No Fuzz do Radio Moscow: a psicodelia segue em expansão

O conceito de Rock Psicodélico é visto hoje em dia como um eterno revisionismo de suas raízes. Desde o início do levante, no começo dos anos 60, seja com os grupos que surgiram na Bay Area de São Francisco, como Santana, Jefferson Airplane e Love, ou até mesmo na Inglaterra, com expoentes do nível do Cream, por exemplo.

Foi uma época de bastante efervescência. A psicodelia fez tanto barulho no Rock que chegou até no Funk do Sly Stone. Foi uma era de grande valia para a música em termos de experimentação, algo que promoveu uma mescla de estilos nunca antes vista, até o apogeu do Rock Progressivo.

Mas o que aconteceu 50 anos depois? Depois de toda essa saga o estilo perdeu solidez e começou a ser visto cover barato de si mesmo, já sem o mesmo brilho e novas direções musicais de outrora.

Mas como num trocadilho infame com a história do início do movimento, a cena atual também precisa "abrir as portas da percepção" de um novo público que, se foi o mesmo que esteve presente no Show dos cariocas da Aura, dos gaúchos do Quarto Ácido e trio norte americano Radio Moscow, conseguiu captar que o futuro está aí, não é um flashback não, meu velho.

Foto: Fernando Yokota

E para começar a demonstrar os novos rumos da cultura de Hofmann, coube aos cariocas do Auramental, o papel de abrir a noite de 29 de março. Com um approach de veia psicodélica, mas com elementos progressivos, o quarteto carioca formado em 2014 chegou com uma abordagem cósmica, composta por influências de Raga indiana e climas com um quê de Grateful Dead, porém com mais peso durante os improvisos, tudo numa linha melódica bastante sólida, cortesia de Bauer França (baixo), Paulo Emmery (guitarra), Enzo Mastrangelo (guitarra) e Vicente Barroso (bateria). Vale a pena ficar de olho nos caras.

Logo depois o Quarto Ácido, trio radicado em Panambi (RS) também subiu ao palco com uma proposta psicodélica, porém dessa vez bastante ancorada no peso de uma cozinha que privilegia aquela dinâmica de baixo e batera bem marcada, colada no cangote dos riffs setentões do guitarrista Pedro Paulo. Grupo instrumental dos melhores que rodam a cena no país atualmente, vale lembrar que a banda ainda é formada por Vinícius Brum (baixo) e Alex Przyczynski (bateria), e que grande parte do repertório do show baseou-se no full lengh lançado pela abraxas em 2017, "Paisagens e Delírios".

Foto: Fernando Yokota

Depois de duas horas de som bastava o Radio Moscow aparecer pra fechar a conta, algo que os californianos fizeram, com louvar, pela quarta vez tocando em terras brasilis. Com as faixas do quinto disco de estúdio ("New Beginnings", lançado em 2017) tinindo, Parker Griggs (guitarra), Anthony Meier (baixo) e Paul Marrone (bateria) tocaram com uma potência assustadora, muito semelhante ao ato de se colocar a língua na tomada.

Parece brincadeira, mas não é. Depois de rodar o mundo nos últimos anos 5, dessa vez com formação fixa, a química do trio atingiu o seu ápice. A bateria do Paul Marrone é um negócio pra ser estudado, o cidadão toca com um peso estarrecedor e durante os 90 minutos de show não olho pra frente nem por um minuto, moendo o kit durante improvisos telepáticos conduzidos pelo Rickenbacker de Anthony Meier e pelas guitarras demenciais do Parker Griggs, que ainda faz os vocais.

Foto: Fenrnando Yokota

Músicos dos mais alto gabarito, assistir esse caras dos ponto de vista técnico deve até desanimar quem toca ou brinca de final de semana. Em termos de pegada, poucas bandas fazem frente a esse som, fora que a guitarra do Parker Griggs é algo que só ele está fazendo no momento. 

Os timbres, os solos vertiginosos e as raízes no Blues são um show a parte, teve de tudo, até guitarra slide. Não sei se existe alguma dupla de baixo e bateria mais casca grossa que essa ai não... A Psicodelia segue ao infinito e além e pra garantir sua viagem, nós discutimos os rumos do Fuzz & Wah-Wah com o baixista Anthony Meier, um dos maiores especialistas no assunto.


1) Depois da gravação do "Live In California" (2016), vocês foram para o estúdio ainda impactados pela experiência do disco ao vivo?


Eu não diria necessariamente que nós estávamos impactados pelo ocorrido quando voltamos ao estúdio posteriormente. O disco ao vivo foi só algo que precisava acontecer por que a banda está em turnê tocando o material de 4 discos, portanto funcionou como um trampolim para o próximo trabalho. Correr a cena com repertório de 4 gravações, gravar um disco duplo e ao vivo, e depois começar a a ensaiar novas músicas pra gravar novamente. Foi exatamente isso que fizemos!

2) New Beginnings é um claro exemplo de Blues psicodélico. A terceira gravação com essa formação - que conta com Paul Marrone (baterista - Psicomagia), Anthony Meier (baixista - Sacri Monti), além de Parker Griggs (guitarra). Como é o processo de seguir com essa fórmula, cada vez mais azeitados, disco após disco?

Eu acredito que desde que estamos tocando juntos, durante os últimos 5 anos e fazendo tantos shows e tours, a química musical que possuímos juntos está mais forte do que nunca. Você consegue ver a evolução de muito do material escrito pelo Parker (Griggs), disco após disco também. Mesmo que todos eles tenham sons diferentes em termos de produção, todas essas gravações possuem as mesmas raízes. Nós ficamos bem feliz com o quão azeitado esse disco saiu e foi muito divertido passar pelo processo de gravação.

3) Além do fato de vocês 3 formarem um dos atos mais crus e blueseiros na cena, o Radio Moscow também é conhecido por ser uma gangue de colecionadores do som dos anos 60 e 70. Que discos dessa época influenciaram o grupo durante a concepção do novo disco?


Bom, não acho que esse disco particularmente tenha sido influenciado por algum LP específico sozinho. É mais como se nós fôssemos influenciados por diversas coisas e tudo saiu misturado. Nós definitivamente curtimos a mesma música, sons mais puxados para o Rock, Psicodelia, Kraut Rock, Garage Rock, Prog... Pra citar alguns grupos que amamos: Tem bastante Captain Beyond, Iron Claw, May Blitz, Masters Apprentices, T2, Toad, Love, King Crimson, Flower Travellin Band, Amon Dull II, Eloy, Quicksilver Menssenger Service, Black Sabbath, Rory Gallagher, Jimi Hendrix, Peter Green, Hackwing, Mad River, Dust, H.P. Lovecraft, Glass Harp, Wishbone Ash, MC5.4) Musicalmente, qual é a importância de toda essa pesquisa que é feita pela banda?

4) Musicalmente, qual é a importância de toda essa pesquisa que é feita pela banda?


Eu diria que nos mantém nos mesmo pilares criativos. Antes de nos conhecermos essa atmosfera que nos representa hoje era justamente o que estávamos gravitando naturalmente e gostaríamos de tocar algo nessa linha. Nós sempre estamos apresentando nos grupos e discos uns aos outros e continuamos atrás de mais e mais o tempo todo. Improvisar é algo que surge mais fácil também quando você está tocando com pessoas que estão no mesmo caminho sonoro que o seu.

5) Depois desses últimos 3 trabalhos, quais são as expectativas da banda para o futuro?


Bom, desde que concluímos a gravação desse disco, estamos fazendo uma turnê do mesmo porte que um lançamento de um novo trabalho precisa. Nós já fizemos 6 semanas durante outubro do ano passado na europa, e mais 3 semanas nos Estados Unidos, já com o repertório desse disco. 

Nós temos a América do Sul no mapa agora, depois outra perna de 3 semanas na europa, com alguns festivais em maio e uma passagem pela Austrália em julho. Depois disso eu acho que temos alguns shows e mais semanas tocando nos Estados Unidos no outono. Seria bem legal tocar no Japão ou em algum lugar como a Indonésia. 

Esperamos que essa mudança de selo para a Century Media nos ajude a tocar por mais países. Seria empolgante tocar no primeiro escalão de festivais de Rock no mundo todo também. Depois, eventualmente nós vamos compor uma nova fornada de músicas e sons para o próximo trabalho. Estamos realmente ansiosos para o nosso retorno a América do Sul para a quarta turnê! Até breve!

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