Inter-Fusion: a música de Shuggie Otis mais de 40 anos depois

O ano era 2012. Nessa época o Macrocefalia Musical ainda era só uma ideia e tudo o que orbitava o nosso QG girava ao redor do Funk. Se não tivesse time de metais e muito baixo, pode crer que a chance do nosso cérebro parar pra ouvir seria baixíssima.

Nessa época em particular, escutei um disco que com certeza foi um dos pilares para formar meu caráter psicodélico. Uma joia perdida no tempo, "Inspiration Information" foi a obra prima de Shuggie Otis, um dos maiores e paradoxalmente desconhecidos músicos de nosso tempo.


Em questão de 2 semanas devorei sua discografia. Os 3 primeiros LP's lançados pela Epic formam uma trilogia indispensável pra qualquer apreciador de Funk, Soul, Blues, Psicodelia e até mesmo música eletrônica. 

Tudo começou com o já notável debutante lançado em 1969 ("Here Comes Shuggie Otis"), depois ainda teve o brilhante "Freedom Flight", liberado 2 anos depois, em 1971 e o ápice desses período que compreendeu 5 anos, com o genial e pouquíssimo celebrado "Inspiration Information", liberado em 1974.


Esses discos me deixaram maluco, tanto separadamente quanto em conjunto. Neles, Shuggie demonstrava um domínio extraterrestre frente a diversas vertentes. O blend de Gospel nos arranjos, a atenção aos timbres e o trabalho de cordas... Esses foram elementos que realmente me pegaram de jeito e que de fato estimularam meus ouvidos na hora de dissecar sua contribuição musical ao universo.


Tão logo finalizei seus discos solo, descobri sua história e fiquei estarrecido ao ver que justamente sua obra prima ("Inspiration Information") tinha sido seu último esforço criativo solo. É claro que além desses trabalhos você ainda pode sacar a perícia de Shuggie ao lado de Al Kooper (no "Kooper Session", LP lançado em 69) e alguns outros trabalhos que compreendem o período, como o "Preston Loves Omaha-Bar-B-Q" (do saxofonista Preston Love, pela Kent Records também em 69), além de sua célebre gravação de "Peaches En Regalia", ao lado do mestre Frank Zappa, tocando baixo para um dos clássicos do "Hot Rats) com apenas 16 anos de idade, também em 1969.

Mas apesar de um curriculum vitae que contempla tais feitos, Shuggie parou de compor e isso simplesmente não me fazia sentido. Como um cara que tinha sido chamado pra tocar nos Stones tinha largado no tudo? 

No entanto, na época em que descobri sua música, o norte americano vivia uma espécie de ressurgimento bem interessante, com alguns de seus clássicos sendo sampleados e aparecendo como trilha em filmes como o "Clube de Compras Dallas", por exemplo.


As coisas estavam mudando. Depois de passar pelos anos 70 e 80 apenas fazendo pequenas contribuições, a partir de 90 Shuggie pelo menos voltou a revisitar suas gravações e o resultado foram belas compilações, como a "Shuggies Boogie: Shuggie Otis Plays The Blues", liberada em 94 pela Epic em parceria com a Legacy Recordings.

8 anos depois ele liberaria mais uma, dessa vez focando em seu trabalho em estúdio. "In Session: Great Rhythm & Blues", lançado em 2002 pela Golden Lane Records, revisita um pouco do repertório dos primórdios e mostra um vocabulário musical bastante pautado nas suas origens do R&B, principalmente da época em que começou, tocando ao lado seu pai, Johnny Otis.


Todos esses lançamentos só indicavam uma coisa: Shuggie poderia voltar ao estúdio. Em 2013 com o lançamento da coletânea "Wings Of Love", dessa vez pela Sony em parceria com a Legacy Recordings, o multi instrumentista lançou material inédito pela primeira vez em mais de 40 anos. Com um disco de sobras que compreende de 1975 até 2000 (junto com 4 faixas bônus da época do "Inspiration Information"), o mundo pôde, enfim, ouvir o que se passava na cabeça de Shuggie depois de tanto tempo.

O material fez grande sucesso e essa reedição foi um dos pontos altos da carreira do músico nos últimos anos. Acredito até que tenha sido um catalizador para acelerar a volta do velhinho aos palcos, algo que aconteceu numa inédita gravação ao vivo, com seu primeiro live da carreira, o excelente "Live In Williamsburg", lançado em 2014 pela Cleopatra Records.


Esse trampo aqui não é de inéditas, mas foi interessante para entender o atual momento do músico de 64 anos. Com uma bandaça, que inclusive inclui seu irmão e seu filho, ele recria muito dos velhos tempos, mas também mostra novidades.

Revisitar essas lembranças tanto tempo depois teve um efeito libertador no compositor. Ficar a sombra de sua genialidade por tantos anos deve ter sido bastante difícil, e só isso já justifica o motivo pelo qual nós tivemos que esperar até 2018 por um disco de inéditas do meliante. Mas, apesar de tudo, ele chegou no dia 20 de abril, via Cleopatra Records novamente.

Line Up:
Carmine Appice (batera)
Shuggie  Otis (guitarra/vocal/teclados)
Tony Franklin (baixo)



Track List:
"Aphelion"
"Get A Grip"
"Ice Cold Daydream"
"Interlude"
"Woman"
"Sweet Surrender"
"Clear Power"
"V8"


O formato desse disco surpreende bastante. Depois de mais de 40 anos sem gravar nenhum material inédito, um cara que já está com 64 anos foi lá e gravou um disco em power trio. O conteúdo não faz frente ao Shuggie dos anos 60 e 70. É bom já avisar, até por que se você estiver procurando por uma sequência do "Inspiration Information", é melhor nem perder o seu tempo.

O que temos aqui é um projeto de Fusion ao lado do baterista Carmine Appice (Vanilla Fudge/Beck, Bogert & Appice) e o baixista Tony Franklin (The Firm/Roy Harper). O trio é muito sólido e os elementos mais interessantes são como a bateria do Carmine Appice deixa o som mais sujo, invocando uma abordagem mais Blues-Rock, mas ao mesmo sem sair do Jazz, com os belos timbres de Tony Franklin contrastando a lírica da guitarra de Shuggie.


Não é o melhor disco do ano, mas é um trabalho honesto de um músico que só hoje parece ter superado toda a pressão que sofreu da Epic e de toda a indústria fonográfica como um todo. O mercado não foi amigável com um prodígio que demorou a desabrochar, mas que mesmo assim marcou a história do groove.

O mais perto do "Inspiration Information" que você vai chegar aqui é ouvindo a voz da experiência em "Ice Cold Daydream", por que depois já era. Apresentando o sentimento que eu tanto sonhei em ouvir (e resenhar) nos tempos atuais, Shuggie começa o disco solando em "Aphelion", antes de olhar sua própria face ao espelho, entoando "Ice Cold Daydream".

Sem chamar atenção, Shuggie é grande. Mesmo aos 64 mostra que não perdeu o balanço. As teclas oivantes de "Get A Grip" são um veneno. É nítido todo o seu conforto, afinal ele estava em seu habitat natural, acompanhado por 2 músicos de estúdio como ele. Seja instrumental, malhando o Blues com "Interlude" ou com as camadas de sintetizador em "Woman", Shuggie parece finalmente satisfeito e tranquilo.

Esse disco mostra a liberdade criativa que ele nunca teve. O cara só quer curtir e fazer um som, algo que apesar de simples, o limitou de compartilhar grandes pérolas conosco. O mundo precisa de outra chance para continuar ouvindo a lírica de temas como "Clear Power". Um brinde ao recomeço de Shuggie Otis, continue gravando mestre!

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