BlacKkKlansman: esqueceram da trilha sonora do Terence Blanchard

O Spike Lee gosta muito de Jazz. Shelton Jackson Lee na verdade é filho de um jazzista. Seu pai, William James Edwards - ou Bill Lee para os íntimos - gravou linhas de baixo ao lado de nomes como Aretha Franklin, Duke Ellington e Simon & Garfunkel.

Sua mãe, Jacqueline Carroll, por sua vez, foi professora de artes e literatura negra. Juntos, esses 2 criaram um dos maiores diretores, produtores, escritores e atores de toda a história, não só do cinema americano, mas sim mundial. São mais de 35 filmes produzidos desde 1983 numa carreira que compreende pouco mais de 30 anos de muito trabalho.


No entanto, apesar de todo o reconhecimento de sua obra, o criador de clássicos como "Malcom-X" (1992) e "Do The Right Thing", nunca teve o seu trabalho de trilha sonora (ao lado de Terence Blanchard) mencionado. Bom, acredito que o lançamento de "BlacKkKlansman" isso seja revisto, pois, mais uma vez, o trabalho de Terence Blanchard é tão bom e audacioso quanto a película que retrata a ideia maluca do policial Ron Stallworth.


Track List:
"Gone With The Wind"
"Hatred At It's Best"
"Main Theme"
"Ron's Theme"
"Firing Range"
"No Cross Burning Tonight"
"Patrice Library"
"Ron Meets FBI Agent"
"Connie and the Bomb"
"Guarding David Duke"
"Tale Of Two Powers 1"
"Tale Of Two Powers 2"
"Tale Of Two Powers 3"
"Woodrow Wilson"
"Klan Cavalry"
"Ron's Search"
"Patrice Followed"
"Here Comes Ron"
"White Power Theme"
"Partner Funk Theme"
"Main Theme - Ron"
"Blut Und Boden (Blood and Soil)"
"Photo Opps"


Terence Blanchard trabalha ao lado do Spike há 3 décadas. O que começou como uma pequena colaboração em "Mo' Better Blues" em 1990, acabou virando coisa séria quando o diretor ligou para Terence 1 ano depois para trabalhar na trilha de "Jungle Fever". Daí pra frente a dupla não parou mais.

Vale lembrar que além de sua vasta experiência trabalhando com cinema, Terence Blanchard, trompetista natural de New Orleans, ainda conta com belos trabalhos lançados por selos como Blue Note e Columbia. Tocando em projetos como a Lionel Hampton Orchestra e o icônico Art Blakey and the Jazz Messengers, o músico conseguiu conquistar ouvintes nos seus 2 habitats naturais, os clubes e as salas de cinema, algo de fato formidável.


Idealizada a partir da mesma estética R&B que permeou a trilha de Malcom-X, Spike pensou num contexto bastante melódico para a trilha de "BlacKkKlansman". Dessa forma, Terence poderia engrandecer a luta negra e utilizar o Jazz como instrumento para mostrar a resistência do movimento Black Power.

Em teoria isso é muito bonito, mas colocar essa estética em prática não deve ter sido simples. São 23 composições que formam o disco e acompanham o filme com uma precisão cirúrgica. É impressionante como Terence conseguiu sintetizar a música negra dos anos 70 para compor um score que trouxesse um blend de tudo o que nomes como Sly & The Family Stone, James Brown e Nina Simone representaram, não só para a música negra, mas também para o movimento dos direitos civis.


Numa época tão facilmente inflamável, tanto politicamente quanto musicalmente, os Estados Unidos nos anos 70 (época da investigação que inspirou o filme) era um lugar no mínimo pitoresco. De um lado você tinha o Jimi Hendrix tocando o hino com sua guitarra, e do outro os pouco dotados de neurônios da Ku Klux Klan.

Num dos períodos mais ricos de todos os tempos para a música, grandes gênios - como o próprio Hendrix - precisavam subir ao palco toda noite para provar que, apesar da descendência cherokee, ele era americano de nascimento.


Toda essa dualidade serviu de munição para o trabalho de Blanchard e o resultado é um riquíssimo compilado de texturas que vão do Jazz ao Funk com muita classe, groove e uma acidez tão necessária quanto o trote que o Ron Stallworth passou para o David Duke no final do filme.

História real. Contexto histórico dos anos 70... Você é negro e mora no Colorado. Está liso, precisando de grana e em busca de uma profissão, por isso nada mais lógico que pleitear uma posição no departamento de polícia local, certo?


Ron Stallworth achou que sim e acabou se transformando no primeiro detetive negro da história do departamento de Polícia de Colorado Springs. Como se isso já não bastasse, o negrão ainda teve a brilhante ideia de se infiltrar na Kux Klux Klan.

O problema é que em virtude de seu autêntico Black Power, ele ainda teve que convencer seu colega (judeu) Flip Zimmerman, interpretado por Adam Driver, a ir em seu lugar enquanto ele mesmo gerenciava a comunicação por telefone.

O Spike Lee é foda e o Terence Blanchard também. Um dos grandes filmes do ano ao lado de um dos melhores discos que abrilhantaram o cenário do groove em 2018. Que dupla. Quem é Bebeto e Romário?
  

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