A conexão espiritual do Maisha

A cena de Jazz do Reino Unido consegue absorver qualquer referência musical. Compreende o piano Jazz do Joe Armon-Jones, a guitarra do Mansur Brown e o clarinete do Shabaka Hutchings, mas ao mesmo tempo também carrega o DNA do Tenderlonious.

É interessante como o repertório do Jazz londrino é rico. Em 2018 o cenário mais uma vez rendeu discos primorosos e que provam não só como os jovens estão respeitando as tradições do groove em prol de sua resistência contemporânea, mas também como, apesar de uma cena em plena ebulição, tem espaço pra tudo, até para o Spiritual Jazz do Maisha.


Formado no ano de 2016, o sexteto liderado pelo baterista Jake Long trouxe um renovado approach para a densa escola de Alice Coltrane. Com o lançamento do primeiro trampo do grupo, o EP "Welcome to a New Welcome" (via Jazz re:freshed também em 2016) o que mais assustou os ouvintes foi o exímio domínio da linguagem que músicos como Nubya Garcia (saxofone) demonstraram, ainda que num contexto bastante diferente do que a cena está fazendo hoje, pensando num contexto geral.

Essa cozinha é uma prova de como a cultura do Jazz na Inglaterra não só é consumida, mas sim relevante em quase sua totalidade de subgêneros e ramificações. Passados quase 2 anos da estréia de um grupo que envolve os maiores expoentes da cena, a banda se reuniu para gravar seu primeiro full lengh e o resultado é "There Is a Place", disco lançado dia 9 de novembro de 2018 via Brownswood Recordings.

Line Up:
Jake Long (bateria)
Nubya Garcia (saxofone/flauta)
Shirley Tetteh (guitarra)
Amané Suganami (piano/wurlitzer)
Twm Dylan (baixo)
Tim Doyle (percussão)
Yahael Camara-Onono (percussão)
Axel Kaner-Lindstrom (trompete)
Barbara Bartz (violino)
Tom Oldfield (cello)
Johanna Burnheart (violino)
Madi Aafke Luimstra (viola)
Maria Zofia Osuchowska (harpa)



Track List:
"Osiris"
"Azure"
"Eaglehusrt/The Palace"
"Kaa"
"There Is a Place"


Logo depois do play fica claro que esse disco é especial. O link do Spiritual Jazz com a dupla de percussão (Tim Doyle e Yahael Camara-Onono) promove uma aproximação com o Afrobeat que é bastante interessante e inovadora nessa cozinha.

Não se engane pelos 5 temas, as faixas são longas e muito bem exploradas. A ambientação, os climas... Aquela aura que só o Spiritual Jazz consegue criar, perpetuando passagens de maneira ascendente que resultam numa indescritível sensação de plenitude após o fim do play.

"Osiris" reflete esse processo. O sax de Nubya servindo como norte, enquanto a cozinha mantém a percussão e espera pelo gancho melódico pra todo mundo voltar no groove.

Foto: Rodrigo Gianesi

O trabalho da Nubya Garcia é muito interessante, pois além de sua habitual destreza no sax, ela mostra um rico trabalho de flautas que é peça chave na ambientação de temas como "Azure", por exemplo.

Essa faixa ("Azure") é um relato de como todos os instrumentos tem lugar na jam. As teclas de Amané Suganami chegam com muito feeling e um wurlitzer envenenado. O acabamento de cordas idealizado pelo Jake Long dá uma roupagem muito classuda no instrumental.


O trabalho de percussão possibilita que temas como "Eaglehusrt/The Palace" tenham até mais swing. O Afrobeat aproxima a cozinha e o resultado é um baixo muito sincopado e uma dinâmica que liberta os solistas, como o guitarrista Shirley Tetteh, por exemplo que entrega uma das passagens de guitarras mais bonitas do disco todo. A frase do sax da Nubya Garcia nessa faixa também não é brinquedo não. A facilidade com que ela surge com frases amplamente melódicos é assustadora.

Em "Kaa" o instrumental é intenso e a cada tema o ideal de renovação cresce cada vez mais. É uma comunhão muito interessante e que mesmo num complexo contexto sonoro e estético, acaba criando um disco acessível e de agradabilíssima audição.

O maior problema é que pouco mais de 40 minutos depois o disco termina com a faixa título, o tilintar libertador de "There Is a Place". Depois do silêncio o sentimento de cura será uma realidade. Que disco. Até o Spiritual Jazz está apreciando novos ares.

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