O Prog Jazz do Absurdo lançou 8 discos em 2018

O ano de 2018 foi excelente para os ouvidos mais atentos. Do Jazz ao Axé, pode acreditar que se você procurar, vai ter groove, tanto internacionalmente - com levantes expressivos como a nova renascença Jazzística em UK - quanto (principalmente) nacionalmente, com diversos projetos interessantíssimos para a música independente.

Arte: Welder Rodrigues

E se tratando em groove em terra brasilis, talvez nenhuma banda tenha lançado tantos discos como o Prog Jazz do Absurdo. Combo paulista de Jazz radicado nos mais cavernosos improvisos do Funk ao Free, o quarteto lançou 6 discos de estúdio e 2 trampos ao vivo em menos de 12 meses.

Reza a lenda que enquanto batuco as teclas uma nova sessão está sendo mixada... Trocadinhos à parte, o projeto que a banda concretizou no BTG Studio mereceu uma análise mais profunda. Nós resenhamos um dos discos (o visionário "Peppa Prog") - uma excêntrica mistura de King Crimson com Peppa Pig - mas seria injusto não falar dos outros registros.

Foto: Emanuel Coutinho

Do Gospel até o Funk, passando pelo baião, Rock Progressivo, Fusion ou Free Jazz, pode confiar que o grupo formado por Rob Ashtoffen (baixo), Conrado Vieira (teclados/sintetizadores), Vitor Coimbra (bateria) e Victor "TED" Prado (trompa) sabe como subverter a linguagem do Jazz para ressignificar o conceito da improvisação livre.

Os 6 discos listados abaixo são da sessão realizada em julho ao lado de Zeca Leme (mixagem/masterização) do BTG Studio. Com tudo registrado em take único, sem ensaio e puro improviso, o grupo fez uma jam que compreendeu 4 horas e 33 minutos, mas antes disso a banda já tinha lançado o "Água de Xuca" e o ácido "Curso de Harmonia e Rítmica para Idiotas", os trampos que plantaram a semente para essa verdadeira odisseia Jazzística.

Sessão - BTG Studio


"Prog Jazz Para Baixinhos"


Line Up:
Conrado Viera (teclados/sintetizadores)
Sintia Piccin Fermino (saxofone)
Richard Fermino (saxofone/trompete)
Mariana Fermino (flauta/voz)
Gabriel Fermino (saxofone)
Vitor Coimbra (bateria)
Rob Ashtoffen (baixo)
Tahyná Oliveira (flauta/piccolo)
Victor "TED" Prado (trompa)


Arte: Welder Rodrigues

Track List:
"Chavez Sai da Vila Prog (Parte 1)"
"Chavez Sai da Vila Prog (Parte 2)"
"Despontando Rumo ao Anonimato"
"A Volta da Vila Prog"
"Groove do Chavez"
"Suco de Tamarindo"
"Uma Tira da Pesada"
"Nossa Turma"
"Vem Ser Feliz Com o Prog Jazz do Absurdo"
"The Real Kenny G"


Gravado com o intuito de criar um plano de fundo orientado ao repertório infantil, o Prog Jazz Para Baixinhos" foi resultado de uma sessão de improvisos que, mais do que mostrar a beleza dos arranjos da trilha sonora do Chavez, primam por propor visões completamente novas para sons que fizeram parte da sua infância.

Um dos trabalhos mais ácidos que foram gravados ao lado de Zeca Leme no BTG Studio, o "Prog Jazz Para Baixinhos" mostra por que o Jazz é tão complexo e profundo. Até Kenny G fica interessante quando o grupo mostra a liberdade da improvisação livre que o estilo agrega às releituras e passagens autorais. O baixo e o teclado para as suítes "Chavez Sai da Vila Prog" (Parte 1 e 2) são o mais puro veneno.


"Dedo no Cu e Gritaria"


Line Up:
Conrado Vieira (teclados/sintetizadores)
Sintia Piccin Fermino (saxofone/voz)
Richard Fermino (trompete)
Vitor Coimbra (bateria)
Rob Ashtoffen (baixo)



Track List:
"Jardim Romano"
"Brisa Garotinho"
"Vamo ET"
"Dedo no Cu"
"Gritaria"
"K.Y"
"Dedo no Cu é Vanguarda"
"E Gritaria Também É"
"A Patifaria"
"Acabou a Patifaria"
"Prog Jazz Não é Bagunça"


O Free Jazz foi um movimento que nasceu nos anos 50 e 60 nos Estados Unidos. Um dos catalizadores para que essa nova filosofia sonora se firmasse foi a insatisfação de músicos como Charlie Haden (baixo) e Pharoah Sanders (saxofone), por exemplo, com as limitações de linguagem do Bebop, o Hard Bop e o Jazz Modal dos anos 40 e 50.

Chamado também de Avant-Garde, o Free Jazz também estimulou a criação de uma linguagem Progressiva ligada ao Jazz. Esse levante buscou trazer o estilo de volta a suas origens, sempre com ênfase na improvisação.

Foi isso que o Prog Jazz fez com o interessante "Dedo no Cu e Gritaria". Um registro que vai do Baião ao Funk com a mesma naturalidade com a qual seu vô vai pegar água pra dentadura, o Prog Jazz mostra que apesar de oferecer uma proposta difícil, o Free Jazz ainda é vanguarda.


"Deus é Inacreditável"


Line Up:
Conrado Vieira (teclados/sintetizadores)
Lucas Coimbra (teclados)
Victor "TED" Prado (trompa)
Vitor Coimbra (bateria)
Rob Ashtoffen (baixo)


Arte: Welder Rodrigues

Track List:
"O Hino (Cor 618)"
"Alegrem-se Sempre no Senhor. Novamente Direi Alegrem-se (Fil 44)
"Como é Bom Cantar Louvores ao Nosso Deus (Sal 1471)"
"O Homem Natural Não Aceita as Coisas do Espírito de Deus, pois para Ele são Loucura (Cor 1 214)"
"E O que Vivo e Fui Morto Mas eis Aqui Estou Vivo Para Todo Sempre. Amém (Apo 118)"
"Segura na Mão de Deus e Vai (Ose 46)"
"E Conhecereis a Verdade E a Verdade vos Libertará (Joa 832)"


Inspirado na música Gospel de péssima qualidade que figura no canal de TV do Edir Macedo, isso sem dizer nos ridículos arranjos que as igrejas de São Paulo estão oferecendo aos seus respectivos casórios, que o Prog Jazz do Absurdo gravou o intrigante "Deus é Inacreditável".

O grande destaque dessa gravação é a dupla de teclas. Com um duplex de marfim malhado e sintetizadores, Conrado Viera e Lucas Coimbra (Samuca e a Selva) entregam a maior overdose de tecladores que o grupo gravou durante a sessão.

Com um approach bastante espiritual e amplamente melódico, esse disco explora uma dinâmica que, em função do rico trabalho do Conrado e do Lucas, deixa os músicos ainda mais livres para alterarem os andamentos e apresentarem novos ideias de improviso. Em breve em alguma igreja perto de você.


"Hu1000mildade Acima de Todos"


Line Up:
Conrado Vieira (teclados/sintetizadores)
Tahyná Oliveira (flauta/piccolo)
Victor "TED" Prado (trompa)
Vitor Coimbra (bateria)
Rob Ashtoffen (baixo)


Foto: Emanuel Coutinho

Track List:
"Intro"
"Muita Orelha para pouco Van Gogh"
"Ferve Frevo"
"Cheguei na Humilda e sem querer fui Foda"
"A Maquininha do Dentista (Parte 1)"
"A Maquininha do Dentista (Parte 2)"
"A Anestesia do Dentista (Parte 1)"
"A Anestesia do Dentista (Parte 2)"


Um dos registros de maior cadência no Funk, "Hu1000mildade Acima de Todos" continua a odisseia de improvisos do Prog Jazz do Absurdo com temas muito centrados na sessão rítmica de Rob Ashtoffen (baixo) e Vitor Coimbra (bateria).

Com mais uma dose cavalar de intervenções espacias, vide os sintetizadores de Conrado Vieira, esse registro oferece um olhar interessante para a dinâmica dos instrumentos de sopro. As frases doces de Tahyná Oliveira (flauta/piccolo) e as texturas de Victor Prado (trompa) oferecem uma tela em branco bastante propícia aos improvisos do grupo. As suítes "A Maquininha do Dentista" e "A Anestesia do Dentista" merecem até clipe.


"Pobre Star (Não deixe o Fracasso Subir à Cabeça)"


Line Up:
Conrado Vieira (teclados/sintetizadores)
Lucas Coimbra (teclados/sintetizadores)
Vitor Coimbra (bateria)
Rob Ashtoffen (baixo/guitarra)
Vinicius Nicoletti (baixo/guitarra)


Arte: Welder Rodrigues

Track List:
"Prog Jazz do Absurdo - Minha Jacuzzi é uma caixa d'água"
"Pegando um Bronze na Laje de Casa"
"Só andamos de Mercedes e Scania"
"4h40"
"Não Deixe o Fracasso Subir à Cabeça"
"O Prazer é Todo Seu"
"Bag Rasgado"
"X-Músico"
"O Rob Quer Tocar Ainda"


O registro mais cavernoso de todos os 6 trabalhos que foram gravados, "Pobre Star" merece uma menção honrosa. Único disco a não contar com sólidas contribuições de metais e sopros, esse Jazz foi todo improvisado no Jazz Rock, Fusion para os bilíngues.

Com passagens instrumentais que remetem aos maiores dramas no cotidiano de qualquer músico, o grupo aparece em mais uma sessão com a dupla de teclas (Conrado Veira & Lucas Coimbra) e ainda conta com a presença de Vinicius Nicoletti, peça chave nesse trabalho.

Guitarrista e também baixista, Vinicius ainda tocou baixo (fretless) e se alternou nas guitarras com Rob Ashtoffen. Dessa vez mostrando uma faceta mais agressiva na guitarra, foi bastante interessante observar a abordagem do Rob no instrumento. Caminhando pra quase 4 horas e 40 de sessão os músicos estavam visivelmente cansados, mas o Jazz Progressivo desse take é vigoroso e repleto de precisas intervenções por parte dos solistas. Talvez o prazer seja de fato todo seu.



Sessões ao vivo


"Curso de Harmonia e Rítmica para Idiotas"


Line Up:
Conrado Vieira (teclados)
Vitor Coimbra (bateria)
Rob Ashtoffen (baixo fretless)
Richard Fermino (clarinete/trompa)



Track List:
"Igor, o terrível"
"Vitas Theme"
"God Is Alanis"
"Baby, desce mais uma"
"I Am Stefhany"
"Everything está no seu lugar certo"


Gravado no Estudio Aurora no dia 16 de fevereiro de 2018, "Curso de Harmonia e Rítmica para Idiotas" mostra o entrosamento dos músicos, além de evidenciar como o groove é latente, mesmo em diferentes configurações sonoras.

Nesse trabalho quem faz as texturas de trompa e trompete - pra suprir o Vitor "TED" Prado - é Richard Fermino (Culto ao Rim). A abordagem praticamente interdisciplinar do requisitado músico entrega um trabalho riquíssimo e que mostra sua grande técnica e capacidade musical que compreende do sax até uma tuba. 

O groove é o prato principal, Conrado Vieira e Rob Ashtoffen fazem miséria com "Vitas Theme" e provam que é possível coexistir sobre o mesmo teto que a Alanis Morissette com "God Is Alanis". É tão desafiador quanto parece. O timbre do baixo fretless deixa o grave com outra classe.


"Água de Xuca"


Line Up:
Conrado Vieira (teclados)
Vitor Coimbra (bateria)
Rob Ashtoffen (baixo)
Richard Fermino (trompete/saxofone)
Victor "TED" Prado (trompa)



Track List:
"O Encontro de Ted e Mia"
"Absurda Parte 1"
"Absurda Parte 2"
"Alanis Is God"
"Vem Malandra"
"Camaleão Saracura"
"Ascensão aos céus por um pau de sebo"


Mas é com "Água de Xuca" que a tampa fecha. Banda completa e devaneios dos mais absurdos, o disco gravado ao vivo no Boteco Akikinoisbebe é a síntese de toda a overdose de sarcasmo e polirritmia que essa banda traduz em música.

As releituras beiram a demência e o trabalho de Richard Fermino em "Vem Malandra" consegue desconstruir o pancadão de tal forma que aqui estamos, citando até a Anitta. Essa talvez seja a maior lição do Prog Jazz do Absurdo.

Ao gravar 8 discos em menos de 365 dias o grupo mostra como as convenções da indústria e da própria produção hoje em dia são desnecessárias. O som permeia tudo que o forma e está em todos os lugares, sem esse mimimi de barreiras estéticas e problemas com processo criativo, muito pelo contrário.

É tudo questão de apertar play e gravar. O improviso é o caminho. O Prog Jazz não é bagunça não, mas é inegável que apesar da banda ter feito o trampo na humildade, sem querer eles foram foda. 

Não deixem o fracasso subir à cabeça e sigam os caras no Bandcamp.

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