Carlos Santana & Wayne Shorter ao vivo em Montreux

Quando se fala em guitarra, o nome de Carlos Santana tende a ser um dos primeiros a se escutar, e se isso tem diminuído com o passar do tempo, não é culpa do guitarrista. Os rumos musicais que o mundo vem tomando em tempos recentes, trataram de ''atrapalhar'', não só Carlitos, mas também outros grandes nomes da música em seu groove-e-âmbito geral.

Muitos que conhecem o som quente e swingado do "Devadip" acabam se tornando grandes fãs, isso por que se você desconsiderar o passado recente, precisa concordar que o que não falta em sua discografia são grandes trabalhos. Porém, é válido ressaltar que alguns deles não foram muito comentados pela crítica ou até mesmo considerado tão bons quanto realmente são, mas o tempo está ai pra isso, não é mesmo?!


Carlos Santana & Wayne Shorter - Live At The Montreux Jazz Festival, é um dos registros mais desconhecidos que o mexicano já gravou e um dos melhores, sem dúvida alguma. A apresentação é datada de 1988 e virou até DVD - mas só veio à público recentemente, mais especificamente em 2007 - e trata-se de um dos grandes momentos de Santana com o Jazz.

Wayne Shorter arrebenta, o fraseado do cidadão se mistura na guitarra e quando mergulha na Jam a coisa toma um corpo memorável. Que inveja dos suíços que puderam presenciar isso ai... 14 de Julho de 1988, um dia que definitivamente valeria a pena ter sido deste CEP.

Line Up:
Carlos Santana (guitarra)
Wayne Shorter (saxofone)
Alphonso Johnson (baixo)
José Chepito Areas (percussão)
Chester Thompson (teclado)
Patrice Rushen (teclado)
Leon ''Ndugu'' Chancler (bateria)
Armando Peraza (percussão)



Track List CD1:
''Spiritual''
''Peraza''
''Shhh''
''Incident At Neshabur''
''Elegant People''
''Goodness & Mercy - Sanctuary''


Track List CD 2:
''For Those Who Chant''
''Blues For Salvador''
''Fireball 2000''
''Ballroom In The Sky''
''Once It's Gotcha''
''Mandela''
''Deeper, Dig Deeper''
''Europa (Earth's Cry Heaven's Smile)''


O reverendo Santana possui 4 discos que são meio ocultos em sua sagrada discografia, mas o motivo para isso é completamente desconhecido até hoje. E não, não se tratam de bootlegs. Santana gravou, participou dos pitacos da direção e lançou os 4 oficialmente, porém, a pergunta que não quer calar é: por que tais discos acabaram na obscuridade dentro da carreira de um indivíduo paradoxalmente tão famoso?


Certas coisas não se explicam, apenas se lamentam. Creio que, infelizmente, este seja um dos casos. afinal de contas não existe outra justificativa que possa acalmar os ânimos de qualquer fã, deste que é, indiscutivelmente, um dos maiores nomes da história da guitarra.

Agora, vamos aos fatos:

O primeiro bolachão que deveria ganhar mais linhas por aí é o excepcional disco ao vivo gravado com Buddy Miles no Hawaii. Carlos Santana & Buddy Miles! Live! (lançado em 1972), é um dos melhores LP's de todos os tempos, reunindo 2 mestres em seu auge, tocando ao vivo com uma bandaça e improvisando até o groove fazer bico.


O segundo disco vai pra um lado diferente. Ao lado de Alice Coltrane, Carlos eternizou um brainstorming espiritual que mostra como o Jazz é um recurso infinito. ''Illuminations'', lançado em 1974, revela dois seres humanos completamente focados na imensidão do equilíbrio criativo.


Sob a batuta de Sri Shinmoy - guru de Santana - os problemas terrenos eram inexistentes e é justamente por isso que a sonoridade do guitarrista se aproxima do divino durante esse período.

O terceiro disco conta com um plano de fundo histórico bastante parecido com os meandros que envolveram a gravação do ''Illuminations''. Ao lado de John McLaughlin - que também tinha Sri Shinmoy como seu guru - Santana colocou ternos brancos para enfrentar a fase racional e gravou o  ''Love Devotion Surrender'', um ano antes, em 1973.


Só que pra fechar a conta temos ainda essa jam com Wayne Shorter. Mais um live que talvez funcione como um resumo duplex de tudo que Carlos abordou com os LP's já citados, mas numa época completamente diferente de sua vida.

É claro que ele produziu algumas de suas maiores gravações nesse meio tempo, mas pouco depois dessa intensa transformação, ele se afastou de toda essa imersão espiritual, encerrando essa fase logo após concluir seus ensinamentos com o guru. *Nós falamos sobre isso com mais detalhes na resenha do "Love Devotion Surrender".


Gravado no dia 14 de março de 1988, esse projeto encontrava Carlos numa fase bem mais relaxada, chegando no fim da década de 80 como um músico já consagrado, mas ainda em busca de um novo respiro criativo.


Shorter também gozava de uma vida mais tranquila, ambos os músicos já faziam o mesmo sucesso de outrora, principalmente em estúdio, mas ao vivo, tanto ele quanto Carlos, ainda eram bastante requisitados. Ver os 2 juntos então, era um encontro imperdível.

E o resultado é fascinante. Santana reencontrou seu elo espiritual da fase jazzística, mas o utilizou com o equilíbrio que apenas o tempo pode prover. Shorter voltou a brilhar com uma apresentação notável e mostrou ao mundo como um homem pode chegar às estrelas quando fecha os olhos e encontra o Jazz.


Com uma sonoridade riquíssima, mesmo que num esquema enxuto, tocando na forma de octeto, perceba o nível dos instrumentistas envolvidos. A percussão de Armando Peraza e Chepito Areas mantém o Jazz sempre ritmado, principalmente em temas como "Peraza" e "Incident At Neshabur".

No baixo temos a icônica presença de Alphonso Johnson. Engrossando o caldo quando necessário, as quatro cordas do experiente Alphonso Johnson (Weather Report) fazem muito mais do que apenas fazer sala para a dupla de percussão e para o exímio baterista Leon Ndugu Chancler.


O primeiro CD é mais pesado que o primeiro. As jams são sempre muito longas e exploram diversas dinâmicas, muito em função do imenso repertório dos músicos. Já no segundo, temos um lance mais espiritual, mas que em nenhum momento perde o groove, vide as teclas de Chester Thompson e Patrice Rushen em "Ballroom In The Sky".

Sem aquele protagonista forçado, Santana e Wayne demonstram um imenso domínio de repertório e quando o Carlitos chama o jogo pra si o resultado surge com o sentimento cirúrgico de temas como "Fireball 2000" e "Europa".

Um disco digno de emocionar os ouvidos e marejar os olhos.

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