Não existem estilos ou abordagens: o Thundercat só faz música

A Cena de Jazz contemporânea aglutina nomes que devem enlouquecer a vida de quem classifica as bandas por estilo no Spotify. Um movimento encabeçado por artistas tão profundos e multilaterais, esse levante contempla nomes que vão do Thundercat até o Childish Gambino com uma liberdade criativa exuberante.

O Thundercat - Stephen Bruner pra quem quiser separar o homem do conceito criativo - consegue ir do Jazz, passando pelo Trash, Funk, Hip-Hop fazendo ponte na música eletrônica com um frescor e uma vivacidade que transcende a catalogação de gêneros.

Foto: Emanuel Coutinho

E em sua segunda passada pelo Brasil, depois de assombrar o público presente na edição de 2017 do Jazz na Fábrica, realizado no SESC Pompéia, o baixista já voltou para terra brasilis novamente e o resultado foi uma dose sideral de improvisos no Cine Jóia.

Foi durante a semana mesmo, na quarta-feira do dia 09, bem ao lado dos grooves inventivos de Dennis Hamm (teclados/sintetizadores) e do swing técnico, porém bastante agressivo de Justin Brown, que o baixista subiu ao palco sem cerimônia, de chinelo mesmo e tocou por quase duas horas.

Foto: Emanuel Coutinho

Desde os temas de seu disco mais recente ("Drunk", terceiro disco de estúdio lançado em 2017) até sons do EP "The Beyond/Where The Gians Roam" (2015), passando por temas do Flying Lotus "Cosmogramma" (lançado em 2010), o que se viu foi um músico completamento liberto e que apenas está obstinado pelo novo.

Seja eles em carreira solo, via colaborações com o Michael McDonald & Kenny Loggins ou fazendo beats com o Kendrick Lamar, o que o norte americano busca é criar e continuar confundindo a cabeça de quem ainda acha que é necessário rotular o que ele faz.

Foto: Emanuel Coutinho

É um posicionamento denso, uma filosofia lírica muito desafiadora, talvez até mais do que os intrincados movimentos que o trio destilou sob o palco com a naturalidade de um aposentado que vai pegar água na cozinha de madrugada.

Só que tudo isso é real e o Macrocefalia Musical precisava falar com o meliante pra tentar entender e captar um pouco mais sobre todo esse infinito particular que é a música que sai do seu baixo semi acústico.

Entrevista:


1) Desde a época do grupo "Young Jazz Giants" (2004), um quarteto formado por você, seu irmão Ronald, Kamasi Washington e Cameron Graves, vejo sua música evoluir e absorver novas referências.


Desde 2004 até agora, você tocou com o Suicidal Tendencies, foi rumo a carreira solo e gravou outros discos muito interessantes ao lado do próprio Kamasi e do Kendrick Lamar, fora várias colaborações com a Erykah Badu e o Flying Lotus, por exemplo. Como que foi tudo isso, como essa experiência funcionou pra você em termos musicais?


Como tudo isso aconteceu comigo? A maior parte do tempo eu acho que é tudo uma questão de influencias e da quantidade de tempo ao lado com um instrumento. É tudo muito similar, sabe? A música, em todos os aspectos e lugares funciona como uma linguagem e eu acho que se você conseguir ver isso, é algo muito diferente, mas ao mesmo tempo a questão de gênero musical funciona como a ideia de música no sentido literal da palavra, então se você quer tentar e seguir novos rumos criativos você pode... Não é loucura... hahaha

2) Qual é a sua opinião sobre essa nova cena de Jazz que está surgindo. Existem grandes instrumentistas como, Yussef Dayes Nubya Garcia, você... Todas essas grandes bandas e sons da Inglaterra, Estados Unidos. Como você avalia esse movimento?


Eu acho ótimo, realmente muito bom. A qualquer momento que a música esteja sendo criado, isso é sempre uma coisa muito boa, sabe? As vezes as pessoas fazem música de lugares malucos, mas ao mesmo tempo eu sempre penso no sentimento que é ouvir boa música sendo criada e eu gosto bastante de assistir todos esses caras. 

São vários novas ideias sendo formadas o tempo todo... Toda essa excitação, sabe? Eu acho que esse é um fator fundamental para o "agora" da música.


Um dos meus artistas favoritas hoje em dia, um dos meus maiores amigos nesse mundo é o Donald Glover, o Childish Gambino. Ele acabou de lançar um vídeo e o conteúdo é uma verdadeira declaração.

É um sinal dos tempos que vai do Jazz até literalmente... A cultura popular. É um ótimo momento pra se fazer música.

3) E sobre o Brasil, você conhece algo sobre música brasileira?


Claro! Por onde eu começo? Milton Nascimento é claro, Egberto Gismonti, Gal Costa, Marcos Valle, Arthur Verocai e por aí vai. 

4) Tem um músico em particular chamado Michael Pipoquinha, um grande baixista brasileiro. Ele tocou com o Jacob Collier, você conhece? Acho que se dariam muito bem!


Ele tocou com o Jacob Collier? Eu não conheço hahaha Conheço o Jacob, mas eu definitivamente vou sacar o som dele. De fato não o conheço por nome.

5) Tentando pensar num registro desse atual momento, como você pensa que esse som será visto pensando à longo prazo?


Eu realmente tento não pensar tão a frente assim. Eu estou bastante focado no agora, em fazer música nesse momento. Existe uma cena ótimo, com muitas coisas surgindo, mas é difícil colocar isso em perspectiva por que você não sabe o que vai acontecer daqui a alguns anos, sabe? E só estou tocando. Tem muita música rolando, muito coisa diferente no ar.

6) Como um grande fã de Zappa eu preciso perguntar como a música dele impactou o seu som.


O Zappa criou muita coisa. A música dele transcendeu estilos e eu sempre penso o que ele acharia da música atual. O que ele estaria fazendo hoje em dia, sabe? Quais técnicas, projetos, músicos... Como ele faria música.

Eu acho que ele iria curtir o trabalho do Donald Glover, o Childish Gambino, o Kendrick Lamar, Robert Glasper.

Ele estava à frente do seu tempo.


Completamente  e se você ouvir sua música hoje em dia ainda soa novo, carrega um frescor e todos deveriam ouví-lo, ele significa muito para a música.

Para conferir o set de fotos completo, basta clicar aqui.

 

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