Rollins Plays For Bird: um tributo de Sonny para Charlie Parker

É engraçado como o mundo sempre será povoado por questionadores de mitos. Uma vez tive a oportunidade de ver uma entrevista muito interessante com o saxofonista Sonny Rollins. Nela, o repórter teve a audácia de perguntar sobre os dotes técnicos do endiabrado Charlie Parker. 

Sonny sacou a acidez das palavras e muito antes do cara terminar de falar, o próprio já começou a responder, como num improviso. ''Quando vi Charlie Parker, sabia que estava presenciando um contato com algo superior''. 



Foi bonito ver a grandeza com que Sonny falava sobre o amigo. Apesar de seu triste fim, é reconfortante saber que seu DNA sonora já era parte da história quando ainda estava entre nós. Ouvir Charlie Parker é um desafio aos ouvidos, seu feeling é desconcertante e as frases, uma síncope sofisticadamente incontrolável.

Infelizmente, Bird nos deixou no dia 12 de março de 1955, um momento que antecedeu passagens incomensuráveis para o Jazz. É aquela história: ''se ele tivesse ficado só mais um pouquinho...''.

A partícula ''se'' é um veneno em pensamentos como este, mas é fato, se o maestro tivesse ficado ''só mais um pouquinho'', teríamos no mínimo outra mão cheia de clássicos e talvez até colaborações com o próprio Sonny, cidadão que estava com tudo, justamente quando Parker estava transcendendo de mãos vazias.



O ano de 1956 foi um dos melhores para o mundo da música e o motivo foi Sonny Rollins. Foi neste ano, quando o globo rotativo ainda se recuperava da perda de Charlie, que uma conexão celestial entre as forças da natureza e o cordão umbilical do Jazz foi traçada, tendo Theodore Walter Rollins como meio intermediário.

Em 12 meses, Sonny foi responsável pela gravação de 6 discos, sendo que dois deles se transformaram em verdadeiros standards do Jazz, falo sobre a épica dobradinha entre ''Tenor Madness'' e ''Saxophone Colossus''. Reza a lenda que neste ano Sonny falou pouquíssimo, estima-se que o músico disse 10 palavras e que 7 delas foram saxofone!


O interessante é que dentro dessa gravações, um deles em particular nunca é cittada quando a crítica passa um pente fino pela vida & obra de Sonny. 

Listagem completa dos lançamentos de 1956:
"Sonny Rollins Plus 4" - março
"Tenor Madness" - maio
"Saxophone Colossus" - junho
"Rollins Plays For Bird" - outubro
"Tour de Force" - dezembro
"Sonny Boy" - outubro/dezembro


O elo entre Rollins & Parker, ''Rollins Plays For Bird'', foi a forma que Sonny e seu quarteto encontraram para agradecer Charlie, não só pelo Jazz. Gravado cerca de um ano após a trágica morte de um dos músicos mais autênticos de todos os tempos, esse disco mostra como  influencia de Bird é um sopro perpétuo de Hard Bop frente a história do Jazz. 

Line Up:
Sonny Rollins (saxofone)
Kenny Dorham (trompete)
Wade Legge (piano)
George Morrow (baixo)
Max Roach (bateria)



Track List:
''Bird Medley; I Remember You/My Melancholy Baby/Old Folks/The Can't Take That Away From Me/Just Friends/My Little Suede Shoes/Star Eyes''
''Kids Know''
''I've Grown Accustomed To Her Face''
''The House I Live In''


E mesmo que esse lançamento tenha recebido resenhas das mais variadas opiniões, hoje, trata-se de um disco muito interessante, pois Sonny, como um dos maiores expoentes de sua geração, possuía uma técnica singular, mas deixou a sua própria abordagem de lado pra prestar tributo ao Parker.


O interessante com isso é perceber a parte técnica do som de Charlie. As harmonias, as modulações... Sonny era um músico muito respeitado nos meandros do Jazz. Quer um exemplo? O John Coltrane gostava tanto do som do tenor do Sonny que fez até uma música em sua homenagem - "Like Sonny" quando gravou o seu sexto disco de estúdio, o excelente "Coltrane Jazz", lançado em 1961.


A maior dificuldade dessa gravação deve ter sido definir o repertório, pois Charlie já tinha definido certos standards quando se foi. A primeira fase compila isso ao condensar 6 faixas do mestre numa improvisação que supera os 26 minutos de duração.

Temas como "Kids Know", por exemplo, são faixas que poucas pessoas relembram. Sonny de certa maneira optou por mostrar um lado mais minucioso do trabalho de Charlie. Ao selecionar faixas como "I've Grown Accustomed To Her Face" e "The House I Live In" - presente apenas na versão da RVG Prestige - o saxofonista mostra grande sensibilidade e entrega um disco que, apensar de ter uma proposta bem clara, desafia os ouvintes por não entregar tudo de mão beijada e propor um track list no mínimo surpreendente.

O Sonny Rollins estava de fato muito confiante pra se meter num projeto desse porte. Coisa finíssima. A versatilidade é nítida.

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