Tony Allen & Jeff Mills: a improvável mistura de Afrobeat com Techno

Um dos grandes desafios para a longevidade na carreira de um artista envolve a sua capacidade de adaptação. É uma habilidade camaleônica que apesar de difícil, cumpre a complexa tarefa de tornar a música atemporal

Dessa forma, surgem experimentações que buscam não só mostrar novas possibilidades - em meio às novas tecnologias e subgêneros - mas também cruzar fronteiras, justamente por que a velhice não é desculpa pra ser careta. É dessa forma visionária-futurista que a improvável união entre o Tony Allen e o Jeff Mills pode ser resumida. 


A primeira vez que Tony Allen e Jeff Mills tocaram juntos foi em dezembro de 2016. No show (que você pode ver na íntegra logo acima), Tony Allen mostra sua privilegiada visão da música africana - como um dos pilares arquitetônicos do Afrobeat - mas dessa vez o nigeriano não conta com uma banda pra somar no groove.

Do outro lado do salão está o americano Jeff Mills. Produtor, DJ, compositor e uma das maiores referências da música eletrônica - principalmente no que diz respeito ao Techno - o midas dos beats de Detroit coloca a casa pra dançar desde os anos 80. Na época desse show o projeto foi bastante elogiado pela crítica, mas em função da atarefada agenda de ambos os músicos, essa maluquice só virou disco em 2018. 

Sim, do alto de seus (à época) 76 anos, o Tony Allen continua desbravando uma carreira que se não fez de tudo, está chegando quase lá. Ao do Jeff Mills - que aos 55 anos também não é nenhum garoto - a dupla cunhou o interessantíssimo "Tomorrow Comes The Harvest" e o resultado é tão orgânico e original que chega até a impactar o ouvinte.

Line Up:
Tony Allen (bateria)
Jeff Mills (beats)
Carl Hancock Rux (voz)



Track List:
"Locked And Loaded" - Edit
"The Night Watcher" - Edit - Carl Hancock Rux
"On The Run" - Edit
"The Seed" - Edit
"The Night Wastcher" - Instrumental
"Locked And Loaded"
"The Night Watcher" - Carl Hancock Rux
"On The Run"
"The Seed"


O mais interessante dessa união não é nem a disparidade de influências que uniram os 2 em nome do projeto, mas sim a dinâmica que foi criada. Ao vivo, o duo é acrescido do tecladista Vincent Tiger e seu trabalho é bem claro: promover texturas sob os ritmos de Tony e contrapor a sonoridade sintética da música eletrônica para promover uma conversa com Jeff Mills.

Até na época do show que deu início a tudo isso, Jeff deixa bem claro que eles não ensaiaram muito. Passados 2 anos, ainda nota-se essa grande liberdade quando escutamos os temas desse EP, porém é nítido como ambos já se mostram confortáveis com esse processo criativo, tanto é que a cozinha explorou ambientações já bastante diferentes de outrora, trabalhando até com vocal numa das faixas.


E a disposição das faixas ficou muito interessante. O disco desabrocha com os timbres industriais de "Locked And Loaded", mas já logo muda de figura quando você escuta "The Night Watcher" e seu ácido groove embebido nos versos livres de Carl Hancock Rux.

É muito interessante notar as nuances, tanto das batidas de Jeff, quanto da bateria de Tony. O EP tem groove e em temas como "On The Run" é possível notar como as diferentes escolas dos 2 músicos se influenciaram de maneira mútua. Tem hora que o grave engrossa de um jeito que parece até um Soundystem.


Em temas como "The Seed", as texturas lembram um pouco do P-Funk do Bernie Worrell. Se ligue nas versões alternativas, a dupla de fato dissecou as faixas e entregou uma visão completa sobre os impactos do Techno sob um contexto rítmico.

Essa é pra você que não acredita no futuro do groove. O Wah-Wah deixa seus ouvidos no banho maria.

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