: Welder Rodrigues

Track List:
"Intro"
"Pepa Entra na Bagunça"
"Pepa Viaja no Sax"
"Pepa Vai ao Dentista"
"Pepa Conhece Gabrielzinho"
"Pepa Entra em Apuros"
"Pepa Entra na Discoteca"
"Pepa se Transmuta em um Rato"
"Pepa se Transmuta em um gato"
"O Fantástico Mundo de Pepa"
"Pepa Goes to Neverland"
"PepaYardigans"
"Pepa de Volta ao Lar"


Com o objetivo de provar que o som ainda se alimenta dos extremos, o grupo registrou 6 discos em 4 horas e 33 minutos... O John Cage definitivamente ficaria orgulhoso.

Detalhe: antes dessa sessão, a banda já tinha gravado 2 trabalhos em 2018 ("Água de Xuca" e "Curso de Harmonia e Rítmica para Idiotas"), ambos lançados em maio e abril (respectivamente). Um prato cheio pra você que não acredita na possibilidade da Alanis Morrissete e um baixo fretless coexistirem sob o mesmo teto, esses discos foram apenas a ponta do iceberg perto do que foi idealizado e produzido no BTG Studio.

Foto: Emanuel Coutinho

Sei discos gravados num só dia. 6 discos, é isso mesmo que você leu. Tudo sem saio nenhum, bastou parar o carro para que o trio malhasse o Jazz. Além do trio base, o combo convocou os melhores músicos da cena da paulista para participar do dia de gravações e o resultado foram 6 de registros que caminham do Funk ao Free Jazz, passando pelo Gospel, o Fusion e a música de abertura do Chaves.

Parece absurdo. E é em um absurdo de fato, mas é justamente numa época onde a indústria fonográfica aposta apenas em singles, que projetos como esse merecem atenção, até por que não basta só improvisar, ainda mais num contexto instrumental, é primordial apresentar algo que prenda a atenção do ouvinte.


Esse é o retrato perfeito do primeiro disco gravado na sessão. "Peppa Prog" surge audacioso desde sua capa. Trocadilho inteligente de Welder Rodrigues, a ilustração se empodera do clássico "In The Court Of The Crimson King", primeiro disco do King Crimson, lançado em 1969 para dar apenas uma pista de como o Jazz e o Rock Progressivo falam a mesma língua.

Assim como todos os 6 discos gravados na sessão, "Peppa Prog" também é resultado de um take único. A partir da música tema do desenho, Gabriel e Mariana Fermino, de apenas 6 e 7 anos de idade, respectivamente, tocam sax e flauta enquanto todos os outros instrumentos começam a ocupar o som sempre imerso nos sintetizadores de Conrado Vieira.


Uma overdose de sarcasmo e polirritmia, tudo em take único, essa é uma boa oração para resumir o que é o Prog Jazz do Absurdo. Em show, mesmo com uma formação compacta, o grupo consegue criar temas e climas com grande facilidade, algo notável, dada a complexidade de fazer isso o tempo todo.

Com mais opções e com a contribuição de nomes como Sintia e Richard Fermino que praticamente tocou em família, o disco foi acrescido de grande riqueza no trabalho de metais, principalmente trompete e saxofone. A sessão rítmica manteve o swing mesmo nos tempos mais quebrados enquanto o engenheiro de som, Zeca Leme - um santo-  tentava entender o que estava rolando.

O trabalho dos pequeninos (Gabriel e Mariana) também merece menção. Além da flauta, a pequenina ainda contribui em algumas passagens com vocal ao lado de Sintia. Escute a sequência "Peppa Se Transmuta em um Rato" e "Peppa Se Transmuta em um Gato" para entender a profundidade do repertório desse Jazz. Sincopado, com feeling, quebrado e embalado no groove. É só apertar play no Funk que é o Prog Jazz do Absurdo.   


Lista de todos os discos gravados nessa mesma sessão (com link):

"Everything we do is music"
John Cage



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Inter-Fusion: a música de Shuggie Otis mais de 40 anos depois

O ano era 2012. Nessa época o Macrocefalia Musical ainda era só uma ideia e tudo o que orbitava o nosso QG girava ao redor do Funk. Se não tivesse time de metais e muito baixo, pode crer que a chance do nosso cérebro parar pra ouvir seria baixíssima.

Nessa época em particular, escutei um disco que com certeza foi um dos pilares para formar meu caráter psicodélico. Uma joia perdida no tempo, "Inspiration Information" foi a obra prima de Shuggie Otis, um dos maiores e paradoxalmente desconhecidos músicos de nosso tempo.


Em questão de 2 semanas devorei sua discografia. Os 3 primeiros LP's lançados pela Epic formam uma trilogia indispensável pra qualquer apreciador de Funk, Soul, Blues, Psicodelia e até mesmo música eletrônica. 

Tudo começou com o já notável debutante lançado em 1969 ("Here Comes Shuggie Otis"), depois ainda teve o brilhante "Freedom Flight", liberado 2 anos depois, em 1971 e o ápice desses período que compreendeu 5 anos, com o genial e pouquíssimo celebrado "Inspiration Information", liberado em 1974.


Esses discos me deixaram maluco, tanto separadamente quanto em conjunto. Neles, Shuggie demonstrava um domínio extraterrestre frente a diversas vertentes. O blend de Gospel nos arranjos, a atenção aos timbres e o trabalho de cordas... Esses foram elementos que realmente me pegaram de jeito e que de fato estimularam meus ouvidos na hora de dissecar sua contribuição musical ao universo.


Tão logo finalizei seus discos solo, descobri sua história e fiquei estarrecido ao ver que justamente sua obra prima ("Inspiration Information") tinha sido seu último esforço criativo solo. É claro que além desses trabalhos você ainda pode sacar a perícia de Shuggie ao lado de Al Kooper (no "Kooper Session", LP lançado em 69) e alguns outros trabalhos que compreendem o período, como o "Preston Loves Omaha-Bar-B-Q" (do saxofonista Preston Love, pela Kent Records também em 69), além de sua célebre gravação de "Peaches En Regalia", ao lado do mestre Frank Zappa, tocando baixo para um dos clássicos do "Hot Rats) com apenas 16 anos de idade, também em 1969.

Mas apesar de um curriculum vitae que contempla tais feitos, Shuggie parou de compor e isso simplesmente não me fazia sentido. Como um cara que tinha sido chamado pra tocar nos Stones tinha largado no tudo? 

No entanto, na época em que descobri sua música, o norte americano vivia uma espécie de ressurgimento bem interessante, com alguns de seus clássicos sendo sampleados e aparecendo como trilha em filmes como o "Clube de Compras Dallas", por exemplo.


As coisas estavam mudando. Depois de passar pelos anos 70 e 80 apenas fazendo pequenas contribuições, a partir de 90 Shuggie pelo menos voltou a revisitar suas gravações e o resultado foram belas compilações, como a "Shuggies Boogie: Shuggie Otis Plays The Blues", liberada em 94 pela Epic em parceria com a Legacy Recordings.

8 anos depois ele liberaria mais uma, dessa vez focando em seu trabalho em estúdio. "In Session: Great Rhythm & Blues", lançado em 2002 pela Golden Lane Records, revisita um pouco do repertório dos primórdios e mostra um vocabulário musical bastante pautado nas suas origens do R&B, principalmente da época em que começou, tocando ao lado seu pai, Johnny Otis.


Todos esses lançamentos só indicavam uma coisa: Shuggie poderia voltar ao estúdio. Em 2013 com o lançamento da coletânea "Wings Of Love", dessa vez pela Sony em parceria com a Legacy Recordings, o multi instrumentista lançou material inédito pela primeira vez em mais de 40 anos. Com um disco de sobras que compreende de 1975 até 2000 (junto com 4 faixas bônus da época do "Inspiration Information"), o mundo pôde, enfim, ouvir o que se passava na cabeça de Shuggie depois de tanto tempo.

O material fez grande sucesso e essa reedição foi um dos pontos altos da carreira do músico nos últimos anos. Acredito até que tenha sido um catalizador para acelerar a volta do velhinho aos palcos, algo que aconteceu numa inédita gravação ao vivo, com seu primeiro live da carreira, o excelente "Live In Williamsburg", lançado em 2014 pela Cleopatra Records.


Esse trampo aqui não é de inéditas, mas foi interessante para entender o atual momento do músico de 64 anos. Com uma bandaça, que inclusive inclui seu irmão e seu filho, ele recria muito dos velhos tempos, mas também mostra novidades.

Revisitar essas lembranças tanto tempo depois teve um efeito libertador no compositor. Ficar a sombra de sua genialidade por tantos anos deve ter sido bastante difícil, e só isso já justifica o motivo pelo qual nós tivemos que esperar até 2018 por um disco de inéditas do meliante. Mas, apesar de tudo, ele chegou no dia 20 de abril, via Cleopatra Records novamente.

Line Up:
Carmine Appice (batera)
Shuggie  Otis (guitarra/vocal/teclados)
Tony Franklin (baixo)



Track List:
"Aphelion"
"Get A Grip"
"Ice Cold Daydream"
"Interlude"
"Woman"
"Sweet Surrender"
"Clear Power"
"V8"


O formato desse disco surpreende bastante. Depois de mais de 40 anos sem gravar nenhum material inédito, um cara que já está com 64 anos foi lá e gravou um disco em power trio. O conteúdo não faz frente ao Shuggie dos anos 60 e 70. É bom já avisar, até por que se você estiver procurando por uma sequência do "Inspiration Information", é melhor nem perder o seu tempo.

O que temos aqui é um projeto de Fusion ao lado do baterista Carmine Appice (Vanilla Fudge/Beck, Bogert & Appice) e o baixista Tony Franklin (The Firm/Roy Harper). O trio é muito sólido e os elementos mais interessantes são como a bateria do Carmine Appice deixa o som mais sujo, invocando uma abordagem mais Blues-Rock, mas ao mesmo sem sair do Jazz, com os belos timbres de Tony Franklin contrastando a lírica da guitarra de Shuggie.


Não é o melhor disco do ano, mas é um trabalho honesto de um músico que só hoje parece ter superado toda a pressão que sofreu da Epic e de toda a indústria fonográfica como um todo. O mercado não foi amigável com um prodígio que demorou a desabrochar, mas que mesmo assim marcou a história do groove.

O mais perto do "Inspiration Information" que você vai chegar aqui é ouvindo a voz da experiência em "Ice Cold Daydream", por que depois já era. Apresentando o sentimento que eu tanto sonhei em ouvir (e resenhar) nos tempos atuais, Shuggie começa o disco solando em "Aphelion", antes de olhar sua própria face ao espelho, entoando "Ice Cold Daydream".

Sem chamar atenção, Shuggie é grande. Mesmo aos 64 mostra que não perdeu o balanço. As teclas oivantes de "Get A Grip" são um veneno. É nítido todo o seu conforto, afinal ele estava em seu habitat natural, acompanhado por 2 músicos de estúdio como ele. Seja instrumental, malhando o Blues com "Interlude" ou com as camadas de sintetizador em "Woman", Shuggie parece finalmente satisfeito e tranquilo.

Esse disco mostra a liberdade criativa que ele nunca teve. O cara só quer curtir e fazer um som, algo que apesar de simples, o limitou de compartilhar grandes pérolas conosco. O mundo precisa de outra chance para continuar ouvindo a lírica de temas como "Clear Power". Um brinde ao recomeço de Shuggie Otis, continue gravando mestre!

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