Kamaal Williams - o groove cremoso de Catch The Loop 1 & New Heights/Snitches Brew

Depois de liberar um dos melhores discos de 2018, o tecladista Kamaal Williams olhou pra crítica especializada, deu de ombros e após lançar uma versão alternativa para o excelente "The Return" - ao lado do Wu-Tang Clan - um dos maiores workaholics da cena de Londres nem esperou a virada de ano pra seguir experimentando.


Após aparecer num vídeo pra lá de sugestivo ao lado do baterista Yussef Dayes, fãs do duo Yussef Kamaal, projeto formado em 2016, mas desmantelado após desavenças envolvendo a dupla - apesar do sucesso do debutante "Black Focus" - fizeram com que os fãs de um dos maiores fritadores da cena ficassem com uma pulga atrás da orelha.


Mas até quando o músico mostra-se relapso e completamente alheio ao que todos esperam dele, que sua criatividade parece pulsar de maneira ainda mais espontânea. Sempre em busca daquele balanço orgânico e descolado, Kamaal mostra duas abordagens distintas quando escutamos seus recentes lançamentos.


Track List:
"K15 - The Return Tape"
"Kamaal Williams NTS Live Session"


O interessante dessa edição que só saiu em cassete - com limitadíssimas 200 unidades disponíveis - é o formato. Lançado no dia 30 de novembro de 2018, "Catch The Loop 1" mostra como a mente do tecladista gosta de operar o swing.

Na primeira faixa, Kamaal entra no groove com seu trio e quando você se liga, a jam vira uma entrevistas onde o fã do Joe Zawinul fala sobre sua filosofia sonora no contexto do Jazz londrino atual.


Parece pouco, mas esse relato é uma bela demonstração de como o cenário é rico e como sua cozinha se diferencia do som que caracterizou esse levante desde 2016. Não é questão de fazer Hip-Hop com Jazz, isso já foi feito, a questão é como pegar essa referência de sinth e groove pra subverter tudo isso com foco no cenário contemporâneo de Drum & Bass e outras cozinhas de garagem.

A segunda faixa vem numa pegada mais tradicional, com formato padrão Tiny Desk, mas o que chama atenção é como esse cidadão não toca a mesma nota duas vezes da mesma forma. Existem vários lives no YouTube, além desse aqui e é notável observar como os andamentos sempre surpreendem, mesmo que você tenha decorado o "The Return" de ponta à ponta. Os timbres são puro sorvete de creme.


Mas agora esqueça tudo que você escutou durante os últimos (quase) 30 minutos e adentre outro território de imersão com "New Hights/Snitches Brew". 

Line Up:
Kamaal Williams (teclados/sintetizadores)
Mansur Brown (guitarra)
Dexter Hercules (bateria)



Track List:
"New Heights (Visions Of Aisha Malik)
"Snitches Brew"


Aqui é onde está o ouro. Um dos temperos responsáveis pelo sucesso do "The Return" é a participação do guitarrista Mansur Brown, principalmente nos shows da turnê. Vale ressaltar que o guitarrista também lançou um dos grandes discos do ano, também pelo selo de Kamaal, a Black Focus Records.

Com "Shiroi", Mansur se posiciona como um dos guitarristas mais engenhosos e originais da atualidade, mas o que o negrão, o patrão e o baterista Dexter Hercules fizeram no estúdio pra lançar esse petardo no dia 14 de dezembro de 2018 traz algo inédito na carreira desses meliantes

Não só isso, esse nova abordagem com certeza aponta possíveis novas direções para as futuras sonoridades que o trio pode explorar em 2019.


"New Hights" sustenta um groove de batera que não é brinquedo não, papai. Kamaal pega essa cama bem construída e começa a traçar texturas de sinth enquanto varia os timbres com um timbre limpo e absoluto, digno de um piano de cauda.

Parece meio tímido, mas nota-se como o Fusion é o prato principal nessa dinâmica, pois o groove se mantém numa constante, o que surge como novidade é essa peso mais latente com climas como "Snitches Brew". Com 5 segundos de som a bateria já está colada no cangote do sinth, enquanto Mansur faz miséria na guitarra, explorando o som como se fossem camadas de Wah-Wah, enquanto destila um slap (?).

Essa galera está na linha de frente. Não tem jeito. O mais prazeroso, no entanto, é perceber como o jogo segue evoluindo com grande rapidez.

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Os devaneios sortidos do voador André Prando

O Rock Psicodélico é um termo que nos últimos anos vem sendo massificado só para que novos hypes sejam criados. É relativamente comum se deparar com grandes matérias de jornal, ressaltando a tal da "nova psicodelia brasileira". Tem gente que vai além e define essa estética como "neo psicodelia"

Essa bizarra necessidade de criar rótulos faz mais do que só atualizar nomenclaturas que visam apenas chamar atenção. Ela eleva conceitos sonoros empobrecidos por excessos e falta de criatividade, muitas das vezes enquanto fórmulas de fato originais passam batido só por que alguma bandinha hype comprou uma caralhada de reverbs e acha que virou o Tame Impala.

André Prando no Psicodália 2018 - Foto: Guilherme Espir

Na contramão disso tudo, André Prando cria e recria, gozando de uma liberdade que nenhum outro compositor ou grupo parece possuir nessa cena. E com um mercado saturado de bandas adeptas dessa Psicodelia inofensiva, que a curta, porém interessantíssima discografia do compositor capixaba, costuma puxar ouvintes desprevenidos pelo pé.

Em 2014, o sósia do Jerry Garcia lançou seu primeiro EP, Vão. A gravação que foi o estopim para catapultar sua música para fora do Espírito Santo, explora diversos climas, enquanto sua sabedoria versa sobre o mundo com influências líricas do escritor britânico William Blake.

Ilustração - Alex  Furtado

Logo no ano ano seguinte, em 2015, após um sólido ano de turnê - já com banda - no circuito underground local, nasce "Estranho Sutil", seu primeiro e elogiadíssimo disco de inéditas. Esse trabalho representou um passo imenso na carreira do músico. 

É notável como suas composições cresceram, a qualidade e a engenhosidade do instrumental chama atenção... É um trabalho forte e que mostra como seu groove lisérgico está confortável com o protagonismo dos maiores palcos do país.

Arte: Paulo Prot
Acompanhar tudo isso é praticamente um respiro de ar fresco. Prando é um artista de humor ácido, em suas letras a psicodelia é o plano de fundo para críticas inteligentes e trocadilhos que explanam um vasto repertório lírico, dono de uma leveza de fato poética.

E depois de quase 3 anos de intervalo - com o intérprete e sua bandaça sempre em movimento - o resultado dessas vivências comprimidas pelo espaço tempo teve o seu silêncio quebrado por "Voador", o derradeiro trabalho do visionário guru das texturas de Vitória.

Line Up:
André Prando (vocal/violão/guitarra/arranjo)
Jackson Pinheiro (baixo)
Henrique Paoli (bateria/guitarra/teclado/percussão programada/arranjo)
Jr Tostoi (guitarra/ambiência/vocal/guitarra slide)
Phillip Rios (órgão/guitarra/teclado)
Duda Brack (vocal)
Gabriel Ventura (guitarra)
Edu Szajnbrum (percussão/ambiência
Lucas Estrela (guitarra)
Francisco Xavier (sitar)
Bruno Castro (vocal)
Mário Wamser (guitarra/teclado/violão/vocal)
Jeremy Naud (acordeon)
Luiz Gabriel Lopes (vocal)
Federico Puppi (cello)


Arte: Caramuru Baumgartner

Track List:
"Ode à Nudez"
"Em Chamas no Chão (feat. Duda Brack)" - Duda Brack
"Concha (feat. Gabriel Ventura)" - Gabriel Ventura
"Catalepsia Projetiva"
"Eu Vi Num Transe (feat. Lucas Estrela)" - Lucas Estrela
"Salve Seu Broder"
"Fantasmas Talvez"
"Musa dos Cetáceos (feat. Mário Wamser)" - Mário Wamser
"Moro no Interior do Mundo"
"Ave Machinaria"
"Na Paz do Caos (feat. Luiz Gabriel Lopes)" - Luiz Gabriel Lopes
"O Mundo Com Tudo Que Há (feat. Puppi)" - Puppi


Como um eremita em busca respostas, engana-se quem enxerga André Prando como apenas mais um riponga maluco beleza. Em "Voador", o conceito de unidade sonora é testado de maneira brilhante pelo músico. Cada uma das 12 faixas entrega um clima único, mas de alguma forma pouco ortodoxa, o trabalho entrega um som muitifacetado que, mais do que senso estético, valoriza a liberdade que o artista consegue frente à arte.

Em "Ode a Nudez", Prando proclama essa liberdade. O primeiro sigle desse trabalho eleva o ouvinte e o faz questionar os rumos de um mundo que fica, dia após dia, cada vez mais careta e problematizador. O piano na entrada ficou o mais puro veneno.

Arte: Caramuru Baumgartner

Com "Em Chamas no Chão", com louvável participação de Duda Brack, Prando mostra que tem groove. O timbre da guitarra de Phillip Rios vem cheio de acidez enquanto o arranjo ascendente da faixa valoriza ainda mais a voz perturbado do mártir.

A produção desse disco é algo grandioso. O trabalho de Jr Tostoi e Henrique Paoli surge cheio de grandes arranjos e ambiências repletas de belas sacadas. O Wah-Wah que surge faiscante nos contornos de "Concha" - com participação de Gabriel Ventura - parece cantar enquanto o isolamento surge como o único remédio para os anseios de uma alma sem oxigênio frente a tanta falta de sensibilidade. Respira, não pira!

Arte: Caramuru Baumgartner

O uivar dos órgãos de Phillip Rios em "Catalepsia Projetiva" parece antever o desespero numa mente à ponto de enlouquecer. Nessa faixa o trabalho de Edu Szajnbrum começa a mostrar seu brilho. Sua contribuição com a percussão, utilizando um vasto repertório de instrumentos - do Berimbau até o caxixi e o ganzá - entregam um quê orgânico à roupagem do disco que é bastante interessante. Vale lembrar inclusive que o percussionista já trabalhou ao lado de nomes como Gilberto Gil e Marisa Monte, por exemplo, antes de emprestar seu ambicioso feeling climatizado a este disco. 

Com "Eu Vi Num Transe", segundo single do disco lançado no dia 23 de novembro de 2018, com distribuição pela Sony Music Brasil, André prevê o futuro, munido da composição de Santiago Emanuel, que equilibra o real e fictício de maneira inteligentíssima. A participação de Lucas Estrela nessa faixa é inestimável, o trabalho de guitarras ficou soberbo e a fusão do Afrobeat com as nossas brasilidades dá um gosto agridoce no groove psicodélico.

Faixa inspirada na biografia de Fela Kuti - Esta Vida Puta (Nyandala), do historiador e etnólogo cubano Carlos Moore, sobre a vida do embaixador do Afrobeat, preste atenção no timbre Funkeado dos teclados de Henrique Paoli e nas mudanças na dinâmica quando o sitar do Francisco Xavier entra na jogada. 


Na faixa seguinte Chico volta com o sitar para desempenhar um papel chave em "Salve Seu Broder". Com uma Ragga ritualística, o músico eleva as boas vibrações de André para que nenhum amigo seu fique desemparado. É aquele lance: "if you see the police, warn a brother".

Essa clara influência da música indiana perdura no disco. As percussões programadas de "Fantasmas Talvez" remetem bastante às tablas indianas e, assim, o disco se desenrola como a constelação que André e Mário Wamser tanto falam em "Musa dos Cetáceos".

André Prando no Psicodália 2018 - Foto: Guilherme Espir

É um disco riquíssimo, talvez o maior destaque da música independente brasileira em 2018. O som vai muito além dos clichês e entrega um universo genuíno, caleidoscopicamente pintada pelas artes de Caramuru Baumgartner.

É um trabalho de um compositor busca ir além de seus mais lúcidos devaneios para aumentar a percepção das pessoas e mostrar que nem todas as respostas estão na mão do "Deus do Wi-Fi" que o vocalista cita em "Ave Machinaria". Não é só por que eu "Moro no Interior do Mundo" que a minha perspectiva precisa ser limitada e pouco dotada de instrumentos de argumentação.


É importante entender e conseguir abraçar o caos para tirar algo positivo disso. Essa é a principal lição de André Prando. Ao exorcizar seus próprios demônios, o criador dessa odisseia mostra um poder cura grandioso, deixando claro sempre que nós não merecemos "menos do que o mundo com tudo que há".

Iririu é a palavra de ordem. E foi no meio de todas essas cores, energias e experimentação sonora que nós conseguimos trocar algumas palavras com o criador de todo esse universo. Pelo fim da Psicodelia Inofensiva, senhoras & senhores: André Prando.

1) Essa foi a primeira vez que você contou com uma produção tão cheia de possibilidades. Como que vocês chegarem no conceito do som do “Voador”? Vocês tinham esse objetivo de criar uma estética, de fato?


Eu sempre quis trabalhar um disco que explorasse diferentes timbres e instrumentos, soluções improváveis de arranjos, timbres mais experimentais pra diferentes universos, deixar as ideias voarem livremente, sem virar um samba do criolo doido. Sempre mantendo o foco da canção. 

A sonoridade do "Voador" foi descoberta durante o processo de produção e isso foi novo pra mim. A gente costuma querer indicar um disco de referência pra mix, referência de arranjo, referência de tudo, e no Voador não foi muito assim.

Fazer os arranjos junto com o Henrique Paoli foi um processo mais natural nosso do que de imitação ou busca de alguma referência. A gente já conhece a forma um do outro de trabalhar, já conhece o gosto um do outro, tamo sempre apresentando som, talz. Somos irmãos. Agente já imaginava as participações enquanto arranjava, então, a partir de relações pessoais nossas, a gente pode imaginar as somas no trabalho. Sem se limitar a isso, mas já norteou algumas ideias.

Apesar de ter mostrado algumas referências pro Tostoi, sinto que ele jogou a favor das próprias músicas o tempo todo. Sabíamos que queríamos experimentar sem limites, que as músicas eram estilo canção, que fosse groovado, que fosse rock. Isso foi o nosso elo com Tostoi, liberdade, experimentação. Ele tem uma bagagem musical muito foda e tá sempre antenado no moderno. Isso é foda. Cheguei com John Frusciante e Clube da Esquina na cabeça, fui vendo ele chegar com Jack White, Gorillaz, além de toda brasilidade que ele já comunga. Aí a gente fica a vonts né? rs

Uma coisa que eu sempre prezo muito é a narrativa do álbum. Como ele soa? O que a ordem das músicas sugere? No Voador, os diferentes universos de cada música contribui pra climas diferentes de uma jornada que é a escuta do disco todo. É uma viagem memo. Uma viagem maneira não pode ser uniforme, ela tem que te dar êxtase, reflexão, transe, paz, caos.

2) Trabalhar com mais recursos lhe deu mais chance para focar apenas no som? Como essa autonomia favoreceu a sua criatividade durante o processo de pré-produção e gravação desse trabalho?


Uma coisa não liberta a outra. Acho que uma coisa alimenta a outra. Saber que o disco teria diferentes elementos, que o Paoli é um multinstrumentista foda que arranja muito bem e que é bem conectado comigo, que o Tostoi tem equipamentos fodas, que ele é um dos maiores músicos do país... isso tudo nos fez trabalhar a favor da liberdade. 


Mas acredito muito no potencial de criatividade com poucos recursos! Os arranjos mesmo, nós criamos no homestudio do Paoli, que é super simples. E foi uma etapa fundamental que ditou muito o caminho das músicas. O quanto a gente está realmente conectado com o que a gente se propõe a fazer significa muito. O sentimento que a gente expressa em cada ideia, em cada erro, descoberta, em cada detalhe fica registrado pra sempre.

3) Como você enxerga a cena de Rock Psicodélico no Brasil atualmente? A impressão que eu tenho é que o conteúdo não parece ser algo relevante nesse contexto, algo que a sua discografia contradiz com louvor. Além disso, toda essa questão de “neopsicodelia” e a tal da “nova psicodelia brasileira” parecem afastar os ouvintes, por que no fim do dia os rótulos são muito maiores que o som, é praticamente uma psicodelia inofensiva...


O hype é um perigo né? Eu gosto de muita banda que eu acho que é dessa cena que vc se refere, Luiza Lian, Terno, Boogarins, Tagore, Joe Silhueta, é por aí? Gosto muito deles, são dos maiores pra mim! Mas tem muita coisa que eu não gosto também. Esses a gente não precisa citar nome né? Sou muito amante da canção, letra, reflexão, é minha onda.

Pra mim, permitir uma gota serena de psicodelia na minha criação, é permitir o infinito nela. É fugir do óbvio, é dar uma surpresa pro ouvinte, estimular as ideias, emocionar, tocar a alma. Nesse sentido, aceito a psicodelia como uma intenção e forma de inspiração pras construções.

Delay exagerado de graça, vozes que eu não consigo entender, desfarces, essas coisas não me tocam muito. Mas aí vai de cada um. Pra quem gosta é bom.

4) E como foi partir de um disco liricamente tão rico quanto o “Estranho Sutil”, pra elevar o patamar com o “Voador”? Parece ter sido um processo difícil.


Não enxergo como "elevar" o patamar, diria apenas que é "outro" patamar. Mas foi desafiador! Todo artista já deve ter passado pela situação de lançar um trabalho que considera algo grandioso e o melhor que tinha pra dar e pensar "Carái... Como que eu vou fazer melhor que isso?".

Lembro que quando lancei o estranho Sutil eu tinha esse medo. Mas depois a gente vai compreendendo melhor que tudo são recortes de diferentes momentos da vida e que, se expressando com sinceridade e trabalhando duro, a gente sempre pode dar nosso melhor.

São discos complemente diferentes, dialogam de alguma forma, mas tem trunfos diferentes. Tô muito realizado com o lançamento!

5) André, agradeço pela atenção. Pra fechar, queria saber como foi o processo de sentar com todo mundo que fez esse disco, por que pra mim fica claro como tudo está muito bem amarrado, mesmo com faixas que remetem climas diferentes entre si. Desde às artes do Caramuru até o clipe, percebe-se uma unidade muito massa apesar da grande riqueza e das diversas influências que permeiam o disco. Como que foi esse alinhamento de botar todo mundo na mesma página?


Infelizmente eu não consegui me reunir com todo mundo pessoalmente e ao mesmo tempo para a produção. Todos os envolvidos são amores meus e a gente se conhece (uns mais, outros menos). Então rolou um papo reto especial com cada um para compreensão do disco. 

Mostrei algumas prévias pra ilustrar as ideias e talz. Mas a unidade se deu pela clareza e sintonia com cada um. Diria que 90% foi gravado no Lab Tostoi, mas teve coisa gravada longe e enviada, teve coisa gravada em estúdio diferente, teve trocação de áudio de WhatsApp pra caramba hahahahah muita entrega. Muita vibração boa na causa.

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Traz pra mim Marquinho: O groove do aminoácido chegou em São Paulo

Uma das bandas mais inventivas que surgiram no cenário independente nacional nos últimos anos, o Aminoácido, combo radicado em Londrina - mas que jura ter vindo de outro corpo celeste - o planeta Kepler, está dando o que falar na cena.

Enquanto a origem do grupo é estudada pela NASA, a banda se mostra focada em apenas um objetivo: o groove interplanetário. O crème de la crème, como diriam os franceses, o groove é aquela fagulha que tira o som do lugar comum e faz a plateia pulsar.

Sem groove não tem como e a curta carreira do Aminoácido representa um laboratório de experimentos Funkeados que já conta com 2 capítulos dedicados ao elixir máximo do swing. O primeiro deles, o elogiado "Meticuloso" saiu em 2017 e ano passado o grupo deu mais um passo rumo ao balanço perpétuo com o lançamento do excelente "Sem Açúcar".

Foto: Lucas Klepa
E foi justamente esse disco que foi o responsável por colocar o grupo no radar dos principais festivais do calendário independente. Com 3 anos de correria, o esforço dos caras começou a dar frutos e hoje o grupo coleciona passagens em festivais como o Psicodália (SC), Bem Ali (TO) e Demo Sul (PR), só para citar alguns exemplos.

A evolução dos músicos é notável. No primeiro disco a banda era praticamente um combo instrumental. O foco, a perícia e o entrosamento cirúrgico dos músicos envolvidos expandiu o som de tal maneira que o segundo trabalho chega até a representar um ruptura com o primeiro. 

Em função de contar com mais passagens cantadas, além de apresentar um grande trabalho vocal que evidenciou o ácido humor da banda, a dinâmica dos sons continuou evoluindo e hoje o grupo conta até com um saxofone em seus shows ao vivo.


E com a gravação do aguardo terceiro disco de estúdio batendo à porta, o grupo conseguiu sair do eixo habitual de suas tours e já vai começar o ano de 2019 fazendo sua estréia com 2 shows em São Paulo.

Na busca por novos ouvidos sedentos por groove, Frank Zappa e psicodelia a banda toca na Casa do Mancha no dia 19 de janeiro junto com a banda Leza e na Avenida Paulista no dia seguinte mesmo, dia 20, ao lado da galera do Monstro Amigo. Trata-se de uma grande oportunidade para pegar os caras ao vivo, até pra ter certeza se eles são desse planeta mesmo.

Não vacila não, papai.

Serviço: Aminoácido na Casa do Mancha
Onde: Rua Felipe de Alcaçova, 89
Quando: Dia 19/01
Horário: 21:00
Preço: R$ 20,00 TÁOKEIS
Evento no Facebook: Aminoácido & Leza


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O saxofone celestial da Camilla George

Nascida na Nigéria, mas radicada na Inglaterra, a saxofonista Camila George não é só uma das mulheres que estão na linha de frente da cena Jazz em UK, como também é uma das maiores musicistas de sua geração, ao lado de nomes como Nubya Garcia, Shabaka Hutchings, Zara McFarlene e muitos outros. 

Camilla, apesar da pouca idade - um dos traços que caracterizam essa vívida nova cena - possui uma experiência respeitável no groove. Graduada na famosíssima Trinity College of Music, com um mestrado focado nas curvas do Jazz, a moça, além de sua carreira solo, ainda colabora com a Nu Civilisation Orchestra e o queridinho da crítica inglesa, o Jazz Jamaica.


George começou a tocar sax aos 11 anos de idade. Desde 2014 que ela lidera seu próprio quarteto e é via Ubuntu Music que ela lança suas preciosidades. A primeira delas saiu em 2017 ao lado do Camilla George Quartet com o elogiadíssimo "Isang" e sua excelente banda de apoio que incluiu o baterista Femi Koleoso (Nubya Garcia/Jorja Smith/Ezra Collective), o baixista Daniel Casimir (Ashley Henry), a pianista Sarah Tandy, além da participação especial de Zara McFarlene na voz.

Um ano depois, já em 2018, Camilla voltou para o estúdio e o resultado foi "The People Could Fly", lançado em setembro de 2018. Um disco poderoso e que mais do que retratar a sofrida história de seu povo, engrandece o DNA negro e toda a sua história de luta e resistência. É notável como apesar da longa distância cronológica, esse disco ainda assim parece conectar todo o contexto social dos grooves conscientes dos anos 70... o Curtis Mayfield estaria orgulhoso.

Line Up:
Camilla George (saxofone)
Sarah Tandy (piano)
Quentin Collins (trompete)
Winston Clifford (bateria)
Daniel Casimir (baixo)
Femi Koleoso (bateria)
Cherise Adams-Burnett (vocal)
Omar Lye-Fook (vocal)



Track List:
"Tappin The Land Turtle"
"He Lion, Bruh Bear, Bruh Rabbit"
"How Nohemiah Got Free"
"Little Eight John"
"The People Could Fly"
"Carrying The Runnings Away"
"The Most Useful Slave"
"Here but i'm Gone"


Quando criança, a mãe de Camilla tinha o costume de ler algumas histórias do livro "The People Could Fly" para sua filhota. Um livro de contos africanos com claras referências ao período da escravidão no continente africano, essas histórias fizeram Camilla ir muito além de seus sonhos com a cabeça no travesseiro.

Demonstrando grande sensibilidade e um sentimento que é de fato palpável, faixa após faixa, a instrumentista entrega seu melhor disco até o momento. Com uma produção cristalina e grandes músicos no apoio da Jam, talvez a maior qualidade desse disco seja justamente a consciência social que o motivou.


Quando Cherise Adams-Burnett abre o disco com "Tapping The Land Turtle", fica claro com essa cozinha é diferente da que eternizou seu primeiro disco. Apesar de manter alguns nomes que figuraram no outro trabalho, a sonoridade desse disco é mais moderna e flerta não só com o Jazz, mas com o Hip-Hop e alguns elementos da música Africana num contexto que beira os Spirituals Jazz da IMPULSE.

Um disco instrumental em sua essência, "The People Could Fly" não é só uma aula de bom gosto. O timbre do sax de George em "He Lion, Bruh Bear, Bruh Rabbit" é lindíssimo. Seu domínio frente ao instrumento é notável e tema após tema ela parece libertar muito mais do que apenas escravos, ela alforria espíritos livres.


Em "How Nohemian Got Free" o trabalho da sessão rítmica Femi-Daniel sustenta um groove de alto quilate. Tight shit, como diriam os americanos, fica claro como a improvisação é um pilar primordial não só na carreira da saxofonista, mas para esse trabalho em específico. Até o vocal parece sofrer impacto desse formato mais livre. Em "Little Eight John" a voz de Cherise Adams parece estar num tempo a parte do instrumental.

O som das correntes, a leveza e o cuidado na cirúrgica abordagem dos músicos, mesmo que inspirado num assunto denso como esse... A faixa título hipnotiza o ouvinte como um canto celestial. Os pianos de Sarah Tandy quebram os tempos do groove em "Carrying The Runnings Away" e quando você achou que o disco não poderia lhe surpreender mais, Camilla surge absoluta, esbanjando seus dotes melódicos com "The Most Useful Slave".

Mas é com a última faixa que a casa cai. "Here but i'm Gone" é um cover de Curtis Mayfield com participação de Omar Lye-Fook na voz. Tema presente no disco "New World Order", lançado em 1996, esse cover mostra como a luta por uma nova ordem mundial ainda é realidade, mas se depender da Camilla George, bom, aí o gueto vai dominar o mundo.

Ubuntu

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The '67 Demos: escute os primórdios do Blue Cheer

Um coquetel molotov embebido no mais cavernoso Blues Psicodélico. Talvez esse conjunto de hipérboles consiga sintetizar um pouco do impacto que o Blue Cheer teve no desenvolvimento da música pesada.


Power trio formado por Dickie Peterson (baixo/vocal), Leigh Stephens (guitarra) e Paul Whaley (bateria), o grupo fixado na Bay Area de São Francisco cunhou alguns dos principais registros da história do Blues/Rock Psicodélico dos '60 e '70.


Quem nunca danificou os ouvidos familiares ouvindo "Summertime Blues" num volume tão próximo quanto a uma multa de condomínio?  "Vincebus Eruptum" (68) e "Outsideinside" (68) são exemplos de 2 trabalhos pioneiros no desenvolvimento do som do Rock como um conceito.


Puro, cru e repleto de distorções e outros experimentos de ordem elétrica que estavam pipocando nas mãos de caras como Hendrix, Randy California e Randy Holden, o Blue Cheer criou algo que apesar de ser cultuado hoje em dia, não teve o reconhecimento merecido à época. 

Dentro dos meandros do Rock o Blue Cheer acabou elevando seu conceito e se tornando um estilo. Tudo que veio depois dos caras ainda bebe dessa água, vide a cena contemporânea do Stoner, por exemplo.


Poucas bandas conseguiram atingir algo parecido e o Grand Funk Railroad talvez seja um bom exemplo disso... O Mel Schacher (baixista do Grand Funk) deve ter explodido uns 4 amplificadores pra atingir o timbre que consagrou o vermelhão... Ambos nunca conseguiram atrair os holofotes, mas a potência de suas gravações é intensa demais pra ser ignorada.


E para provar, não apenas que a década de 60 é logo ali, mas também como o som dos primórdios ainda ecoa no presente - e quiçá no futuro - que o Blue Cheer virou a chave de 2018 para 2019 com um lançamento que já vai fazer estrago logo no primeiro mês do ano.

Line Up:
Dickie Peterson (baixo/vocal)
Leigh Stephens (guitarra)
Paul Whaley (bateria) 



Track List:
"Second Time Around"
"Doctor Please"
"Summertime Blues"


"The '67 demos" é algo que os arqueólogos do cenário Hard/Psych dos anos 60 & 70 estão esperando por décadas. Lançado oficialmente no dia 04 de janeiro de 2019 via Modern Harmonic, esse compilado de 3 demos da banda passou anos circulando na ilegalidade, mas finalmente foi redescoberto e ganhou um relançamento precioso.

Com uma prensagem em vinil azul, essa gravação finalmente saiu das mãos do mercado negro e mostra por que o som do Blue Cheer era muito mais Lóki que o LSD que inspirou o nome da banda. Inclusive, vale lembrar que o "Blue Cheer" foi também uma variado de ácido bastante famosa no verão amor (1967) e o responsável por nomear o grupo foi o engenheiro/químico clandestino do Grateful Dead, o guru Owsley Stanley.


É até engraçado ouvir essas gravações, agora numa qualidade muito mais respeitável, e pensar que isso aqui nasceu justamente durante o verão do amor. É um contraponto dos maiores, já que a sonoridade vai justamente na veia contrária de toda a onda Hippie que caracterizou o período.

São pouco mais de 20 minutos de som. Falando assim até parece que não vale ir atrás, mas vá na fé meu chapa, esses serão os melhores 20 minutos de janeiro de 2019. O estrago da cozinha rítmica e as guitarras irradiando distorção como a cauda de um cometa... Os 10 minutos de hardeira com "Doctor Please" já valeriam essa resenha.

Tão leve quanto um bochecho com cactus pela manhã, recomendo que vossos ouvidos aumentem o volume no máximo (que já é o suficiente).

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