Nunca fiz uma playlist no Spotify #18 - 39kg de cocaína

Farinha de trigo, farinha de rosca, bicarbonato de sódio, açúcar, sal... Essas são algumas opções cabíveis para justificar 39kg de pó no avião presidencial. É claro que não era do sargento e muito provavelmente trata-se de algum tipo de maracutaia para acabar com o belíssimo governo do Sr. Tá okei.

Contando com mentes brilhantes como a de Alexandre Frota, PSL e sua turma inauguraram a nova era da política brasileira com uma dose extra de glicose na veia. Dos mesmos cheiradores-idealizadores do Helicoca - salve salve Aécio - agora é a vez do Brasil chegar na Espanha com quilos de farofa yoki na bagagem de mão.


É o aerococa, senhoras e senhores! Por isso, para celebrar a nova política, o Macrocefalia Musical preparou mais um set daqueles. Compilando 39 takes que falam única e exclusivamente sobre a arte do ratatá, nós vamos embalar suas narinas com mais de 2 horas e 30 minutos de grooves empoeirados.


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Saiu outro Boiler Room com o Kamaal Williams

O Boiler Room é um projeto lançado em 2010. Inicialmente a ideia começou com foco em sets de DJ's e o conceito era promover um rolê ao vivo e explorar a cultura dos clubes e as diversas linhas estéticas do riscado vinílico. 

Com o passar do tempo, até DJ's brasileiros - como o KL Jay - participaram dessa iniciativa e o interessante é como eles cuidam muito bem desse conteúdo. Os vídeos captados são exibidos ao vivo e depois eles ainda sobem o material completo no YouTube.

São quase 9 anos trabalhando no canal e com isso já pode-se imaginar o tamanho do acervo e como ele contempla linhas que vão desde o groove até o House. 


Como essa é uma iniciativa que se espalhou pelo mundo - tem Boiler Room até no Brasil - o canal se transformou num verdadeiro celeiro de novos sons e artistas. É batata, se você quiser achar algo nessa linha mais eletrônica, o Boiler Room é o canal pra você.

E só para se ter uma dimensão do tamanho e respectivo impacto do projeto, é tanto som rolando que a equipe responsável resolveu expandir, e foi aí que surgiu o "Energy Behind The Track", novo conceito que aponta para o futuro da música eletrônica X a mescla de instrumentos orgânicos.


Feito em parceria com a Apple, o projeto fez sua estreia com o Kamaal Williams e o resultado é  muito interessante, pois além de conseguir englobar desde a visão do artista frente ao Jazz - além de suas influências - discutindo a liberdade do som como se fosse uma linguagem, ainda rola uma live session cabulosa no final.

Cada vídeo vai ter duas saídas. Um "Behind The Track" e outro com o material da sessão ao vivo. Em pauta, os músicos entregam um improviso e mesclam os instrumentos orgânicos com a visão de produtor, graças ao auxílio da tecnologia da Apple.

A ideia é mostrar como a tecnologia está impactando a música de um jeito positivo. É um assunto que divide opiniões, mas depois do play, Nathaniel "Tonez" Fuller (bateria), Ed Cawthorne (flauta) - aka ("Tenderlonious") e Rick Leon James (baixo), lançam um groove que nos faz acreditar piamente, não só nessa belíssima cena Jazz de UK, mas também na tecnologia, que pode maximizar o Funk e levar o swing para um número cada vez maior de pessoas.

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Nunca fiz uma playlist no Spotify #17 - Dr. John

Um dos maiores pilares da cultura do R&B de New Orleans, Dr. John foi um dos grandes pilares do groove. Um Lord quando ao piano, o Night Tripper conseguiu promover fusões primorosas entre a psicodelia e o swing do R&B, dentro de uma carreira com mais de 5 décadas de história.

Seja em carreira solo ou ao lado de nomes como Etta James, Johnny Winter e Mike Bloomfield, por exemplo, a música de Ben Rabenneck esteve nos ouvidos de algumas gerações de meliantes. Por isso, nada mais justo do que promover um epifania sob sua disco discografia e desvendar a essência de seu Vodoo.


Foi um desafio, mas o Macrocefalia Musical selecionou 30 takes que resumem um pouco da grande capacidade deste genial pianista, peculiar vocalista, criativo arranjador e também competente guitarrista.

São muitos discos, incontáveis clássicos - seja em estúdio ou ao vivo - e o resultado final é uma obra que resistiu ao maior teste de todos: o tempo. A contribuição e o impacto da música do Dr. John estão pra sempre eternizadas nos bálsamos da cultura popular mundial.

Uma voz que acalma a alma dos desesperados. Muito obrigado pela música, Doc.
   

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Psicodelia japonesa & Sonic Flower: a arte de ficar surdo

Quando o baixista do Church Of Misery (Tatsu Mikami) formou o Sonic Flower - como apenas um despretensioso projeto paralelo - acho que nem ele tinha noção do Blues-Rock que ele estava prestes a criar.

A única gravação da história do grupo é datada de 2003. O resultado é um EP que entrega uma cozinha poderosíssima e que funde elementos do Kraut-Rock setentão e da Psicodelia para chegar num resultado final avassalador.

Não se engane pelas 6 faixas e os poucos mais de 25 minutos de som. É de fato um trabalho curto, mas que ecoa até hoje nos falantes dos fãs de grupos como o Earthless, por exemplo. Lançado pelo selo japonês, Leaf Hound Records, esse trampo ganhou status de raridade e a prova de como ele transformou numa gravação fundamental no underground é que em 2019, quase 16 anos depois do lançamento, o grupo anunciou que vai voltar a gravar.

Line Up:
Tatsu Mikami (baixo)
Takenori Hoshi (guitarra)
Arisa (guitarra)
Junji J.J Narita (bateria)  



Track List:
"Cosmic Highway"
"Black Sunshine"
"Astroqueen"
"Indian Summer"
"Going Down"


Com uma formação em quarteto e uma dinâmica muito interessante, principalmente entre as duas guitarras, o instrumental é excelente e o jeito que o som foi tratado talvez seja a essência dessa gravação.

Com uma roupagem que transparece as vísceras e o teor orgânico dessa reunião - ainda que num contexto totalmente instrumental - o resultado é um disco homônimo que impressiona pelo peso estarrecedor, mas que também vai muito além disso.

É um blend de psicodelia bem groovado. Os músicos são claramente muito eloquentes tecnicamente falando e o resultado são temas que nunca parecem altos  o suficiente, como "Cosmic Highway", por exemplo.


O que mais impressiona no entanto é como eles conseguiram captar o som em estúdio e entregar essa energia de disco ao vivo. Temas como "Black Sunshine" - e suas chapantes texturas guitarristicas - parecem prover o plano de fundo perfeito para a criação de jams onde a sessão rítmica dá o tom.

A bateria e o baixo criam um verdadeiro refúgio antibombas. A cozinha é muito sólida e os andamentos intrincados fazem o som não ficar monótono, tampouco reto demais. O Funk chega com a acidez certa e contribui para que fritações como "Astroqueen" consigam entregar não só o som do Fuzz, mas também ritmo e variação para que o seu ouvido não seja engolido.

É claro que as influências dessa galera é muito diversificada e faz escala também no Blues. É impossível não escutar "Indian Summer" ou "Going Down" e não se lembrar de bandas como Cactus e Grand Funk Railroad.

Ainda assim, o resultado final está longe de soar datado e funciona melhor que glicose na veia. O único problema desse trampo é que o som nunca parece alto o suficiente. O Japão é foda... O feeling dessa galera é diferenciado até na hora de fazer barulho.

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Conheça o trampo mirabolante do FKJ

Nos últimos anos tem aparecido uma galera trampando no melhor estilo "banda de um homem só". Pode reparar. Está em todos os lugares, desde o Jazz, até o Pop, R&B e a música eletrônica. Pra vocês sacarem como é uma tendência, em 2010 o guitarrista de Jazz Pat Metheny lançou o "Orchestrion", disco de estúdio que contava apenas com ele nas guitarras, enquanto os outros instrumentos que fazem parte do disco foram programados para tocarem de maneira sincronizada, acompanhando a Ibanez do americano.

Mais recente, a australiana Tash Sultana também explodiu no cenário mainstream, com um show pautado em loops e diversas intervenções instrumentais que ela faz ao vivo, enquanto troca de instrumentos, passando da guitarra para o trompete, como quem vai na cozinha pegar um copo de água pra marinar a dentadura. 


Nem parece que ela se esforça. Autodidata, a moça entrega um espetáculo diferente toda noite - muito em função da proposta do seu show - mas é notável como tem surgido uma galera multitask, com cabeça de multi instrumentista e produtor.

Tanto o projeto do Pat quanto o som da Tash, são de fato muito interessantes. O Metheny lançou até um DVD mostrando como foi o processo. A Tash também tem dezenas de performances ao vivo no internet, mas ainda acho que tem um cara acima dessa galera toda e esse meliante é o FKJ.


Produtor e multi instrumentista francês, French Kiwi Juice é um workaholic natural da cidade de Tours, oeste da França. Amigo da galera mais hypada da cena, o talentoso músico colabora com nomes badalados como Masego, Alfa Mist e Tom Misch, sempre contribuindo de alguma maneira, seja na guitarra, saxofone ou tirando o puro néctar de seu Wurlitzer.

Dono de um set que funde a estética do Jazz, com elementos do R&B, Funk e climas com clara inspiração das trilhas sonoras francesas dos anos 70, o cara ainda consegue misturar instrumentação tocada com House e uma linha de beats açucaradas.

Em estúdio FKJ já conta com um trampo de inéditas, mas é ao vivo que a coisa pega. Seu debutante homônimo lançado em 2017 mostra sua imensa perícia na produção, mas acaba perdendo o lance orgânico que caracteriza suas performances.


E o mais interessante é como ele conseguiu se transformar num viral, principalmente pela forma inovadora e absolutamente original com a qual ele grava suas apresentações. Existem 2 shows que ilustram isso de maneira brilhante.

O primeiro é esse aqui, gravado diretamente do solar de Uyuni, na Bolívia. As imagens são belíssimas e é notável como a música casa com as imagens. A filmagem começa com o dia ainda claro e conforme o tempo passa, é muito massa ver o sol se pondo com o set do francês acompanhando as mudanças meteorológicas.

Imagina gravar uma live no maior e mais alto deserto do mundo? 



A principal mensagens desses trabalhos é muito clara. Não adianta apenas ser um bom instrumentista. É importante contar com propostas frescas para o show, pois esse é o carro chefe da vida de todo músico, ainda mais em tempos de streaming.

Essa piração começou em 20017 quando ele teve a ideia de tocar ao vivo no museu de arte moderna de Paris. Fazendo o set de frente para o quadro La Fée Electricité - do pintor fauvista Raoul Dufy - é impressionante como o ambiente do museu engrandece a proposta. Ele ainda disponibilizou headphones para o seleto grupo que aparece no vídeo e, aparentemente, o groove saia direto da fonte para os ouvidos da galera.


Acompanhar esse cara é garantia de boa música e uma oportunidade bem interessante de ver algumas ideias que comprovam a importância de se pensar fora da caixa. Coisa fina.

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Groove no Japão - Pacific Breeze: Japanese City Pop, AOR & Boogie 1976-1986

No universo do groove existe um submundo com praticamente uma realidade virtual de novas possibilidades musicais. Esse cosmos diz respeito à produção fonográfica japonesa dos anos 70 e 80 e o chamada City Pop, gênero que fez a cabeça da galera na terra do sol nascente, mas que virou uma verdadeira obsessão em diferentes partes do mundo.

Uma linha de música amplamente sofisticada, desde o trabalho gráfico dos discos até a magistral qualidade das prensagens e o grande poderio técnico dos músicos, o Japão levou o Smooth Jazz (e outras vertentes em alta na época) para outro patamar. 


Do AOR, passando pelo Yatch Rock, até o Jazz Fusion, pode ter certeza que pesquisar a produção japonesa - especialmente nesse período - é tiro certo se você busca gemas Funkeadas, arranjos épicos arranjos e uma abordagem bastante original para se pensar e fazer som. É claro que o cenário de música Pop japonesa cobre desde o Folk até o Rock Progressivo, mas o groove é algo que se mantém, tudo com um requinte no melhor estilo Steely Dan.

O maior problema pra desfrutar de tudo isso é o acesso. Os discos japoneses continuam caríssimos e na internet está cada vez mais difícil encontrar informações confiáveis sobre as bandas e os músicos, mas é aí que entram as coletâneas.

As coletâneas de fato possuem um papel muito importante quando bem feitas. Oferecem um plano de fundo mais generalista, porém bastante prudente sobre certos movimentos, além de ser uma importante ferramenta de resgate para que nomes como o das cantoras Taeko Ohnuki e Minako Yoshida recebam o devido reconhecimento, também fora do Japão.  


Track List:
Tomoko Soryo – "I Say Who"
Taeko Ohnuki – "Kusuri Wo Takusan"
Minako Yoshida – "Midnight Driver"
Nanako Sato – "Subterranean Futari Bocci "
Haruomi Hosono – "Sports Men"
Izumi Kobayashi – "Coffee Rumba"
F.O.E. – "In My Jungle"
Akira Inoue, Hiroshi Sato, Masataka Matsutoya – "Sun Bathing"
Hiroshi Satoh – "Say Goodbye"
Yukihiro Takahashi – "Drip Dry Eyes"
Masayoshi Takanaka – "Bamboo Vendor"
Shigeru Suzuki – "Lady Pink Panther"
Haruomi Hosono, Takahiko Ishikawa, Masataka Matsutoya – "Bride of Mykonos"
Yasuko Agawa – "L.A. Night"
Hitomi Tohyama – "Exotic Yokogao"
Tazumi Toyoshima– "Machibouke"


E para os ouvidos ansiosos para conhecer esse novo mundo, a compilação "Pacific Breeze: Japanese City Pop, AOR & Boogie 1976-1986", lançada no dia 03 de maio de 2019 - via Light In The Attic Records - é uma bela porta de entrada para começar a entender um pouco mais sobre o assunto.

Lançado como a terceira e última parte da série "Japan Archival Series", vale lembrar que a Light In The Attic conta com outros 2 lançamentos no catálogo, explorando contextos musicais diferentes, como a música ambiente, por exemplo. O primeiro deles, "Even a Tree Can Shed Tears: Japanese Folk & Rock 1969-1973" - foi o que inaugurou a série em 2017 - e ainda tem o segundo volume: "Kankyō Ongaku: Japanese Ambient, Environmental & New Age Music 1980-1990", que saiu em fevereiro desse ano.

Com as maravilhosas artes de Hiroshi Nagai - um dos principais ilustradores japoneses - referência na criação de capas de discos do gênero, esse belo lançamento chega com uma classe avassaladora e consegue cumprir a difícil tarefa de introduzir novos ouvidos ao submundo japonês com um conteúdo de fato de primeira. A qualidade das gravações é muito boa e agora basta apertar play.


Even a Tree Can Shed Tears: Japanese Folk & Rock 1969-1973:


Kankyō Ongaku: Japanese Ambient, Environmental & New Age Music 1980-1990:

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Groove: Kamal Williams ao vivo no Adult Swim

Depois que o Kamaal Williams apareceu em 2018 com um dos discos mais chapantes daquele ano debaixo do braço, muita gente está tentando prever o que sairá do seu cremoso sinth nos próximos meses.

Essa é uma missão dificílima, pois Kamaal está rodeado dos melhores Jazzístas da cena. E pensando num cenário tão prolífico e com imensa liberdade criativa, é praticamente impossível saber como que o groove vai pulsar num eventual sucessor para o excelente "The Return", lançado no dia 25 de maio de 2018.



Enquanto ele não grava nada de novo, o britânico segue em tour, mas desde o lançamento do disco até agora, algumas coisas já mudaram. A primeira foi que ele mudou a banda que o segue nas viagens. Adicionou um saxofone na configuração instrumental (Quinn Mason) e já não conta mais com a galera que gravou os takes no estúdio na época do "The Return".

Surgiram ainda outros rumores com relação ao retorno do épico Yussef Kamaal, projeto que o tecladista criou ao lado do brilhante baterista Yussef Dayes em 2016. O duo deixou a crítica em frangalhos quando anunciou sua separação depois de lançar o primoroso "Black Focus", mas parece que eles de fato estão ensaiando uma reconciliação.


Mas enquanto os discos não pipocam nos serviços de streaming, nos resta apenas acompanhar as redes sociais dessa galera e fisgar os vídeos ao vivo. E se tem uma coisa que o Kamaal está fazendo é gastar o groove em diversas apresentações ao vivo durante os últimos meses. Pra divulgar futuras gigs na europa, Japão e outros giros na América do Norte, o meliante de codinome Henry Wu segue divulgando as maravilhas terapêuticas do Wu-Funk.

Uma das mais recentes e mais interessantes empreitadas foi a participação que ele fez no tradicional Adult Swim, durante o mês de maio. O set foi tão cabuloso que ele soltou o vídeo em duas partes em seu canal oficial do Youtube. São pouco mais de 25 minutos de som e o resultado - com a ainda recente nova formação - deixa claro como, independente do estilo ou do músico que o acompanhe, o groove segue em boas mãos.

Parte I:


Parte II:

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O Tom Misch é cria do J Dilla

A cena de beatmakers dos anos 90 deixou uma marca indelével no cenário do Groove. Os beats do J Dilla romperam barreiras e saíram da East Coast pra se transformar no Lo-Fi Hip-Hop dos anos 2000. Slum Village, Erykah Badu, The Roots, Madlib, Common... A lista é gigante, mas todos esses grupos são e serão ainda mais importantes para explicar a cena moderna que está guiando o futuro da produção musical, desde o underground até o mainstream.

Só que essa vanguarda da música negra - Pós Motown e o auge da Black Music - ficou pequena para os impactos que essa cultura teve na música. O Jazz tem muito a agradecer essa galera toda. Se não fosse por esses caras, provavelmente o Tom Misch não tocaria guitarra. 


Nesse texto, o músico será apenas um instrumento para mostrar como essa linhagem sonora se perpetuará no futuro. Talvez o mais interessante seja perceber o impacto dessa linguagem e como ela ainda perdura na aura de discos como "Geography", a estréia solo do prodigioso guitarrista inglês, lançada - via Beyond The Groove - no dia 6 de abril de 2018. 

Line Up:
Tom Misch (vocal/guitarra)
GoldLink (vocal)
De La Soul (vocal)
Poppy Ajudha (vocal)
Loyle Carner (vocal)
Polly Misch (vocal)
Abbey Smith (vocal)
Jessica Carmody Nathan (vocal)
Jaz Kariz (vocal)
Roy Hargrove (vocal sample)
Jamie Houghton (bateria)
Tobie Tripp (violino)
Johnny Woodham (trompete)
Reuben James (piano)
Paul Castelluzo (guitarra)
Rob Araujo (teclados)



Track List:
"Before Paris"
"Lost In Paris"
"South Of The River"
"Movie"
"Tick Tock"
"It Runs Through Me" - feat. De La Soul
"Isn't She Lovely" - Stevie Wonder
"Disco Yes" - feat. Poppy Ajudha
"Man Like You"
"Water Baby" - feat. Loyle Carner
"You're On My Mind"
"Cos I Love You"
"We've Come So Far"


Amigo do Alfa Mist, FKJ - vulgo French Kiwi Juice - Tom Misch está envolvido apenas com a nata da cena inglesa. Natural de Londres, o guitarrista e produtor está no corre desde 2012 e chama atenção devido ao seu versátil talento e abordagem multidisciplinar.

Depois do play, Misch promove uma sinuosa mistura entre Jazz, Funk e os climas do A Tribe Called Quest, tudo batido no seu liquidificador com cérebro de beatmaker e charmosos sons de sinth na guitarra.


Quanto ao seu trabalho como beatmaker, vale ressaltar que Tom tem 2 trabalhos nesse front. Todos no formato Mixtape, "Beat Tape 1" e "Beat Tape 2" - lançados em 2014 e 2015 respectivamente - mostram de onde vêm suas referências e servem como um belo plano de fundo para entender sua lírica.

Em disco o clima é o mesmo. Detalhe para o sample do Roy Hargrove na intro de "Before Paris", inaugurando o disco com muita classe. A naturalidade para tirar ácidos licks e riffs de sua Strato chega a impressionar. A melodia de "Lost In Paris" ficará na sua mente por semanas.

Seu talento vocal é outro grande destaque do disco - principalmente em baladas como "Movie" - e a forma como ele entrega todas essas referências com um novo formato é bastante interessante. O violino do Tobie Tripp também é um detalhe que engrandece os arranjos e "South Of The River" é um exemplo disso. Não adianta, podem se passar 50 anos, mas as cordas sempre vão entregar um acabamento majestoso em qualquer gravação. A participação do violinista é muito interessante e vale ressaltar que ele também está presente nos shows.


A bateria com approach dos beats também funciona muito bem para ambientar as batidas e isso fica nítido, principalmente em temas como "Tick Tock", onde Tom trabalha com camadas de sinth. Em alguns momentos parece até Disco em função de certas timbragens.

Disco de audição leve e fácil, o guitarrista ainda convocou uma seleta roda de mestres para participar desse encontro. Tem De La Soul em "It Runs Through Me" - com uma levada ao melhor estilo brasilis - Poppy Ajudha em "Disco Yes" e Loyle Carner em "Water Baby".

É um som de sensibilidade grandiosa e que mostra como essa galera da cena atual pensa, não só como músico, mas com uma mentalidade de produtor/beatmaker na cabeça. É um trabalho muito completo e que circula em diversos estilos  livremente. Passei pelo Funk, Jazz, R&B, Hip-Hop e fala com a galera do underground ao mainstream.

Tem hora que ele chega a irritar pela aparente facilidade que desliza os braços da guitarra. Pode confiar, o inglês vai ganhar seus ouvidos com a majestosa versão de "Isn't She Lovely". Vem tranquilo que esse é tiro certo. O Stevie Wonder deve ter ficado orgulhoso.

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O trompete contemporâneo do Maurice Brown

O Jazz vive um grande momento, tanto no cenário mainstream, quanto no underground. E o interessante é que é possível observar que o som da nova cena caminha para 2 lados nessa nova renascença.

Se por um lado você tem - principalmente a cena de UK - com diversos grupos explorando o que existe de mais moderno no amplo espectro Jazzístico, pra contrapor esse ponto, tem uma série de instrumentistas americanos que apesar de também estarem na linha de frente do movimento, estão groovando com os olhos no futuro, mas com as raízes bem fincadas no Hip-Hop.


É claro que a produção do Jazz não fica à cargo apenas dessa galera. Tem muita gente desafiando a escola de Miles Davis, também na europa. Tem Jazz rolando em diversas partes do globo e o som pulsa até em Israel, terra do baixista Avishai Cohen.

E apesar de parecer até um pouco clichê - em função das diversas novas fórmulas Jazzísticas que vão da música eletrônica até o Rock Progressivo - o Hip-Hop está dando o que falar. Esqueça o Robert Glasper, Karriem Riggins, Thundercat e toda essa galera.

O trabalho dos músicos citados acima é de fato primoroso. Uma espécie de elo perdido entre o Jazz e o Hip-Hop, uma cultura que é muito desrespeitada frente ao academicismo que nomes como Wynton Marsalis pregam. Mas nos últimos anos essa fusão atingiu novos pontos de transgressão e resultou em sonoridades tão ímpares quanto a do Alfa Mist e do Maurice Brown, por exemplo.


Maurice "Mobetta" Brown que o diga. A cozinha que guia o seu trompete é completamente pautada no Jazz, mas a abordagem que consegue agregar tanto frescor ao timbre de seu trompete é o grande segredo por trás de seu sucesso.

Um dos maiores músicos de sua geração, o negrão nem chegou nos 40 ainda e já coleciona colaborações ao lado de nomes como Tedeschi Trucks Band, The Roots, Aretha Franklin e mais recentemente - no Coachella 2019 - Anderson .Paak & The Free Nationals.

Em carreira solo sua discografia é mais compacta. São apenas 3 discos. Primeiro veio o debutante "Hip to Bop" (2004), depois foi a vez do "The Cycle Of Love" (2010), mas foi com "The Mood", lançado em 2017, que o seu inventivo som conquistou os ouvidos do grande público.

Line Up:
Maurice Brown (vocal/trompete)
Kris Bowers (piano/teclados)
Solomon Dorsey (baixo)
Joe Blaxx (bateria)
Josh Connolly (guitarra)
Chelsea Baratz (saxofone/vocal)
Derek Douet (saxofone)
Weedie Braimah (percussão)
Saunders Sermons (trombone)
Talib Kweli (vocal)
Chris Turner (vocal)
J. Ivy (vocal)



Track List:
"The Mood"
"On My Way Home"
"Intimate Transitions (Jardin Le Sonn)"
"Stand Up (feat. Talib Kweli)"
"Moroccan Dancehall"
"Shenanigans"
"Capricorn Rising"
"Journey Exotique"
"Serendipity"
"Destination Hope (feat. Chris Turner & J. Ivy"


"The Mood", terceiro trabalho de estúdio do americano, foi lançado - via Ropeadope Records - no dia 24 de março de 2017 e cumpre a difícil tarefa de sintetizar sua abordagem. Com o Bebop na linha de frente, Maurice une o Jazz a uma visão de timbres que muito se assemelha ao minucioso trabalho de  um beatmaker.

Produtor, compositor e arranjador de mão cheia, o dono de um Grammy conta com um estilo econômico, mas que impressiona pelo rico blend de Blues, Soul e Funk. São linhas de grande eloquência e capacidade melódica que chegam a confundir o ouvinte em função da maneira como ele subverteu o Hip-Hop no meio do Bebop.


Logo na faixa título dá pra sacar isso. Os tempos espaçados na bateria, a guitarra, teclas e sax fazendo as texturas... É um sopro de ar fresco inebriante e o timbre do Maurice é de fato peculiar. Parece oldschool, mas nesse contexto chega até a confundir. "On My Way Home" é uma faixa que mostra o motivo dessas dúvidas.

Parece que o trompete virou um veludo e na hora dos improvisos o Dizzy Gillespie ficaria orgulhoso. É um trabalho muito leve, a sonoridade é muito descolada e os músicos que o acompanham fazem um trabalho primoroso.

As teclas de Kris Bowers são um dos grandes segredos desse disco. Em "Intimate Transitions" o marfim malhado surge com grande sensibilidade, já ambientando o Cool Jazz com um riff sutil, mas mortal. É um trabalho quase todo instrumental, salvo a colaboração de Talib Kweli para as vozes do single "Stand Up" e a não menos importante presença de Chris Turner e Ivy J, fazendo a poesia falada de "Destination Hope".


São temas longos, mas que em nenhum momento se tornam cansativos. Em "Moroccan Dancehall", por exemplo, o músico mostra influências que remetem ao trabalho do Shabaka Hutchings. Aquele sax com pegada de música africana, com fortes marcações. A dupla que ele fez com o sax da Chelsea Baratz merece uma menção honrosa... Em "Shenanigans", o som do naipe é tão forte - como num mantra - que beira o Afrobeat.

É até engraçado como as faixas acabam ficando na cabeça do ouvinte, tudo com a mesma naturalidade com que elas tomam conta dos falantes. Com abafador ou sem abafador, o som vem no seco, sem cuspe e sem massagem, apresentando desde intrincados andamentos - como acontece em "Shenanigans" - mas é com sensibilidade, classe e sutileza de temas como "Capricorn Rising", por exemplo, que esse disco conquista o ouvinte.


O maior trunfo do Maurice Brown nem é a fusão que ele promoveu, mas sim a forma como tudo isso foi feito. A estética leve e de grande lirismo abre espaço para uma instrumentação mais arrojada e que brinca com o tempo como se ele fosse apenas um detalhe. 

Dessa forma, Maurice consegue um instrumental sólido e que ganha vida própria graças a improvisação... Daí pra frente o seu trompete fica brincando de esconde-esconde e no fim do disco - mesmo após temas belíssimos como "Journey Exotique" e "Serendipity" - parece ainda fica uma dúvida no ar... É Hip-Bop? Hip-Hop? É essa dúvida cruel que chamamos de Jazz contemporâneo ou Jazz moderno. É esse apreço pelo novo que a crítica chama de Maurice Brown.

Um dos melhores sons de trompete da cena. É cremoso demais pra deixar passar batido. Fiquem atentos com os novos expoentes da música negra.

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Groove: aprenda com o The Fearless Flyers

Um dos supergrupos mais interessantes que surgiram nos últimos tempos. Essa seria apenas uma maneira de classificar o trabalho do The Fearless Flyers. Um quarteto que surgiu à partir do Funk do Vulfpeck, o grupo formado pelo Joe Dart (baixo), Cory Wong (guitarra), Mark Lettieri (guitarra) e por nada mais nada menos que Nate Smith (bateria), já está de disco novo.

Após lançar o debutante autointitulado em março de 2018, o grupo grupo se tornou um enorme viral em homenagem ao groove. Com um formato no mínimo inusitado em termos de configuração, a dinâmica do som dos caras parece simples, mas quem já fritou nesse Funk sabe que o buraco é muito mais embaixo.


Com um trabalho soberbo de guitarra base, Wong-Lettieri fazem a cama perfeita para que Joe Dart e Nate Smith - numa bateria minúscula - tira leite de pedra, promovendo acompanhamentos ridículos num kit reduzido e que na mão do baterista (parece) de brinquedo.

Essa foi a receita do primeiro trabalho (que resenhamos aqui). 6 grooves que foram desenvolvidos e musicados para mostrar a importância de subverter a linguagem do Funk, R&B e do Groove para uma nova geração. É um complemento do trabalho realizado pelo Vulfpeck e com o segundo disco - The Fearless Flyers II - as experimentações continuam.

Line Up:
Joe Dart (baixo)
Nate Smith (bateria)
Cory Wong (guitarra)
Mark Lettieri (guitarra)
Joey Dosik (saxofone)
Chris Tile (guitarrinha)



Track List:
"Flyers Direct"
"The Baal Shem Tov (feat. Joey Dosik)"
"Simon F15"
"Daddy, He Got a Cessna (feat. Chris Tile)"
"Swampers (feat.Chris Tile)"
"Hero Town"


A receita segue a mesma. Novamente, o quarteto aparece com 6 grooves e a cada take as propostas impressionam pelos dinâmicos desdobramentos do som. Lançado no dia 3 de maio de 2019, esse trabalho no entanto surge com um som mais elaborado.

Os temas seguem compactos, mas já ganharam mais corpo e as participações são o mais puro veneno. "Flyers Direct" é mais um riff que você sonharia ter composto. "The Baal Shem Tov" chega como quem não quer nada, mas ai aparece o Joey Dosik com um saxofone plugado no Wah-Wah e as linhas que o Nate Smith executa com apenas uma das mãos, deixam qualquer ambidestro no chinelo.


Aliás, é importante ressaltar essa questão dos instrumentos de sopro, pois essa é a principal influência para a criação dos boogies que envolvem esse projeto. Em temas como "Simon F15", o grupo mostra todo seu lirismo, enquanto o ouvinte se pergunta como o Nate Smith tira tanto som de um kit que mais parece a bateria da Hello Kit.

Mas é ao som das participações de Chris Thile que esse trabalho atinge o auge. Primeiro com "Daddy, He Got a Cessna" - trocadilho com "Daddy, He Got a Tesla", música do Vulfpeck - Chris mostra que não existem limites para o Funk.  A prova viva disso é sua mini guitarra. Ele chega a desafiar a soberania de Cory Wong e Mark Lettieri, mas enquanto a sessão rítmica segura o chumbo, Nate Smith bota ordem na casa. 


Temas como "Swampers" - com participação de Chris Thile mais uma vez - mostram um senso de urgência notável. Ver esses caras ao vivo deve ser uma experiência primorosa. "Hero Town" é um tema do Vulfpeck que foi remodelado para os intrincados solos do quarteto. A leveza e a sensibilidade são notórias e é impressionante perceber como o som atinge um grande QI rebolativo sem (aparentemente) precisar fazer muito - ou nenhum esforço - para tal.


Papa fina. Pra variar ficou irresistível.

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A melancolia transcendental do Sampha

A vida não costuma ensinar as coisas de maneira estruturada. Essas surpresas no caminho muitas vezes são os pontos altos dessa pouco ortodoxa maneira de aprendizado que chamamos de vida. Apesar dos traumas pessoais e de fases passageiras que nos fazem questionar até a última gota de sanidade, em certos momentos parece impossível romper a barreira do problema.

Mas é essa insistência e o próprio problema que vão encontrar a clareza em meio ao caos. Esse período de tensão - independente da pedra no caminho - é um catalizador para que um ciclo se feche e outro chegue pra somar no groove. É difícil, mas é justamente quando estamos desacreditados e fragilizados que a peteca não pode cair.


A química cerebral parece até que domina sua mente em certos momentos, mas é importante manter o mínimo de equilíbrio. O ócio costuma corroer os seres criativos. A pressão faz o ar sumir do peito e pressiona o rarefeito da incerteza quanto ao futuro.

É uma luxúria de dúvidas e pequenas ciladas mentais que surgem imersas no desespero como um plano de fuga. É necessário romper a bolha e voltar a oxigenar as ideias o mais rápido possível.


Veja o Sampha, por exemplo. Produtor e compositor do sul de Londres, Sampha Lahai Sisay é dono de uma abordagem que traduz um verdadeiro sopro de ar fresco frente ao Jazz, o Soul, R&B e a música eletrônica. O talentoso piano man tem um toque muito sensível e uma voz com grande carga emocional, elementos que chamam atenção para o seu inventivo som desde 2010.

Foi num grupo de música eletrônica que tudo começou. Parece difícil acreditar, mas foi ao lado do SBTRKT que o músico conheceu a produção musical e começou a criar seu estilo. Esse projeto foi primordial para a carreira do inglês - natural de Moden - pois à partir daí ele foi exposto ao grande público, em função de colaborações feitas ao lado de nomes como Drake, Kanye West e Jessie Ware.


A partir daí começaram a surgir diversas colaborações e com o passar do tempo, Sampha começou a focar em seu próprio som. Isso aconteceu na forma de 2 EP's, o primeiro - "Sundanza" - saiu em 2010 e o segundo ,"Dual", apareceu em 2013, ambos via Young Turks.

Um registro de estúdio parecia questão de tempo, mas só foi chegar 4 anos depois. Com o elogiadíssimo "Process", o compositor saiu de seu quarto para levar a produção do disco a um estúdio. O resultado foi o singelo e mostrou a força de seu orgânico repertório. O debutante que foi gravado entre Morden e a ilha de Giske, na Noruéga, também foi coproduzido ao lado do escocês Rodaidh McDonald e ganhou o Mercury Prize de 2017.

Um disco que confronta a morte de sua mãe nos anos que antecederam a gravação, o debutante solo do inglês entrega 10 faixas sublimes e que revelam um artista pronto e sem nada à esconder. Ele abraça a saudade e confronta seus sentimentos para criar um dos discos mais bonitos, não só de 2017, mas sim dos últimos anos.

Line Up:
Sampha Sisay (teclados/vocal)
Laura Groves (vocal)
Pauli The PSM Stanley-McKenzie (bateria/percussão)



Track List:
"Plastic 100°C"
"Blood On Me"
"Kora Sings"
"(No One Knows Me) Like The Piano"
"Take Me Inside"
''Reverse Faults"
"Under"
"Timmy's Prayer"
"Incomplete Kisses"
"What Shouldn't I Be?"


Dono de uma voz belíssima e de grande naturalidade, o britânico também mostra grande capacidade técnica nos teclados/piano. É uma abordagem absolutamente intimista e que acrescida de seu grande talento melódico - além dos climas no marfim malhado - criam uma atmosfera irresistível.

O estopim da gravação é denso, mas a maneira como o compositor trabalha esse processo de digerir uma perda tão difícil, chega a desarmar o ouvinte, tamanha a vulnerabilidade intérprete.

É uma energia crescente. Desde o início, com "Plastic 100°C" até "What Shouln't I Be", Sampha guia o ouvinte até um lugar majestoso, entregando mais e mais sobre si mesmo a cada take. A faixa de abertura já mostra todo seu requinte. A leveza, a calma, o grande controle vocal e a sensibilidade ao piano dão o tom desse processo de cura, sampleando as falas de Neil Armstrong, logo após seus primeiros passos na gravidade do groove lunar.


E ao som de "Blood On Me", um dos singles do registro que o som do inglês começa a ser decifrado. Digo isso pois sua cozinha é bastante original e o interessante é como ele atinge essa proposta. As camadas eletrônicas são a espinha dorsal da faixa. Com o tilintar do piano, Sampha climatiza a música e utiliza seu vocal como termômetro, harmonizando sua voz de maneira belíssima.

Essa fusão recente de elementos como R&B e Soul com a música eletrônica deu vida ao Neo-Soul. Apesar de todo esse hype, muitos grupos acabam indo pra uma linha parecida, algo que definitivamente não é o que acontece nesse disco. Em "Kora Sings", por exemplo, Sampha promove um contraponto com a melodia da música quando adiciona a bateria e percussão... Parece que tem um pouco de referência da música asiática. É um trabalho claramente bastante lapidado e preciso.


Mas é com "(No One Knows Me) Like The Piano" - mais um single do disco - que ele deixa você em frangalhos. Só voz e um piano de cauda. Aqui ele reafirma suas habilidade como compositor e mostra a importância das pausas. São esses pequenos respiros que tornam o disco ainda mais palpável, frente a uma dor quase intangível e inexplicável.

É interessante como ele alterna faixas com mais elementos eletrônicos e outras mais "limpas". Essa prudência cria um disco muito acessível, apesar da diversidade de influências e consegue harmonizar faixas com abordagens distintas, como "Take Me Inside" e o Trip Hop de "Reverse Faults".

Um dos maiores acertos desse disco é mostrar também, como um músico de gosto sofisticado consegue subverter sua linguagem ao se apropria da "licença poética" e das infinitas possibilidades da música eletrônica. Sem essas referências, temas como "Under" e "Timmy's Prayer" jamais existiriam.

"Process" condensa muito bem os objetivos artísticos de Sampha. Ele consegue ser um hitmaker apaixonado ao som de "Incomplete Kisses" e um verdadeiro mártir em "What Shouldn't I Be?". É de marejar os olhos. Belíssimo trabalho.

Prestem atenção nesse cara. Discos como este provam como ainda é possível ser Pop e entregar qualidade ao mesmo tempo.

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No Fuzz do Radio Moscow: a psicodelia segue em expansão

O conceito de Rock Psicodélico é visto hoje em dia como um eterno revisionismo de suas raízes. Desde o início do levante, no começo dos anos 60, seja com os grupos que surgiram na Bay Area de São Francisco, como Santana, Jefferson Airplane e Love, ou até mesmo na Inglaterra, com expoentes do nível do Cream, por exemplo.

Foi uma época de bastante efervescência. A psicodelia fez tanto barulho no Rock que chegou até no Funk do Sly Stone. Foi uma era de grande valia para a música em termos de experimentação, algo que promoveu uma mescla de estilos nunca antes vista, até o apogeu do Rock Progressivo.

Mas o que aconteceu 50 anos depois? Depois de toda essa saga o estilo perdeu solidez e começou a ser visto cover barato de si mesmo, já sem o mesmo brilho e novas direções musicais de outrora.

Mas como num trocadilho infame com a história do início do movimento, a cena atual também precisa "abrir as portas da percepção" de um novo público que, se foi o mesmo que esteve presente no Show dos cariocas da Aura, dos gaúchos do Quarto Ácido e trio norte americano Radio Moscow, conseguiu captar que o futuro está aí, não é um flashback não, meu velho.

Foto: Fernando Yokota

E para começar a demonstrar os novos rumos da cultura de Hofmann, coube aos cariocas do Auramental, o papel de abrir a noite de 29 de março. Com um approach de veia psicodélica, mas com elementos progressivos, o quarteto carioca formado em 2014 chegou com uma abordagem cósmica, composta por influências de Raga indiana e climas com um quê de Grateful Dead, porém com mais peso durante os improvisos, tudo numa linha melódica bastante sólida, cortesia de Bauer França (baixo), Paulo Emmery (guitarra), Enzo Mastrangelo (guitarra) e Vicente Barroso (bateria). Vale a pena ficar de olho nos caras.

Logo depois o Quarto Ácido, trio radicado em Panambi (RS) também subiu ao palco com uma proposta psicodélica, porém dessa vez bastante ancorada no peso de uma cozinha que privilegia aquela dinâmica de baixo e batera bem marcada, colada no cangote dos riffs setentões do guitarrista Pedro Paulo. Grupo instrumental dos melhores que rodam a cena no país atualmente, vale lembrar que a banda ainda é formada por Vinícius Brum (baixo) e Alex Przyczynski (bateria), e que grande parte do repertório do show baseou-se no full lengh lançado pela abraxas em 2017, "Paisagens e Delírios".

Foto: Fernando Yokota

Depois de duas horas de som bastava o Radio Moscow aparecer pra fechar a conta, algo que os californianos fizeram, com louvar, pela quarta vez tocando em terras brasilis. Com as faixas do quinto disco de estúdio ("New Beginnings", lançado em 2017) tinindo, Parker Griggs (guitarra), Anthony Meier (baixo) e Paul Marrone (bateria) tocaram com uma potência assustadora, muito semelhante ao ato de se colocar a língua na tomada.

Parece brincadeira, mas não é. Depois de rodar o mundo nos últimos anos 5, dessa vez com formação fixa, a química do trio atingiu o seu ápice. A bateria do Paul Marrone é um negócio pra ser estudado, o cidadão toca com um peso estarrecedor e durante os 90 minutos de show não olho pra frente nem por um minuto, moendo o kit durante improvisos telepáticos conduzidos pelo Rickenbacker de Anthony Meier e pelas guitarras demenciais do Parker Griggs, que ainda faz os vocais.

Foto: Fenrnando Yokota

Músicos dos mais alto gabarito, assistir esse caras dos ponto de vista técnico deve até desanimar quem toca ou brinca de final de semana. Em termos de pegada, poucas bandas fazem frente a esse som, fora que a guitarra do Parker Griggs é algo que só ele está fazendo no momento. 

Os timbres, os solos vertiginosos e as raízes no Blues são um show a parte, teve de tudo, até guitarra slide. Não sei se existe alguma dupla de baixo e bateria mais casca grossa que essa ai não... A Psicodelia segue ao infinito e além e pra garantir sua viagem, nós discutimos os rumos do Fuzz & Wah-Wah com o baixista Anthony Meier, um dos maiores especialistas no assunto.


1) Depois da gravação do "Live In California" (2016), vocês foram para o estúdio ainda impactados pela experiência do disco ao vivo?


Eu não diria necessariamente que nós estávamos impactados pelo ocorrido quando voltamos ao estúdio posteriormente. O disco ao vivo foi só algo que precisava acontecer por que a banda está em turnê tocando o material de 4 discos, portanto funcionou como um trampolim para o próximo trabalho. Correr a cena com repertório de 4 gravações, gravar um disco duplo e ao vivo, e depois começar a a ensaiar novas músicas pra gravar novamente. Foi exatamente isso que fizemos!

2) New Beginnings é um claro exemplo de Blues psicodélico. A terceira gravação com essa formação - que conta com Paul Marrone (baterista - Psicomagia), Anthony Meier (baixista - Sacri Monti), além de Parker Griggs (guitarra). Como é o processo de seguir com essa fórmula, cada vez mais azeitados, disco após disco?

Eu acredito que desde que estamos tocando juntos, durante os últimos 5 anos e fazendo tantos shows e tours, a química musical que possuímos juntos está mais forte do que nunca. Você consegue ver a evolução de muito do material escrito pelo Parker (Griggs), disco após disco também. Mesmo que todos eles tenham sons diferentes em termos de produção, todas essas gravações possuem as mesmas raízes. Nós ficamos bem feliz com o quão azeitado esse disco saiu e foi muito divertido passar pelo processo de gravação.

3) Além do fato de vocês 3 formarem um dos atos mais crus e blueseiros na cena, o Radio Moscow também é conhecido por ser uma gangue de colecionadores do som dos anos 60 e 70. Que discos dessa época influenciaram o grupo durante a concepção do novo disco?


Bom, não acho que esse disco particularmente tenha sido influenciado por algum LP específico sozinho. É mais como se nós fôssemos influenciados por diversas coisas e tudo saiu misturado. Nós definitivamente curtimos a mesma música, sons mais puxados para o Rock, Psicodelia, Kraut Rock, Garage Rock, Prog... Pra citar alguns grupos que amamos: Tem bastante Captain Beyond, Iron Claw, May Blitz, Masters Apprentices, T2, Toad, Love, King Crimson, Flower Travellin Band, Amon Dull II, Eloy, Quicksilver Menssenger Service, Black Sabbath, Rory Gallagher, Jimi Hendrix, Peter Green, Hackwing, Mad River, Dust, H.P. Lovecraft, Glass Harp, Wishbone Ash, MC5.4) Musicalmente, qual é a importância de toda essa pesquisa que é feita pela banda?

4) Musicalmente, qual é a importância de toda essa pesquisa que é feita pela banda?


Eu diria que nos mantém nos mesmo pilares criativos. Antes de nos conhecermos essa atmosfera que nos representa hoje era justamente o que estávamos gravitando naturalmente e gostaríamos de tocar algo nessa linha. Nós sempre estamos apresentando nos grupos e discos uns aos outros e continuamos atrás de mais e mais o tempo todo. Improvisar é algo que surge mais fácil também quando você está tocando com pessoas que estão no mesmo caminho sonoro que o seu.

5) Depois desses últimos 3 trabalhos, quais são as expectativas da banda para o futuro?


Bom, desde que concluímos a gravação desse disco, estamos fazendo uma turnê do mesmo porte que um lançamento de um novo trabalho precisa. Nós já fizemos 6 semanas durante outubro do ano passado na europa, e mais 3 semanas nos Estados Unidos, já com o repertório desse disco. 

Nós temos a América do Sul no mapa agora, depois outra perna de 3 semanas na europa, com alguns festivais em maio e uma passagem pela Austrália em julho. Depois disso eu acho que temos alguns shows e mais semanas tocando nos Estados Unidos no outono. Seria bem legal tocar no Japão ou em algum lugar como a Indonésia. 

Esperamos que essa mudança de selo para a Century Media nos ajude a tocar por mais países. Seria empolgante tocar no primeiro escalão de festivais de Rock no mundo todo também. Depois, eventualmente nós vamos compor uma nova fornada de músicas e sons para o próximo trabalho. Estamos realmente ansiosos para o nosso retorno a América do Sul para a quarta turnê! Até breve!

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Conheça o sinuoso Afrobeat do Kokoroko

A cena Jazz de UK está em plena ebulição criativa. O ano de 2018 representou uma grande mudança no cenário, principalmente em termos de difusão sonora, com grupos dos mais variados estilos fazendo barulho em níveis diferentes da cena. Rola desde a Jorja Smith fazendo turnê mundial - e passando até pelo Brasil durante a última edição do Lollapalooza - até uma série de shows lotados do Kamaal Williams, groovando em Los Angeles & Nova York.


O som continua pulsando e se desenvolvendo, mas ainda é um fato que nem todas as bandas da cena já concretizaram o seu nome, gravando um trabalho de estréia. Tudo bem que isso não impediu que as atividades dos grupos crescessem naturalmente graças à atenção que a cena está recebendo, mas ainda assim, cozinhas como a do interessantíssimo coletivo de Afrobeat, Kokoroko, definitivamente precisavam gravar, e o EP homônimo lançado pelo grupo, via Brownswood Recordings, mostra o por quê.

Line Up:
Sheila Maurice-Grey (trompete)
Cassie Kinoshi (saxofone)
Oscar Jerome (guitarra)
Mutale Chashi (baixo)
Ayo Salawu (bateria)
Richie Seivwright (trombone)
Yohan Kebede (teclados)
Onome Edgeworth (percussão)



Track List:
"Adwa"
"Ti-de"
"Uman"
"Abusey Junction"


Digo sem exagero algum que esse trabalho é um dos mais esperados da cena para o ano de 2019. Vale lembrar que o Kokoroko, mesmo sem disco lançado, tocou até no Brasil ano passado - dentro da programação da SIM São Paulo - realizada no final de 2018. Num showzaço no Jazz nos Fundos, o grupo liderado pela saxofonista Sheila Maurice-Grey, mostrou que o poder dessa cozinha não poderia ficar restrito à singles ("Abusey Junction") e compilações ("We Out Here"). O buraco é mais embaixo.


O Kokoroko reúne alguns dos melhores músicos da cena. O time de metais é extremamente sólido. Nas guitarras a banda ainda conta com a luxuosa colaboração de Oscar Jerome - um dos guitarristas e vocalistas mais talentosos dessa geração - e os outros músicos que fecham o septeto (ou octeto em alguns shows), também contribuem com um groove intenso e cabuloso em termos de dinâmica.  

Não se engane pela pouca quantidade de faixas. Cada um dos temas é totalmente desdobrado e o resultado são quase 25 minutos de pura musicalidade e ancestralidade africana. O Jazz foi a linguagem escolhida e os metais são responsáveis por tunar a jam.

Respeitando a tradição de nomes como Fela Kuti, Tony Allen, Ebo Taylor, Babatunde Olatunji e tantos outros, o grupo entrega uma visão contemporânea que cumpre a difícil tarefa de subverter toda essa história, para criar uma abordagem moderna.


Se liga na pressão do tema de abertura. "Adwa" surge açucarada com um riff de teclados de Yohan Kebede, bem ali, incitando o swing. Depois que os metais entram e o Oscar Jerome sola, a jam ganha em riqueza, densidade no baixo e fluência, graças ao Jazz.

A percussão de Onome Edgeworth também agrega muito na cozinha. Os timbres são muito cristalinos e nota-se como o som é bastante orgânico, com pouquíssima adição de efeitos. "Ti-de" é um dos temas mais bonitos do EP. A leveza do instrumental e a maneira como a música cresce de forma ascendente evidenciam uma das maiores habilidades desse grupo de jovens músicos: a capacidade de criar climas delirantes. 


O EP termina com duas faixas já conhecidas. "Uman" e, principalmente, "Abusey Junction", foram 2 dos temas responsáveis por viralizar o som da banda no Spotify e no Youtube. Aqui as composições surgem revitalizadas e ganham versões definitivas. "Uman" vem forte nos metais e junto com a faixa seguinte apresenta os únicos versos cantados do disco. "Abusey Junction" faz uso de tons épicos pra terminar o EP com o groove em tom de mensagem. 

Kokoroko é uma palavra oriunda do "Orobo", uma tribo e também um dialeto nigeriano que significa: "seja forte". Esse som é a prova da resistência e mostra como música negra nunca perderá o vínculo com sua nave mãe, o continente africano. O Oscar Jerome gasta demais na guitarra.

Não deixe esse som passar batido.

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Baixo e bateria: o Funk endiabrado do Kyotaro & Rikuo

Uns meses atrás me deparei com uma dupla de meliantes asiáticos mandando um groove. Era um daqueles virais onde um duo com baixo e bateria faziam miséria com o Funk, numa cozinha guiada por slaps e precisos acompanhamentos.


O único problema é que apesar do imenso engajamento na publicação, ninguém citava o nome do projeto e o groove seguiu incógnito. Meses depois, me deparei com outro vídeo - dessa vez uma ação com a Tama - marca japonesa de baterias comercializada pela Hoshino Gakki. O vídeo que pode ser visto logo abaixo, resume bem o que acontece quando a dupla escolhe uma viela pra mandar um som.


O nome do projeto dos budistas funkeados é Kyotaro & Rikuo. A dupla é de Osaka e apesar de parecer, eles não fugiram da vida monástica, só as roupas que acabam remetendo a tradição dos monges que se privam, também, da vida clausural.

O projeto nasceu em meados de 2016 e desde então a dupla segue fazendo barulho nas principais feiras do mundo, sempre tocando com um fervor e com aquele traquejo que apenas as ruas ensinam. E depois de muita pesquisa, o Macrocefalia Musical descobriu que eles soltaram um EP em dezembro de 2018 e apesar de ser o único trabalho dos caras, as 4 faixas do trabalho homônimo merecem a sua atenção.

Line Up
Kyotaro (baixo)
Rikuo (bateria)



Track List:
"Attention"
"Grilled Marshmallow"
"Pulse"
"Attention!4"


O que mais espanta nesse curto, porém intenso EP, é como a abordagem dos caras - mesmo em estúdio - conseguiu captar exatamente o mesmo sentimento dos virais que se espalharam pela internet.

Com um som que é pura glicose na veia, a dupla intercala passagens extremamente intrincadas como se isso fosse a coisa mais natural do universo. Outra coisa que vale pontuar é o peso e o entrosamento praticamente telepático do duo. O baixista de fato come o instrumento com farinha e apesar de utilizar bastante a técnica do slap - de maneira bastante agressiva - o groove passa longe de ser previsível ou cansativo.


Logo que o som começa a pulsar, "Attention!" aparece e já sintetiza o que está por vir. Um boogie cretino de rápido, com a cozinha estralando o Funk numa aula de dinâmica, sem excesso de preciosismo.

Aliás nesse ponto a atitude da banda é praticamente Punk-Rock. As composições são muito viscerais e apesar do approach sem cuspe e sem massagem, os músicos demonstram grande capacidade técnica e feeling, também com temais menos fritos, como é o caso de "Grilled Marshmallow".


Em termos de formato, o som dos caras também não se assemelha com nada que está sendo feito nesse esquema em dupla. É uma pancadaria franciscana bastante estruturada e com linhas de baixo que merecem horas de estudo, como "Pulse", por exemplo. Outra questão importante é o trabalho do baterista, que sempre tira muito som de kits bastante compactos.

Apesar do baixo estar aparentemente na frente do som, com um timbre mais na cara, o mestre Kung-Fu das baquetas está longe de apenas acompanhar o slap. Na última faixa o som da bateria quase engole o groove de "Attention!4.

Na moral, pega essa visão. Tem muito quarteto que não iguala a pegada animalesca desses caras.

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