O Rock 'N Roll descolado d'o Terno

Rock de garagem, letras lisérgicas, influências que flertam com a MPB, a música experimental e um apelo Pop com um brilho criativo raríssimo. É assim, como numa equação analógica dos anos 60 que O Terno, trio paulista capitaneado por Tim Bernardes, esbanja musicalidade sob os palcos do Brasil e do mundo desde 2009.

Com um som engenhoso, criativo e divertido em sua essência, O Terno subiu no palco do Cine Jóia (na noite de quinta-feira - 07/12), pronto para apresentar as faixas do terceiro e mais recente disco da banda, o competente "Melhor do que Parece", lançado no finado 2000 e dezesseis, junto, é claro, de sucessos de outros carnavais tropicalistas.

Acompanhado por um trio de metais para repetir a estética do concorrido show que a banda criou para explorar os benefícios dinâmicos dos instrumentos de sopro, uma noite ao som do projeto "O Terno Com Metais", mostra como o sinuoso senso estético do trio é único. 
Pode parecer pouco, mas é justamente num mundo onde um músico consegue soar igual a qualquer outro, apenas com a adição de alguns pedais de efeito, que esses 3 arrojados e inventivos senhores merecem atenção, ainda mais dentro de um cenário que não privilegia bandas autorais.

Eis então que surge o terno, talvez a banda mais relevante do cenário Pop/Mainstream brasuca em anos, destilando o fino do som com uma classe praticamente aristocrática e que resgata a relevância do rock n roll independente. 

E como foi a última apresentação do grupo no ano, nada mais justo do que brindar o público paulista com uma apresentação que mostra, com o perdão do trocadilho, que o Terno é muito melhor do que parece.

Foto: Emanuel Coutinho

Com um set completíssimo pra fã nenhum botar defeito, Tim Bernardes, o bass man Guilherme d'Almeida e as precisas baquetas de Gabriel Basile, mandaram oúltimo disco ("Melhor Do Que Parece" - 2016) quase que em sua totalidade, enquanto os ricos arranjos dos metais abrilhantaram o feeling de temas do segundo CD ("O Terno" - 2014) e desenterraram outras passagens pra lá de relevantes lá do comecinho da história do grupo, no longínquo 2012 ao som do "66''. 

Essa foi a equação que sintetiza o bom gosto de um trio que, quando dobra o coeficientes dos cálculos, chega em sexteto, com um 1 trio só de metais, prontissimo pra fazer o assoalho do groove sentir o baque, enquanto você está ali, batendo o pezinho por quase duas horas ao som de relíquias que exploram a beleza de um amor platônico.

Pena que foi o último show do ano, mas em compensação uma coisa é fato: se vamos ter que virar o ano sofrendo calados sem shows dos caras, pelo menos o Macrocefalia Musical conseguiu trocar uma ideia com eles pra entender um pouco mais como todo esse delírio poético-existencial funciona a serviço do groove:

Foto: Emanuel Coutinho

1) Os shows da série "O Terno com Metais" tem sido bastante disputados. Em termos de estrutura musical, qual foi o elemento chave para que o som da banda casasse tão bem com essa proposta?


R: O "Melhor Do Que Parece" é um disco no qual a gente explorou muitas sonoridades pra além do trio: sopros, harpa, cordas, etc. Então fazer esse show com uma formação expandida era algo que fazia sentido e que a gente queria muito desde o lançamento e conseguimos concretizar quando lançamos o vinil.

2) Em disco é nítido como vocês são bastante exatos, quase minimalistas, mas ao vivo o som do grupo acaba saindo mais cru mesmo e os temas até ganham mais vigor graças a alguns momentos de improvisação. Vocês pensam em levar esse quê mais voltado para jam band para o estúdio num próximo trabalho?!


R: O Terno tem muito um lance de contrastes. De misturar sonoridades contrastantes, alternar músicas porradas com músicas leves (às vezes até dentro da mesma música), temas mais mentais, temas emocionais, humor, tristeza. E acho que o que leva isso são as composições, cada uma tem seu jeito e sugere um caminho de arranjo. Então esse lance de jam é algo que a gente gosta de ter como uma atração do “ao vivo", mas se uma composição pedir essa onda também não hesitaríamos em levar para estúdio.

3) Um detalhe bastante elogiado na estética d'o Terno é a questão de timbres, arranjos e harmonias. Quais são as referências de vocês nesse aspecto, pensando também no cenário atual e na procura por uma identidade sonora tão bem definida?


R: A gente curte muito juntar as referências que vamos acumulando como ouvinte para criar algo autoral e com uma marca própria da banda. Acho que O Terno veio de uma formação musical muito relacionada ao tropicalismo, mutantes e a música Pop dos anos 60 no mundo, mas cada vez mais foi expandindo o leque pra sonoridades novas que tantas bandas que a gente ouve hoje exploram, como Mac DeMarco, Fleet Foxes, Grizzly Bear, Dirty Projectors, Tame Impala... são muitas! Mas a ideia nunca é imitar, e sim explorar caminhos que outros possam sugerir pra chegar em algo que represente a gente.

4) O som de vocês carrega influências dos '60 e '70, mas o frescor das composições é o que estabelece a cozinha da banda no cenário contemporâneo como um som moderno. Como vocês trabalham essa questão do som digital x analógico na hora de gravar?!


R - Acho que muito das nossas referências de sonoridade vem de sons analógicos. Mas o jeito que vamos atingir esses timbres não é ortodoxo, se no digital a gente tiver mais controle para chegar exatamente no timbre que imaginamos vamos de digital, se é analógico vamos no analógico. Normalmente é uma mistura bem louca.

5) O lirismo e o ácido bom humor das letras do grupo é também outro fator de destaque na história de vocês. Em termos de métrica de versos e estrutura, as linhas são bastante audaciosas. Quais são as principais influências de vocês nessa vertente em particular? 


R: Acredito que temos muitas referência para a "roupagem" do terno, a estética, o timbre. Mas a canção é o coração da coisa, aí não é feita de maneira referencial, nem num estilo pré existente, é mais um lance de expressar sinceramente e autenticamente uma ideia ou um sentimento pessoal.

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