The Dark Side Of The Moon - Os Bastidores da Obra-Prima do Pink Floyd

O ''Dark Side Of The Moon'' é um disco que representa grande parte do que eu sou como ouvinte. E da mesma forma que esse LP é importante para este que vos escreve, isso também se aplica aos milhares fãs da banda ao redor do mundo.

Com tudo isso em mente, nota-se que uma resenha que contemple esse clássico só será feita quando conseguir encontrar exatamente o que quero dizer, e compreender a grandiosidade de um disco que segue tocando as pessoas de uma forma quase infinita, desde seu lançamento em 1973.

E dentro do que o Pink Floyd possui em conteúdo literário, um dos livros que melhor elucida a grandeza dessa gravação é o ''The Dark Side Of The Moon - Os Bastidores da Obra Prima do Pink Floyd'', lançado em 2006.


Esse livro é mais um relato que graças a uma editora com visão - neste caso a Zahar - foi traduzido para nossa língua. E nele, além de uma introdução sobre o começo do Pink Floyd - com os já conhecidos problemas de LSD que vitimaram a cabeça de Syd Barrett - temos um retrato bem claro e interessante à respeito da evolução da banda, desde a entrada de David Gilmour até o ápice que configura o The Dark Side Of The Moon.

Temos a narração de todo o longo processo criativo que permeou o LP, além das várias e desgastantes horas de gravações para a conclusão de um dos discos mais vendidos na história da música. Parece até que tinha uma câmera escondida nos porões da Abbey Road.


São 224 páginas de pura informação. Além dessa cobertura que foca nesse disco, temos também um resumo do que aconteceu depois, detalhando um pouco dos próximos clássicos que surgiram depois e que culminaram no desgaste que atrapalhou - as relações outrora harmônicas - entre os membros da banda. Tudo isso recheado de fotos, curiosidades e uma linda finalização artística.

Esse livro é difícil de ser encontrado nas lojas, mas na internet é bem tranquilo. No Submarino, por exemplo, é possível encontrar o mesmo exemplar por cerca de 30 cruzeiros. É um ótimo diário de bordo.

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Jazz Re:freshed: compromisso com o Jazz contemporâneo

Os músicos da nova geração são vistos com grande desconfiança de maneira geral, seja numa banda Pop ou num combo de Stoner. É muito comum ouvir um nome mais novo da cena e logo depois já começar a ver dezenas de pessoas promovendo comparações que em nenhum momento posicionam a música contemporânea da forma que ela deveria ser vista: como uma novidade.

A música é um agente infinito, transcende o tempo, passa por mudanças... É um conceito que está sempre em desenvolvimento, sempre avançando. A modernidade chegou e com elas novos sons, cozinhas estéticas e instrumentistas - com referências cada vez mais autênticas - surgem, e pasmem: estão mudando tudo enquanto os puristas só comparam e os próprios músicos nem ligam. Acreditem, eles só querem plugar os instrumentos e deixar muito caretão perplexo.

Foto: Guilherme Espir (Macrocefalia Musical)

E se existe um gênero que merece destaque nesse processo de ruptura e inovação, a vertente mais quente do momento em termos, não só de qualidade sonora, mas de experimentação, novos formatos, abordagem técnica, criatividade e frescor musical, meu rei, esse gênero é o Jazz.

Dono de um requinte imortal, o Jazz é um gênero que hoje, apesar da idade avançada, está brincando de criar com uma vitalidade louvável. Nomes como Thundercat, Kamasi Washington, Henry Wu (Kamaal Williams), Youssef Dayes, Jacob Collier, Nubya Garcia, Cory Henry, Christian Scott... É no mínimo excelente observar que é possível deixar esse parágrafo com mais umas 10 linhas (sem muito esforço), tamanho a gama de novas bandas surgindo.

E para ilustrar toda a renovada força com a qual o estilo está pousando em novos ouvidos, nada mais justo do que destacar o trabalho do núcleo britânico Jazz Re:freshed, talvez um dos maiores responsáveis por essa onda de genuíno interesse perante um estilo que está longe de ser música de elevador.

Foto: Guilherme Espir (Macrocefalia Musical)

A Jazz Re:freshed é o mirabolante resultado de um polo musical que começou como um movimento sonoro iniciado entre os ingleses Justin McKenzie e Adam Moses. Juntos desde o verão de 2003, eles começaram um levante que busca descentralizar o Jazz em busca de um maior reconhecimento artístico, sempre com foco na visibilidade de novos músicos e na criação de um cenário que pudesse reunir linhas opostas no mesmo bloco Jazzístico, desde o Funk até o mais Progressivo Avant garde.

E o que lá atrás era apenas uma residência semanal no coração da West London, em Notting Hill, evoluiu para uma vívida forma de expressão que hoje - além dos shows semanais - se transformou num selo, possui uma ramificação voltada para festivais (com participação em renomados eventos como Glastonbury, SXSW, AFROPUNK International), um clube cinematográfico, um programa de desenvolvimento de novos músicos (que atende escolas e universidades), contempla um espaço para shows, uma revista anual e ainda fomenta a realização de workshops. 

Foto: Guilherme Espir (Macrocefalia Musical)

As definições do termo workaholic foram atualizadas pela cena Jazz fomentada em UK. Com o apoio de parceiros como a British Underground - uma organização que promove showcases internacionais com foco no desenvolvimento estratégico de projetos musicais e artísticos - a entidade atua desde a edição de 2002 do tradicional festival SXSW, num trabalho financiado pela Arts Council England, uma divisão do departamento de cultura da Grã Bretanha que opera na Escócia, Inglaterra e País de Gales.

Foi com todo esse know how que a Jazz Re:freshed chegou pela primeira vez no Brasil com o evento "Jazz Re:freshed Outernational", uma ramificação do selo que estimula um projeto pioneiro de 2 anos com curadoria do selo, em parceria com a British Underground, com o objetivo de expandir a cena britânica de Jazz progressivo.

O local escolhido? O Jazz nos Fundos. O evento? A primeira edição da MIMI, a mostra internacional de música instrumental realizada com curadoria da SIM, a semana internacional de música, uma das feiras de negócio mais importantes da América Latina. No cardápio sonoro? Yussef Dayes Quartet e Nubya Garcia, 2 dos maiores expoentes da nova cena Jazzística britânica e por que não dizer mundial.


Line Up:
Yussef Dayes (bateria)
Mansur Brown (guitarra)
Charlie Stacey (teclados/sintetizadores)
Tom Driessler (baixo)


Depois de abrir a noite com um set de grooves conduzido por Adam Moses, o Yussef Dayes Quartet foi o responsável por abrir a noite com uma mistura quase de nuclear de Trip Hop com Jazz e Funk.

Com um quarteto de músicos estupendos, o set foi amplamente explorado dentro de toda a riqueza de seus arranjos, enquanto Yussef e o guitarrista Mansur Brown, travavam uma sádica batalha onde um tentava roubar tempo do outro, algo que deixou a dinâmica das canções completamente quebrada.

Foto: Guilherme Espir (Macrocefalia Musical)

Mansur Brown, anotem esse nome, o guitarrista de 18 anos mostra um feeling raro em sua Epiphone Semi acústica, o tecladista Charlie Stacey sabia (e muito) a hora de entrar numa vibe cósmica nos syths, enquanto Tom Driessler operava suas cordas graves com uma calma quase budista.

Foram 90 minutos de excelente música. A platéia se manteve perplexa do começo ao fim, algo que esteve longe de passar quando o segundo quarteto da noite, dessa vez com Nubya Garica, subiu ao palco, tocando pelo mesmo período, mas apostando num balanço completamente diferente.

Line Up:
Nubya Garcia (saxofone)
Daniel Casimir (baixo)
Steve Reid (teclados)
Femi Kuleoso (bateria)


Essa é a Jazz Re:freshed, um selo capaz de colocar sons tão opostos como o das bandas dessa noite, exatamente na mesma caixinha. O balanço de Nubya era caliente, com pinta afro e parece ter ficado na conserva durante anos ouvindo o "Afro" do Dizzy Gillespie. Já o feeling dos teclados de Steve Reid é cheio de música cubana, o timbre do baixo de Daniel Casimir, praticamente um monumento histórico, enquanto o peso e o fervor técnico de Femi Kuleoso na bateria foi arrebatador.

Uma quebradeira pra colocar muita banda de Rock no chinelo. Em ambos os casos, todos os 8 músicos envolvidos mostraram um sentimento e uma leveza estonteante, sempre fundamentando a música num ideal moldado na mais pura e utópica improvisação.
Quem marcou presença nesse noite conseguirá prever o futuro da cena daqui pra frente. Quem não foi ainda teve uma chance de conferir os caras 3 dias depois, na Urubu Sessions, realizada no dia 11/12 no espaço da Associação Cultural Cecília e teve ainda quem foi nas duas noites pra conferir se um raio cai (de fato) duas vezes no mesmo lugar.

E ele caiu, 3 dias depois, num espaço ainda mais intimista, bem no coração da região central de São Paulo. Eis que os 2 grupos voltaram ao palco, dessa vez invertendo a ordem dos shows, com Nubya abrindo os trabalhos, mas com uma apresentação que não se assemelhou em nada se comparada com o primeiro show, e olha que essa ressalva serve para as duas bandas.


Fica claro como o domínio técnico permite a esses senhores a capacidade de promover um novo show toda noite. O Jazz meio afro no melhor estilo do Spiritual Jazz da IMPULSE! dos anos 60/70 de Nubya foi completamente reestruturado, enquanto as batidas com grande influência senegalesa de Yussef provaram ao público que música boa é igual tempo: passa muito rápido.

O Macrocefalia Musical esteve presente nos 2 shows e parece que os 2 juntos duraram 15 minutos. Essa cena de UK vai dominar o mundo. Uma bela iniciativa do Jazz nos Fundos e da Urubu Sessions. Pelas barbas de Miles Davis.

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Não existem estilos ou abordagens: o Thundercat só faz música

A Cena de Jazz contemporânea aglutina nomes que devem enlouquecer a vida de quem classifica as bandas por estilo no Spotify. Um movimento encabeçado por artistas tão profundos e multilaterais, esse levante contempla nomes que vão do Thundercat até o Childish Gambino com uma liberdade criativa exuberante.

O Thundercat - Stephen Bruner pra quem quiser separar o homem do conceito criativo - consegue ir do Jazz, passando pelo Trash, Funk, Hip-Hop fazendo ponte na música eletrônica com um frescor e uma vivacidade que transcende a catalogação de gêneros.

Foto: Emanuel Coutinho

E em sua segunda passada pelo Brasil, depois de assombrar o público presente na edição de 2017 do Jazz na Fábrica, realizado no SESC Pompéia, o baixista já voltou para terra brasilis novamente e o resultado foi uma dose sideral de improvisos no Cine Jóia.

Foi durante a semana mesmo, na quarta-feira do dia 09, bem ao lado dos grooves inventivos de Dennis Hamm (teclados/sintetizadores) e do swing técnico, porém bastante agressivo de Justin Brown, que o baixista subiu ao palco sem cerimônia, de chinelo mesmo e tocou por quase duas horas.

Foto: Emanuel Coutinho

Desde os temas de seu disco mais recente ("Drunk", terceiro disco de estúdio lançado em 2017) até sons do EP "The Beyond/Where The Gians Roam" (2015), passando por temas do Flying Lotus "Cosmogramma" (lançado em 2010), o que se viu foi um músico completamento liberto e que apenas está obstinado pelo novo.

Seja eles em carreira solo, via colaborações com o Michael McDonald & Kenny Loggins ou fazendo beats com o Kendrick Lamar, o que o norte americano busca é criar e continuar confundindo a cabeça de quem ainda acha que é necessário rotular o que ele faz.

Foto: Emanuel Coutinho

É um posicionamento denso, uma filosofia lírica muito desafiadora, talvez até mais do que os intrincados movimentos que o trio destilou sob o palco com a naturalidade de um aposentado que vai pegar água na cozinha de madrugada.

Só que tudo isso é real e o Macrocefalia Musical precisava falar com o meliante pra tentar entender e captar um pouco mais sobre todo esse infinito particular que é a música que sai do seu baixo semi acústico.

Entrevista:


1) Desde a época do grupo "Young Jazz Giants" (2004), um quarteto formado por você, seu irmão Ronald, Kamasi Washington e Cameron Graves, vejo sua música evoluir e absorver novas referências.


Desde 2004 até agora, você tocou com o Suicidal Tendencies, foi rumo a carreira solo e gravou outros discos muito interessantes ao lado do próprio Kamasi e do Kendrick Lamar, fora várias colaborações com a Erykah Badu e o Flying Lotus, por exemplo. Como que foi tudo isso, como essa experiência funcionou pra você em termos musicais?


Como tudo isso aconteceu comigo? A maior parte do tempo eu acho que é tudo uma questão de influencias e da quantidade de tempo ao lado com um instrumento. É tudo muito similar, sabe? A música, em todos os aspectos e lugares funciona como uma linguagem e eu acho que se você conseguir ver isso, é algo muito diferente, mas ao mesmo tempo a questão de gênero musical funciona como a ideia de música no sentido literal da palavra, então se você quer tentar e seguir novos rumos criativos você pode... Não é loucura... hahaha

2) Qual é a sua opinião sobre essa nova cena de Jazz que está surgindo. Existem grandes instrumentistas como, Yussef Dayes Nubya Garcia, você... Todas essas grandes bandas e sons da Inglaterra, Estados Unidos. Como você avalia esse movimento?


Eu acho ótimo, realmente muito bom. A qualquer momento que a música esteja sendo criado, isso é sempre uma coisa muito boa, sabe? As vezes as pessoas fazem música de lugares malucos, mas ao mesmo tempo eu sempre penso no sentimento que é ouvir boa música sendo criada e eu gosto bastante de assistir todos esses caras. 

São vários novas ideias sendo formadas o tempo todo... Toda essa excitação, sabe? Eu acho que esse é um fator fundamental para o "agora" da música.


Um dos meus artistas favoritas hoje em dia, um dos meus maiores amigos nesse mundo é o Donald Glover, o Childish Gambino. Ele acabou de lançar um vídeo e o conteúdo é uma verdadeira declaração.

É um sinal dos tempos que vai do Jazz até literalmente... A cultura popular. É um ótimo momento pra se fazer música.

3) E sobre o Brasil, você conhece algo sobre música brasileira?


Claro! Por onde eu começo? Milton Nascimento é claro, Egberto Gismonti, Gal Costa, Marcos Valle, Arthur Verocai e por aí vai. 

4) Tem um músico em particular chamado Michael Pipoquinha, um grande baixista brasileiro. Ele tocou com o Jacob Collier, você conhece? Acho que se dariam muito bem!


Ele tocou com o Jacob Collier? Eu não conheço hahaha Conheço o Jacob, mas eu definitivamente vou sacar o som dele. De fato não o conheço por nome.

5) Tentando pensar num registro desse atual momento, como você pensa que esse som será visto pensando à longo prazo?


Eu realmente tento não pensar tão a frente assim. Eu estou bastante focado no agora, em fazer música nesse momento. Existe uma cena ótimo, com muitas coisas surgindo, mas é difícil colocar isso em perspectiva por que você não sabe o que vai acontecer daqui a alguns anos, sabe? E só estou tocando. Tem muita música rolando, muito coisa diferente no ar.

6) Como um grande fã de Zappa eu preciso perguntar como a música dele impactou o seu som.


O Zappa criou muita coisa. A música dele transcendeu estilos e eu sempre penso o que ele acharia da música atual. O que ele estaria fazendo hoje em dia, sabe? Quais técnicas, projetos, músicos... Como ele faria música.

Eu acho que ele iria curtir o trabalho do Donald Glover, o Childish Gambino, o Kendrick Lamar, Robert Glasper.

Ele estava à frente do seu tempo.


Completamente  e se você ouvir sua música hoje em dia ainda soa novo, carrega um frescor e todos deveriam ouví-lo, ele significa muito para a música.

Para conferir o set de fotos completo, basta clicar aqui.

 

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Chapando no som do Otis Junior & Dr. Dundiff

Caso você goste de beats, o Dr. Dundiff não deve ser um nome estranho. Diretamente de Louisville, na província de Kentucky, o habilidoso Hip-Hop/Neo Soul do DJ americano está mudando as regras do jogo e não é de hoje.

Nos últimos anos apareceram muitos produtores que surfaram muito bem essa nova onda de R&B e Funk/Soul. A maior mudança estética desse novo norte para o groove é bastante palpável e caras como o Chet Faker e o Gramatik, por exemplo, são grandes exemplos disso.


Essa nova abordagem é muito fundamentada no Chill Out. Sabe aquele som que parece deixar seu cérebro no banho maria? Isso é um Chill Out. Depois do play tudo que seus ouvidos precisam é daquele clássico "layback and dig", como diriam os americanos. 

Só que dentro de toda a produção recente que visa restaurar e reposicionar o swing nesse novo tempo, acredito que a união do Otis Junior com o Dr. Dundiff esteja à frente dos demais. Desde 2017 que o Macrocefalia Musical está imerso num flow de beats, acompanhando alguns sons que exploram essa linha, pois a música eletrônica é um elemento que está mais presente no som do que vocês imaginam, e o primeiro disco da dupla mostra isso. "Hemispheres" - lançado em março de 2017 - é um trabalho charmoso demais pra passar batido.


Track List:
"Hemispheres"
"Bubble"
"Why Can't You (Just Come For Conversation)"
"Don't Get Caught"
"Under My Skin" - feat. Jim James
"3 Winds"
"The Mixture"
"Let It Go"
"4 Us"
"The Ballad"
"Say Yes (Gospel)"
"Bye From Space"


Fundado em 2016 depois que o Dr. Dundiff viu o Otis Junior se apresentar numa noite de open mic. vale destacar que tão logo Otis acabou seu set, o DJ já colou no cangote do cantor pra arquitetar um som que conseguisse colocar sua voz de Soulman num plano de fundos com beats Jazzeados, mas  sem soar datado.

E em abril 2016 mesmo eles fizeram o primeiro teste. Com o elogiado EP "1Moment2Another", liberado pela Jakarta, o grupo começou a cunhar sua descolada sonoridade.


Acho que a única coisa que a dupla não esperava era o rápido reconhecimento que apareceu. Várias faixas do EP foram tocados em rádios da França e Estados Unidos. Teve take que foi parar até em mixtape de Hip-Hop com Soul e Funk... Ficou claro que eles tinham acertado, agora a questão era conseguir levar isso para o estúdio.

Com "Hemispheres", o duo conseguiu dar esse passo. Em termos de produção o trabalho também foi bastante superior, mas isso é compreensível, pois quem escuta o debutante percebe como o som já evoluiu bastante, mesmo em tão pouco tempo depois do EP.

A faixa título é o tema que resume muito bem isso. Os beats ascendentes do Dr. Dundiff chegando... O Chill Out fazendo sala e depois que entram os vocais fica claro como o trabalho deles se complementa de maneira chapadíssima.



Em "Bubble" percebe-se como ambos tiveram que alterar um pouco suas abordagens. Os beats do Dr. Dundiff chegaram numa roupagem diferente, justamente por que o Otis Junior também percebeu que precisava ajustar seu vocal. É um equilíbrio muito grande entre os beats e os instrumentos tocados, pois nota-se a necessidade de manter a vibe orgânica.

E o Otis Junior está longe de apenas colaborar com isso. Sua voz é parte integrante do som e é o termômetro perfeito para os beats. Escute "Why Can't You (Just Come For  Conversation)" e perceba o equilíbrio entre os beats e as teclas.


Temas como "Don't Get Caught" deixam claro como a união estava azeitada e a cada faixa o disco surpreende, seja pelo seu forte apelo radiofônico ou pelo grande trabalho de timbres. A guitarra de "Under My Skin" é um veneno, mas e o piano de "3 Winds"? Tem gente que deve estar pedindo a "The Mixture" com versão pra Karaokê... O som é praticamente irresistível e o trampo de harmonias também é bem interessante.

São 12 faixas excelentes dentro do que a dupla se propôs a fazer. "4 Us" ganhou até clipe, depois que virou single. Os metais assoviando ao fundo são certeiros demais. É só abrir o disco e escolher qualquer uma.

"The Ballad", "Say Yes (Gospel), Bye From Space"... Parece até um "Greatest Hits". Você realmente não vai se arrepender e digo mais: quando ouvir o EP e esse CD, não fique triste, pois eles já lançaram outro disco ano passado. "Cool" - liberado em dezembro de 2018 - continua expandindo o grande trabalho dos americanos.

Que disco e que dupla, senhoras & senhores.

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O baixo da Tal Wilkenfeld



A mocinha aí da foto é a australiana Tal Wilkenfeld. Se você é fã do Jeff Beck com certeza já viu Tal acompanhando as linhas intricadas de Beck, mas se não a conhece, bom, prepare-se para ficar impressionado.


Engana-se quem pensa que a australiana - natural de Sydney - é apenas um rostinho bonito, por que quando ela encosta no baixo você saca na hora que ela tem Groove. Conheci o talento da moça assistindo ao sensacional ''Jeff Beck Live At Ronnie Scott's'', lançado em 2008. Me lembro que na época o que mais me chamou atenção foi o jeito solto como ela tocava... Nem parecia que estava tocando com Jeff Beck ou Vinnie Colaiuta! E fora isso é claro, sua técnica assombrosa nas quatro cordas também me encantou.


Após o fim do DVD, fui pesquisar sobre a baixista e fiquei completamente chocado ao descobrir que ela tinha apenas 22 anos na época (hoje ela tem 32), e já estava tocando com um cara do nível de Jeff Beck.

Depois de constatar tal fato, vi que Tal era conceituadíssima no meio musical e já tinha abrilhantado os palcos com Chick Corea, Prince, Lee Ritenour, The Allman Allman Brothers Band, Herbie Hancock, Eric Clapton, Frank Gambale, ou seja, só a nata da música, que com seu groove nunca vai qualhar.

Descobri também que na época, Tal tinha lançado um disco solo chamado ''Transformation''. Gravado em maio de 2006 e liberado cerca de 1 ano depois - via Eagle - esse disco faz a minha cabeça há mais de 12 anos e o melódico Fusion que sai dos falantes mostra como esse som é especial.

Line Up:
Tal Wilkenfeld (baixo)
Seamus Blake (saxofone)
Keith Carlock (bateria)
Geoffrey Keezer (piano)
Wayne Krantz (guitarra)
Samuel Torres (percussão)
Oteil Burbridge (baixo) 



Track List :
''BC''
''Comic Joke''
''Truth Be Told''
''Serendipity''
''The River Of Life''
''Oatmeal Bandage''
''Table For One''


Na época que a baixista gravou esse disco, sua vida tinha oficialmente mudado. Vale lembrar que Tal é natural da Austrália e que essa gravação marca o período em que ela se fixou nos Estados Unidos de vez, trabalhando na cena de fato... Foi aqui que as coisas decolaram.

Esse frenesi de novas possibilidades do outro lado do mundo é algo latente nesse disco, um lance de fato à parte do brilhante instrumental que forma essa verdadeira transformação. O nome do disco também dá mais pistas sobre o assunto. Vale lembrar que o primeiro instrumento da australiana foi a guitarra e talvez seja essa experiência que a fez criar uma abordagem tão distinta.


O baixo da moça canta e nesse trabalho especificamente ela compôs, arranjou e tocou baixo em todas os takes. Outro ponto que engrandece a dinâmica desse som é a participação do guitarrista Wayne Krantz. Sua guitarra é o contraponto perfeito para as linhas velozes de Tal, sempre com um riff Funkeado pra encorpar o trabalho da cozinha... É possível também que essas sejam as linhas mais swingadas que americano gravou num longo tempo!

Em suma o disco é um Fusion, porém sempre respinga pra outras vias. Em "Table For One", por exemplo o sax de Seamus Blake chega no melhor estilo Bebop. A bateria do Keith Carlock também é um ponto que necessita de destaque. Baterista de turnê do Steely Dan, esse meliante entrega um trabalho muito sólido e que cumpre a difícil tarefa de selar a cozinha com o baixo, sempre priorizando o lirismo de Tal.


É um disco de altíssima complexidade, mas a naturalidade é o que assusta os ouvintes. Quando "BC" sai dos falantes é impossível não imaginar o Wayne Krantz rindo quando a guitarra entra no groove. Parece tudo fácil demais e o CD está repleto de grooves endiabrados, mas é com as baladas que a moça (também) conquista. A leveza e a clareza nas linhas de "Truth Be Told" chegam a inspirar.

Rola até um slap de leve em "Serendipity"... O Marcus Miller mandou lembranças. Essa faixa inclusive talvez seja a síntese desse disco. Uma gravação primorosa só com o fino do Jazz instrumental, "Serendipity" - dessa vez a palavra - significa uma feliz descoberta ao acaso e, esse disco, definitivamente, vai ganhar um lugar especial nos seus ouvidos.

Fiquem de olho que em 2019 a moça vai voltar a gravar com sua carreira solo!

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A grooveria acústica do Rodrigo Nassif Quarteto

O violão é o instrumento absoluto. No riscado acústico o violinista precisa ter um domínio primoroso de seu instrumento para conseguir falar através dele com fluência. A viola é pura, sóbria e cerebral. É inviável corrompê-la com milhares de pedais de efeitos, pois com uma delas no colo, o músico possui apenas duas variantes: seus próprios dedos e o corpanzil de seu instrumento. 

E num mundo onde é possível soar exatamente igual a qualquer outro músico com apenas um pedal debaixo do pé, que trabalhos como "Rupestre do Futuro" - segundo disco do combo gaúcho, Rodrigo Nassif Quarteto - lançado no dia 24 de agosto de 2017 via 180 Selo Fonográfico), precisam ser exaltados.

Amarello Rodrigues

O instrumental presente no conteúdo das 12 faixas que formam o registro é de grande diversidade estética. É notável perceber que apesar de incorporar elementos de cozinhas contrastantes como o Folk, o Rock e até mesmo o Tango, que esse disco possui uma identidade muito bem estabelecida, e mostra como o feeling do Rodrigo Nassif é maduro e rico na mesma proporção de sua técnica.

Line Up:
Rodrigo Nassif (violão/guitarra/percussão/piano)
Carlos Ezael (violão)
Samuel Basso (baixo/harmônica)
Leandro Schirmer (bateria/percussão/piano)


Pintura: Adão Iturrusgarai

Track List:
"Rupestre do Futuro"
"Ainda Estou Aqui'
''Tio Pepepo"
"Cia do Caribe"
''Um Abraço em Luís Alberto"
"Guaxo"
''A Hora Dupla"
"Martial"
''Neskia-Ha"
''Acrobacias Aéreas"
"Tema de Obdúlio"
"Ponto Fora da Curva"


Além disso, esse trabalho mostra uma das maiores qualidades de todos os músicos envolvidos nessa gravação: apesar do grupo contar com bons instrumentistas, é digno de se observar como a cozinha dos gaúchos é bastante musical, sem uma gota de exibicionismo ou excessos de virtuose. 

E como leque de possibilidades é vasto, esse quê musical fica bastante nítido. Logo na entrada do disco, com a faixa título, nota-se como a alto padrão dos músicos é mesclado no groove, dando aquela clássica sensação de que até parece fácil tocar com tamanha precisão, naturalidade e por que não dizer classe. 

Foto: Amarello Rodrigues

Escuta-se tudo muito bem. O baixo, a bateria, as violas, o piano.... É um trabalho que vai melhorar após cada audição, tamanho a qualidade dos timbres e a riqueza da atmosfera que elucida as notas. É tanta liberdade que tivemos até que conversar com o quarteto para entender um pouco mais sobre esse novo experimento. 

Entrevista:

1) Rodrigo, como tem sido essa experiência de tocar em quarteto? O que muda em termos de dinâmica?


Os arranjos ganham muito peso e swing e isso permite muito mais liberdade nos arranjos, o que torna a paleta de cores e timbres incrivelmente mais rica , tanto que há espaço para guitarras com microfonias cantantes, harmônicas, pianos... Tudo assenta melhor com o quarteto. 

2) Como foi o processo criativo do Rupestre do Futuro?

O processo para chegar ao resultado final do disco foi através de uma longa série de ensaios onde testávamos os arranjos trocando sugestões e ideias constantemente, para chegar a ideia mais vigorosamente estética, que fizesse eco ao propósito de trazer uma atmosfera de frescor para os ouvintes. 

3) A ampla diversidade de climas e vertentes estéticas foi um elemento que facilitou a criação desse trabalho?


Claro que sim, quanto mais liberdade para incorporar climas, mais presente o espirito lúdico da criação em grupo, que é importantíssimo, para que os arranjos encontrem o melhor caminho, naturalmente. 

4) Como o Jazz, em termos de linguagem, facilita o recebimento de influências tão diversas como as presentes nesse trabalho?


Costumamos dizer que tocamos ao modo dos jazzistas, com espaços para improvisos em todas partes do arranjo, então na verdade essa é a única linguagem possível para o RNQ, porque é onde encontramos liberdade para tocar de acordo com a atmosfera do dia. 

5) Rodrigo, se você pudesse definir esse disco num conceito que resume o que vocês fizeram com esse trabalho, qual seria? 


Se fosse necessário resumir os conceitos que estruturaram a criação do Rupestre seria: se tens uma emoção, expresse -a, não importa qual seja. 

6) Seus trabalhos já entraram na lista de mais vendidos da Apple Store e de outros serviços semelhantes. Como você vê a relação entre a nova maneira de consumo do streaming versus as possibilidades mercadológicas da indústria? 


O que me deixa saudosista em relação a era do CD é que realmente conseguimos vender um número expressivo de discos, mas a divulgação da música obedecia a patamares regionais. O que me deixa feliz na era do streaming é que basta querer ouvir, em qualquer lugar, qualquer pessoa, basta querer, e isso é de certo modo uma maneira de generosidade. O que me deixa chateado é que os serviços pagam muito mal em relação ao quanto lucram com nossa propriedade intelectual. 

7) Como vocês enxergam as possibilidades e oportunidades da cena instrumental no Brasil hoje em dia? 


Existe um mercado enorme para qualquer tipo de música no Brasil, sou muito otimista em relação a este tema , pois não precisamos pensar unicamente no nicho tradicional de público, pois querendo hoje em dia é só dar um clique e podes ouvir tudo que esteja a disposição online. E é verdade, temos tido um público muito heterogêneo, principalmente nos shows em SP. 

8) Rodrigo, muito obrigado pela atenção. Pra finalizar gostaria de saber quais foram os sons que você e a banda ouviram durante a gravação desse novo registro e se de alguma forma eles influenciaram o resultado final.


O Leandro, nosso baterista curte muito rock clássico, e também coisas de rap, que nós quatro gostamos, como The Roots, jazz contemporâneo, como Kamasi Washington etc etc. Samuel, nosso baixista adora Toots and the Maytals, Kendrick Lamar, jazz clássico etc etc. Carlos nosso violonista curte muito som contemporâneo: Metá Metá, Elza Soares, Francisco el hombre, e mais tudo que há de música pop e clássicos da MPB. E eu... Bem, dependendo do dia ouço tudo isso e mais alguma coisa, porém tem dias que não ouço nada de música, só fico em silêncio, curtindo os sons supostamente não musicais. Com certeza , tudo influencia no resultado final. 

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Justin Brown na bateria: Nyeusi mostra as texturas sônicas do Fusion moderno

Eu escutei a bateria do Justin Brown por muitos anos e nem sabia. Por muito tempo, Brown foi o baterista de Ambrose Akinmusire, o brilhante líder e trompetista americano. Ao lado de Ambrose, Justin gravou desde o debutante, "Prelude To... Cora" (2008) até o ao vivo - e quarto lançamento da carreira do músico - "A Rift In Decorum", gravado no Village Vanguard (2017).

Outro grande nome do cenário Jazzístico que também conta com Brown como um dos principais elementos de seu som é o baixista Thundercat. Vale lembrar que o baterista fecha o trio de Stephen Bruner com Dennis Hamm nos teclados desde 2014. Mas além desses atos "fixos", o requisitado músico de sessão também já trabalhou com a Esperanza Spalding, Terence Blanchard, Flying Lotus e outros tantos que estão ai na cena desafiando os novos rumos do Fusion.


O "problema" é que o estilo de Justin é muito interessante e sempre bastante dominante no som. E isso acontece com tamanha naturalidade que chega a ser perceptível sacar as mudanças numa banda que ele parou de tocar, por exemplo. Ao lado do Nate Smith, e Yussef Dayes, Justin é um dos principais nomes, não só da bateria, mas do Jazz como um todo.

Meio em off e mesmo trampando como sideman, seu protagonismo foi e ainda é latente na cena. Era chegada a hora de ser o chefe, liderar um grupo e gravar um inédito disco solo. Com 34 anos na cara, o som de Justin ainda contém a mesma urgência de 15 anos atrás, quando o negrão chegou em Nova York pra ingressar na tradicionalíssima Juilliard.

Ele durou exatamente 1 dia na escola. Olhou para a grade e viu que aquele som acadêmico não era pra ele. Passados todos esses anos, depois de muito estudar e ensaiar com os mais diversos grupos e em diferentes formatos, seu repertório atingiu a fluidez necessária para tocar qualquer coisa e apenas acompanhar o futuro com suas baquetas.

Line Up:
Justin Brown (bateria)
Mark Shim (EWI)
Jason Lindner (sintetizadores/piano)
Fabian Almazan (teclados)
Bruniss Travis (baixo)




Track List:
"Jupiter's Giant Red Spot"
"Lesson 1: Dance"
"Lot's For Nothin'"
"Waiting (Dusk)"
"Waiting On Aubade"
"At Peace"
"Lesson 2: Play"
"Entering Purgatory"
"Replenish"
"Fyfo"
"Circa 45"
"Burniss"
"Lindner's In Your Body"


E depois de quase 20 trabalhando pela reputação que possui hoje, Brown se sentiu pronto para gravar um disco com seu nome. "Nyeusi", disco lançado via Biophilia Records no dia 29 de junho de 2018, é também uma palavra de origem suaíli - mais especificamente das línguas bantas - que significa preto ou escuro.

É essa palavra que sintetiza toda a atmosfera que Justin visualizou em sua mente. Porém antes de ir para a análise do som, um pit stop para se estudar o formato da banda se faz necessário. Além do agressivo caldeirão polirrítmico de Brown, o projeto é formado ainda por Bruniss Travis (baixo), a dupla de teclas Fabian Almazan (rhodes/piano) e Jason Lindner (sintetizadores), além do saxofonista Mark Shim - fazendo sons de sinth num wind controller EWI - como se estivesse tocando um saxofone do futuro.

É tão absurdo quanto parece. E o resultado? Essa dinâmica resulta numa imensa jam session onde os sons eletrônicos se fundem e se completam entre si de maneira sublime. É importante inclusive destacar a lucidez e as nuances aqui presentes, pois apesar da estética "viajandona", é notável como essa abordagem simplesmente explode o conceito de Drum & Bass da forma que o conhecemos.


Esse ecossistema acaba sendo um verdadeiro laboratório para a criação de grooves, onde o Fusion é a moeda de troca para emular o Jazz imerso na temática Hip-Hop, com o balanço do Funk e aquela roupagem de timbres cremosos nos sinths. Parece até que rolou horas de Overdub em estúdio, mas não foi o caso... E a bateria é o elo desse vórtex todo.


E a energia que sai dos kits é uma declaração de como Brwn segue experimentando. Com dotes técnicos soberbos, o músico entrega um disco que dá uma aula em termos de preenchimento de som. A forma como a bateria ocupa o groove no espaço/tempo, sempre como espinha dorsal da estrutura...

É impressionante observar como ele consegue equilibrar uma cozinha imersa numa temática que, caso fosse mal explorada, corria um sério risco de ser monótona, imersa em efeitos e virtuosismo desnecessário.

Mas é exatamente o contrário que acontece aqui. E é ao som de "Jupiter's Giant Red Spot" que você adentra o universo criativo de Brown. Essa faixa também já ambienta o ouvinte e no pulsar dos instrumentos, "Lesson 1: Dance", já posiciona ouvidos quanto ao trampo de sinth e do baixo.


"Lots For Nothin''', por exemplo já chega explorando a dinâmica das teclas e já mostra como a dupla Jason Lindner e Fabian Amazan é peça chave nessa maluquice. O primeiro - tocando sinth - promove um contraponto com o segundo, que vem com um som mais "convencional" - se é que se pode dizer isso - emulando as teclas mais sóbrias ao piano. Essa abordagem é um pilar importantíssimo pra esse som.

E entre transições "Waiting (Dusk)" e a sutiliza de passagens como "Waiting On Aubade", o disco vai rumando para um lado cada vez mais pesado, num clima que vai ficando cada vez mais introspectivo e "At Peace" é a faixa que joga o ouvinte no abismo de Nyeusi.

Preste atenção na diversidade das timbragens. "Lesson 2: Play" chega até a confundir o ouvinte... Em dado momento surge um tilintar de notas que consegue quebrar todo o clima tenso da faixa. É uma cozinha pesada e que altera momentos mais lúdicos com um som que parece um estudo sobre luz e sombra.

Arte: Roland Nicol

Bem marcado e hipnótico, esse trabalho é uma verdadeira descarga de energia. Chega a ser até bipolar em certos momentos, pois a primeira parte é claramente um rito de passagem. Quando seus ouvidos forem expostos ao sepulcro de "Entering The Purgatory", ficará claro como o CD é quase uma viagem espiritual em termos de exploração de climas e texturas.

O saxofonista Mark Shim é outro meliante de suma importância nisso aqui. Tocando um EWI - um tipo de sax sintetizador que foi febre nos anos 80 principalmente com os Brecker Brothers - Shim é a tênue linha que une os trabalhos de teclas antagônicos de Jason e Fabian, deixando o rolê todo mais melódico. Escute a sutil "Replenish" e repare na plenitude de camadas.

A pegada Disco-Funk de "Fyfo" também uma faixa interessante pra reparar nessa alquimia... Mas é com um cover do Tony Williams - a belíssima "Circa 45" - que o disco atinge o pico do som.


Ouse escutar a versão original e veja como o mundo mudou. Seminal lançamento da Tony Williams Lifetime - um dos maiores atos de Fusion dos anos 70 - "Ego", lançado pela Polydor em 1971, mostra um Fusion bastante peculiar, com sons de órgão e um Ted Dubar muito loco na guitarra. 

A ambientação desse trabalho e o claro desejo transgressor de Tony por novos experimentos talvez sejam a semente que esse cover acabou plantando na cabeça dos músicos, principalmente em termos de referência.


Nota-se que a classe praticamente aristocrática de Tony Williams foi uma clara influência na vida de Brown. É um som que beira o estado líquido, tamanha a liberdade com que temas como "Burniss" aparecem como se fossem rápidas vinhetas.

O maior acerto desse registro é mostrar como o conceito estético de som, não só do Jazz - mas também da música de forma geral, ainda tem espaço pra seguir expandindo. "Lindner's In Your Body" é a prova cabal de como você precisa passar por períodos de escuridão antes de encontrar a luz novamente.

Eu apertaria o play agora mesmo, se fosse você.

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"New Heights": se liga no clipe novo do Kamaal Williams

Depois que o Kamaal Williams liberou o compacto com duas gemas do groove - "New Heights" e "Snitches Brew" - o som do meliante começa a apontar para um futuro deveras interessante. Com o sucesso do excelente "The Return" - lançado em 2018 - o tecladista segue o cronograma de uma disputada tour que já rodou boa parte da europa e que passou até por Los Angeles durante o mês passado.


É nítido como, tanto Kamaal, quanto os músicos do seu selo - a Black Focus Records - estão produzindo conteúdo dos mais diferentes formatos, pensando não apenas no timbre orgânico do groove, mas em também como ambientar esses sons e trampar também o lado audioviosual dessas alquimias sonoras de UK.

Pelo volume da produção recente do músico e produtor, pensar num próximo disco de inéditas talvez não seja mais tanta viagem assim. É difícil cravar o que ele vai fazer, mas acredito que em termos estéticos o som se manterá com a mesma aura, o resto é questão de Funk & Fusion e disso o trio do meliante londrino entende demais.


E enquanto o ano já vai pegando no embalo, Kamaal segue sempre criando e disponibilizando os seus novos projetos para o seu público, com o objetivo de manter o som sempre ativo e oxigenado. Talvez esse tenha sido o principal ingrediente para a inspiração de seu mais recente lançamento. O clipe de "New Hights" ficou o puro creme do bom gosto.

Lançado no dia 03 de março de 2019, com todos os instrumentos tocados por Kamaal, além da direção de Greg Barnes, o músico segue expandindo e chega com claras referências asiáticas - principalmente no que tange o lado imagético - ressaltando também a sua linagem e respectivo DNA.

O trampo de cores, os movimentos de câmera e o suspense... Tem hora que até parece um filme do Jet Li. É difícil ver esse trabalho e não imaginar o cara fazendo trilha pra filmes. Ficou fino demais.

Henry Wu, senhoras & senhores.

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