Os devaneios sortidos do voador André Prando

O Rock Psicodélico é um termo que nos últimos anos vem sendo massificado só para que novos hypes sejam criados. É relativamente comum se deparar com grandes matérias de jornal, ressaltando a tal da "nova psicodelia brasileira". Tem gente que vai além e define essa estética como "neo psicodelia"

Essa bizarra necessidade de criar rótulos faz mais do que só atualizar nomenclaturas que visam apenas chamar atenção. Ela eleva conceitos sonoros empobrecidos por excessos e falta de criatividade, muitas das vezes enquanto fórmulas de fato originais passam batido só por que alguma bandinha hype comprou uma caralhada de reverbs e acha que virou o Tame Impala.

André Prando no Psicodália 2018 - Foto: Guilherme Espir

Na contramão disso tudo, André Prando cria e recria, gozando de uma liberdade que nenhum outro compositor ou grupo parece possuir nessa cena. E com um mercado saturado de bandas adeptas dessa Psicodelia inofensiva, que a curta, porém interessantíssima discografia do compositor capixaba, costuma puxar ouvintes desprevenidos pelo pé.

Em 2014, o sósia do Jerry Garcia lançou seu primeiro EP, Vão. A gravação que foi o estopim para catapultar sua música para fora do Espírito Santo, explora diversos climas, enquanto sua sabedoria versa sobre o mundo com influências líricas do escritor britânico William Blake.

Ilustração - Alex  Furtado

Logo no ano ano seguinte, em 2015, após um sólido ano de turnê - já com banda - no circuito underground local, nasce "Estranho Sutil", seu primeiro e elogiadíssimo disco de inéditas. Esse trabalho representou um passo imenso na carreira do músico. 

É notável como suas composições cresceram, a qualidade e a engenhosidade do instrumental chama atenção... É um trabalho forte e que mostra como seu groove lisérgico está confortável com o protagonismo dos maiores palcos do país.

Arte: Paulo Prot
Acompanhar tudo isso é praticamente um respiro de ar fresco. Prando é um artista de humor ácido, em suas letras a psicodelia é o plano de fundo para críticas inteligentes e trocadilhos que explanam um vasto repertório lírico, dono de uma leveza de fato poética.

E depois de quase 3 anos de intervalo - com o intérprete e sua bandaça sempre em movimento - o resultado dessas vivências comprimidas pelo espaço tempo teve o seu silêncio quebrado por "Voador", o derradeiro trabalho do visionário guru das texturas de Vitória.

Line Up:
André Prando (vocal/violão/guitarra/arranjo)
Jackson Pinheiro (baixo)
Henrique Paoli (bateria/guitarra/teclado/percussão programada/arranjo)
Jr Tostoi (guitarra/ambiência/vocal/guitarra slide)
Phillip Rios (órgão/guitarra/teclado)
Duda Brack (vocal)
Gabriel Ventura (guitarra)
Edu Szajnbrum (percussão/ambiência
Lucas Estrela (guitarra)
Francisco Xavier (sitar)
Bruno Castro (vocal)
Mário Wamser (guitarra/teclado/violão/vocal)
Jeremy Naud (acordeon)
Luiz Gabriel Lopes (vocal)
Federico Puppi (cello)


Arte: Caramuru Baumgartner

Track List:
"Ode à Nudez"
"Em Chamas no Chão (feat. Duda Brack)" - Duda Brack
"Concha (feat. Gabriel Ventura)" - Gabriel Ventura
"Catalepsia Projetiva"
"Eu Vi Num Transe (feat. Lucas Estrela)" - Lucas Estrela
"Salve Seu Broder"
"Fantasmas Talvez"
"Musa dos Cetáceos (feat. Mário Wamser)" - Mário Wamser
"Moro no Interior do Mundo"
"Ave Machinaria"
"Na Paz do Caos (feat. Luiz Gabriel Lopes)" - Luiz Gabriel Lopes
"O Mundo Com Tudo Que Há (feat. Puppi)" - Puppi


Como um eremita em busca respostas, engana-se quem enxerga André Prando como apenas mais um riponga maluco beleza. Em "Voador", o conceito de unidade sonora é testado de maneira brilhante pelo músico. Cada uma das 12 faixas entrega um clima único, mas de alguma forma pouco ortodoxa, o trabalho entrega um som muitifacetado que, mais do que senso estético, valoriza a liberdade que o artista consegue frente à arte.

Em "Ode a Nudez", Prando proclama essa liberdade. O primeiro sigle desse trabalho eleva o ouvinte e o faz questionar os rumos de um mundo que fica, dia após dia, cada vez mais careta e problematizador. O piano na entrada ficou o mais puro veneno.

Arte: Caramuru Baumgartner

Com "Em Chamas no Chão", com louvável participação de Duda Brack, Prando mostra que tem groove. O timbre da guitarra de Phillip Rios vem cheio de acidez enquanto o arranjo ascendente da faixa valoriza ainda mais a voz perturbado do mártir.

A produção desse disco é algo grandioso. O trabalho de Jr Tostoi e Henrique Paoli surge cheio de grandes arranjos e ambiências repletas de belas sacadas. O Wah-Wah que surge faiscante nos contornos de "Concha" - com participação de Gabriel Ventura - parece cantar enquanto o isolamento surge como o único remédio para os anseios de uma alma sem oxigênio frente a tanta falta de sensibilidade. Respira, não pira!

Arte: Caramuru Baumgartner

O uivar dos órgãos de Phillip Rios em "Catalepsia Projetiva" parece antever o desespero numa mente à ponto de enlouquecer. Nessa faixa o trabalho de Edu Szajnbrum começa a mostrar seu brilho. Sua contribuição com a percussão, utilizando um vasto repertório de instrumentos - do Berimbau até o caxixi e o ganzá - entregam um quê orgânico à roupagem do disco que é bastante interessante. Vale lembrar inclusive que o percussionista já trabalhou ao lado de nomes como Gilberto Gil e Marisa Monte, por exemplo, antes de emprestar seu ambicioso feeling climatizado a este disco. 

Com "Eu Vi Num Transe", segundo single do disco lançado no dia 23 de novembro de 2018, com distribuição pela Sony Music Brasil, André prevê o futuro, munido da composição de Santiago Emanuel, que equilibra o real e fictício de maneira inteligentíssima. A participação de Lucas Estrela nessa faixa é inestimável, o trabalho de guitarras ficou soberbo e a fusão do Afrobeat com as nossas brasilidades dá um gosto agridoce no groove psicodélico.

Faixa inspirada na biografia de Fela Kuti - Esta Vida Puta (Nyandala), do historiador e etnólogo cubano Carlos Moore, sobre a vida do embaixador do Afrobeat, preste atenção no timbre Funkeado dos teclados de Henrique Paoli e nas mudanças na dinâmica quando o sitar do Francisco Xavier entra na jogada. 


Na faixa seguinte Chico volta com o sitar para desempenhar um papel chave em "Salve Seu Broder". Com uma Ragga ritualística, o músico eleva as boas vibrações de André para que nenhum amigo seu fique desemparado. É aquele lance: "if you see the police, warn a brother".

Essa clara influência da música indiana perdura no disco. As percussões programadas de "Fantasmas Talvez" remetem bastante às tablas indianas e, assim, o disco se desenrola como a constelação que André e Mário Wamser tanto falam em "Musa dos Cetáceos".

André Prando no Psicodália 2018 - Foto: Guilherme Espir

É um disco riquíssimo, talvez o maior destaque da música independente brasileira em 2018. O som vai muito além dos clichês e entrega um universo genuíno, caleidoscopicamente pintada pelas artes de Caramuru Baumgartner.

É um trabalho de um compositor busca ir além de seus mais lúcidos devaneios para aumentar a percepção das pessoas e mostrar que nem todas as respostas estão na mão do "Deus do Wi-Fi" que o vocalista cita em "Ave Machinaria". Não é só por que eu "Moro no Interior do Mundo" que a minha perspectiva precisa ser limitada e pouco dotada de instrumentos de argumentação.


É importante entender e conseguir abraçar o caos para tirar algo positivo disso. Essa é a principal lição de André Prando. Ao exorcizar seus próprios demônios, o criador dessa odisseia mostra um poder cura grandioso, deixando claro sempre que nós não merecemos "menos do que o mundo com tudo que há".

Iririu é a palavra de ordem. E foi no meio de todas essas cores, energias e experimentação sonora que nós conseguimos trocar algumas palavras com o criador de todo esse universo. Pelo fim da Psicodelia Inofensiva, senhoras & senhores: André Prando.

1) Essa foi a primeira vez que você contou com uma produção tão cheia de possibilidades. Como que vocês chegarem no conceito do som do “Voador”? Vocês tinham esse objetivo de criar uma estética, de fato?


Eu sempre quis trabalhar um disco que explorasse diferentes timbres e instrumentos, soluções improváveis de arranjos, timbres mais experimentais pra diferentes universos, deixar as ideias voarem livremente, sem virar um samba do criolo doido. Sempre mantendo o foco da canção. 

A sonoridade do "Voador" foi descoberta durante o processo de produção e isso foi novo pra mim. A gente costuma querer indicar um disco de referência pra mix, referência de arranjo, referência de tudo, e no Voador não foi muito assim.

Fazer os arranjos junto com o Henrique Paoli foi um processo mais natural nosso do que de imitação ou busca de alguma referência. A gente já conhece a forma um do outro de trabalhar, já conhece o gosto um do outro, tamo sempre apresentando som, talz. Somos irmãos. Agente já imaginava as participações enquanto arranjava, então, a partir de relações pessoais nossas, a gente pode imaginar as somas no trabalho. Sem se limitar a isso, mas já norteou algumas ideias.

Apesar de ter mostrado algumas referências pro Tostoi, sinto que ele jogou a favor das próprias músicas o tempo todo. Sabíamos que queríamos experimentar sem limites, que as músicas eram estilo canção, que fosse groovado, que fosse rock. Isso foi o nosso elo com Tostoi, liberdade, experimentação. Ele tem uma bagagem musical muito foda e tá sempre antenado no moderno. Isso é foda. Cheguei com John Frusciante e Clube da Esquina na cabeça, fui vendo ele chegar com Jack White, Gorillaz, além de toda brasilidade que ele já comunga. Aí a gente fica a vonts né? rs

Uma coisa que eu sempre prezo muito é a narrativa do álbum. Como ele soa? O que a ordem das músicas sugere? No Voador, os diferentes universos de cada música contribui pra climas diferentes de uma jornada que é a escuta do disco todo. É uma viagem memo. Uma viagem maneira não pode ser uniforme, ela tem que te dar êxtase, reflexão, transe, paz, caos.

2) Trabalhar com mais recursos lhe deu mais chance para focar apenas no som? Como essa autonomia favoreceu a sua criatividade durante o processo de pré-produção e gravação desse trabalho?


Uma coisa não liberta a outra. Acho que uma coisa alimenta a outra. Saber que o disco teria diferentes elementos, que o Paoli é um multinstrumentista foda que arranja muito bem e que é bem conectado comigo, que o Tostoi tem equipamentos fodas, que ele é um dos maiores músicos do país... isso tudo nos fez trabalhar a favor da liberdade. 


Mas acredito muito no potencial de criatividade com poucos recursos! Os arranjos mesmo, nós criamos no homestudio do Paoli, que é super simples. E foi uma etapa fundamental que ditou muito o caminho das músicas. O quanto a gente está realmente conectado com o que a gente se propõe a fazer significa muito. O sentimento que a gente expressa em cada ideia, em cada erro, descoberta, em cada detalhe fica registrado pra sempre.

3) Como você enxerga a cena de Rock Psicodélico no Brasil atualmente? A impressão que eu tenho é que o conteúdo não parece ser algo relevante nesse contexto, algo que a sua discografia contradiz com louvor. Além disso, toda essa questão de “neopsicodelia” e a tal da “nova psicodelia brasileira” parecem afastar os ouvintes, por que no fim do dia os rótulos são muito maiores que o som, é praticamente uma psicodelia inofensiva...


O hype é um perigo né? Eu gosto de muita banda que eu acho que é dessa cena que vc se refere, Luiza Lian, Terno, Boogarins, Tagore, Joe Silhueta, é por aí? Gosto muito deles, são dos maiores pra mim! Mas tem muita coisa que eu não gosto também. Esses a gente não precisa citar nome né? Sou muito amante da canção, letra, reflexão, é minha onda.

Pra mim, permitir uma gota serena de psicodelia na minha criação, é permitir o infinito nela. É fugir do óbvio, é dar uma surpresa pro ouvinte, estimular as ideias, emocionar, tocar a alma. Nesse sentido, aceito a psicodelia como uma intenção e forma de inspiração pras construções.

Delay exagerado de graça, vozes que eu não consigo entender, desfarces, essas coisas não me tocam muito. Mas aí vai de cada um. Pra quem gosta é bom.

4) E como foi partir de um disco liricamente tão rico quanto o “Estranho Sutil”, pra elevar o patamar com o “Voador”? Parece ter sido um processo difícil.


Não enxergo como "elevar" o patamar, diria apenas que é "outro" patamar. Mas foi desafiador! Todo artista já deve ter passado pela situação de lançar um trabalho que considera algo grandioso e o melhor que tinha pra dar e pensar "Carái... Como que eu vou fazer melhor que isso?".

Lembro que quando lancei o estranho Sutil eu tinha esse medo. Mas depois a gente vai compreendendo melhor que tudo são recortes de diferentes momentos da vida e que, se expressando com sinceridade e trabalhando duro, a gente sempre pode dar nosso melhor.

São discos complemente diferentes, dialogam de alguma forma, mas tem trunfos diferentes. Tô muito realizado com o lançamento!

5) André, agradeço pela atenção. Pra fechar, queria saber como foi o processo de sentar com todo mundo que fez esse disco, por que pra mim fica claro como tudo está muito bem amarrado, mesmo com faixas que remetem climas diferentes entre si. Desde às artes do Caramuru até o clipe, percebe-se uma unidade muito massa apesar da grande riqueza e das diversas influências que permeiam o disco. Como que foi esse alinhamento de botar todo mundo na mesma página?


Infelizmente eu não consegui me reunir com todo mundo pessoalmente e ao mesmo tempo para a produção. Todos os envolvidos são amores meus e a gente se conhece (uns mais, outros menos). Então rolou um papo reto especial com cada um para compreensão do disco. 

Mostrei algumas prévias pra ilustrar as ideias e talz. Mas a unidade se deu pela clareza e sintonia com cada um. Diria que 90% foi gravado no Lab Tostoi, mas teve coisa gravada longe e enviada, teve coisa gravada em estúdio diferente, teve trocação de áudio de WhatsApp pra caramba hahahahah muita entrega. Muita vibração boa na causa.

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