Djonga: Rap nacional sem cuspe e nem massagem

Não é novidade pra ninguém. O Brasil está na merda e já faz tempo. Mesmo assim, continuamos liderando a página de memes do 9GAG, enquanto escavamos a passos largos, rumo ao pré-sal de nossa própria corrupção e ignorância.

Nesse cenário, a arte ganha requintes de auto crítica. Os compositores são afetados por toda essa onda de notícias nefastas. Uma atrás da outra, elas continuam munindo nossa paciência, perante um sistema que parece brincar com a vida da população como numa sádica corrida pela sobrevivência.

Todos esse elementos colaboraram para que a cena de Rap nacional explodisse com diversos MC's responsáveis, não só por alguns dos melhores discos de 2018 - como é o caso do "O Menino Que Queria Ser Deus", por exemplo - mas também por algo inerente ao talento de cada um dos formadores da cena: a originalidade.

Foto: Macrocefalia Musical

Quem não tem flow hoje em dia não sai de casa. Quem acompanha o corre dos beats sabe disso. E melhor do que isso, hoje o Rap, principalmente o nacional, está chegando em ouvidos que antes nem passava perto num assobio. A palavra está sendo passada enquanto dezenas de beatmakers/produtores criam milhares de bases para que nomes como o do MC mineiro continuem sem nenhum pudor em salientar o corre da resistência.

Acho que dentro desse contexto o Djonga é referência. Não digo isso em função do vasto repertório de suas rimas e ideias, saliento sua forma de expressar sua poesia devido a sua abordagem única. A voz do negrão está longe de ser melódica, suas batidas são viscerais, tem groove e no flow, depois do play, ele não alivia pra ninguém.


Track List:
"ATÍPICO"
"JUNHO DE 94"
"UFA"
"1010"
"SOLTO"
"CANÇÃO PRO MEU FILHO"
"CORRA"
"ESTOURO"
"DE LÁ"
"ETERNO"


Com uma métrica muito bem estruturada, uma visão bem direta e com uma abordagem seca, tão nua e crua quanto suas aliterações, que hoje ele não faz só o corre das notas, hoje o Djonga é um verdadeiro porta voz. Um anos depois ele provou que sua voz não é uma heresia. Suas ideias não só tem profundidade, como carregam coragem.
Depois de explodir e ganhar a desconfiança de muita gente, hoje o Djonga dá risada enquanto o sistema paga ele pra cantar, irmão. O cara se juntou com o Coyote e se em 2017 teve "Esquimo" e "O Mundo é Nosso", em 2018 veio "JUNHO DE 94" e "1010".

Trocando chumbo por chumbo grosso. É assim que os Djonga enfrenta os fascistas da nova era. O mineiro como quieto, por quando rima, faz a família tradicional brasileira fazer escândalo. Muito mais do que um olho de tigre, esse cara já provou pra todo mundo que merece sua atenção.

Ignorar esses discos, isso sim é Heresia.

0 comentários: