Jazz Re:freshed: compromisso com o Jazz contemporâneo

Os músicos da nova geração são vistos com grande desconfiança de maneira geral, seja numa banda Pop ou num combo de Stoner. É muito comum ouvir um nome mais novo da cena e logo depois já começar a ver dezenas de pessoas promovendo comparações que em nenhum momento posicionam a música contemporânea da forma que ela deveria ser vista: como uma novidade.

A música é um agente infinito, transcende o tempo, passa por mudanças... É um conceito que está sempre em desenvolvimento, sempre avançando. A modernidade chegou e com elas novos sons, cozinhas estéticas e instrumentistas - com referências cada vez mais autênticas - surgem, e pasmem: estão mudando tudo enquanto os puristas só comparam e os próprios músicos nem ligam. Acreditem, eles só querem plugar os instrumentos e deixar muito caretão perplexo.

Foto: Guilherme Espir (Macrocefalia Musical)

E se existe um gênero que merece destaque nesse processo de ruptura e inovação, a vertente mais quente do momento em termos, não só de qualidade sonora, mas de experimentação, novos formatos, abordagem técnica, criatividade e frescor musical, meu rei, esse gênero é o Jazz.

Dono de um requinte imortal, o Jazz é um gênero que hoje, apesar da idade avançada, está brincando de criar com uma vitalidade louvável. Nomes como Thundercat, Kamasi Washington, Henry Wu (Kamaal Williams), Youssef Dayes, Jacob Collier, Nubya Garcia, Cory Henry, Christian Scott... É no mínimo excelente observar que é possível deixar esse parágrafo com mais umas 10 linhas (sem muito esforço), tamanho a gama de novas bandas surgindo.

E para ilustrar toda a renovada força com a qual o estilo está pousando em novos ouvidos, nada mais justo do que destacar o trabalho do núcleo britânico Jazz Re:freshed, talvez um dos maiores responsáveis por essa onda de genuíno interesse perante um estilo que está longe de ser música de elevador.

Foto: Guilherme Espir (Macrocefalia Musical)

A Jazz Re:freshed é o mirabolante resultado de um polo musical que começou como um movimento sonoro iniciado entre os ingleses Justin McKenzie e Adam Moses. Juntos desde o verão de 2003, eles começaram um levante que busca descentralizar o Jazz em busca de um maior reconhecimento artístico, sempre com foco na visibilidade de novos músicos e na criação de um cenário que pudesse reunir linhas opostas no mesmo bloco Jazzístico, desde o Funk até o mais Progressivo Avant garde.

E o que lá atrás era apenas uma residência semanal no coração da West London, em Notting Hill, evoluiu para uma vívida forma de expressão que hoje - além dos shows semanais - se transformou num selo, possui uma ramificação voltada para festivais (com participação em renomados eventos como Glastonbury, SXSW, AFROPUNK International), um clube cinematográfico, um programa de desenvolvimento de novos músicos (que atende escolas e universidades), contempla um espaço para shows, uma revista anual e ainda fomenta a realização de workshops. 

Foto: Guilherme Espir (Macrocefalia Musical)

As definições do termo workaholic foram atualizadas pela cena Jazz fomentada em UK. Com o apoio de parceiros como a British Underground - uma organização que promove showcases internacionais com foco no desenvolvimento estratégico de projetos musicais e artísticos - a entidade atua desde a edição de 2002 do tradicional festival SXSW, num trabalho financiado pela Arts Council England, uma divisão do departamento de cultura da Grã Bretanha que opera na Escócia, Inglaterra e País de Gales.

Foi com todo esse know how que a Jazz Re:freshed chegou pela primeira vez no Brasil com o evento "Jazz Re:freshed Outernational", uma ramificação do selo que estimula um projeto pioneiro de 2 anos com curadoria do selo, em parceria com a British Underground, com o objetivo de expandir a cena britânica de Jazz progressivo.

O local escolhido? O Jazz nos Fundos. O evento? A primeira edição da MIMI, a mostra internacional de música instrumental realizada com curadoria da SIM, a semana internacional de música, uma das feiras de negócio mais importantes da América Latina. No cardápio sonoro? Yussef Dayes Quartet e Nubya Garcia, 2 dos maiores expoentes da nova cena Jazzística britânica e por que não dizer mundial.


Line Up:
Yussef Dayes (bateria)
Mansur Brown (guitarra)
Charlie Stacey (teclados/sintetizadores)
Tom Driessler (baixo)


Depois de abrir a noite com um set de grooves conduzido por Adam Moses, o Yussef Dayes Quartet foi o responsável por abrir a noite com uma mistura quase de nuclear de Trip Hop com Jazz e Funk.

Com um quarteto de músicos estupendos, o set foi amplamente explorado dentro de toda a riqueza de seus arranjos, enquanto Yussef e o guitarrista Mansur Brown, travavam uma sádica batalha onde um tentava roubar tempo do outro, algo que deixou a dinâmica das canções completamente quebrada.

Foto: Guilherme Espir (Macrocefalia Musical)

Mansur Brown, anotem esse nome, o guitarrista de 18 anos mostra um feeling raro em sua Epiphone Semi acústica, o tecladista Charlie Stacey sabia (e muito) a hora de entrar numa vibe cósmica nos syths, enquanto Tom Driessler operava suas cordas graves com uma calma quase budista.

Foram 90 minutos de excelente música. A platéia se manteve perplexa do começo ao fim, algo que esteve longe de passar quando o segundo quarteto da noite, dessa vez com Nubya Garica, subiu ao palco, tocando pelo mesmo período, mas apostando num balanço completamente diferente.

Line Up:
Nubya Garcia (saxofone)
Daniel Casimir (baixo)
Steve Reid (teclados)
Femi Kuleoso (bateria)


Essa é a Jazz Re:freshed, um selo capaz de colocar sons tão opostos como o das bandas dessa noite, exatamente na mesma caixinha. O balanço de Nubya era caliente, com pinta afro e parece ter ficado na conserva durante anos ouvindo o "Afro" do Dizzy Gillespie. Já o feeling dos teclados de Steve Reid é cheio de música cubana, o timbre do baixo de Daniel Casimir, praticamente um monumento histórico, enquanto o peso e o fervor técnico de Femi Kuleoso na bateria foi arrebatador.

Uma quebradeira pra colocar muita banda de Rock no chinelo. Em ambos os casos, todos os 8 músicos envolvidos mostraram um sentimento e uma leveza estonteante, sempre fundamentando a música num ideal moldado na mais pura e utópica improvisação.
Quem marcou presença nesse noite conseguirá prever o futuro da cena daqui pra frente. Quem não foi ainda teve uma chance de conferir os caras 3 dias depois, na Urubu Sessions, realizada no dia 11/12 no espaço da Associação Cultural Cecília e teve ainda quem foi nas duas noites pra conferir se um raio cai (de fato) duas vezes no mesmo lugar.

E ele caiu, 3 dias depois, num espaço ainda mais intimista, bem no coração da região central de São Paulo. Eis que os 2 grupos voltaram ao palco, dessa vez invertendo a ordem dos shows, com Nubya abrindo os trabalhos, mas com uma apresentação que não se assemelhou em nada se comparada com o primeiro show, e olha que essa ressalva serve para as duas bandas.


Fica claro como o domínio técnico permite a esses senhores a capacidade de promover um novo show toda noite. O Jazz meio afro no melhor estilo do Spiritual Jazz da IMPULSE! dos anos 60/70 de Nubya foi completamente reestruturado, enquanto as batidas com grande influência senegalesa de Yussef provaram ao público que música boa é igual tempo: passa muito rápido.

O Macrocefalia Musical esteve presente nos 2 shows e parece que os 2 juntos duraram 15 minutos. Essa cena de UK vai dominar o mundo. Uma bela iniciativa do Jazz nos Fundos e da Urubu Sessions. Pelas barbas de Miles Davis.

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