O Shabaka Hutchings é uma figura chave na cena Jazz de Londres

O ano de 2018 tem sido excelente para o cenário de Jazz, principalmente o londrino. Desde o evento que contou com a Nubya Garcia e o Yussef Dayes Quartet - como atrações da SIM SP na edição 2017 - que esse cenário está se tornando cada vez mais tangível, também no Brasil.

Em 2018, por exemplo, durante mais uma edição do Nublu Jazz Festival, realizado pelo SESC, outro nome importantíssimo da cena de UK que veio ao nosso país foi o Shabaka Hutchings. Ao lado de um de seus mais demenciais projetos paralelos, o aclamado Sons Of Kemet, o músico mostrou sua pioneira fusão de Dub, música caribenha, Poesia (Spoken Word) e Jazz.


O prato principal do show foi o repertório do terceiro disco do Sons Of Kemet, o elogiadíssimo "Your Queen Is a Reptile", liberado no dia 30 de março de 2018 pela IMPULSE, um dos selos mais tradicionais do estilo. Além de ser um dos lançamentos mais elogiados pela crítica internacional, esse trabalho representa tudo o que saxofonista/clarinetista fez para atingir esse som e essa inédita abordagem.

E é justamente isso que faz com que o Macrocefalia Musical preste uma atenção especial nessa cena, pois as regras do jogo estão mudando muito rápido e existem centenas de discos que definitivamente precisam ser abordados.

Esse ano, por exemplo, já teve o ótimo debutante do Mansur Brown, novo disco solo do Kamaal Williams (também via Black Focus Records), outra estreia, dessa vez com o pianista Joe Armon-Jones, isso sem contar um documentário ("We Out Here") que retrata exatamente esse novo momento de efervescência no underground local. Ainda deu tempo pra arquitetar uma compilação liberada pela Brownswood Recordings - onde o próprio Hutchings foi um dos responsáveis - com várias gravações de diferentes grupos situados em Londres.


Line Up:
Shabaka Hutchings (saxofone)
Tom Skinner (bateria)
Nubya Garcia (saxofone)
Theon Cross (tuba)
Seb Rochford (bateria)
Josh Idehen (vocal)
Eddie Hick (bateria)
Miles Body (bateria)
Congo Natty (toaster)
Joshua Idehen (poesia)



Track List:
"My Queen Is Ada Eastman"
"My Queen Is Mamie Phips Clark"
"My Queen Is Harriet Tubman"
"My Queen Is Anna Julia Cooper"
"My Queen Is Angela Davis"
"My Queen Is Nanny Of The Marrons"
"My Queen Is Yaa Asantewaa"
"My Queen Is Albertina Sisulu"
"My Queen Is Doreen Lawrence"


O Shabaka está na linha de frente de diversos projetos e a cena da Grã Bretanha se beneficiou bastante de todo o reconhecimento que o multi instrumentista conseguiu nos últimos anos, mesmo com apenas 34 anos de idade.

E esse disco cumpre com a difícil tarefa de retratar exatamente o que está acontecendo musicalmente em Londres. Para começar essa história, porém, é primordial abordar a questão da herança histórica do conteúdo que sustenta essa gravação, em função de suas diferentes raízes, até por que a miscigenação de raças no Reino Unido contribuiu diretamente para essa nova Renascença Jazzística. 


O Shabaka Hutchings nasceu em Londres e se mudou pra Birmingham com 2 anos de idade. Aos 6 anos, sua família resolveu voltar para a terra natal (Barbados) e o futuro músico lá permaneceu até completar 16 verões.

Alguns anos mais tarde, ele voltaria para Londres pra estudar clarinete (na prestigiada Guildhall School Of Music & Drama), mas aí Londres já não era mais a mesma. Sua geração conta com nomes como Nubya Garcia, Femi Koleoso, Ashley Henry, Ambrose Akinmusire... São vários músicos com heranças caribenhas/africanas, todos responsáveis por colocar o Jazz londrino no posto mais alto da música contemporânea, algo que não acontecia na terra do chá das 16h desde os anos 60 (!)


Todos esses músicos trouxeram uma bagagem histórica que é a síntese de tudo que esses nomes citados estão criando para, dia após dia, seguir revolucionando o estilo. Um dos pontos que mais impressionam durante o tempo que o "Your Queen Is a Reptile" está no play, é algo que você só vai entender se já foi pra Barbados ou tem primos lá.

A dinâmica instrumental é um reflexo dos anos de Shabaka morando com seus pais. Ele mesmo já deu explicações sobre isso, pois um dos detalhes que mais chama a atenção da sua banda é o fato de contar com 2 bateristas, 1 saxofone e 1 tuba.

É notável como dessa maneira ele descentraliza a "obrigação" da bateria prover apenas ritmo enquanto os metais contribuem pra isso. O sax de Shabaka preenche o vácuo do groove e a tuba (Theon Cross) funciona como um baixo. 


“Not being from the place that jazz is born from means that I don’t feel any ultimate reverence to it. It’s just about finding ways of reinterpreting how we’re thinking about the music.”


Essa frase foi dita pelo Shabaka Hutchings durante uma entrevista recente. Além de uma fala poderosa e corajosa, ela também traduz a maneira como os novos músicos de Londres estão enxergando o Jazz.

Na mente do Joe Armon-Jones, por exemplo, o Jazz é uma intervenção. Essa fala do Shabaka dialoga muito com a clássica resposta que o Miles Davis deu a uma jornalista antes de subir ao palco na Ilha de Wight (1970). Perguntado sobre o seu set list, o negrão respondeu: "call it anything". Chame do que quiser... É esse ímpeto de mudança que formou esse disco e essa cena.

O música de Londres já entendeu que ele é um instrumento. As convenções do Jazz já foram para o espaço na mão dessa galera e quem ganha com esse experimento são os ouvintes. Um disco ambicioso, "Your Queen Is a Reptile", cria climas sinfônicos na conserva de um etílico Afrobeat.


Disruptivo desde a capa, o título do disco e seu conteúdo desafiam as convenções do nacionalismo e da monarquia britânica. Hutchings oferece sua própria versão de uma família real, formada apenas pelas mais importantes e visionárias mulheres negras. Nomes como Yaa Asantewaa,  Angela Davis e a própria bisavó de Hutchings, Ada Eastman. 

Na faixa que abre o disco ("My Queen Is Ada Eastman"), o fala do Joshua Idehen é tão poderosa quanto o explosivo groove do quarteto. A fúria de sua voz promove um contraponto interessante para o som, remetendo-o ao Free Jazz.

Em "My Queen is Mamie Phipps Clark", Shakaba entrega um Dub liderado pela produção de Congo Natty. Sim, um Dub sem Soundsystem, sem baixo e com a voz de Joshua mais uma vez emulando a presença de um mestre de cerimônia.

Mamie Phipps Clark, foi uma psicóloga social que pesquisou os efeitos prejudiciais da segregação em crianças afro-americanas.


Aliás, aqui vale um parenteses importante, o próprio Hutchings sempre exalta a cultura Hip-Hop em seus trabalhos e principais influências, inclusive ele costumava tocar sax por cima dos discos do Tupac e Notorious B.I.G antes de começar a compor... Sentiu a vibe ganster?

"My Queen is Harriet Tubman" chega em forma de um Fusion muito bem torneado e repleto de quebras de tempo, uma constante nessa gravação. Seria essa a visão do músico para o Jazz Rock?

Harriet Tubman foi uma abolicionista e espiã do Exército dos EUA durante a guerra civil americana. Harriet nasceu numa época bastante pesada para a segregação. Mesmo em regime de escravidão (1822) ela conseguiu fugir e promover missões para resgatar escravos.



Anna J. Cooper, por sua vez, foi uma das maiores e mais importantes professoras negras dos Estados Unidos. Depois de receber seu PhD em História pela universidade de Paris, Anna Cooper se tornou a quarta americana a chegar ao doutorado.


Todo o seu esforço ganhou um dos arranjos de maior sensibilidade e leveza do disco. Uma peça que mostra como o som desse combo muda o tempo todo. Mostrando-se hora melódico, hora intenso, quebrado ou Funkeado, a tônica dessa gravação é o vigor dos metais e a flexibilidade que os músicos possuem dada a estrutura da banda.

Em temas como "My Queen Is Angela Davis", é inviável não ouvir o som e ficar pensando em como seria se o disco contasse com um guitarrista, por exemplo. É um belíssimo processo de desconstrução.

Angela Yvonne Davis é uma professora e filosofa americana. Na década de 70 seu nome rodou o mundo graças aos seus esforços para a conquista de direito pelos mulheres, além de lutar contra a discriminação social e racial no país.


Em "My Queen Is Nanny Of The Marrons", por exemplo, o arranjo invoca os clássicos Spirituals da IMPULSE! e presta contas à Nanny Of The Maroons, retomando as influências jamaicanas de "My Qeen Is Mamie Phipps Clark", dessa vez apenas com mais leveza e uma suave linha percussiva.

Nanny Of The Maroonsu foi uma das mais populares líderes quilombolas jamaicanas, que eram conhecidos como "Marroons" no período (século XVIII).


Faixa após faixa a banda joga uma nova referência nos seus ouvidos. Com a já citada "My Queen Is Yaa Asantewaa" - que conta com a participação de Nubya Garcia no sax - o grupo surpreende pela prudência nas melodias, enquanto em temas como "My Queen Is Albertina Sisulu", a banda mostra que não tem desculpa pra não groovar, mesmo sem baixo. Basta ter uma tuba e um Theon Cross.


Yaa Asantewaaa foi rainha-mãe ashanti que lutou contra o colonialismo britânico no início do século XX.


Outro elemento que vai pirar seus ouvidos são as 2 baterias. É interessante acompanhar como elas se conversam. Num dos temas mais Funkeados do disco - a sinuosa "My Queen Is Albertina Sisulu" - é notável como essa dinâmica beneficia todo o contexto do som.

Nontsikelelo Albertina Sisulu, foi uma ativista sul africana. Importantíssima na luta contra o Apartheid no país, Albertina era a esposa de Walter Sisulu, outro nome primordial para o movimento.

E pra fechar essa verdadeira odisseia das minorias, Shabaka entrega "My Queen Is Doreen Lawrence". Com uma das abordagens mais densas e pesadas do disco, essa faixa mostra como novas propostas de formação sonora impactam na experiência do ouvinte e parecem facilitar ideias tão frescas quanto a composição em questão.


Doreen Delceita Lawrence é uma militante britânica-jamaicana e mãe de Stephen Lawrence, um adolescente britânico negro que foi assassinado em um ataque racista no sudeste de Londres em 1993.


É assim que se faz música. Mais do que ressignificar suas próprias raízes, o Shabaka Hutchings promove seu DNA, exaltando não só o Jazz, mas a música negra, as minorias e as mulheres negras, sempre utilizando a música para canalizar uma revolução (quase 100% instrumental). Viu por que eu falo tanto da cena Jazz de UK? Bora compra uma tuba agora.

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