O Tom Misch é cria do J Dilla

A cena de beatmakers dos anos 90 deixou uma marca indelével no cenário do Groove. Os beats do J Dilla romperam barreiras e saíram da East Coast pra se transformar no Lo-Fi Hip-Hop dos anos 2000. Slum Village, Erykah Badu, The Roots, Madlib, Common... A lista é gigante, mas todos esses grupos são e serão ainda mais importantes para explicar a cena moderna que está guiando o futuro da produção musical, desde o underground até o mainstream.

Só que essa vanguarda da música negra - Pós Motown e o auge da Black Music - ficou pequena para os impactos que essa cultura teve na música. O Jazz tem muito a agradecer essa galera toda. Se não fosse por esses caras, provavelmente o Tom Misch não tocaria guitarra. 


Nesse texto, o músico será apenas um instrumento para mostrar como essa linhagem sonora se perpetuará no futuro. Talvez o mais interessante seja perceber o impacto dessa linguagem e como ela ainda perdura na aura de discos como "Geography", a estréia solo do prodigioso guitarrista inglês, lançada - via Beyond The Groove - no dia 6 de abril de 2018. 

Line Up:
Tom Misch (vocal/guitarra)
GoldLink (vocal)
De La Soul (vocal)
Poppy Ajudha (vocal)
Loyle Carner (vocal)
Polly Misch (vocal)
Abbey Smith (vocal)
Jessica Carmody Nathan (vocal)
Jaz Kariz (vocal)
Roy Hargrove (vocal sample)
Jamie Houghton (bateria)
Tobie Tripp (violino)
Johnny Woodham (trompete)
Reuben James (piano)
Paul Castelluzo (guitarra)
Rob Araujo (teclados)



Track List:
"Before Paris"
"Lost In Paris"
"South Of The River"
"Movie"
"Tick Tock"
"It Runs Through Me" - feat. De La Soul
"Isn't She Lovely" - Stevie Wonder
"Disco Yes" - feat. Poppy Ajudha
"Man Like You"
"Water Baby" - feat. Loyle Carner
"You're On My Mind"
"Cos I Love You"
"We've Come So Far"


Amigo do Alfa Mist, FKJ - vulgo French Kiwi Juice - Tom Misch está envolvido apenas com a nata da cena inglesa. Natural de Londres, o guitarrista e produtor está no corre desde 2012 e chama atenção devido ao seu versátil talento e abordagem multidisciplinar.

Depois do play, Misch promove uma sinuosa mistura entre Jazz, Funk e os climas do A Tribe Called Quest, tudo batido no seu liquidificador com cérebro de beatmaker e charmosos sons de sinth na guitarra.


Quanto ao seu trabalho como beatmaker, vale ressaltar que Tom tem 2 trabalhos nesse front. Todos no formato Mixtape, "Beat Tape 1" e "Beat Tape 2" - lançados em 2014 e 2015 respectivamente - mostram de onde vêm suas referências e servem como um belo plano de fundo para entender sua lírica.

Em disco o clima é o mesmo. Detalhe para o sample do Roy Hargrove na intro de "Before Paris", inaugurando o disco com muita classe. A naturalidade para tirar ácidos licks e riffs de sua Strato chega a impressionar. A melodia de "Lost In Paris" ficará na sua mente por semanas.

Seu talento vocal é outro grande destaque do disco - principalmente em baladas como "Movie" - e a forma como ele entrega todas essas referências com um novo formato é bastante interessante. O violino do Tobie Tripp também é um detalhe que engrandece os arranjos e "South Of The River" é um exemplo disso. Não adianta, podem se passar 50 anos, mas as cordas sempre vão entregar um acabamento majestoso em qualquer gravação. A participação do violinista é muito interessante e vale ressaltar que ele também está presente nos shows.


A bateria com approach dos beats também funciona muito bem para ambientar as batidas e isso fica nítido, principalmente em temas como "Tick Tock", onde Tom trabalha com camadas de sinth. Em alguns momentos parece até Disco em função de certas timbragens.

Disco de audição leve e fácil, o guitarrista ainda convocou uma seleta roda de mestres para participar desse encontro. Tem De La Soul em "It Runs Through Me" - com uma levada ao melhor estilo brasilis - Poppy Ajudha em "Disco Yes" e Loyle Carner em "Water Baby".

É um som de sensibilidade grandiosa e que mostra como essa galera da cena atual pensa, não só como músico, mas com uma mentalidade de produtor/beatmaker na cabeça. É um trabalho muito completo e que circula em diversos estilos  livremente. Passei pelo Funk, Jazz, R&B, Hip-Hop e fala com a galera do underground ao mainstream.

Tem hora que ele chega a irritar pela aparente facilidade que desliza os braços da guitarra. Pode confiar, o inglês vai ganhar seus ouvidos com a majestosa versão de "Isn't She Lovely". Vem tranquilo que esse é tiro certo. O Stevie Wonder deve ter ficado orgulhoso.

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O trompete contemporâneo do Maurice Brown

O Jazz vive um grande momento, tanto no cenário mainstream, quanto no underground. E o interessante é que é possível observar que o som da nova cena caminha para 2 lados nessa nova renascença.

Se por um lado você tem - principalmente a cena de UK - com diversos grupos explorando o que existe de mais moderno no amplo espectro Jazzístico, pra contrapor esse ponto, tem uma série de instrumentistas americanos que apesar de também estarem na linha de frente do movimento, estão groovando com os olhos no futuro, mas com as raízes bem fincadas no Hip-Hop.


É claro que a produção do Jazz não fica à cargo apenas dessa galera. Tem muita gente desafiando a escola de Miles Davis, também na europa. Tem Jazz rolando em diversas partes do globo e o som pulsa até em Israel, terra do baixista Avishai Cohen.

E apesar de parecer até um pouco clichê - em função das diversas novas fórmulas Jazzísticas que vão da música eletrônica até o Rock Progressivo - o Hip-Hop está dando o que falar. Esqueça o Robert Glasper, Karriem Riggins, Thundercat e toda essa galera.

O trabalho dos músicos citados acima é de fato primoroso. Uma espécie de elo perdido entre o Jazz e o Hip-Hop, uma cultura que é muito desrespeitada frente ao academicismo que nomes como Wynton Marsalis pregam. Mas nos últimos anos essa fusão atingiu novos pontos de transgressão e resultou em sonoridades tão ímpares quanto a do Alfa Mist e do Maurice Brown, por exemplo.


Maurice "Mobetta" Brown que o diga. A cozinha que guia o seu trompete é completamente pautada no Jazz, mas a abordagem que consegue agregar tanto frescor ao timbre de seu trompete é o grande segredo por trás de seu sucesso.

Um dos maiores músicos de sua geração, o negrão nem chegou nos 40 ainda e já coleciona colaborações ao lado de nomes como Tedeschi Trucks Band, The Roots, Aretha Franklin e mais recentemente - no Coachella 2019 - Anderson .Paak & The Free Nationals.

Em carreira solo sua discografia é mais compacta. São apenas 3 discos. Primeiro veio o debutante "Hip to Bop" (2004), depois foi a vez do "The Cycle Of Love" (2010), mas foi com "The Mood", lançado em 2017, que o seu inventivo som conquistou os ouvidos do grande público.

Line Up:
Maurice Brown (vocal/trompete)
Kris Bowers (piano/teclados)
Solomon Dorsey (baixo)
Joe Blaxx (bateria)
Josh Connolly (guitarra)
Chelsea Baratz (saxofone/vocal)
Derek Douet (saxofone)
Weedie Braimah (percussão)
Saunders Sermons (trombone)
Talib Kweli (vocal)
Chris Turner (vocal)
J. Ivy (vocal)



Track List:
"The Mood"
"On My Way Home"
"Intimate Transitions (Jardin Le Sonn)"
"Stand Up (feat. Talib Kweli)"
"Moroccan Dancehall"
"Shenanigans"
"Capricorn Rising"
"Journey Exotique"
"Serendipity"
"Destination Hope (feat. Chris Turner & J. Ivy"


"The Mood", terceiro trabalho de estúdio do americano, foi lançado - via Ropeadope Records - no dia 24 de março de 2017 e cumpre a difícil tarefa de sintetizar sua abordagem. Com o Bebop na linha de frente, Maurice une o Jazz a uma visão de timbres que muito se assemelha ao minucioso trabalho de  um beatmaker.

Produtor, compositor e arranjador de mão cheia, o dono de um Grammy conta com um estilo econômico, mas que impressiona pelo rico blend de Blues, Soul e Funk. São linhas de grande eloquência e capacidade melódica que chegam a confundir o ouvinte em função da maneira como ele subverteu o Hip-Hop no meio do Bebop.


Logo na faixa título dá pra sacar isso. Os tempos espaçados na bateria, a guitarra, teclas e sax fazendo as texturas... É um sopro de ar fresco inebriante e o timbre do Maurice é de fato peculiar. Parece oldschool, mas nesse contexto chega até a confundir. "On My Way Home" é uma faixa que mostra o motivo dessas dúvidas.

Parece que o trompete virou um veludo e na hora dos improvisos o Dizzy Gillespie ficaria orgulhoso. É um trabalho muito leve, a sonoridade é muito descolada e os músicos que o acompanham fazem um trabalho primoroso.

As teclas de Kris Bowers são um dos grandes segredos desse disco. Em "Intimate Transitions" o marfim malhado surge com grande sensibilidade, já ambientando o Cool Jazz com um riff sutil, mas mortal. É um trabalho quase todo instrumental, salvo a colaboração de Talib Kweli para as vozes do single "Stand Up" e a não menos importante presença de Chris Turner e Ivy J, fazendo a poesia falada de "Destination Hope".


São temas longos, mas que em nenhum momento se tornam cansativos. Em "Moroccan Dancehall", por exemplo, o músico mostra influências que remetem ao trabalho do Shabaka Hutchings. Aquele sax com pegada de música africana, com fortes marcações. A dupla que ele fez com o sax da Chelsea Baratz merece uma menção honrosa... Em "Shenanigans", o som do naipe é tão forte - como num mantra - que beira o Afrobeat.

É até engraçado como as faixas acabam ficando na cabeça do ouvinte, tudo com a mesma naturalidade com que elas tomam conta dos falantes. Com abafador ou sem abafador, o som vem no seco, sem cuspe e sem massagem, apresentando desde intrincados andamentos - como acontece em "Shenanigans" - mas é com sensibilidade, classe e sutileza de temas como "Capricorn Rising", por exemplo, que esse disco conquista o ouvinte.


O maior trunfo do Maurice Brown nem é a fusão que ele promoveu, mas sim a forma como tudo isso foi feito. A estética leve e de grande lirismo abre espaço para uma instrumentação mais arrojada e que brinca com o tempo como se ele fosse apenas um detalhe. 

Dessa forma, Maurice consegue um instrumental sólido e que ganha vida própria graças a improvisação... Daí pra frente o seu trompete fica brincando de esconde-esconde e no fim do disco - mesmo após temas belíssimos como "Journey Exotique" e "Serendipity" - parece ainda fica uma dúvida no ar... É Hip-Bop? Hip-Hop? É essa dúvida cruel que chamamos de Jazz contemporâneo ou Jazz moderno. É esse apreço pelo novo que a crítica chama de Maurice Brown.

Um dos melhores sons de trompete da cena. É cremoso demais pra deixar passar batido. Fiquem atentos com os novos expoentes da música negra.

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Groove: aprenda com o The Fearless Flyers

Um dos supergrupos mais interessantes que surgiram nos últimos tempos. Essa seria apenas uma maneira de classificar o trabalho do The Fearless Flyers. Um quarteto que surgiu à partir do Funk do Vulfpeck, o grupo formado pelo Joe Dart (baixo), Cory Wong (guitarra), Mark Lettieri (guitarra) e por nada mais nada menos que Nate Smith (bateria), já está de disco novo.

Após lançar o debutante autointitulado em março de 2018, o grupo grupo se tornou um enorme viral em homenagem ao groove. Com um formato no mínimo inusitado em termos de configuração, a dinâmica do som dos caras parece simples, mas quem já fritou nesse Funk sabe que o buraco é muito mais embaixo.


Com um trabalho soberbo de guitarra base, Wong-Lettieri fazem a cama perfeita para que Joe Dart e Nate Smith - numa bateria minúscula - tira leite de pedra, promovendo acompanhamentos ridículos num kit reduzido e que na mão do baterista (parece) de brinquedo.

Essa foi a receita do primeiro trabalho (que resenhamos aqui). 6 grooves que foram desenvolvidos e musicados para mostrar a importância de subverter a linguagem do Funk, R&B e do Groove para uma nova geração. É um complemento do trabalho realizado pelo Vulfpeck e com o segundo disco - The Fearless Flyers II - as experimentações continuam.

Line Up:
Joe Dart (baixo)
Nate Smith (bateria)
Cory Wong (guitarra)
Mark Lettieri (guitarra)
Joey Dosik (saxofone)
Chris Tile (guitarrinha)



Track List:
"Flyers Direct"
"The Baal Shem Tov (feat. Joey Dosik)"
"Simon F15"
"Daddy, He Got a Cessna (feat. Chris Tile)"
"Swampers (feat.Chris Tile)"
"Hero Town"


A receita segue a mesma. Novamente, o quarteto aparece com 6 grooves e a cada take as propostas impressionam pelos dinâmicos desdobramentos do som. Lançado no dia 3 de maio de 2019, esse trabalho no entanto surge com um som mais elaborado.

Os temas seguem compactos, mas já ganharam mais corpo e as participações são o mais puro veneno. "Flyers Direct" é mais um riff que você sonharia ter composto. "The Baal Shem Tov" chega como quem não quer nada, mas ai aparece o Joey Dosik com um saxofone plugado no Wah-Wah e as linhas que o Nate Smith executa com apenas uma das mãos, deixam qualquer ambidestro no chinelo.


Aliás, é importante ressaltar essa questão dos instrumentos de sopro, pois essa é a principal influência para a criação dos boogies que envolvem esse projeto. Em temas como "Simon F15", o grupo mostra todo seu lirismo, enquanto o ouvinte se pergunta como o Nate Smith tira tanto som de um kit que mais parece a bateria da Hello Kit.

Mas é ao som das participações de Chris Thile que esse trabalho atinge o auge. Primeiro com "Daddy, He Got a Cessna" - trocadilho com "Daddy, He Got a Tesla", música do Vulfpeck - Chris mostra que não existem limites para o Funk.  A prova viva disso é sua mini guitarra. Ele chega a desafiar a soberania de Cory Wong e Mark Lettieri, mas enquanto a sessão rítmica segura o chumbo, Nate Smith bota ordem na casa. 


Temas como "Swampers" - com participação de Chris Thile mais uma vez - mostram um senso de urgência notável. Ver esses caras ao vivo deve ser uma experiência primorosa. "Hero Town" é um tema do Vulfpeck que foi remodelado para os intrincados solos do quarteto. A leveza e a sensibilidade são notórias e é impressionante perceber como o som atinge um grande QI rebolativo sem (aparentemente) precisar fazer muito - ou nenhum esforço - para tal.


Papa fina. Pra variar ficou irresistível.

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A melancolia transcendental do Sampha

A vida não costuma ensinar as coisas de maneira estruturada. Essas surpresas no caminho muitas vezes são os pontos altos dessa pouco ortodoxa maneira de aprendizado que chamamos de vida. Apesar dos traumas pessoais e de fases passageiras que nos fazem questionar até a última gota de sanidade, em certos momentos parece impossível romper a barreira do problema.

Mas é essa insistência e o próprio problema que vão encontrar a clareza em meio ao caos. Esse período de tensão - independente da pedra no caminho - é um catalizador para que um ciclo se feche e outro chegue pra somar no groove. É difícil, mas é justamente quando estamos desacreditados e fragilizados que a peteca não pode cair.


A química cerebral parece até que domina sua mente em certos momentos, mas é importante manter o mínimo de equilíbrio. O ócio costuma corroer os seres criativos. A pressão faz o ar sumir do peito e pressiona o rarefeito da incerteza quanto ao futuro.

É uma luxúria de dúvidas e pequenas ciladas mentais que surgem imersas no desespero como um plano de fuga. É necessário romper a bolha e voltar a oxigenar as ideias o mais rápido possível.


Veja o Sampha, por exemplo. Produtor e compositor do sul de Londres, Sampha Lahai Sisay é dono de uma abordagem que traduz um verdadeiro sopro de ar fresco frente ao Jazz, o Soul, R&B e a música eletrônica. O talentoso piano man tem um toque muito sensível e uma voz com grande carga emocional, elementos que chamam atenção para o seu inventivo som desde 2010.

Foi num grupo de música eletrônica que tudo começou. Parece difícil acreditar, mas foi ao lado do SBTRKT que o músico conheceu a produção musical e começou a criar seu estilo. Esse projeto foi primordial para a carreira do inglês - natural de Moden - pois à partir daí ele foi exposto ao grande público, em função de colaborações feitas ao lado de nomes como Drake, Kanye West e Jessie Ware.


A partir daí começaram a surgir diversas colaborações e com o passar do tempo, Sampha começou a focar em seu próprio som. Isso aconteceu na forma de 2 EP's, o primeiro - "Sundanza" - saiu em 2010 e o segundo ,"Dual", apareceu em 2013, ambos via Young Turks.

Um registro de estúdio parecia questão de tempo, mas só foi chegar 4 anos depois. Com o elogiadíssimo "Process", o compositor saiu de seu quarto para levar a produção do disco a um estúdio. O resultado foi o singelo e mostrou a força de seu orgânico repertório. O debutante que foi gravado entre Morden e a ilha de Giske, na Noruéga, também foi coproduzido ao lado do escocês Rodaidh McDonald e ganhou o Mercury Prize de 2017.

Um disco que confronta a morte de sua mãe nos anos que antecederam a gravação, o debutante solo do inglês entrega 10 faixas sublimes e que revelam um artista pronto e sem nada à esconder. Ele abraça a saudade e confronta seus sentimentos para criar um dos discos mais bonitos, não só de 2017, mas sim dos últimos anos.

Line Up:
Sampha Sisay (teclados/vocal)
Laura Groves (vocal)
Pauli The PSM Stanley-McKenzie (bateria/percussão)



Track List:
"Plastic 100°C"
"Blood On Me"
"Kora Sings"
"(No One Knows Me) Like The Piano"
"Take Me Inside"
''Reverse Faults"
"Under"
"Timmy's Prayer"
"Incomplete Kisses"
"What Shouldn't I Be?"


Dono de uma voz belíssima e de grande naturalidade, o britânico também mostra grande capacidade técnica nos teclados/piano. É uma abordagem absolutamente intimista e que acrescida de seu grande talento melódico - além dos climas no marfim malhado - criam uma atmosfera irresistível.

O estopim da gravação é denso, mas a maneira como o compositor trabalha esse processo de digerir uma perda tão difícil, chega a desarmar o ouvinte, tamanha a vulnerabilidade intérprete.

É uma energia crescente. Desde o início, com "Plastic 100°C" até "What Shouln't I Be", Sampha guia o ouvinte até um lugar majestoso, entregando mais e mais sobre si mesmo a cada take. A faixa de abertura já mostra todo seu requinte. A leveza, a calma, o grande controle vocal e a sensibilidade ao piano dão o tom desse processo de cura, sampleando as falas de Neil Armstrong, logo após seus primeiros passos na gravidade do groove lunar.


E ao som de "Blood On Me", um dos singles do registro que o som do inglês começa a ser decifrado. Digo isso pois sua cozinha é bastante original e o interessante é como ele atinge essa proposta. As camadas eletrônicas são a espinha dorsal da faixa. Com o tilintar do piano, Sampha climatiza a música e utiliza seu vocal como termômetro, harmonizando sua voz de maneira belíssima.

Essa fusão recente de elementos como R&B e Soul com a música eletrônica deu vida ao Neo-Soul. Apesar de todo esse hype, muitos grupos acabam indo pra uma linha parecida, algo que definitivamente não é o que acontece nesse disco. Em "Kora Sings", por exemplo, Sampha promove um contraponto com a melodia da música quando adiciona a bateria e percussão... Parece que tem um pouco de referência da música asiática. É um trabalho claramente bastante lapidado e preciso.


Mas é com "(No One Knows Me) Like The Piano" - mais um single do disco - que ele deixa você em frangalhos. Só voz e um piano de cauda. Aqui ele reafirma suas habilidade como compositor e mostra a importância das pausas. São esses pequenos respiros que tornam o disco ainda mais palpável, frente a uma dor quase intangível e inexplicável.

É interessante como ele alterna faixas com mais elementos eletrônicos e outras mais "limpas". Essa prudência cria um disco muito acessível, apesar da diversidade de influências e consegue harmonizar faixas com abordagens distintas, como "Take Me Inside" e o Trip Hop de "Reverse Faults".

Um dos maiores acertos desse disco é mostrar também, como um músico de gosto sofisticado consegue subverter sua linguagem ao se apropria da "licença poética" e das infinitas possibilidades da música eletrônica. Sem essas referências, temas como "Under" e "Timmy's Prayer" jamais existiriam.

"Process" condensa muito bem os objetivos artísticos de Sampha. Ele consegue ser um hitmaker apaixonado ao som de "Incomplete Kisses" e um verdadeiro mártir em "What Shouldn't I Be?". É de marejar os olhos. Belíssimo trabalho.

Prestem atenção nesse cara. Discos como este provam como ainda é possível ser Pop e entregar qualidade ao mesmo tempo.

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No Fuzz do Radio Moscow: a psicodelia segue em expansão

O conceito de Rock Psicodélico é visto hoje em dia como um eterno revisionismo de suas raízes. Desde o início do levante, no começo dos anos 60, seja com os grupos que surgiram na Bay Area de São Francisco, como Santana, Jefferson Airplane e Love, ou até mesmo na Inglaterra, com expoentes do nível do Cream, por exemplo.

Foi uma época de bastante efervescência. A psicodelia fez tanto barulho no Rock que chegou até no Funk do Sly Stone. Foi uma era de grande valia para a música em termos de experimentação, algo que promoveu uma mescla de estilos nunca antes vista, até o apogeu do Rock Progressivo.

Mas o que aconteceu 50 anos depois? Depois de toda essa saga o estilo perdeu solidez e começou a ser visto cover barato de si mesmo, já sem o mesmo brilho e novas direções musicais de outrora.

Mas como num trocadilho infame com a história do início do movimento, a cena atual também precisa "abrir as portas da percepção" de um novo público que, se foi o mesmo que esteve presente no Show dos cariocas da Aura, dos gaúchos do Quarto Ácido e trio norte americano Radio Moscow, conseguiu captar que o futuro está aí, não é um flashback não, meu velho.

Foto: Fernando Yokota

E para começar a demonstrar os novos rumos da cultura de Hofmann, coube aos cariocas do Auramental, o papel de abrir a noite de 29 de março. Com um approach de veia psicodélica, mas com elementos progressivos, o quarteto carioca formado em 2014 chegou com uma abordagem cósmica, composta por influências de Raga indiana e climas com um quê de Grateful Dead, porém com mais peso durante os improvisos, tudo numa linha melódica bastante sólida, cortesia de Bauer França (baixo), Paulo Emmery (guitarra), Enzo Mastrangelo (guitarra) e Vicente Barroso (bateria). Vale a pena ficar de olho nos caras.

Logo depois o Quarto Ácido, trio radicado em Panambi (RS) também subiu ao palco com uma proposta psicodélica, porém dessa vez bastante ancorada no peso de uma cozinha que privilegia aquela dinâmica de baixo e batera bem marcada, colada no cangote dos riffs setentões do guitarrista Pedro Paulo. Grupo instrumental dos melhores que rodam a cena no país atualmente, vale lembrar que a banda ainda é formada por Vinícius Brum (baixo) e Alex Przyczynski (bateria), e que grande parte do repertório do show baseou-se no full lengh lançado pela abraxas em 2017, "Paisagens e Delírios".

Foto: Fernando Yokota

Depois de duas horas de som bastava o Radio Moscow aparecer pra fechar a conta, algo que os californianos fizeram, com louvar, pela quarta vez tocando em terras brasilis. Com as faixas do quinto disco de estúdio ("New Beginnings", lançado em 2017) tinindo, Parker Griggs (guitarra), Anthony Meier (baixo) e Paul Marrone (bateria) tocaram com uma potência assustadora, muito semelhante ao ato de se colocar a língua na tomada.

Parece brincadeira, mas não é. Depois de rodar o mundo nos últimos anos 5, dessa vez com formação fixa, a química do trio atingiu o seu ápice. A bateria do Paul Marrone é um negócio pra ser estudado, o cidadão toca com um peso estarrecedor e durante os 90 minutos de show não olho pra frente nem por um minuto, moendo o kit durante improvisos telepáticos conduzidos pelo Rickenbacker de Anthony Meier e pelas guitarras demenciais do Parker Griggs, que ainda faz os vocais.

Foto: Fenrnando Yokota

Músicos dos mais alto gabarito, assistir esse caras dos ponto de vista técnico deve até desanimar quem toca ou brinca de final de semana. Em termos de pegada, poucas bandas fazem frente a esse som, fora que a guitarra do Parker Griggs é algo que só ele está fazendo no momento. 

Os timbres, os solos vertiginosos e as raízes no Blues são um show a parte, teve de tudo, até guitarra slide. Não sei se existe alguma dupla de baixo e bateria mais casca grossa que essa ai não... A Psicodelia segue ao infinito e além e pra garantir sua viagem, nós discutimos os rumos do Fuzz & Wah-Wah com o baixista Anthony Meier, um dos maiores especialistas no assunto.


1) Depois da gravação do "Live In California" (2016), vocês foram para o estúdio ainda impactados pela experiência do disco ao vivo?


Eu não diria necessariamente que nós estávamos impactados pelo ocorrido quando voltamos ao estúdio posteriormente. O disco ao vivo foi só algo que precisava acontecer por que a banda está em turnê tocando o material de 4 discos, portanto funcionou como um trampolim para o próximo trabalho. Correr a cena com repertório de 4 gravações, gravar um disco duplo e ao vivo, e depois começar a a ensaiar novas músicas pra gravar novamente. Foi exatamente isso que fizemos!

2) New Beginnings é um claro exemplo de Blues psicodélico. A terceira gravação com essa formação - que conta com Paul Marrone (baterista - Psicomagia), Anthony Meier (baixista - Sacri Monti), além de Parker Griggs (guitarra). Como é o processo de seguir com essa fórmula, cada vez mais azeitados, disco após disco?

Eu acredito que desde que estamos tocando juntos, durante os últimos 5 anos e fazendo tantos shows e tours, a química musical que possuímos juntos está mais forte do que nunca. Você consegue ver a evolução de muito do material escrito pelo Parker (Griggs), disco após disco também. Mesmo que todos eles tenham sons diferentes em termos de produção, todas essas gravações possuem as mesmas raízes. Nós ficamos bem feliz com o quão azeitado esse disco saiu e foi muito divertido passar pelo processo de gravação.

3) Além do fato de vocês 3 formarem um dos atos mais crus e blueseiros na cena, o Radio Moscow também é conhecido por ser uma gangue de colecionadores do som dos anos 60 e 70. Que discos dessa época influenciaram o grupo durante a concepção do novo disco?


Bom, não acho que esse disco particularmente tenha sido influenciado por algum LP específico sozinho. É mais como se nós fôssemos influenciados por diversas coisas e tudo saiu misturado. Nós definitivamente curtimos a mesma música, sons mais puxados para o Rock, Psicodelia, Kraut Rock, Garage Rock, Prog... Pra citar alguns grupos que amamos: Tem bastante Captain Beyond, Iron Claw, May Blitz, Masters Apprentices, T2, Toad, Love, King Crimson, Flower Travellin Band, Amon Dull II, Eloy, Quicksilver Menssenger Service, Black Sabbath, Rory Gallagher, Jimi Hendrix, Peter Green, Hackwing, Mad River, Dust, H.P. Lovecraft, Glass Harp, Wishbone Ash, MC5.4) Musicalmente, qual é a importância de toda essa pesquisa que é feita pela banda?

4) Musicalmente, qual é a importância de toda essa pesquisa que é feita pela banda?


Eu diria que nos mantém nos mesmo pilares criativos. Antes de nos conhecermos essa atmosfera que nos representa hoje era justamente o que estávamos gravitando naturalmente e gostaríamos de tocar algo nessa linha. Nós sempre estamos apresentando nos grupos e discos uns aos outros e continuamos atrás de mais e mais o tempo todo. Improvisar é algo que surge mais fácil também quando você está tocando com pessoas que estão no mesmo caminho sonoro que o seu.

5) Depois desses últimos 3 trabalhos, quais são as expectativas da banda para o futuro?


Bom, desde que concluímos a gravação desse disco, estamos fazendo uma turnê do mesmo porte que um lançamento de um novo trabalho precisa. Nós já fizemos 6 semanas durante outubro do ano passado na europa, e mais 3 semanas nos Estados Unidos, já com o repertório desse disco. 

Nós temos a América do Sul no mapa agora, depois outra perna de 3 semanas na europa, com alguns festivais em maio e uma passagem pela Austrália em julho. Depois disso eu acho que temos alguns shows e mais semanas tocando nos Estados Unidos no outono. Seria bem legal tocar no Japão ou em algum lugar como a Indonésia. 

Esperamos que essa mudança de selo para a Century Media nos ajude a tocar por mais países. Seria empolgante tocar no primeiro escalão de festivais de Rock no mundo todo também. Depois, eventualmente nós vamos compor uma nova fornada de músicas e sons para o próximo trabalho. Estamos realmente ansiosos para o nosso retorno a América do Sul para a quarta turnê! Até breve!

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Conheça o sinuoso Afrobeat do Kokoroko

A cena Jazz de UK está em plena ebulição criativa. O ano de 2018 representou uma grande mudança no cenário, principalmente em termos de difusão sonora, com grupos dos mais variados estilos fazendo barulho em níveis diferentes da cena. Rola desde a Jorja Smith fazendo turnê mundial - e passando até pelo Brasil durante a última edição do Lollapalooza - até uma série de shows lotados do Kamaal Williams, groovando em Los Angeles & Nova York.


O som continua pulsando e se desenvolvendo, mas ainda é um fato que nem todas as bandas da cena já concretizaram o seu nome, gravando um trabalho de estréia. Tudo bem que isso não impediu que as atividades dos grupos crescessem naturalmente graças à atenção que a cena está recebendo, mas ainda assim, cozinhas como a do interessantíssimo coletivo de Afrobeat, Kokoroko, definitivamente precisavam gravar, e o EP homônimo lançado pelo grupo, via Brownswood Recordings, mostra o por quê.

Line Up:
Sheila Maurice-Grey (trompete)
Cassie Kinoshi (saxofone)
Oscar Jerome (guitarra)
Mutale Chashi (baixo)
Ayo Salawu (bateria)
Richie Seivwright (trombone)
Yohan Kebede (teclados)
Onome Edgeworth (percussão)



Track List:
"Adwa"
"Ti-de"
"Uman"
"Abusey Junction"


Digo sem exagero algum que esse trabalho é um dos mais esperados da cena para o ano de 2019. Vale lembrar que o Kokoroko, mesmo sem disco lançado, tocou até no Brasil ano passado - dentro da programação da SIM São Paulo - realizada no final de 2018. Num showzaço no Jazz nos Fundos, o grupo liderado pela saxofonista Sheila Maurice-Grey, mostrou que o poder dessa cozinha não poderia ficar restrito à singles ("Abusey Junction") e compilações ("We Out Here"). O buraco é mais embaixo.


O Kokoroko reúne alguns dos melhores músicos da cena. O time de metais é extremamente sólido. Nas guitarras a banda ainda conta com a luxuosa colaboração de Oscar Jerome - um dos guitarristas e vocalistas mais talentosos dessa geração - e os outros músicos que fecham o septeto (ou octeto em alguns shows), também contribuem com um groove intenso e cabuloso em termos de dinâmica.  

Não se engane pela pouca quantidade de faixas. Cada um dos temas é totalmente desdobrado e o resultado são quase 25 minutos de pura musicalidade e ancestralidade africana. O Jazz foi a linguagem escolhida e os metais são responsáveis por tunar a jam.

Respeitando a tradição de nomes como Fela Kuti, Tony Allen, Ebo Taylor, Babatunde Olatunji e tantos outros, o grupo entrega uma visão contemporânea que cumpre a difícil tarefa de subverter toda essa história, para criar uma abordagem moderna.


Se liga na pressão do tema de abertura. "Adwa" surge açucarada com um riff de teclados de Yohan Kebede, bem ali, incitando o swing. Depois que os metais entram e o Oscar Jerome sola, a jam ganha em riqueza, densidade no baixo e fluência, graças ao Jazz.

A percussão de Onome Edgeworth também agrega muito na cozinha. Os timbres são muito cristalinos e nota-se como o som é bastante orgânico, com pouquíssima adição de efeitos. "Ti-de" é um dos temas mais bonitos do EP. A leveza do instrumental e a maneira como a música cresce de forma ascendente evidenciam uma das maiores habilidades desse grupo de jovens músicos: a capacidade de criar climas delirantes. 


O EP termina com duas faixas já conhecidas. "Uman" e, principalmente, "Abusey Junction", foram 2 dos temas responsáveis por viralizar o som da banda no Spotify e no Youtube. Aqui as composições surgem revitalizadas e ganham versões definitivas. "Uman" vem forte nos metais e junto com a faixa seguinte apresenta os únicos versos cantados do disco. "Abusey Junction" faz uso de tons épicos pra terminar o EP com o groove em tom de mensagem. 

Kokoroko é uma palavra oriunda do "Orobo", uma tribo e também um dialeto nigeriano que significa: "seja forte". Esse som é a prova da resistência e mostra como música negra nunca perderá o vínculo com sua nave mãe, o continente africano. O Oscar Jerome gasta demais na guitarra.

Não deixe esse som passar batido.

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Baixo e bateria: o Funk endiabrado do Kyotaro & Rikuo

Uns meses atrás me deparei com uma dupla de meliantes asiáticos mandando um groove. Era um daqueles virais onde um duo com baixo e bateria faziam miséria com o Funk, numa cozinha guiada por slaps e precisos acompanhamentos.


O único problema é que apesar do imenso engajamento na publicação, ninguém citava o nome do projeto e o groove seguiu incógnito. Meses depois, me deparei com outro vídeo - dessa vez uma ação com a Tama - marca japonesa de baterias comercializada pela Hoshino Gakki. O vídeo que pode ser visto logo abaixo, resume bem o que acontece quando a dupla escolhe uma viela pra mandar um som.


O nome do projeto dos budistas funkeados é Kyotaro & Rikuo. A dupla é de Osaka e apesar de parecer, eles não fugiram da vida monástica, só as roupas que acabam remetendo a tradição dos monges que se privam, também, da vida clausural.

O projeto nasceu em meados de 2016 e desde então a dupla segue fazendo barulho nas principais feiras do mundo, sempre tocando com um fervor e com aquele traquejo que apenas as ruas ensinam. E depois de muita pesquisa, o Macrocefalia Musical descobriu que eles soltaram um EP em dezembro de 2018 e apesar de ser o único trabalho dos caras, as 4 faixas do trabalho homônimo merecem a sua atenção.

Line Up
Kyotaro (baixo)
Rikuo (bateria)



Track List:
"Attention"
"Grilled Marshmallow"
"Pulse"
"Attention!4"


O que mais espanta nesse curto, porém intenso EP, é como a abordagem dos caras - mesmo em estúdio - conseguiu captar exatamente o mesmo sentimento dos virais que se espalharam pela internet.

Com um som que é pura glicose na veia, a dupla intercala passagens extremamente intrincadas como se isso fosse a coisa mais natural do universo. Outra coisa que vale pontuar é o peso e o entrosamento praticamente telepático do duo. O baixista de fato come o instrumento com farinha e apesar de utilizar bastante a técnica do slap - de maneira bastante agressiva - o groove passa longe de ser previsível ou cansativo.


Logo que o som começa a pulsar, "Attention!" aparece e já sintetiza o que está por vir. Um boogie cretino de rápido, com a cozinha estralando o Funk numa aula de dinâmica, sem excesso de preciosismo.

Aliás nesse ponto a atitude da banda é praticamente Punk-Rock. As composições são muito viscerais e apesar do approach sem cuspe e sem massagem, os músicos demonstram grande capacidade técnica e feeling, também com temais menos fritos, como é o caso de "Grilled Marshmallow".


Em termos de formato, o som dos caras também não se assemelha com nada que está sendo feito nesse esquema em dupla. É uma pancadaria franciscana bastante estruturada e com linhas de baixo que merecem horas de estudo, como "Pulse", por exemplo. Outra questão importante é o trabalho do baterista, que sempre tira muito som de kits bastante compactos.

Apesar do baixo estar aparentemente na frente do som, com um timbre mais na cara, o mestre Kung-Fu das baquetas está longe de apenas acompanhar o slap. Na última faixa o som da bateria quase engole o groove de "Attention!4.

Na moral, pega essa visão. Tem muito quarteto que não iguala a pegada animalesca desses caras.

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O Rock 'N Roll descolado d'o Terno

Rock de garagem, letras lisérgicas, influências que flertam com a MPB, a música experimental e um apelo Pop com um brilho criativo raríssimo. É assim, como numa equação analógica dos anos 60 que O Terno, trio paulista capitaneado por Tim Bernardes, esbanja musicalidade sob os palcos do Brasil e do mundo desde 2009.

Com um som engenhoso, criativo e divertido em sua essência, O Terno subiu no palco do Cine Jóia (na noite de quinta-feira - 07/12), pronto para apresentar as faixas do terceiro e mais recente disco da banda, o competente "Melhor do que Parece", lançado no finado 2000 e dezesseis, junto, é claro, de sucessos de outros carnavais tropicalistas.

Acompanhado por um trio de metais para repetir a estética do concorrido show que a banda criou para explorar os benefícios dinâmicos dos instrumentos de sopro, uma noite ao som do projeto "O Terno Com Metais", mostra como o sinuoso senso estético do trio é único. 
Pode parecer pouco, mas é justamente num mundo onde um músico consegue soar igual a qualquer outro, apenas com a adição de alguns pedais de efeito, que esses 3 arrojados e inventivos senhores merecem atenção, ainda mais dentro de um cenário que não privilegia bandas autorais.

Eis então que surge o terno, talvez a banda mais relevante do cenário Pop/Mainstream brasuca em anos, destilando o fino do som com uma classe praticamente aristocrática e que resgata a relevância do rock n roll independente. 

E como foi a última apresentação do grupo no ano, nada mais justo do que brindar o público paulista com uma apresentação que mostra, com o perdão do trocadilho, que o Terno é muito melhor do que parece.

Foto: Emanuel Coutinho

Com um set completíssimo pra fã nenhum botar defeito, Tim Bernardes, o bass man Guilherme d'Almeida e as precisas baquetas de Gabriel Basile, mandaram oúltimo disco ("Melhor Do Que Parece" - 2016) quase que em sua totalidade, enquanto os ricos arranjos dos metais abrilhantaram o feeling de temas do segundo CD ("O Terno" - 2014) e desenterraram outras passagens pra lá de relevantes lá do comecinho da história do grupo, no longínquo 2012 ao som do "66''. 

Essa foi a equação que sintetiza o bom gosto de um trio que, quando dobra o coeficientes dos cálculos, chega em sexteto, com um 1 trio só de metais, prontissimo pra fazer o assoalho do groove sentir o baque, enquanto você está ali, batendo o pezinho por quase duas horas ao som de relíquias que exploram a beleza de um amor platônico.

Pena que foi o último show do ano, mas em compensação uma coisa é fato: se vamos ter que virar o ano sofrendo calados sem shows dos caras, pelo menos o Macrocefalia Musical conseguiu trocar uma ideia com eles pra entender um pouco mais como todo esse delírio poético-existencial funciona a serviço do groove:

Foto: Emanuel Coutinho

1) Os shows da série "O Terno com Metais" tem sido bastante disputados. Em termos de estrutura musical, qual foi o elemento chave para que o som da banda casasse tão bem com essa proposta?


R: O "Melhor Do Que Parece" é um disco no qual a gente explorou muitas sonoridades pra além do trio: sopros, harpa, cordas, etc. Então fazer esse show com uma formação expandida era algo que fazia sentido e que a gente queria muito desde o lançamento e conseguimos concretizar quando lançamos o vinil.

2) Em disco é nítido como vocês são bastante exatos, quase minimalistas, mas ao vivo o som do grupo acaba saindo mais cru mesmo e os temas até ganham mais vigor graças a alguns momentos de improvisação. Vocês pensam em levar esse quê mais voltado para jam band para o estúdio num próximo trabalho?!


R: O Terno tem muito um lance de contrastes. De misturar sonoridades contrastantes, alternar músicas porradas com músicas leves (às vezes até dentro da mesma música), temas mais mentais, temas emocionais, humor, tristeza. E acho que o que leva isso são as composições, cada uma tem seu jeito e sugere um caminho de arranjo. Então esse lance de jam é algo que a gente gosta de ter como uma atração do “ao vivo", mas se uma composição pedir essa onda também não hesitaríamos em levar para estúdio.

3) Um detalhe bastante elogiado na estética d'o Terno é a questão de timbres, arranjos e harmonias. Quais são as referências de vocês nesse aspecto, pensando também no cenário atual e na procura por uma identidade sonora tão bem definida?


R: A gente curte muito juntar as referências que vamos acumulando como ouvinte para criar algo autoral e com uma marca própria da banda. Acho que O Terno veio de uma formação musical muito relacionada ao tropicalismo, mutantes e a música Pop dos anos 60 no mundo, mas cada vez mais foi expandindo o leque pra sonoridades novas que tantas bandas que a gente ouve hoje exploram, como Mac DeMarco, Fleet Foxes, Grizzly Bear, Dirty Projectors, Tame Impala... são muitas! Mas a ideia nunca é imitar, e sim explorar caminhos que outros possam sugerir pra chegar em algo que represente a gente.

4) O som de vocês carrega influências dos '60 e '70, mas o frescor das composições é o que estabelece a cozinha da banda no cenário contemporâneo como um som moderno. Como vocês trabalham essa questão do som digital x analógico na hora de gravar?!


R - Acho que muito das nossas referências de sonoridade vem de sons analógicos. Mas o jeito que vamos atingir esses timbres não é ortodoxo, se no digital a gente tiver mais controle para chegar exatamente no timbre que imaginamos vamos de digital, se é analógico vamos no analógico. Normalmente é uma mistura bem louca.

5) O lirismo e o ácido bom humor das letras do grupo é também outro fator de destaque na história de vocês. Em termos de métrica de versos e estrutura, as linhas são bastante audaciosas. Quais são as principais influências de vocês nessa vertente em particular? 


R: Acredito que temos muitas referência para a "roupagem" do terno, a estética, o timbre. Mas a canção é o coração da coisa, aí não é feita de maneira referencial, nem num estilo pré existente, é mais um lance de expressar sinceramente e autenticamente uma ideia ou um sentimento pessoal.

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Tony Allen & Jeff Mills: a improvável mistura de Afrobeat com Techno

Um dos grandes desafios para a longevidade na carreira de um artista envolve a sua capacidade de adaptação. É uma habilidade camaleônica que apesar de difícil, cumpre a complexa tarefa de tornar a música atemporal

Dessa forma, surgem experimentações que buscam não só mostrar novas possibilidades - em meio às novas tecnologias e subgêneros - mas também cruzar fronteiras, justamente por que a velhice não é desculpa pra ser careta. É dessa forma visionária-futurista que a improvável união entre o Tony Allen e o Jeff Mills pode ser resumida. 


A primeira vez que Tony Allen e Jeff Mills tocaram juntos foi em dezembro de 2016. No show (que você pode ver na íntegra logo acima), Tony Allen mostra sua privilegiada visão da música africana - como um dos pilares arquitetônicos do Afrobeat - mas dessa vez o nigeriano não conta com uma banda pra somar no groove.

Do outro lado do salão está o americano Jeff Mills. Produtor, DJ, compositor e uma das maiores referências da música eletrônica - principalmente no que diz respeito ao Techno - o midas dos beats de Detroit coloca a casa pra dançar desde os anos 80. Na época desse show o projeto foi bastante elogiado pela crítica, mas em função da atarefada agenda de ambos os músicos, essa maluquice só virou disco em 2018. 

Sim, do alto de seus (à época) 76 anos, o Tony Allen continua desbravando uma carreira que se não fez de tudo, está chegando quase lá. Ao do Jeff Mills - que aos 55 anos também não é nenhum garoto - a dupla cunhou o interessantíssimo "Tomorrow Comes The Harvest" e o resultado é tão orgânico e original que chega até a impactar o ouvinte.

Line Up:
Tony Allen (bateria)
Jeff Mills (beats)
Carl Hancock Rux (voz)



Track List:
"Locked And Loaded" - Edit
"The Night Watcher" - Edit - Carl Hancock Rux
"On The Run" - Edit
"The Seed" - Edit
"The Night Wastcher" - Instrumental
"Locked And Loaded"
"The Night Watcher" - Carl Hancock Rux
"On The Run"
"The Seed"


O mais interessante dessa união não é nem a disparidade de influências que uniram os 2 em nome do projeto, mas sim a dinâmica que foi criada. Ao vivo, o duo é acrescido do tecladista Vincent Tiger e seu trabalho é bem claro: promover texturas sob os ritmos de Tony e contrapor a sonoridade sintética da música eletrônica para promover uma conversa com Jeff Mills.

Até na época do show que deu início a tudo isso, Jeff deixa bem claro que eles não ensaiaram muito. Passados 2 anos, ainda nota-se essa grande liberdade quando escutamos os temas desse EP, porém é nítido como ambos já se mostram confortáveis com esse processo criativo, tanto é que a cozinha explorou ambientações já bastante diferentes de outrora, trabalhando até com vocal numa das faixas.


E a disposição das faixas ficou muito interessante. O disco desabrocha com os timbres industriais de "Locked And Loaded", mas já logo muda de figura quando você escuta "The Night Watcher" e seu ácido groove embebido nos versos livres de Carl Hancock Rux.

É muito interessante notar as nuances, tanto das batidas de Jeff, quanto da bateria de Tony. O EP tem groove e em temas como "On The Run" é possível notar como as diferentes escolas dos 2 músicos se influenciaram de maneira mútua. Tem hora que o grave engrossa de um jeito que parece até um Soundystem.


Em temas como "The Seed", as texturas lembram um pouco do P-Funk do Bernie Worrell. Se ligue nas versões alternativas, a dupla de fato dissecou as faixas e entregou uma visão completa sobre os impactos do Techno sob um contexto rítmico.

Essa é pra você que não acredita no futuro do groove. O Wah-Wah deixa seus ouvidos no banho maria.

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The Dark Side Of The Moon - Os Bastidores da Obra-Prima do Pink Floyd

O ''Dark Side Of The Moon'' é um disco que representa grande parte do que eu sou como ouvinte. E da mesma forma que esse LP é importante para este que vos escreve, isso também se aplica aos milhares fãs da banda ao redor do mundo.

Com tudo isso em mente, nota-se que uma resenha que contemple esse clássico só será feita quando conseguir encontrar exatamente o que quero dizer, e compreender a grandiosidade de um disco que segue tocando as pessoas de uma forma quase infinita, desde seu lançamento em 1973.

E dentro do que o Pink Floyd possui em conteúdo literário, um dos livros que melhor elucida a grandeza dessa gravação é o ''The Dark Side Of The Moon - Os Bastidores da Obra Prima do Pink Floyd'', lançado em 2006.


Esse livro é mais um relato que graças a uma editora com visão - neste caso a Zahar - foi traduzido para nossa língua. E nele, além de uma introdução sobre o começo do Pink Floyd - com os já conhecidos problemas de LSD que vitimaram a cabeça de Syd Barrett - temos um retrato bem claro e interessante à respeito da evolução da banda, desde a entrada de David Gilmour até o ápice que configura o The Dark Side Of The Moon.

Temos a narração de todo o longo processo criativo que permeou o LP, além das várias e desgastantes horas de gravações para a conclusão de um dos discos mais vendidos na história da música. Parece até que tinha uma câmera escondida nos porões da Abbey Road.


São 224 páginas de pura informação. Além dessa cobertura que foca nesse disco, temos também um resumo do que aconteceu depois, detalhando um pouco dos próximos clássicos que surgiram depois e que culminaram no desgaste que atrapalhou - as relações outrora harmônicas - entre os membros da banda. Tudo isso recheado de fotos, curiosidades e uma linda finalização artística.

Esse livro é difícil de ser encontrado nas lojas, mas na internet é bem tranquilo. No Submarino, por exemplo, é possível encontrar o mesmo exemplar por cerca de 30 cruzeiros. É um ótimo diário de bordo.

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Jazz Re:freshed: compromisso com o Jazz contemporâneo

Os músicos da nova geração são vistos com grande desconfiança de maneira geral, seja numa banda Pop ou num combo de Stoner. É muito comum ouvir um nome mais novo da cena e logo depois já começar a ver dezenas de pessoas promovendo comparações que em nenhum momento posicionam a música contemporânea da forma que ela deveria ser vista: como uma novidade.

A música é um agente infinito, transcende o tempo, passa por mudanças... É um conceito que está sempre em desenvolvimento, sempre avançando. A modernidade chegou e com elas novos sons, cozinhas estéticas e instrumentistas - com referências cada vez mais autênticas - surgem, e pasmem: estão mudando tudo enquanto os puristas só comparam e os próprios músicos nem ligam. Acreditem, eles só querem plugar os instrumentos e deixar muito caretão perplexo.

Foto: Guilherme Espir (Macrocefalia Musical)

E se existe um gênero que merece destaque nesse processo de ruptura e inovação, a vertente mais quente do momento em termos, não só de qualidade sonora, mas de experimentação, novos formatos, abordagem técnica, criatividade e frescor musical, meu rei, esse gênero é o Jazz.

Dono de um requinte imortal, o Jazz é um gênero que hoje, apesar da idade avançada, está brincando de criar com uma vitalidade louvável. Nomes como Thundercat, Kamasi Washington, Henry Wu (Kamaal Williams), Youssef Dayes, Jacob Collier, Nubya Garcia, Cory Henry, Christian Scott... É no mínimo excelente observar que é possível deixar esse parágrafo com mais umas 10 linhas (sem muito esforço), tamanho a gama de novas bandas surgindo.

E para ilustrar toda a renovada força com a qual o estilo está pousando em novos ouvidos, nada mais justo do que destacar o trabalho do núcleo britânico Jazz Re:freshed, talvez um dos maiores responsáveis por essa onda de genuíno interesse perante um estilo que está longe de ser música de elevador.

Foto: Guilherme Espir (Macrocefalia Musical)

A Jazz Re:freshed é o mirabolante resultado de um polo musical que começou como um movimento sonoro iniciado entre os ingleses Justin McKenzie e Adam Moses. Juntos desde o verão de 2003, eles começaram um levante que busca descentralizar o Jazz em busca de um maior reconhecimento artístico, sempre com foco na visibilidade de novos músicos e na criação de um cenário que pudesse reunir linhas opostas no mesmo bloco Jazzístico, desde o Funk até o mais Progressivo Avant garde.

E o que lá atrás era apenas uma residência semanal no coração da West London, em Notting Hill, evoluiu para uma vívida forma de expressão que hoje - além dos shows semanais - se transformou num selo, possui uma ramificação voltada para festivais (com participação em renomados eventos como Glastonbury, SXSW, AFROPUNK International), um clube cinematográfico, um programa de desenvolvimento de novos músicos (que atende escolas e universidades), contempla um espaço para shows, uma revista anual e ainda fomenta a realização de workshops. 

Foto: Guilherme Espir (Macrocefalia Musical)

As definições do termo workaholic foram atualizadas pela cena Jazz fomentada em UK. Com o apoio de parceiros como a British Underground - uma organização que promove showcases internacionais com foco no desenvolvimento estratégico de projetos musicais e artísticos - a entidade atua desde a edição de 2002 do tradicional festival SXSW, num trabalho financiado pela Arts Council England, uma divisão do departamento de cultura da Grã Bretanha que opera na Escócia, Inglaterra e País de Gales.

Foi com todo esse know how que a Jazz Re:freshed chegou pela primeira vez no Brasil com o evento "Jazz Re:freshed Outernational", uma ramificação do selo que estimula um projeto pioneiro de 2 anos com curadoria do selo, em parceria com a British Underground, com o objetivo de expandir a cena britânica de Jazz progressivo.

O local escolhido? O Jazz nos Fundos. O evento? A primeira edição da MIMI, a mostra internacional de música instrumental realizada com curadoria da SIM, a semana internacional de música, uma das feiras de negócio mais importantes da América Latina. No cardápio sonoro? Yussef Dayes Quartet e Nubya Garcia, 2 dos maiores expoentes da nova cena Jazzística britânica e por que não dizer mundial.


Line Up:
Yussef Dayes (bateria)
Mansur Brown (guitarra)
Charlie Stacey (teclados/sintetizadores)
Tom Driessler (baixo)


Depois de abrir a noite com um set de grooves conduzido por Adam Moses, o Yussef Dayes Quartet foi o responsável por abrir a noite com uma mistura quase de nuclear de Trip Hop com Jazz e Funk.

Com um quarteto de músicos estupendos, o set foi amplamente explorado dentro de toda a riqueza de seus arranjos, enquanto Yussef e o guitarrista Mansur Brown, travavam uma sádica batalha onde um tentava roubar tempo do outro, algo que deixou a dinâmica das canções completamente quebrada.

Foto: Guilherme Espir (Macrocefalia Musical)

Mansur Brown, anotem esse nome, o guitarrista de 18 anos mostra um feeling raro em sua Epiphone Semi acústica, o tecladista Charlie Stacey sabia (e muito) a hora de entrar numa vibe cósmica nos syths, enquanto Tom Driessler operava suas cordas graves com uma calma quase budista.

Foram 90 minutos de excelente música. A platéia se manteve perplexa do começo ao fim, algo que esteve longe de passar quando o segundo quarteto da noite, dessa vez com Nubya Garica, subiu ao palco, tocando pelo mesmo período, mas apostando num balanço completamente diferente.

Line Up:
Nubya Garcia (saxofone)
Daniel Casimir (baixo)
Steve Reid (teclados)
Femi Kuleoso (bateria)


Essa é a Jazz Re:freshed, um selo capaz de colocar sons tão opostos como o das bandas dessa noite, exatamente na mesma caixinha. O balanço de Nubya era caliente, com pinta afro e parece ter ficado na conserva durante anos ouvindo o "Afro" do Dizzy Gillespie. Já o feeling dos teclados de Steve Reid é cheio de música cubana, o timbre do baixo de Daniel Casimir, praticamente um monumento histórico, enquanto o peso e o fervor técnico de Femi Kuleoso na bateria foi arrebatador.

Uma quebradeira pra colocar muita banda de Rock no chinelo. Em ambos os casos, todos os 8 músicos envolvidos mostraram um sentimento e uma leveza estonteante, sempre fundamentando a música num ideal moldado na mais pura e utópica improvisação.
Quem marcou presença nesse noite conseguirá prever o futuro da cena daqui pra frente. Quem não foi ainda teve uma chance de conferir os caras 3 dias depois, na Urubu Sessions, realizada no dia 11/12 no espaço da Associação Cultural Cecília e teve ainda quem foi nas duas noites pra conferir se um raio cai (de fato) duas vezes no mesmo lugar.

E ele caiu, 3 dias depois, num espaço ainda mais intimista, bem no coração da região central de São Paulo. Eis que os 2 grupos voltaram ao palco, dessa vez invertendo a ordem dos shows, com Nubya abrindo os trabalhos, mas com uma apresentação que não se assemelhou em nada se comparada com o primeiro show, e olha que essa ressalva serve para as duas bandas.


Fica claro como o domínio técnico permite a esses senhores a capacidade de promover um novo show toda noite. O Jazz meio afro no melhor estilo do Spiritual Jazz da IMPULSE! dos anos 60/70 de Nubya foi completamente reestruturado, enquanto as batidas com grande influência senegalesa de Yussef provaram ao público que música boa é igual tempo: passa muito rápido.

O Macrocefalia Musical esteve presente nos 2 shows e parece que os 2 juntos duraram 15 minutos. Essa cena de UK vai dominar o mundo. Uma bela iniciativa do Jazz nos Fundos e da Urubu Sessions. Pelas barbas de Miles Davis.

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