A grooveria acústica do Rodrigo Nassif Quarteto

O violão é o instrumento absoluto. No riscado acústico o violinista precisa ter um domínio primoroso de seu instrumento para conseguir falar através dele com fluência. A viola é pura, sóbria e cerebral. É inviável corrompê-la com milhares de pedais de efeitos, pois com uma delas no colo, o músico possui apenas duas variantes: seus próprios dedos e o corpanzil de seu instrumento. 

E num mundo onde é possível soar exatamente igual a qualquer outro músico com apenas um pedal debaixo do pé, que trabalhos como "Rupestre do Futuro" - segundo disco do combo gaúcho, Rodrigo Nassif Quarteto - lançado no dia 24 de agosto de 2017 via 180 Selo Fonográfico), precisam ser exaltados.

Amarello Rodrigues

O instrumental presente no conteúdo das 12 faixas que formam o registro é de grande diversidade estética. É notável perceber que apesar de incorporar elementos de cozinhas contrastantes como o Folk, o Rock e até mesmo o Tango, que esse disco possui uma identidade muito bem estabelecida, e mostra como o feeling do Rodrigo Nassif é maduro e rico na mesma proporção de sua técnica.

Line Up:
Rodrigo Nassif (violão/guitarra/percussão/piano)
Carlos Ezael (violão)
Samuel Basso (baixo/harmônica)
Leandro Schirmer (bateria/percussão/piano)


Pintura: Adão Iturrusgarai

Track List:
"Rupestre do Futuro"
"Ainda Estou Aqui'
''Tio Pepepo"
"Cia do Caribe"
''Um Abraço em Luís Alberto"
"Guaxo"
''A Hora Dupla"
"Martial"
''Neskia-Ha"
''Acrobacias Aéreas"
"Tema de Obdúlio"
"Ponto Fora da Curva"


Além disso, esse trabalho mostra uma das maiores qualidades de todos os músicos envolvidos nessa gravação: apesar do grupo contar com bons instrumentistas, é digno de se observar como a cozinha dos gaúchos é bastante musical, sem uma gota de exibicionismo ou excessos de virtuose. 

E como leque de possibilidades é vasto, esse quê musical fica bastante nítido. Logo na entrada do disco, com a faixa título, nota-se como a alto padrão dos músicos é mesclado no groove, dando aquela clássica sensação de que até parece fácil tocar com tamanha precisão, naturalidade e por que não dizer classe. 

Foto: Amarello Rodrigues

Escuta-se tudo muito bem. O baixo, a bateria, as violas, o piano.... É um trabalho que vai melhorar após cada audição, tamanho a qualidade dos timbres e a riqueza da atmosfera que elucida as notas. É tanta liberdade que tivemos até que conversar com o quarteto para entender um pouco mais sobre esse novo experimento. 

Entrevista:

1) Rodrigo, como tem sido essa experiência de tocar em quarteto? O que muda em termos de dinâmica?


Os arranjos ganham muito peso e swing e isso permite muito mais liberdade nos arranjos, o que torna a paleta de cores e timbres incrivelmente mais rica , tanto que há espaço para guitarras com microfonias cantantes, harmônicas, pianos... Tudo assenta melhor com o quarteto. 

2) Como foi o processo criativo do Rupestre do Futuro?

O processo para chegar ao resultado final do disco foi através de uma longa série de ensaios onde testávamos os arranjos trocando sugestões e ideias constantemente, para chegar a ideia mais vigorosamente estética, que fizesse eco ao propósito de trazer uma atmosfera de frescor para os ouvintes. 

3) A ampla diversidade de climas e vertentes estéticas foi um elemento que facilitou a criação desse trabalho?


Claro que sim, quanto mais liberdade para incorporar climas, mais presente o espirito lúdico da criação em grupo, que é importantíssimo, para que os arranjos encontrem o melhor caminho, naturalmente. 

4) Como o Jazz, em termos de linguagem, facilita o recebimento de influências tão diversas como as presentes nesse trabalho?


Costumamos dizer que tocamos ao modo dos jazzistas, com espaços para improvisos em todas partes do arranjo, então na verdade essa é a única linguagem possível para o RNQ, porque é onde encontramos liberdade para tocar de acordo com a atmosfera do dia. 

5) Rodrigo, se você pudesse definir esse disco num conceito que resume o que vocês fizeram com esse trabalho, qual seria? 


Se fosse necessário resumir os conceitos que estruturaram a criação do Rupestre seria: se tens uma emoção, expresse -a, não importa qual seja. 

6) Seus trabalhos já entraram na lista de mais vendidos da Apple Store e de outros serviços semelhantes. Como você vê a relação entre a nova maneira de consumo do streaming versus as possibilidades mercadológicas da indústria? 


O que me deixa saudosista em relação a era do CD é que realmente conseguimos vender um número expressivo de discos, mas a divulgação da música obedecia a patamares regionais. O que me deixa feliz na era do streaming é que basta querer ouvir, em qualquer lugar, qualquer pessoa, basta querer, e isso é de certo modo uma maneira de generosidade. O que me deixa chateado é que os serviços pagam muito mal em relação ao quanto lucram com nossa propriedade intelectual. 

7) Como vocês enxergam as possibilidades e oportunidades da cena instrumental no Brasil hoje em dia? 


Existe um mercado enorme para qualquer tipo de música no Brasil, sou muito otimista em relação a este tema , pois não precisamos pensar unicamente no nicho tradicional de público, pois querendo hoje em dia é só dar um clique e podes ouvir tudo que esteja a disposição online. E é verdade, temos tido um público muito heterogêneo, principalmente nos shows em SP. 

8) Rodrigo, muito obrigado pela atenção. Pra finalizar gostaria de saber quais foram os sons que você e a banda ouviram durante a gravação desse novo registro e se de alguma forma eles influenciaram o resultado final.


O Leandro, nosso baterista curte muito rock clássico, e também coisas de rap, que nós quatro gostamos, como The Roots, jazz contemporâneo, como Kamasi Washington etc etc. Samuel, nosso baixista adora Toots and the Maytals, Kendrick Lamar, jazz clássico etc etc. Carlos nosso violonista curte muito som contemporâneo: Metá Metá, Elza Soares, Francisco el hombre, e mais tudo que há de música pop e clássicos da MPB. E eu... Bem, dependendo do dia ouço tudo isso e mais alguma coisa, porém tem dias que não ouço nada de música, só fico em silêncio, curtindo os sons supostamente não musicais. Com certeza , tudo influencia no resultado final. 

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