Laid Black é a prova: o Marcus Miller nunca grava um disco ruim

Depois que o Jazz passou pela revolução Fusion nos anos 70, muito se falou em termos de novas possibilidades para essa nova forma de linguagem que fundia elementos do Jazz & Rock.

Os mais puristas falavam que esse movimento não era parte do Jazz. Já a galera mais aberta a novos experimentos, continuou ouvindo os discos sem se importar com todo o "frufru" acadêmico que caras como o Wyton Marsalis, por exemplo, adoram ressaltar.


Por que estou falando disso? Por que desde que o Jazz se entende por gente, a cada novo levante, seja ele parte do movimento Cool Jazz ou do chamado Jazz moderno, tudo com o que as pessoas se preocupam não é nem com a música em si, mas sim com a nomenclatura. É  justamente por isso que esses caras nunca serão o Marcus Miller.

Vê se o Marcus Miller está preocupado em ficar falando que o fulano não faz Jazz e que ciclano, "ah esse sim honra o estilo". Ele quer mais é ver o circo pegar fogo mesmo. Numa época onde o Jazz vive um de seus melhores momentos, seja no EUA ou bombando com a nova cena de UK, é ótimo ver que um dos maiores músicos e produtores do estilo está interessado apenas em se manter relevante, algo que ele faz como poucos, dessa vez com o excelente "Laid Black", seu último esforço solo, liberado no dia primeiro de junho de 2018.

Line Up:
Marcus Miller (baixo/arranjos/bateria/guitarra/teclados/saxofone/vocal)
Adam Agati (guitarra)
Trombone Shorty (trombone)
Alex Bailey (bateria/percussão)
Cliff Barnes (piano)
Jonathan Butler (violão/vocal)
Louis Cato (bateria/vocal)
Brian Culbertson (trombone)
Russell Gunn (arranjos/trompete)
Alex Han (saxofone)
Charles Haynes (bateria)
Mitch Henry (teclados)
Marquis Hill (trompete)
Honey Larochelle (vocal)
Julian Miller (vocal)
Selah Sue (vocal)
Kirk Whalum (flauta/saxofone)
Brett Williams (teclados/órgão/piano/sintetizadores)


Foto: Andrew Dann

Track List:
"Trip Trap"
"Que Sera Sera"
"7-T's"
"Sublimity 'Bunny's Dream'"
"Untamed"
"No Limit"
"Someone To Love"
"Keep 'Em Runnin'''
"Preacher's Kid"


A carreira solo do Marcus Miller é uma das mais sólidas na história do Jazz. Só o currículo do americano como produtor já é algo notável, mas em todos os seus projetos, seja como sideman ou em seus discos solo, uma coisa é fato: poucos músicos com tanta experiência possuem discografias tão eloquentes e de fato relevantes como o ex produtor do Miles Davis.

Em 2017, por exemplo, o multi instrumentista que já estava há 2 anos sem gravar nenhum solo de inéditas (desde 2015 com o também muito bom "Afrodeezia"), gravou uma trilha para o filme "Marshall", lançada no dia 29 de setembro de 2017 que é um dos grandes trabalhos que o músico fez nessa década, isso sem considerar tudo que ele fez desde 2010.


A música do Marcus muda o ano todo, mas mesmo assim você escuta 5 segundos e sabe que é o dedão dele que está no slap. Se no "Afrodeezia" a ideia era justamente conectar suas raízes africanas através da música, com a trilha sonora o objetivo era criar climas para promover uma maior imersão na telona, mas e sobre o Laid Black? O que ele queria com esse disco?

Lançado pela Blue Note Records, "Laid Black" tem tudo pra ser indicado ao Grammy novamente. Abrindo com a faixa mais swingada do disco ("Trip Trap") - a única gravada ao vivo - o músico já mostra novas aspirações.


Incorporando elementos da cultura Hip-Hop, Trap e Funk, o músico mostra que para ser ouvido hoje em dia, principalmente por um público mais jovem, é necessário entender esse perfil. E ele precisou entender isso pra justamente conseguir amarrar o disco todo dentro de um conceito de Black Music que fosse atual.

Só isso já é uma aula para os músicos de Jazz com uma visão estreita quanto às novas possibilidades do mercado. O que dizer do cover de Selah Sue para a clássica "Que Sera Sera"? E a participação do Trombone Shorty em "7-T's"? Funk tinhoso, produção cristalina como a água e muito balanço.

Outra detalhe que deixa esse disco ainda mais interessante são as participações. Em "Sublimity 'Bunny's Dream", por exemplo, a participação de Jonathan Butler na voz é memorável. As teclas adicionam grande classe aos belíssimos arranjos, mas quando você vê o groove já voltou com as bases de Trap e Hip-Hop com as frases marcantes de "Untamed". Viu por que o Jazz é a mãe do Hip-Hop?


Audição fácil, deliciosa, riquíssima e que mostra a tranquilidade de um músico que sempre está em busca do novo, só que não pelo Hype, mas sim pelo groove. No seco, no molhado, mandando  Bebop ou Trip Hop, deixa só com o Marcus que ele resolve. Pode acreditar que enquanto você estiver nos timbres com pinta de Bernie Worrell no Parliament-Funkadelic - com "No Limit" - tem alguém, em algum lugar do mundo, reclamando que isso não é Jazz.

Bom, enquanto eles reclamam, você pode groovar (lê-se chorar) com a balada "Someone To Love" e dar risada do Wynton Marsalis com "Keep 'Em Runnin'", até por que no final do dia todo mundo sabe que quem desdenha quer comprar!

2 comentários:

  1. Discão! Parabéns pela movimentação do site nessas últimas semanas, uma postagem melhor que a outra! Ansioso pela postagem dos melhores do ano, Vida Longa (:

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  2. Obrigado pelo elogio Mateus, estamos mais próximo do site novamente e pretendemos continuar assim. A listona do final de ano vai rolar. Vão ser 50 discos igual em 2017.

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