O Dom Salvador levou o Samba Jazz até o Carnegie Hall

O Dom Salvador é um dos maiores músicos brasileiros de todos os tempos. Radicado em Nova York, o pianista que ajudou a delinear os contornos do Samba Jazz foi um nome chave na produção do que veio a se tornar a MPB.


O carioca fez parte do mítico Rio 65 Trio, com Sérgio Barrozo (baixo) e Edison Machado (bateria). Apresentando o swing tupiniquim para a dinâmica Jazzística, Salvador mergulhou e revolucionou o Jazz em cada um dos lugares em que passou.


Quando não foi criando um novo modelo de groove pra sair pela tangente, o arranjador ainda gravou o seminal "Dom Salvador" (1969). Depois de rodar a europa e os Estados Unidos nos anos 60, o compositor voltou ao Brasil completamente influenciado pela revolução do Funk e Soul de grupos como Sly & The Family Stone, por exemplo.

Com um LP 100% instrumental, Dom plantou a semente do movimento Black Rio. Apresentando os tempos do Funk, valorizando os intervalos do Groove e jogando um pouco de Samba Jazz na jogada - afinal de contas ninguém é de ferro. O disco ainda conta com uma versão de "Aza Branca" que é a síntese desse rico blend de swing com Soul e brasilidades que o negrão bolou.


Depois de mais um marco em sua carreira, o artista seguiu experimentando, mas dessa vez com uma abordagem ainda mais pautada no balanço. Com esses 2 pilares e uma bandaça de apoio, o resultado foi um dos projetos mais ricos da música brasileira, falo sobre o Dom Salvador e Abolição.

"Som, Sangue e Raça", lançado 2 anos depois, já em 1971, faz o swing de "Dom Salvador" parecer coisa de criança. Com uma abordagem ainda mais pautada no movimento dos direitos negros, algo que o Funk/Soul ajudou a fomentar bastante, principalmente nos Estados Unidos - com nomes como James Brown na linha de frente - o disco virou uma pérola da música negra brasileira, cheia de baião e chorinho.

A semente foi platada em 1969, mas foi em 71 que o fruto deu caldo e abriu caminho para que nomes como Gerson King Combo, por exemplo, fizessem o Rio de Janeiro ferver na segunda metade da década de 70. Outro nome chave desse período foi o saxofonista Oberdan Magalhães que fundou a Banda Black Rio e gravou o também clássico e fundamental "Maria Fumaça", lançado em 1977.


O Dom Salvador fez muito pela nossa música. É por isso que uma carreira como essa precisa ser celebrada. O ano de 2018 marcou os 80 anos de vida do célebre compositor, uma comemoração que não poderia passar desapercebida, ainda mais por que contou com passagens do músico pelo Brasil, durante o festival SESC Jazz.

E foi justamente nesse clima de nostalgia, repassando os principais discos de um dos maiores gênios de nossa música, além de aproveitar sua passagem pelo país, que a Universal Music resolveu lançar o "Dom Salvador & Rio 65 Trio Live In Zankel Hall At Carnegie Hall".

Line Up:
Dom Salvador (piano)
Duduka da Fonseca (bateria)
Sérgio Barrozo (baixo)



Track List:
"Temátrio"
"Mau Mau"
"Desafinado"
"Azul Contente"
"Meu Fraco É Café Forte"
"Parque - Maria"
"Gafieira"
"Farjuto"
"Depois Da Chuva"
"Sloanes Court"
"Unification"
"Clauditi"
"Tem Dó"
"Natal No Interior"
 "Arroz De Festa"


Lançado no dia 24 de agosto de 2018, esse disco é resultado de um show que celebrou os 50 anos do "Dom Salvador & Rio 65 Trio". Gravado no apoteótico Carnegie Hall ao lado dos parceiros de longa data, Duduka Fonseca (bateria) e o já citado Sergio Barrozo (baixo).

Vale ressaltar que o Duduka Fonseca teve a difícil missão de substituir o já falecido Edison Machado, algo que ele fez com uma naturalidade assustadora. Sobre o piano do mestre, há pouco para se dizer, a classe segue intacta, o feeling é igual vinho e o timbre do Sergio Barrozo deixa o grave igual um veludo.

Um dos grandes trios que você ouvirá na vida, tocando num dos maiores palcos do mundo. Mais do que uma celebração, esse show serve para se entender a relevância de toda a contribuição musical de Dom. Se aqui no Brasil ele não tem o devido reconhecimento (também por que saiu do país em 73), lá fora sua música ainda é bastante apreciada e esse lançamento mostra, durante pouco mais de 1 hora e 20 minutos, como nós devemos valorizar as nossas próprias raízes.

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