Os novos eixos do Coquetel Molotov

Os festivais de música independente possuem um papel essencial na descentralização dos eixos da cena. Aquela história de Rio-São Paulo não comporta mais o underground, e é por isso que eventos como o Coquetel Molotov são importantes para a difusão de grooves de todos os CEP's do país.

No ar há 15 anos em Recife, a nave pernambucana pousou em São Paulo pra fazer sua estréia na The Week, na última sexta-feira, dia 30 de novembro. Com um leque de atrações que percorrem do Oiapoque ao Chuí, o festival que também já passou por Minas Gerais, Salvador e Belo Jardim mostra que a essência da música continua sendo o encontro de pessoas, artistas, sons e diferentes influências. É esse Axé que oxigena a cena.

Foto: Drico Galdino

E foi com ingressos esgotados que o Boogarins realizou seu último show do ano em São Paulo, abrindo o palco Coquetel Molotov. Com um repertório baseado principalmente no "Lá Vem a Morte" (2017), o grupo optou por uma abordagem instrumental calcada nas texturas do disco ao vivo "Desvio Onírico", liberado no mesmo ano.  

Foi um show fluente, muito bem roteirizado, mas ainda com espaço para intervenções de todos os envolvidos. Detalhe para a dinâmica do baterista Ynaiã Benthroldo, que entrega um som técnico e sincopado, tudo sem perder o peso e cadência no instrumental. Os goianos seguem expandindo sua orgânica visão do Rock Psicodélico.

Foto: Drico Galdino

Abrindo o palco Monkeybuzz, foi a vez do  Tuyo, trio paranaense formado por Jean Machado, Lilian e Layane Soares, reafirmar sua relevância sob um dos mais importantes palcos do Brasil.

Foto: Drico Galdino

Com uma proposta minimalista, uma estética de beats muito interessante, além de um criativo violão base e um soberbo trabalho de vocais, o quê Low-Fi do grupo conquistou os ouvintes com um lirismo impecável. No palco, a música fruto dessa união nos faz questionar os limites dessa cozinha Folk... Foi inevitável ver esse show e não imaginá-los com uma banda maior, produzindo algo ainda mais rico.

A plateia, atenta, cantava cada sílaba das letras do grupo numa conexão sublime, resultado de todo o acalanto e leveza de um projeto que conta com uma sensibilidade inspiradora.
Foto: Drico Galdino

Novamente no palco Molotov, o próximo show do itinerário veio com outra filosofia. Com a reunião de Alessandra Leão, Karina Buhr e Isaar França (Comadre Fulôzinha), o grupo fez um set repleto de ritmos, num rico blend de Maracatu e Baião que mostrou a importância da valorização dos ritmos regionais na música brasileira.

Foto: Drico Galdino

A essa altura do campeonato o relógio marcava 22:00 horas e o sentido dos ponteiros levaram o público para o laboratório de Maria Beraldo. Clarinetista e vocalista do grupo de Arrigo Barnabé, a multi instrumentista que ainda conta com colaborações ao lado de nomes como Elza Soares e Rodrigo Campos, ofereceu uma verdadeira performance ao público.

Foto: Drico Galdino

Com um show orientado pelo direcionamento criativo de seu primeiro trabalho solo, "Cavala", lançado no dia 30 de maio de 2018 pelo selo RISCO, a musicista emulou um repertório capaz de colocar o Jazz e a música eletrônica na mesma página. Tocando guitarra e clarinete num conceito de vanguarda muito doido e genuíno, sua maior virtude foi oferecer uma nova perspectiva para a música experimental.

Foto: Drico Galdino

E se depois desse show teve gente que já tinha pensado ter visto de tudo, bom, essa galera aí não conhecia o Edgar. Com a levada futurista de "ultrassom", primeiro disco do Rapper, lançado pela DeckDisc em setembro de 2018, o novíssimo Edgar - para os íntimos - abriu o Palco Sonic com sua arte interdisciplinar.

Adentrando o recinto como uma celestial entidade africana, Edgar fez do palco o quintal de sua casa. Com um repertório que vai de Guarulhos até o Funk, passando por Paris e pelos beats do centro de São Paulo, o meliante desafiou as convenções de seu público. 

Foto: Drico Galdino

O intérprete promoveu uma epifania frente ao calabouço tecnológico que a nossa sociedade se aprisionou. Com faixas como "Print" e "Go Pro", o músico mostrou o conceito sonoro de um disco que parece o resultado de uma inteligência artificial com vida própria.

Foto: Drico Galdino

Um delírio ludista como numa ode ao fim de um modis operandi enraizado na revolução industrial, "Ultrassom" revela que o seu sinal de Wi-Fi é só a ponta do Iceberg. Navegando pelos mais diversos meios, o flow do poeta é capaz de ocupar todos os lugares, com uma diplomacia experimental que traduz um dos sons mais originais que apareceram no Brasil nos últimos anos.

O trabalho de produção do Papaleo é de fato muito interessante. O conceito sonoro idealizado pelos caras merece bastante atenção, principalmente em função dos timbres que foram criados. Conversamos com o Edgar antes dele subir no palco e sintonizamos algumas frequências para desbravar o processo criativo do compositor.

1) Edgar, obrigado pela atenção. Pra começar gostaria de perguntar pra você sobre o Mama Festival em Paris. Você tocou lá recentemente e eu queria saber como foi a recepção do público europeu, ainda mais frente um som tão orgânico.

Era um festival aberto mais parecido com o acontece na SIM, a feira, sabe? Você comprava o seu ingresso e podia assistir, era um esquema de show cases bem interessantes e isso contribuiu pra levar um público bem diversificado.

Tinha um grupo de brasileiros que moravam na europa e flagravam o nosso trampo, foi bem legal de ver, mas essa galera era mais do bafafá que pegou, tipo "vai ter tal pessoa lá, vamo lá vê". Foi um feedback bem legal, a gente traduziu duas letras pra francês então a galera estava meio ciente do que ia rolar e o apoio jornalístico foi bem bacana, os jornalistas pesquisaram bastante e saiu bastante coisa sobre a nossa passagem por Paris.

2) E o que você percebeu quanto a relevância da música brasileira, também fora daqui? Grupos como Metá Metá e o Bixiga 70, por exemplo estão sempre rodando o circuito europeu e eu queria saber a sua impressão quanto as possibilidades de atingir esse mercado também.

Cara, ir pra lá foi romper uma película. A gente tava na expectativa de conseguir um representante e nós de fato conseguimos. Eu acho que é muito importante, acho que tinha que ter algum plano de governo, sabe? Alguma coisa que fizesse essa imigração do brasileiro para a europa, nem que seja por uma semana, até pra ele ver vários choques de cultura em diversos países e ver que ele precisa sim aprender alguma outra língua e se comunicar de várias formas..

Eu acho que mano, romper isso é o primeiro passo. Você vê, eu trombei a galera do Bixiga na europa, fiz participação no show deles, foi bem rápido por que eles estavam a milhão, mas ter essa vivência, isso é muito importante.

3) E pensando na cena experimental nacional, nomes como Negro Leo, Guizado... Você acha que o publico brasileiro está abrindo a mente pra trabalhos tão diferentes quanto o seu? É tempo de viabilizar novos ultrassons?

Eu acho que sim mano, acho que tem um galera que tá com umas sacadas bem interessantes. O Makalister produziu um disco gravando no Iphone...

Essa galera mais vaporwave né? do selo do Nill (o Sound Food Gang), tem o Yung Buda nessa pegada mais Lo-Fi também... 

Isso, é uma galera que tá no Tech, mas também chega no Low, sabe? Tem a Maria Beraldo fazendo as parada tudo sozinha, Ava Rocha... Tem uma galera, até mais antigos que eu que estão vindo pra esse caminho também.

4) E falando sobre música, Edgar, o que você gosta de ouvir, quais são suas referências musicais? 

Mano, eu gosto bastante de música étnica, tá ligado?

E Frank Zappa cara, já escutou?

Nunca ouvi Frank Zappa mano, acho que nunca peguei pra escutar. Eu acho que vou adorar quando escutar cara, vi uma foto dele que eu achei fantástica. A privada do quarto dava direto na televisão no andar de cima... Genial, já me entendi pra caralho. Nem escutei ele, mas é exatamente isso, já pensei: "tamo junto".

Mas o que eu curto, mano? É difícil falar assim... Hoje eu acordei de manhã e coloquei 3 horas de cuencos tibetanos, barulho de chuva... Varia demais.

5) Cara, uma das coisas que chamou minha atenção no seu som, foi essa característica interdisciplinar, por que vai muito além da questão musical. É cênico, expressivo... Como que é esse processo pra você, na hora de criar você considera o todo?

Eu comecei a viajar nisso no final de 2015. Agora, no segundo semestre de 2018 eu ainda ajo totalmente natural. Um exemplo disso foi quando eu cheguei no festival do Sol no Rio Grande Norte e estava sem máscara por que ela tinha rasgado..

Cheguei no outro show e fiquei pensando: e agora, o que eu faço? Ai eu olhei uma lamparina do festival que era toda feita de madeira jogada no chão. Eu peguei ela do chão, botei na cara e como a voz passava pelo microfone, ficou perfeito. Ainda é muito intrínseco, sabe? Eu uso, tudo é recurso, tá ligado?

Só que agora eu to meio que adquirindo um olhar e eu to começando a saber que eu sei. É um processo né cara, meio que uma brincadeira que envolve um exercício múltiplo de várias áreas da arte. O Renan fala que o Protetora dos Bêbados e Mal Amados que é um disco que eu tenho, ele fala que é um disco livro. O novíssimo que é todo visual já é um disco roupa então você consegue vestir toda aquela linguagem.

Logo depois, era a vez do Baco Exu do Blues encerrar o cronograma do palco Monkeybuzz com um dos shows mais aguardados da noite.

Foto: Drico Galdino

"Bluesman" é o trabalho mais recente do Baco Exu do Blues. Liberado no dia 23 de novembro, o segundo disco do Rapper baiano chegou ao mainstream com a mesma delicadeza de um Coquetel Molotov. Destruindo as chagas que impedem o empoderamento da pele preta, o cantor e compositor criou um conceito só pra ressignificar suas raízes.

Com o mesmo etílico teor subversivo da música negra, Baco buscou a estética do som dos escravos no campo de algodão para encontrar referências que vão desde Basquiat ("Bluesman") até o Delta e os bends do Chicaco Blues.

Foto: Drico Galdino

Ao estabelecer que tudo é Blues, Baco mostra domínio de uma nova linguagem. Ao partir do ponto em que tudo que envolve a estética de seu novo trabalho contém o DNA negro em absoluto, ele mostra que seu povo não precisa partir de ponto algum para se provar original, tampouco relevante. Ele por si só já é a meca do som, tu não precisa pagar pau pra gringo.

O Soul, Funk, Jazz, Blues... Tudo isso carrega o sangue dessa sofrida história e no repertório do novo disco essa é uma máxima constante. Com o repertório do novo registro na íntegra e surpreendendo o público com uma angelical participação da Tuyo na faixa "Flamingos", o artista gozou de uma liberdade poética invejável no cenário do Rap nacional.

Ao requisitar o papel principal numa sociedade que limita a luta das minorias como atores coadjuvante num filme do Spike Lee, que trabalhos como "Bluesman" são grandes feixes de luz nos escombros do abismo social no Brasil. A coisa tá ficando preta e isso é um bom sinal.

Foto: Drico Galdino

E pra fechar a noite ainda teve Coletividade Namibia com os DJ's Dany Bany e Valentina Luz, bem como intervenções de Ana Giselle, Paulet Lindacelva e Euvira.

Vida longa ao Coquetel Molotov. Vamos começar uma petição pra levar uma edição do festival pra cada estado do Brasil. Seria no mínimo justo rs.

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