A plenitude do Crosby, Stills & Nash

Existem certas bandas e seus respectivos discos que são completamente fora de padrão. A beleza é tanta que chamar de CD, disco ou LP chegar a ser uma tremenda ofensa. Alguns grupos simplesmente possuem uma química inexplicável.

Na maioria das vezes os membros não costumam se bicar e a discografia do grupo tende a ser um tanto quanto curta, aquém das possibilidades. Porém, mesmo quando a união rende poucos frutos, a genialidade e o brilhantismo sempre compensam... Essa breve descrição lembra alguém? Logo de cara penso no genialidade do Crosby, Stills & Nash.


Esses caras tem um aspecto dentro da cozinha que me marcou desde o primeiro segundo que fiquei exposto ao som do trio. Sinto uma paz impressionante quando escuto suas composições, é um negócio que de fato merecia ser estudado.

Os 3 exalam não só pura poesia e excelente harmonias, mas amor e muita sabedoria, mesmo que de uma maneira Junky - David Crosby) que o diga - e já que estamos no assunto, não é muito difícil adivinhar que hoje nós estaremos sob a tutela de uma pérola do grupo, dessa vez o clássico ''CSN'', o terceiro disco dos americanos, lançado em 1977.

Line Up:
Stephen Stills (guitarra/vocal/baixo/teclado/piano/percussão)
Gerald Johnson (baixo)
David Crosby (violão/vocal/guitarra)
Ray Barretto (percussão)
Mike Finnigan (órgão/teclado)
Joe Vitale (bateria/sintetizadores/flauta/teclado/vibrafone)
Jimmy Haslip (baixo)
Craig Doerge (piano/teclado/vocal)
George Perry (baixo)
Russ Kunkul (percussão/bateria)
Graham Nash (violão/vocal/guitarra/teclado/gaita)
Tim Drummond (baixo)



Track List:
''Shadow Captain''
''See The Changes''
''Carried Away''
''Fair Game''
''Anything At All''
''Cathedral''
''Dark Star''
''Just A Song Before I Go''
''Run From Tears''
''Cold Rain''
''In My Dreams''
''I Give You Give Blind''


Esse LP é o primeiro registro sem Neil Young (desde de sua entrada), mas o canadense que me desculpe, nem senti sua falta quando escutei isso aqui. Não me entendam mal, gosto bastante de Neil e a contribuição do cidadão para o grupo foi primordial - basta escutar o épico ''Déjà Vu'' e notar isso - mas aqui os ânimos estão renovados, é criatividade pura, afinal de contas foram sete anos nem material inédito, desde o "Déjà Vu", liberado em 70.

Eis aqui é um dos melhores registros que já escutei na vida, aliás, não só este, mas todos os LP's do CSN são fantásticos. Se fosse elaborar uma lista com os melhores discos da minha vida, seria forçado a colocar senão todos, pelo menos metade da obra do grupo. Poderosíssima união, que aqui usou de toda a renovação de seu hiato, para colocar mais um disco no padrão ''greatest hits'' no mercado.


Escute a excelência desde a primeira faixa (''Shadow Captain''). Toda musicalidade e destreza do trio... Instrumentalmente leve, porém absolutamente grandioso dentro do que se colocam a fazer. Reparem na levada Folk que só eles possuem... São dezenas de melodias belíssimas, um detalhe que mesmo aparentando simplicidade, ruma para o mais alto nível, principalmente na hora que eles cantam juntos.

Quando o trio solta a primeira palavra ficamos estupefatos com os vocais. São três vozes exuberantes, seja numa pegada mais tranquila (como ''See The Changes''), ou mais elaborada como na sobreposição de vozes em ''Carried Away''. O resultado arrebata ouvintes a quilômetros de distância.

Sinta as nuances. É um exercício de percepção... Perceba a beleza latina de ''Fair Game''. Observe como a dinâmica na voz de cada um parece anular o instrumental em alguns momentos. Crosby faz a harmonia com Nash, enquanto Stills faz aquela base rouca irresistível e adoça o feeling da levada em sua viola.


Aprecie o nobre sentimentalismo de ''Anything At All''. Tão simples com o vento soprando as folhas de um caderno aberto, dá pra sentir até uma brisa batendo no rosto. Seja na afinação perfeita de ''Cathedral'' ou na sinuosa - e uma das minhas preferidas - ''Dark Star''.

Que instrumental! Piano, baixo, percussão, tudo, absolutamente tudo enriquece ainda mais cada nota, e quando a voz entra na jogada, o devaneio beira a perfeição. Take após take, ''Just A Song Before I Go'', ''Run From Tears'', ''In My Dreams''... É um privilégio escutar esse som, rola até algo mais Rock 'N' Roll na despedida, com ''I Give You Give Blind''. Além de tudo o CSN ainda tem groove!

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Na despedida do The Allman Brothers Band - 40th Anniversary Show

O ano de 2015 foi bem difícil para os fãs de Allman Brothers, já que, como foi anunciado, a banda decretou seu fim. Mas mesmo sabendo que sua música jamais morrerá, concordo que este é um ponto que acaba soando romântico demais para uma ferida ainda em aberto. Para pessoas como eu - que nunca tiveram a chance de ver o grupo ao vivo - é ainda mais doloroso falar sobre o assunto.

Mas para ser bem sincero, não fiquei tão triste, afinal de contas, com a saída de Warren e Derek, notamos que tanto a roda do Gov't Mule, quanto a roda da Tedeschi Trucks Band seguirá girando, isso sem contar suas respectivas carreiras solo é claro. 


Fora que esperar por um novo disco do grupo estava tão fácil quanto pegar uma carona num ônibus vazio, quase impossível. E convenhamos, os americanos fizeram muito pela música e agora os registros comemorativos começaram a chegar para exaltar ainda mais a história.

Tudo isso é apenas uma desculpa para poder comprar  mais um DVD da banda."40th Anniversary Show" é uma festividade e tanto, gravado e filmado no icônico Beacon Theatre, durante o mês de março de 2009.

Line Up:
Gregg Allman (vocal/piano/órgão)
Jaimoe (bateria)
Warren Haynes (vocal/guitarra)
Marc Quinones (percussão/vocal)
Derek Trucks (vocal/guitarra)
Butch Trucks (Bateria)
Oteil Burbridge (baixo)



Track List Set 1:
''Don't Want You No More''
''It's Not My Cross To Bear''
''Black Hearted Woman''
''Trouble No More''
''Every Hungry Woman''
''Dreams''
''Whipping Post''


Track List Set 2:
''Revival''
''Don't Keep Me Wondering''
''Midnight Rider''
''In Memory Of Elizabeth Reed/Drum Solo & Bass Solo W/Derek''
''Hoochie Coochie Man''
''Please Call Home''
''Leave My Blues At Home''
''Statesboro Blues'' - Bis



Esse DVD saiu dia 29 de abril de 2015. Mas o ponto a ser fortalecido é justamente o legado. Ver o Allman Brothers como uma banda já finalizada, mas que ainda será apreciada por muitos e muitos anos, mesmo após seu fim, já que a música fruto dessa união é absolutamente atemporal. 

Dentro de um dos teatros mais bonitos do planeta e com um excelente público, o grupo tratou de prestar contas frente a tantas relembranças, revisitando clássicos e temas mais recentes, tudo com uma apresentação de cair o queixo, com 2 horas e meia de Southern, dividido em 2 sets.


Esse DVD é mais uma edição que não vai sair nacional, mas que está chegando aqui com um preço que, para os padrões dos produtos importados, está bem convidativo. Arrematei meu exemplar por 60 mangos e valeu cada centavo.

Um registro de finalização simples e que mesmo sem ser duplo, ou até mesmo recheado de bônus, vem recheado de música, e aqui temos uma da melhor qualidade. Destaque especial para o baixo do excelente Oteil Burbridge e para a dupla Warren-Trucks... O timbre do Dereck é um presente para os ouvidos.

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Beth Hart & Joe Bonamassa: torrando em Amsterdam

O tempo passa mas os bons costumes sempre prevalecem como via de regra. Não importa quantos anos corram pelos calendários, um bom e velho disco ao vivo simplesmente representa outro nível de musicalidade. Eleva a aura sonora para um grau que estúdio nenhum consegue captar.


E num mundo onde a sua produção vem diminuindo cada vez mais, é bom saber que ainda existem pessoas que respeitem os mandamentos clássicos e compreendam a força e alcance dos mesmos. Joe Bonamassa e Beth Hart que o digam, o disco ao vivo da dupla mostra a essência do conceito de troca de energia durante uma performance. Um dos grandes discos de 2014 sem dúvida alguma, "Live In Amsterdam", lançado no dia 24 de março, foi o melhor live que escutei num longo tempo.


Line Up:
Carlos Perez Alfonso (trombone/percussão)
Joe Bonamassa (guitarra/vocal)
Blondie Chaplin (guitarra/vocal)
Ron Dziubla (percussão/saxofone)
Anton Fig (bateria)
Beth Hart (vocal/piano)
Carmine Rojas (baixo)
Arlan Schierbaum (teclado)
Lee Thornburg (trompete)



Track List CD1:
''Amsterdam, Amsterdam''
''Them There Eyes''
''Sinner's Prayer''
''Can't Let Go''
''For My Friends''
''Close To My Fire''
''Rhymes''
''Something's Got A Hold On Me''
''Your Heart Is As Black As Night''
''Chocolate Jesus''
''Baddest Blues''
''Someday After Awhile (You'll Be Sorry)''


Track List CD2:
''Well, Well''
''If I Tell You I Love You''
''See Saw''
''Strange Fruit''
''Miss Lady''
''I Love You More Than You'll Ever Know''
''Nutbush City Limits''
''I'd Rather Go Blind''
''Antwerp Jam''


Desde o primeiro CD que a dupla gerou de forma conjunta-colaborativa - ''Don't Explain", lançado em 2009 - que venho aguardando por esse trabalho. Foi complicado ficar na lista de espera, mas sua demora foi justificável. Com apenas um disco na bagagem seria difícil fazer render caldo para um live, quanto to mais um DVD, como foi feito com esse lançamento em especial.

Só que após o segundo disco dessa reunião, o excelente "Seesaw", lançado em 2013... Bom, aí o negócio começou a esquentar. Vale ressaltar que atualmente eles estão no terceiro trabalho de estúdio, depois que o também competente, "Black Coffee", veio ao mundo em agosto de 2018.


Na época desse show, Beth & Joe estavam na turnê do "Seesaw" e que me desculpe o guitarrista, mas se no primeiro disco o diferencial foi a voz da senhorita Hart, a partir de ''Seesaw'' ficou nítido que o guitar hero ficou em segundo plano.

Não tentem ler isso como uma crítica, eis aqui um claro, direto e óbvio elogio a voz repleta de sentimento de Beth, que justiça seja feita, merecia e muito esse reconhecimento.


Aqui ela inclusive trata de comprovar o motivo. Ao explorar muito bem a dinâmica que a escola de Big Bands trouxe para a roupagem desse segundo disco, a força de suas interpretações é tamanha que ela tomou conta do repertório e se transformou no termômetro da jam.

Dessa maneira, foi possível investir num repertório mais ousado que o anterior, apostando num groove classudo e swingadão, com um time de metais que apenas engrandece a atmosfera do Blues, Soul, Gospel e R&B. 

Nem vou falar muito por que esse aí vocês precisam ouvir. ''I'd Rather Go Blind'' é a cereja do bolo. Depois da Etta James, só a Beth segura o rojão que é cantar esse clássico. E a versão de ''I Love You More Than You'll Ever Know''? O Al Kooper deve ter ficado orgulhoso. Muito sentimento. Segura esse duplex.

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Dia 22 de março tem Necro no SESC Belenzinho

A maior luta do underground é para conseguir uma voz. A questão vai muito além da cena. Agora imagina morar no Brasil, um país que prioriza a cultura com o mesmo empenho que combate a corrupção... Fica difícil enxergar dias melhores.

Mas ainda bem que existe o SESC. O Serviço Social do Comércio é um dos maiores responsáveis por dar voz à nossa música. Duvida? Basta salientar que os artistas que sobem ao palco numa das dezenas de unidades da instituição, não só recebem cachê com valor fechado - desconsiderando a venda de ingressos - como ainda desfrutam de uma estrutura excelente.

Foto: Leando Wissinievski Fotografia

E para mostrar que esse é um trabalho contínuo, a organização já produziu diversos espetáculos em São Paulo, durante esse começo de 2019. Com shows de nomes como Hermeto Pascoal, Airto Moreira, Azymuth, Negro Leo e Amaro Freitas, o SESC mostra que não existe outro caminho: é necessário manter o som reverberando.

Arte: Cristiano Suarez

Foi com isso em mente que a unidade do SESC Belenzinho confirmou a presença da Necro no mês de março. Power-trio alagoano, ativo na cena desde 2009, o grupo formado por Pedro Salvador (guitarra/voz), Lillian Lessa (baixo/voz) e Thiago Alef (bateria), já fechou a data do rolê.

No dia 22 de março um dos teatros mais charmosas do SESC vai receber um expoente do cenário Progressivo/Psicodélico contemporâneo. Com músicos de raro talento e um repertório que conta com discos como "The Queen Of Death" (2012), "Necro" (2014) e "Adiante" (2016), o show do trio é riquíssimo - apesar do enxuto formato - pesado e de grande sensibilidade.

Recomenda-se o habitual: escutar o disco no volume máximo, já no caminho para buscar o ingresso.

Serviço:
O que: Necro no SESC Belenzinho
Quando: 22/03/2019
Ingressos: página do evento
Endereço: R. Padre Adelino, 1000
Local: Teatro
Horário: 21:00

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Rod Stewart - Rod: A Autobiografia

Infelizmente ainda não tive a chance de conhecer Rod Stewart pessoalmente, mas pelo que absorvi durante a leitura de sua autobiografia, sinto que o conheço profundamente. Acredito que se nos cruzarmos em algum boteco, eventualmente, vamos até tomar uma. O bom humor do britânico é digno de nota.


Intitulada "Rod", a autobiografia do cantor saiu em 2013 nos EUA e chegou ao Brasil Setembro de 2014, dessa vez pela Globo livros - selo que está de olho neste ''novo mercado'' de literatura do groove.


Se você gosta de Rod Stewart, Jeff Beck, Faces e de boa música de maneira geral, fique o senhor sabendo que este livro é completamente indispensável em sua coleção. A escrita é realmente muito leve e o resultado é um daqueles relatos que você começa num dia e termina no outro. Fala mansa, bom humor, verdades e uma boa xícara de chá, essa é a base do papo com Rod.

Fruto de um nascimento conturbado - em virtude do final da segunda Guerra Mundial - o vocalista veio à Terra no dia 10 de janeiro de 1945, como o trabalho final de seus pais, a obra de arte que completou a grande família de descendentes de escoceses. O clã, como o próprio Stewart gosta de pontuar no livro.


Jogador de futebol, falso coveiro, Beatnik, mod... Rod fez de tudo e aqui deixa claro como, por quê e ainda enumera os fatos de maneira surpreendente. Narrando-relembrando a correria de um jovem no início da carreira, o amigo do Elton John revive os detalhes de todos os grupos dos quais fez parte. 

Histórias sobre o ''Jimmy Powell And The Five Dimensions'', ''The Hoochie Coochie Men'' - e seu mentor Long John Baldry - ''The Steampacket'', ''Soul Angents'', ''Shotgun Express'', ''The Jeff Beck Group'', ''Faces''... É um prato cheio e condensa todas as fases do volátil compositor. 


Repleto de citações sempre engraçadíssimas de Ronnie Wood - seu grande amigo desde os tempos do Faces - histórias sobre sua "competição de hits" com o pianista Elton John e uma verdadeira aula sobre paisagismo e decoração. Assim como seu topete, essa narrativa é deveras elegante.

Mais do que confessar seus excessos, Rod contempla o leitor com uma cobertura completa dos discos e seus respectivos hits que foram a trilha sonora de várias gerações. Demonstrando enorme lucidez, sua voz desafia não só o tempo, mas também a contagem de vendas de discos. Saúdem o Sam Cooke Beatnik.

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10 discos ao vivo completamente subestimados pela crítica - Parte 2

Em 2018 o Macrocefalia Musical elencou 10 discos ao vivo que, apesar de serem muito bons, jamais obtiveram o reconhecimento merecido. Esse pauta gerou tanta conversa nos piores botecos do centro de São Paulo que não teve jeito, precisou virar uma série.

Com o objetivo de sair do óbvio e oferecer uma nova perspectiva - muito mais do que apenas montar uma lista - o foco é se aproveitar do formato para destacar vinis que não podem ficar ganhando poeira nos sebos. Muito pelo contrário. 

1) Traffic - "On The Road"



Segundo disco ao vivo da carreira do Traffic, "On The Road" foi lançado em 1973. Gravado na Alemanha, esse show mostra o auge das influências Jazzísticas no som de um dos grupos mais originais do cenário britânico, bem ali na fase do "Shoot Out at the Fantasy Factory".

Destaco esse disco no lugar do também muito bom "Welcome To The Canteen" - primeiro ao vivo da carreira do grupo - lançado em 1971, em função do repertório ser ainda mais Fusion-Progressivo e por que nesse LP tivemos uma overdose de teclados, com o Berry Beckett somando no groove.


2) Sonny Rollins - "The Cutting Edge"



No Jazz era praticamente corriqueiro gravar um disco ao vivo. Em sua carreira Sonny fez isso 10 vezes, além de ter lançado a série "Road Shows" em 2016 - que já conta com 4 volumes - totalizando 14 gravações. Tudo com aquele timbre característico que você sente da cozinha.

Mas entre todos esse registros, o meu favorito sempre será o sétimo deles, o brilhante "The Cutting Edge", lançado em 1974, via Milestone. O repertório mostra um artista desencanado, gravando de tudo, desde Spirituals, como "Swing Low, Sweet Chariot", até standards, sempre transformando tudo no mais belo e quente Jazz. "A House Is Not a Home" vem groovando com gaita de fole.


3) Ginger Baker's Air Force - "Ginger Baker's Air Force"



Depois que o Cream acabou, o Ginger Baker foi encher o saco do Clapton e acabou no Blind Faith. Mesmo depois de lançar um clássico em 69, o supergrupo se desmantelou e o baterista já tratou de arquitetar a primeira incarnação de seu primeiro projeto solo, o interessantíssimo Ginger Baker's Air Force.

Contando com nomes que estavam tocando com ele no Blind Faith, como o Steve Winwood e o Ric Grech, o baterista montou um combo de 10 peças e tocou ao vivo no Royal Albert Hall, com ingressos esgotados, para mostrar sua nova cozinha.


Com um setlist hipnótico, uma genuína mistura de Jazz, Rock e música africana, além de uma bandaça que ainda incluía o Graham Bond no saxofone e o Chris Wood na flauta e também no sax, esse show mostra o tamanho da musicalidade do Ginger Baker.

Baterista de estilo único, é notável observar como o Jazz sempre será a espinha dorsal do seu groove... Numa estrutura de Big Band, o ruivo endiabrado fez miséria e criou uma estética exuberante. É uma pena que o Ginger Baker's Air Force tenha sido um fracasso... Esses caras, definitivamente, mereciam mais.


4) Bobbi Humphrey - "Bobbi Humphrey Live: Cookin' With Blue Note At Montreux"



A Bobbi Humphrey é uma mulher que merece respeito. Primeira musicista da história a assinar com o tradicionalíssimo Blue Note (em 71), a flautista e cantora texana fazia uma mistura de Fusion, Jazz-Funk e Soul Jazz que não era brinquedo não.

Com muita suavidade e bom gosto, suas melodias caminhavam pela flauta com grande liberdade e rara beleza. Ao vivo, Bobbi só lançou um LP, mas foi gravado em Montreux e condensa o repertório de clássicos absolutos como "Flute In" (71), "Dig This!" (72) e "Blacks And Blues" (73). Uma palavra? Irresistível. Quero ver você não chorar com a versão de "Ain't No Sunshine". É sublime.


5) Al Kooper & Mike Bloomfield - "The Live Adventures Of Mike Bloomfield And Al Kooper"



A contribuição do Mike Bloomfield e do Al Kooper para o Blues é inestimável. Músicos de raro tato, ambos sempre foram protagonistas ou no mínimo chamaram atenção por onde passaram. Mike fez barulho na época da Paul Butterfield Blues Band, mas também fez chover ao lado do Buddy Miles na Electric Flag, além de ter participado de inúmeras gravações de estúdio como músico de sessão, fora sua carreira solo.

Al Kooper manteve o mesmo padrão de excelência. Dono de uma carreira irretocável, o pianista deu outra cara pra banda do Dylan, foi o idealizador do Blood, Sweat & Tears, fez nome como produtor e ainda arranjou clássicos ao lado de Shuggie Otis e Stephen Stills com as famosas "Kooper Session" e "Super Session", respectivamente.

São 2 currículos soberbos e que ao som de "The Live Adventures Of Mike Bloomfield And Al Kooper" - lançado em 1968 - evidenciam o repertório de duas autoridades do Blues-Rock. Com as caixas malhando o palco do Fillmore West, essa apresentação ainda conta com a participação de um jovem Carlos Santana, ainda em começo de carreira, fazendo as guitarras em "Sonny Boy Williamson".



6) Funkadelic - "Live: Meadowbrook, Rochester, Michigan - 12th September 1971"



"Live: Meadowbrook, Rochester, Michigan - 12th September 1971" é um tesouro em forma de disco do Funkadelic. Lançado em 1996, essa apresentação é o ÚNICO REGISTRO ao vivo da banda no começo dos anos 70.

O dono da Westbound Records (gravadora do grupo na época), Armen Boladian, decidiu registrar tudo sem a banda saber, pensando num futuro lançamento. O problema é que o figurão desistiu da ideia e as masters desse rolê ficaram mofando até 1996 nas mãos do engenheiro Ed Wolfram, até serem reeditadas ano passado.


Com um repertório cabuloso - pré "Maggot Brain" - o Funk Psicodélico dos caras estava atingindo níveis inflamáveis. O Eddie Hazel era um músico diferente. O som Funkeado que ele tirava de uma Les Paul cheia de ecos era ridículo. Ele o Billy Bass Nelson no baixo faziam um dupla e tanto...

Dá pra sentir que eles ainda estavam experimentando. Que pena que o Hazel saiu do grupo um mês depois desse espetáculo.


7) Donny Hathaway - "Live"



O Donny Hathaway tinha tudo pra ser um dos maiores nomes da música negra. Cantor, tecladista, compositor e arranjador, o faz tudo natural de Chicago teve de lidar com uma depressão que acabou com a sua carreira.

Justamente no auge de seu prematuro groove (os '70), foi descoberto que o músico sofria de esquizofrenia. Como se não bastasse, o cantor não seguia o tratamento e sua esposa, Eulaulah Hathaway, viveu maus bocados tentando colocar o marido na linha.


Depois de lançar discos como "Everything Is Everything" o groove do jovem foi parar nos principais palcos dos Estados Unidos, mas os problemas fizeram o músico passar por diversas internações, até que ele se suicidou em 1979, aos 33 anos de idade, depois de se jogar do décimo quinto andar do Hotel Essex House.

Todo a urgência e paixão de Donny podem ser sentidos no clássico "Live", lançado em 1972. Primeiro e único disco ao vivo do cantor em vida, esse LP foi gravado em 2 shows. O lado A apresenta as faixas registradas no The Troubadour, em Hollywood, enquanto o lado B conta com os takes da apresentação no The Bitter End, em Manhattan.

Donny foi um dos poucos cantores que cantavam Marvin Gaye. Sua versão de "What's Going On" é repleta de luz própria e até quando ele faz um cover de Carole King a plateia seguia sob seu encanto. A versão de "You've Got a Friend" é cremona nas roupagens, mas é com "The Ghetto Boy" que Donny se consagra num lindíssimo solo de teclas. O baixo do Willie Weeks em "Voices Inside (Everything Is Everything)" é um ponto alto dessa aurora.


8) Edgar Winter & Johnny Winter - "Together: Edgar Winter And Johnny Winter Live"



Nos anos 70 e o Johnny Winter e seu irmão, Edgar Winter, lançaram dezenas de pérolas. A única diferença é que um fez isso sem estar chapado o tempo todo e outro não. Edgar se manteve prolífico nos anos 70, tanto em carreira solo, quanto em esforços com seu grupo, o clássico White Trash. 

Multi instrumentista de mão cheia, Edgar até fez menos sucesso que o irmão, Johnny, algo contestável em função de seu enorme talento, mas é inegável que a dupla de albinos mais endiabrados de todos os tempos deixou marcas indeléveis na história do groove.


Só que existe um disco em especial que ninguém menciona quando falam da dupla. Lançado em julho de 1976, "Together: Edgar Winter and Johnny Winter Live" é praticamente um disco familiar, pois além de reunir Rick Derringer & cia, ainda bota os irmãos no mesmo palco pra malhar o Blues.

Esse trabalho também é reconhecido e importante por trazer Johny de volta. Viciado em heroína até o osso, vale registrar que essa é a única gravação do músico entre "Saints & Sinners" (74) e o "Nothin' But The Blues" (77). Foi importante pra botar o texano nos trilhos novamente. A versão de "Harlem Shuffle" é uma palhaçada e seu timbre, um absoluto retrato do quão safada uma guitarra pode soar.



9) Billy Paul - "Live in Europe"



O Billy Paul foi um Soul man diferente. Dono de uma estética completamente própria, Billy alcançou grande reconhecimento na década de 70, tudo graças ao seu inconfundível Soul. Com influencias psicodélicas e arranjos de cordas estonteantes, Billy gravou clássicos como "Going East" (71),  "360 Degrees Of Billy Paul" (72), "War Of The Gods" (73) e o excelente ao vivo lançado em 1974, intitulado Live in Europe".

Esse disco é primoroso por que além de compilar toda a fase citada anteriormente, chega com o mesmo approach climático-futurista - também ao vivo - mostrando como toda aquele universo poderia ser explorado instrumentalmente. 

Ele teve muita coragem de ter gravado um Soul na linha do "War Of The Gods", mas tocar ao vivo... Lembro da minha reação quando estava lendo o set list. Parece até que é bom demais pra ser verdade.


10) Al Jarreau - "Look To The Rainbow: Live In Europe"



Acho que nenhum cantor conseguiu manipular a voz da mesma maneira que o Al Jarreau. Dono de um controle sobre natural frente a suas cordas vocais, o cantor americano emulava qualquer instrumento e podia entoar praticamente qualquer coisa. 

Apesar de contar "apenas" com 2 LP's de estúdio antes de iniciar esse projeto - "We Got By (75) e "Glow" (76) - Al foi pra europa em 76 e estreou nos palcos da zona do euro com shows em Berlin e Montreux.

Lançado em 1977, "Look to the Rainbow" eterniza essa fase e captura uma apresentação mais orientada ao Jazz, mas ainda assim repleta de groove, R&b e Soul. Ainda está pra nascer um ser humano que faça uma versão cantada de "Take Five" melhor do que essa.

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O Dead & Company faz muito bem para o John Mayer

Em 2011 o John Mayer se viu imerso na discografia do Grateful Dead. Até meados de 2015, segundo o próprio guitarrista, o grupo de São Francisco era só o que ele se permitia escutar. Em fevereiro do mesmo ano, Mayer foi convidado no The Late Show e aproveitou o ensejo para chamar o Bob Weir para uma gravação de estúdio.

O resultado foi bem melhor do que qualquer single que poderia ter saído. Bob e John ficaram amigos e enquanto Weir planejava a turnê de 50 anos (Fare Thee Well) junto com o baterista Mickey Hart, o baixista Phil Lesh e o também baterista Bill Kreutzmann, o natural de Connecticut ficou em casa tirando todos os sons do longo catálogo de uma das primeiras e maiores jam bands de todos os tempos.


O resultado disso? Ainda em 2015 - só que dessa vez durante o mês de agosto - Kreutzmann, Weir e Hart - criaram o Dead & Company. Para os teclados chamaram Jeff Chimenti e o Oteil Burbridge assumiu o baixo pra fechar a conta.

É válido ressaltar que o Phil Lesh (baixo) declinou o convite de se juntar ao grupo, devido aos seus projetos paralelos. Inicialmente, quem assumiu o baixo foi o Mike Gordon (Phish), mas ele também pediu pra sair quando se viu sem tempo para dedicar ao groove psicodélico.


Pois bem, a primeira vez que o Dead & Company tocou foi num showzaço no dia 31 de outubro de 2015, no Madison Square Garden e logo depois que saíram as primeiras resenhas, a banda já anunciou uma pequena turnê.

Os shows foram todos extremamente elogiados. John Mayer estava vivendo uma de suas melhores fases e como o projeto conta com músicos de idades completamente díspares, muito se especulou sobre a duração do projeto e, principalmente, gravações de estúdio.

Mas o que se viu foram mais shows. Em 2016 o grupo apareceu no line up do Bonaroo Music Festival, anunciou uma Summer Trip e logo depois foi ao The Tonight Show com  Jimmy Fallon para promover a série de eventos.


Só que o mais interessante disso tudo é o John Mayer. Um músico de raro talento e grande capacidade técnica, o guitarrista já tocou ao lado de nomes como Eric Clapton e B.B. King. O grande "problema" é que mesmo sendo um indiscutível sucesso, John nunca gravou um disco que justificasse tanto alarde.

Completamente imerso no mainstream desde que explodiu para o grande público, ainda no começo dos anos 2000, o branquelo foi pra uma veia Pop, apostando em platinadas baladinhas ao violão e até em lances mais sulistas, misturando Country e até mesmo Bluegrass em tempos recentes.


Os discos vendem que nem água, mas ainda assim é um trabalho muito aquém de seu repertório. E a maior prova de como até ele percebeu a grandiosidade do Dead & Company está em seu comprometimento com o futuro.

Em 2016 ele mesmo afirmou numa entrevista que conseguia enxergar o Dead & Company tocando por muitos anos. Em 2017 e 2018, por exemplo, a banda não parou e enquanto a carreira de John rendia esforços criativos numa linha mais trovadoresca, como o "The Search For Everything", ao vivo, ao lado de Bob Weir & cia, ele levava as plateias ao céus.


Mas o único problema desse projeto é que desde 2015 o grupo só promete, mas nunca adentra o estúdio. Se bem que os shows de todas as turnês que foram realizadas até agora estão saindo pelo selo do Grateful Dead (quase sempre em formato digital), com a mesma perícia que caracterizou o incalculável número de gravações ao vivo que eles já liberaram.

Com isso em mente, depois de digerir todo o conteúdo - que vale ressaltar, está 100% disponível no Spotify - o Macrocefalia Musical preparou uma listagem com a relação de lançamentos.


Lista de shows:
"Madison Square Garden" - Nova York
"Madison Square Garden" - Nova York
"Wells Fargo Center" - Philadelphia
"Capital One Arena" - Washington DC
"XL Center" - Hartford
"Little Caesars Arena - Detroit
"Nationwide Arena" - Columbus
"Spectrum Center" - Charlotte
"American Airlines Center" - Dallas
"Frank Erwin Center" - Texas
"Playing In The Sand" - Riviera Maya
"Playing In The Sand" - Riviera Maya
"Playing In The Sand" - Riviera Maya


Com um total de 13 shows disponíveis e uma média de 3 horas por evento, quem gosta de sacar aquela jam infinita vai ter cerca de 40 horas de música para apreciar. Com Bill, Bob e Hart ainda em forma, o grande tempero desse som é a guitarra do John Mayer, o virtuose baixo do Oteil e as teclas ácidas de Jeff Chimenti. 

O Dead & Company é muito mais do que um projeto paralelo e a cósmica musicalidade desse som mostra a força da mística do Grateful Dead. O poder de cura desse repertório é incalculável! Aperte play e mergulhe na história. O cara tira som, isso é muito raro hoje em dia... Ele bem que podia voltar a gravar com o John Mayer Trio também.

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Rollins Plays For Bird: um tributo de Sonny para Charlie Parker

É engraçado como o mundo sempre será povoado por questionadores de mitos. Uma vez tive a oportunidade de ver uma entrevista muito interessante com o saxofonista Sonny Rollins. Nela, o repórter teve a audácia de perguntar sobre os dotes técnicos do endiabrado Charlie Parker. 

Sonny sacou a acidez das palavras e muito antes do cara terminar de falar, o próprio já começou a responder, como num improviso. ''Quando vi Charlie Parker, sabia que estava presenciando um contato com algo superior''. 



Foi bonito ver a grandeza com que Sonny falava sobre o amigo. Apesar de seu triste fim, é reconfortante saber que seu DNA sonora já era parte da história quando ainda estava entre nós. Ouvir Charlie Parker é um desafio aos ouvidos, seu feeling é desconcertante e as frases, uma síncope sofisticadamente incontrolável.

Infelizmente, Bird nos deixou no dia 12 de março de 1955, um momento que antecedeu passagens incomensuráveis para o Jazz. É aquela história: ''se ele tivesse ficado só mais um pouquinho...''.

A partícula ''se'' é um veneno em pensamentos como este, mas é fato, se o maestro tivesse ficado ''só mais um pouquinho'', teríamos no mínimo outra mão cheia de clássicos e talvez até colaborações com o próprio Sonny, cidadão que estava com tudo, justamente quando Parker estava transcendendo de mãos vazias.



O ano de 1956 foi um dos melhores para o mundo da música e o motivo foi Sonny Rollins. Foi neste ano, quando o globo rotativo ainda se recuperava da perda de Charlie, que uma conexão celestial entre as forças da natureza e o cordão umbilical do Jazz foi traçada, tendo Theodore Walter Rollins como meio intermediário.

Em 12 meses, Sonny foi responsável pela gravação de 6 discos, sendo que dois deles se transformaram em verdadeiros standards do Jazz, falo sobre a épica dobradinha entre ''Tenor Madness'' e ''Saxophone Colossus''. Reza a lenda que neste ano Sonny falou pouquíssimo, estima-se que o músico disse 10 palavras e que 7 delas foram saxofone!


O interessante é que dentro dessa gravações, um deles em particular nunca é cittada quando a crítica passa um pente fino pela vida & obra de Sonny. 

Listagem completa dos lançamentos de 1956:
"Sonny Rollins Plus 4" - março
"Tenor Madness" - maio
"Saxophone Colossus" - junho
"Rollins Plays For Bird" - outubro
"Tour de Force" - dezembro
"Sonny Boy" - outubro/dezembro


O elo entre Rollins & Parker, ''Rollins Plays For Bird'', foi a forma que Sonny e seu quarteto encontraram para agradecer Charlie, não só pelo Jazz. Gravado cerca de um ano após a trágica morte de um dos músicos mais autênticos de todos os tempos, esse disco mostra como  influencia de Bird é um sopro perpétuo de Hard Bop frente a história do Jazz. 

Line Up:
Sonny Rollins (saxofone)
Kenny Dorham (trompete)
Wade Legge (piano)
George Morrow (baixo)
Max Roach (bateria)



Track List:
''Bird Medley; I Remember You/My Melancholy Baby/Old Folks/The Can't Take That Away From Me/Just Friends/My Little Suede Shoes/Star Eyes''
''Kids Know''
''I've Grown Accustomed To Her Face''
''The House I Live In''


E mesmo que esse lançamento tenha recebido resenhas das mais variadas opiniões, hoje, trata-se de um disco muito interessante, pois Sonny, como um dos maiores expoentes de sua geração, possuía uma técnica singular, mas deixou a sua própria abordagem de lado pra prestar tributo ao Parker.


O interessante com isso é perceber a parte técnica do som de Charlie. As harmonias, as modulações... Sonny era um músico muito respeitado nos meandros do Jazz. Quer um exemplo? O John Coltrane gostava tanto do som do tenor do Sonny que fez até uma música em sua homenagem - "Like Sonny" quando gravou o seu sexto disco de estúdio, o excelente "Coltrane Jazz", lançado em 1961.


A maior dificuldade dessa gravação deve ter sido definir o repertório, pois Charlie já tinha definido certos standards quando se foi. A primeira fase compila isso ao condensar 6 faixas do mestre numa improvisação que supera os 26 minutos de duração.

Temas como "Kids Know", por exemplo, são faixas que poucas pessoas relembram. Sonny de certa maneira optou por mostrar um lado mais minucioso do trabalho de Charlie. Ao selecionar faixas como "I've Grown Accustomed To Her Face" e "The House I Live In" - presente apenas na versão da RVG Prestige - o saxofonista mostra grande sensibilidade e entrega um disco que, apensar de ter uma proposta bem clara, desafia os ouvintes por não entregar tudo de mão beijada e propor um track list no mínimo surpreendente.

O Sonny Rollins estava de fato muito confiante pra se meter num projeto desse porte. Coisa finíssima. A versatilidade é nítida.

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O Circles Around The Sun está pra jogo novamente

O que começou apenas como um projeto de trilha sonora para os intervalos dos shows da turnê de 50 anos do Grateful Dead, virou coisa séria, se transformou em banda. Quem iria imaginar que a ideia do diretor de vídeo, Justin Kreutzmann e do guitarrista Neal Casal Neal Casal iria deixar de ser apenas um projeto?


Demorou quase 4 anos, é bem verdade, mas o Circles Around The Sun voltou aos estúdios em 2018. Com o seu segundo lançamento, o pra variar muito bom "Let It Wander", lançado dia 17 de agosto de 2018 (pela Rhino), o grupo se firma como uma das bandas mais interessantes do cenário Psicodélico. Os boogie's da rapazeada voltaram e dessa vez o Rock 'N' Roll veio puxado no Funk.

Line Up:
Neal Casal (guitarra)
Dan Horne (baixo)
Adam MacDougall (teclados)
Mark Levy (bateria)  



Track List:
"On My Mind"
"One For Chuck"
"Immovable Object"
"Helicarnassus"
"Tacoma Narrows"
"Electric Chair (Don't Sit There)"
"Ticket To Helix NGC 7293"


Chega a ser um desrespeito chamar o Circles Around The Sun de projeto. Nós resenhamos o primeiro trabalho da banda, o excelente "Interludes For The Dead", mas muita coisa mudou desde então, por isso vamos recapitular o groove. 

O Circles Around The Sun nasceu a partir de uma ideia que o filho do Bill Kreutzmann deu para o Neal Casal, que na época era guitarrista do Chris Robinson Brotherhood. A ideia surgiu, pois os shows da Fare Thee Well - a turnê de 50 anos do Dead - eram demasiadamente longos.


O "problema" disso, é que como a banda faria pausas durante o espetáculo, o público não teria nada pra ouvir, tampouco ver. Foi por isso que Justin pensou em desenvolver projeções nos intervalos e é aí que o Neal Casal entra na história, pra rechear visões com texturas instrumentais influenciadas pelo próprio Dead.

Gosto de salientar essa questão, pois nesse primeiro disco o Phil Lesh até gravou algumas linhas de baixo, algo que explica por que a cozinha sempre remete àquelas guitarras chorosas do Jerry Garcia, algo que definitivamente sumiu nesse disco - pois como foi dito lá pra cima - agora os caras são uma banda.



Nesse disco fica claro como agora trata-se de um som que tomou vida própria. Esqueça aquela guitarra mais chorosa à la Jerry Garcia, agora o som virou a chave e o Rock é a moeda de troca pra manter o som Funkeado.

Nem é questão de groove, pois groove eles sempre tiveram, desde o primeiro disco, a questão é o Funk. Os timbres de teclas em "On My Mind" são tinhosos. O clima beira o Rock Sulista de vez em quando, mas o Funk veio pra ficar nessa gravação, "One For Chuck" surge novamente com o balanço, dessa vez com a guitarra de Neal aparecendo mais.

No entanto quem rouba a cena é o baixão do Dan Horne e o trampo de teclados e sintetizadores do Adam. Dan tem um som de baixo mais agressivo, no primeiro CD, ainda mais tocando ao lado do Phil Lesh, em outro contexto musical, faz sentido pensar no motivo pelo qual sua abordagem é mais contida.


Aqui não, agora o baixo é plenamente audível durante o disco todo e chama atenção pelo feeling melódico até em temas mais leves, como em "Immovable Objects", por exemplo. Os sintetizadores do Adam estão esparramados pelo disco todo. Uivando como um Hammond em "Immovable Object", o cidadão realmente fez miséria nessa gravação.

Foi até estranho ouvir um disco mais curso dessa vez, mas fique tranquilo que ainda teve espaço pra suítes. A primeira delas, "Helicarnassus" representa o equilíbrio entre Funk, Psicodelia e chapantes camadas de teclas, já a segunda, "Ticket To Helix NGC 7293", surge meio delirante pedindo pra você dançar, até mandar sua mente para o espaço no meio da sessão.

Só de ouvir o disco dá pra sentir o tesão dos caras tocando. Seja ao som de "Tacoma Narrows" ou "Electric Chair (Don't Sit Here)", o que fica é a naturalidade, a liberdade e o caráter orgânico de se fazer música. Aquele lance de improvisar horas a fio só pelo ato de improvisar, saca? 

Discasso. Querem um último conselho? Não se deixem enganar pela bateria do Mark Levy. Parece fácil, mas os acompanhamentos de batera que ele orquestrou pra sustentar o ritmo nos 2 discos são formidáveis. Com um toque bastante leve, mas ainda assim, sincopado, o cidadão mostra quem a bateria pode fazer bonito com um som mais enxuto. Uma aula de psicodelia (praticamente rs) instrumental.

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Brazilian Tsunami: Compilação brasileira reúne 63 gemas da Surf Music

O Brasil é um país de dimensões intercontinentais e isso é um "problema" até na hora de disseminar o groove. Fazer o som rodar pelas BR's é muito difícil, mas em contrapartida, também é primordial circular em novos estados. O underground é muito nichado em termos de eixos - como RJ-SP - mas também no quesito musical mesmo, quando o assunto é estilo.

A cena é completamente pulverizada e ninguém para se conectar, mesmo que o Facebook jure que essa galera toda se conhece. A cena do Jazz é restrita a alguns clubes e festivais, a galera da Psicodelia espera pelo Hype e quando se fala em Rock e música extrema, o cenário é ainda mais fragmentado. O pessoal do Stoner vai pra um lado, a galera do Trash vai pra outro... É assim no Blues, MPB, música instrumental e digo mais, sobra até pra Surf Music. 

Beach Combers (RJ) no Palco do Lago durante o Psicodália 2018 - Foto por Guilherme Espir

É difícil até de ler essa situação e saber como encurtar distâncias entre estados, ouvidos e vertentes musicais. Num país que pouco incentiva a cultura, cabe à produtoras como a Abraxas e a 78 Rotações, por exemplo, a difícil tarefa de articular o fluxo dos eixos e descentralizar o som, dando não só palco pra essas bandas, mas também experiência e um novo público.

É muito complicado colocar tudo isso em prática. Reclamar da falta dessa estrutura de logística não resolve nada, mas é nítido que existe esse problema e são ações como a Brazilian Tsunami que vão nos ajudar a mudar essa realidade. O conformismo nunca vendeu disco mesmo.

Arte: Henrique San

Bandas & Track List:
The Dead Rocks - "Surf Explosão"
Os Brutus - "Billy The Ghost"
Jubarte Ataca - "Chafurdo com a Gangue"
Joanatan Richard - "Silence and Thunder"
Kingargoolas - "Dirty Plexus"
Búfalos D'Água - "Mandíbula"
Mary O and The Pink Flamingos - "Little Coconuts"
Los Pollos Caipiras - "Surfando na Serra do Cipó"
Surfadelica - "Questionable Navigation"
Sex On The Beach - "Eldorado"
Jacaré Junkie - "Pirarucu Attack"
Esquivo Devoluto - "Pique-Nique Beibe"
Superguedes - "De Volta ao Banheiro"
Os Pontas - "Banana Boogie
Marcelo Callado - "Munheca"
The Raulis - "Chicken Haole"
Os Gatunos - "Onde Está o Wally?"
Quentin Brothers - "The Last Ride To Eldorado"
Reverba Trio - "Sibéria"
Beermudas - "Ode à Rainha Diaba"
Gasolines - "Cheira Carimbó"
The Mullet Monster Mafia - "Black Coffin Board"
Light Strucks - "Sábado Violento"
Baleia Mutante - "Organicool"
The Violentures - "Surfin' Lava"
Brian Oblivion e seus Raios Catódicos - "Tereza"
Drakula - "Death Surf"
Apicultores Clandestinos - "Tererê"
Maniáticos do Reverb - "Rubi's Valley Halpipe"
Buzz Driver - "Tutube"
Barbatanas - "Bico Liso na Quissassanha Medonha"
Surf Aliens - "Enigma de Nazca"
Los Prego - "Casa Cheia de Veneno"
The Old Jack - "Tsunami"
Moréia The Surf Monsters - "Boldró"
Beach Combers - "Rei da Praia"
Hitchcocks - "Duelo Surf"
Comanches - "Raulis CWB"
Os Aquamans - "Maracauípe"
Sangue de Androide - "Sangue de Androide"
Ted Boys Marinos - "Space Station"
Footstep Surf Music Band - "Sasha Stomp"
Intóxicos - "Disaster"
Trabajo Cubano - "Sunset vista"
O Boi Solitário - "Trágica Noite"
Wood Surfers - "Nice View Of Paradise"
Retrofoguetes - "Telemetria"
Movie Star Trash - "Granizo"
Paqueta - "Guanxuma Jamaicana"
Shark & Os Tubarões - "O Pingalada"
Terremotor - "Intacto"
Surfabats - "Big Wave Surfing"
Ivan Motoserra Surf&Trash - "A Misteriosa Lagoa do Abaeté"
Os Carburadores - "El (Santo) Mariachi"
The Pulltones - "Storm Fisherman"
Tartarugas de Patinetes - "A Terrível Perseguição Intergalática ao último Quilombo de Emme Ya"
The Almighty Devildogs - "Dizzy"
Robotron - "Regeneration Of Reptilicus"
Reverendo Frankenstein - "A Vingança de Frank"
Surinames - "Skapeta"
PROA - "Transilvânia"
Gabriel Thomaz Trio - "Babababa"
Capitão Parafina & Os Haoles - "Fugindo desesperadamente do helicóptero malvado na densa selva sombria e húmida e com muitos perigos"

Depois de descer a tela vocês devem ter notado a vasta quantidade de bandas relacionadas, certo? Pois bem, essa reunião de 63 grupos, dos mais diversos CEP's do país, do Oiapoque ao Chuí, representa o árduo trabalho de curadoria dos selos Orleone Records e Reverb Brasil. Juntos, eles arquitetaram a Brazilian Tsunami, uma compilação 100 % Surf Music, só com o melhor dos sons que estão longe de ser uma marolinha.


Lançada no dia 21 de janeiro de 2019 - via Bandcamp - essa iniciativa é o puro reflexo da falta de integração no corre de Produção Cultural no Brasil. É justamente por isso que uma ação desse porte merece ser valorizada, pois além de desmistificar alguns estereótipos da Surf Music - como sua falta de variação ou de novas bandas - acaba por escancarar o cenário e ainda mapeia os grooves pra você ouvir tudo sem tomar um caldo.

Mais do que ser um bom resumo do que está acontecendo no estilo, a Brazilian Tsunami promove uma aproximação entre essas bandas, estados e diferentes influências. Ao construir um plano de fundo tão rico como o que foi cunhado acima, essa compilação  é capaz de conduzir os ouvintes numa viagem surpreendente e que consegue traduzir a essência de um som que toma as contas das praias canarinho desde os anos 60.


É um levante frente a resistência de uma cena que nunca teve o respeito, tampouco a mídia necessária para divulgar seu som e os dotes de suas respectivas cozinhas. Por isso, reserve um tempo na sua agenda e prepara-se para pesquisar, conhecer e se impressionar com a riqueza e a força de vontade de uma galera que não larga o osso.

Seja minucioso mesmo, nós fizemos hiperlinks com o Facebook das bandas para que vocês já possam achar os conteúdos e ver o material diretamente pelo Macrocefalia Musical.

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A guitarra safada do Cory Wong

Nos últimos anos tenho ouvido um número consideravelmente menor de guitarristas. A razão pra isso nem é a falta de bons instrumentistas, afinal de contas, numa cena formada por caras como Mansur Brown, por exemplo, chega a ser ridículo falar que o problema é a oferta de grooves.

Mas a grande questão não é nem a forma, no caso o instrumento - a guitarra - mas sim o conteúdo, algo inerente ao formato. Julgo conteúdo, nesse caso, todo o conjunto de percepções sonoras que vai condensar e criar o approach do músico para com seu instrumento, e é exatamente aí que reside o problema.


Você já parou pra ver quais são os tipos de guitarristas que existem hoje em dia? Acredito que seja possível categorizá-los em duas frentes:

Fritadores (shredder) que tocam 1.000 notas por segundo da maneira mais mecânica possível e caras que sabem tirar som. Músicos como o Cory Wong, por exemplo, que foi capaz de gravar um disco (praticamente todo) instrumental e que mostra a beleza da guitarra rítmica, salientando seu papel de protagonismo, sem necessariamente precisar fritar. 

Line Up:
Cory Wong (guitarra/baixo/piano)
Ben Rector (piano/sintetizadores)
Kevin Gastonguay (teclados/sintetizadores)
Elliot Blaufuss (órgão)
Ryan Liestman (teclados)
Kevin Macintire (baixo)
Petar Sanjic (bateria)
Michael Nelson (trombone)
Kenni Holmen (saxofone)
Steve Strand (trompete)
Adam Meckler (trompete)
John Fields (teclados/sintetizadores)
Robbie Wulfsohn (vocal)
Cody Fry (teclado/sintetizadores)
Ricky Peterson (órgão)
Joe Savage (pedal steel)
Sonny Thompson (baixo)
Antwaum Stanley (vocal)
Marti Fisher (flauta/teclado/baixo)
Phoebe Katis (vocal)



Track List:
"Jax"
"Light As Anything"
"91' Maxima"
"Jumbotron Hype Song"
"Sitcom"
"Juke On Jelly"
"The Optimist"


"The Optimist" é o segundo disco solo da carreira do Cory Wong. Lançado no dia 08 de setembro de 2018, esse trabalho saiu neste que é, sem dúvida alguma, o auge da carreira do natural de Minneapolis.

Com lançamentos que ilustraram diversas listas de melhores discos do ano em 2018, Cory nem ligou para a agenda do Fearless Flyers, tampouco do Vulfpeck, e resolveu gravar um disco solo só pra manter a mão direita aquecida.

Já pela lista de músicos que figuram nessa gravação, nota-se que o som está longe de ser alguma brincadeira, apesar dos caras fazerem miséria com o Funk, sem, aparentemente, nenhum esforço.


Sucessor do também muito interessante "Cory Wong and The Greenscreen Band" - debutante solo que o músico lançou em 2017 - "The Optmist" chega para apresentar uma nova visão guitarrística, mas ainda apresentando elementos desse disco, por isso destaco sua importância. É interessante sacar alguns dos trampos citados, justamente para se ter uma ideia do que esse meliante registrou em estúdio.


O que me chamou a atenção para o som do Cory foi sua visão. Influenciado pelas maiores gemas do Funk/Soul/R&B setentão, as linhas que saem na forma de ácidos licks e riffs em sua strato, são inspiradas nos arranjos de sopro que rechearam o groove dos estilos citados.

Só que no lugar de optar pelo preenchimento e trabalhar essa abordagem do jeito virtuose - o mais comum - Cory impressiona justamente por deixar a plateia perplexa, priorizando sempre 4 elementos:  ritmo, groove, timbre e a guitarra base. (Acredite se quiser).

O cidadão plantou uma pulga atrás da orelha de muita gente. Pegue o swing de "Jax", faixa que abre o disco, por exemplo. Se liga no baixo marcando, os metais na pressão... Mesmo com tudo isso, o termômetro das ações é a guitarra base e aí que está o grande lance.


Ele sustenta o groove, mas a dinâmica é tão rica que isso passa desapercebido, enquanto você bate o pezinho. Um disco capaz de tocar na rádio, de cabo à rabo, "The Optimist" mostra um som com grande apelo Pop-radiofônico, sem necessariamente perder valor e qualidade. "Em Light As Anything", Robbie Wulfsohn chega com vocais cremosos, dignos de liderar a lista da Billboard.

Ao som de "91' Maxima, Cory relembra o lirismo que consagrou o Vulfpeck, enquanto "Jumbotron Hype Song" vem com um baixão na sua cara, patrocinado pelos dedos de Sonny T e os vocais à la Disco Music com Autwaun Stanley.

Impressionado com as capacidades de groove da guitarra base não é? Apesar de não ser o destaque em todas as faixas, essa estrutura coloca a guitarra de Cory sempre em evidência e nunca num papel repetitivo e monótono, duas palavras que com certeza já foram usadas para descrever a arte tocar guitarra rítmica.

O som é festivo, técnico e muito cristalino. Temas como "Sitcom" passam com tanta leveza que o ouvinte nem repara. "Juke On Jelly" e a faixa título do disco são simplesmente irresistíveis. Cadê a criançada falando que o sonho deles agora é virar guitarrista base? O grande público precisa conhecer esse cara. O bom humor dessa rapazeada é contagiante demais pra passar batido.

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