Do boteco ao Kilimanjaro com a viola do Otavio Cintra

Morar em São Paulo é o maior corre. As relações humanas sofrem com a efervescência dos grandes centros, os moradores perdem a calma com a variação de temperatura que consegue compreender as 4 estações numa única tarde e, não importa o contexto, todo mundo parece estar sempre atrasado.

O cotidiano é caótico, mas como diria o Bixiga 70: "Deixa a Gira Girar". Morando aqui o peão tem duas opções: encarar o caos de frente ou tentar sair dele, mesmo ainda que cético quanto as reais possibilidades de fugir dessa engrenagem que não vai parar, nem mesmo que cortem a luz.

Parece um assunto batido, ideal pra mesa de boteco, mas existe um fundo de verdade nessa história toda. Existem 2 jeitos de manter a sua sanidade mental: a primeira opção é pular de cabeça nesse turbilhão de protestos e contas ou a pagar, já a segunda, promove uma vivência mais leve, sem o peso de um piano de cauda nas suas costas: repita o mantra do Otavio Cintra: "Tudo certo... Nada resolvido".

Foto: Aline Cortez

Trocadilhos infames a parte, o mantra citado acima é o que batizou o primeiro lançamento solo de um dos compositores mais interessantes e versáteis do underground de São Paulo. Vocalista e baixista da Hammerhead Blues, Otavio é conhecido da cena e figura em diversos projetos, sempre como protagonista, carregando o seu Jazz Bass por aí.

Só que existem 2 Otavios. Não é aquele loucura do "Clube da Luta", mas musicalmente acredito que até o compositor concorde que para se lançar em carreira solo algo teve que ser deixado de lado para que essa nova persona viesse a tona. 

Para esse projeto, esqueça o groove de William Paiva (bateria) e Luiz Felipe Cardim (guitarra) que fecham o trio da Hammerhead Blues com ele. "Tudo Certo... Nada resolvido", lançado de maneira independente no dia 24 de agosto de 2018, vê seu compositor num de seus picos criativos, acompanhado de uma nova banda e munido de muitos referências.

Line Up:
Otavio Cintra (vocal/guitarra/violão/baixo)
Gabriel Guedes (guitarra)
Jimmy Diniz Pappon (teclados)
Hugo Pessôa (bateria)


Arte: Bia Cintra

Track List:
"Avenidas"
"Tempestade"
"Eu Fiquei Calado"
"Vampiros"
"Kilimanjaro"


Para esse novo canvas, o músico montou um quarteto para criar o plano de fundo de suas ideias. Numa mista maluco beleza de groove com Southern Rock, Marcos Valle e algo que é do Otavio mesmo, inerente à rótulos, o trovador de Santo Amaro conseguiu captar uma essência leve e original, além de ter exposto ideias que buscam apenas seguir em frente, mesmo quando nada está resolvido, mas você tem que falar que está tudo certo.

São 5 faixas e pouco mais de 15 minutos de som. Com arranjos compactos, porém muito bem feitos, esse EP vai ganhar seus ouvidos nos detalhes. O sombrear no Nylon da viola delirante de "Avenidas", o piano fazendo a cama de teclas como num tilintar de fuligem... "Tempestade" é uma grande síntese de todo a afobação paulistana. As teclas de Jimmy Pappon (Bombay Groovy) adicionam doces detalhes ao EP.

Foto: Barbara Kosloff

Mas apesar dos assuntos sem cor, o clima do EP é como num carnaval psicodélico, sempre com um balanço esperto e um approach bastante aveludado, principalmente nos timbres do vocal principal e do trabalho de backing. "Eu Fiquei Calado", por exemplo, chega com uma levada irresistível, como numa isca para fugir dos "Vampiros" que rondam o centro de SP.

Um conto épico sobre a nossa própria incapacidade de viver na cidade grande. "Kilimanjaro" é a canção mais poderosa do disco. Uma narrativa impactante e com um andamento surpreendente, as letras de Otavio demonstram que nós estamos no caminho... Mas que vai ser difícil resolver alguma coisa, ô se vai!



0 comentários: