Kazumi Watanabe: Aperte play na trilogia do Mo' Bop

Existe um submundo de música japonesa dos anos 60 e 70 que mais parecem uma realidade paralela. A música asiática explorou e criou muita coisa diferente, partindo de um viés exploratório com um repertório muito grande.

Ao passo que você tem caras como o Stomu Yamashta, por exemplo, um percussionista, tecladista e compositor japonês que promoveu a fusão da tradição percussiva oriental com Rock Progressivo, você também tem nomes como o guitarrista Kazumi Watanabe, capaze de groovar o mais cabuloso Jazz-Funk sem fazer a menor cerimônia.


Contudo, o mais interessante é que apesar disso tudo, o músico oriental é visto como um instrumentista sem alma. É até patético ouvir isso, mas ainda é algo relativamente comum, ainda mais quando falamos sobre virtuoses do nível de uma Hiromi Uehara por, exemplo. Pianista japonesa das mais requisitadas no Jazz contemporâneo, seu fraseado impressionou caras como Chick Corea e Herbie Hancock...

Existe a necessidade de desconstruir esse estereótipo e também de pesquisar mais sobre a cultura japonesa e o seu impacto no Hard Rock, pré Heavy Metal, sua contribuição para a cultura psicodélica e principalmente a cena de Yacht Rock, AOR e City Pop japonês que conta com umas gemas maléficas.


E para começar a ressignificar esses grooves, o primeiro projeto escolhido foi o "Mo' Bop", uma trilogia do Kazumi Watanabe que lançou algum dos melhores discos de Fusion/Funk dos anos 2000 e tudo no formato de power trio.

Ao lado do talentosíssimo baixista camaronês, Richard Bona e o baterista e percussionista cubano Horacio Hernández, Kazumi lançou o seu trio e modulou o formato elétrico com 3 distintos lançamentos.


O primeiro deles, "Mo' Bop", primeiro volume lançado em 2003, não só inaugura o projeto como já apresenta a diretriz da cozinha de maneira contundente. Com um som que explora o lirismo do Jazz Rock e o balanço do Funk, Kazumi arquiteta um som sólido e vigoroso, muito em função do DNA rítmico no baixo de Bona e da percussão latina de Horacio.



É um groove globalizado e que apresenta diferentes perspectivas, disco após disco. Com "Mo' Bop II", o segundo lançamento do New Electric Trio - liberado em 2004 - a banda surge com a gravação mais pesadas das três, de longe.

Com uma abordagem que faz muita banda de Hard-Heavy parecer uma reunião de manicures, Kazumi, Richard e Horacio mostram um entrosamento azeitadíssimo e preparam o terreno para a sessão de estúdio que cumpre a difícil tarefa de fechar essa trilogia.



Com o terceiro volume a banda parece resumir toda a empreitada dos discos anteriores. Se no primeiro o som foi mais Fusion e menos Funky, o segundo disco já veio com o volume no máximo e com um Wah-Wah criminoso e pra fechar o terceiro vem mais sincopado na percussão, com Richard e Kazumi apenas explorando o Fusion com esse plano de fundo naturalmente Funkeado.


É bem interessante acompanhar esse projeto, pois mesmo num formato em tese "limitado", o trio entrega 3 visões muito diferentes, mas bastante completas entre si e entregam uma verdadeira aula de dinâmica e repertório Jazzístico.

Foto: Macrocefalia  Musical

A única parte triste nisso tudo é conseguir os discos. Como o Kazumi é japa, todos as edição ("Mo Bop I, II e III) saíram só no Japão e as edições custam uma fortuna, mas você ainda acha com relativa facilidade, pois os discos foram remasterizados em 2016.



O problema mesmo é o preço, inclusive tem até um DVD dos caras - lançado em 2005 - que apesar de ser complicado de achar, também é fantástico e se é pra se lascar, vamos fazer dívidas de maneira sábia e já comprar logo todo o espólio, não é mesmo? 

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